Winona Ryder em Noite na Terra: A taxista que não queria ser estrela

A maioria das vezes, Winona Ryder preferiu a qualidade à notoriedade. No primeiro segmento de Night on Earth de Jim Jarmusch, representa uma taxista despretensiosa e rude, ‘Corky’, que transporta uma elegante agente de casting (Gena Rowlands) em Los Angeles.

night on earth ryder 2Na época em que o filme de Jim Jarmusch foi realizado, Winona Laura Horowitz (então com 19 anos) ponderava se havia de se mudar para Nova Iorque. Começara a carreira em 1985 e fora aclamada pela crítica e público em obras como Beetlejuice e Heathers (1988), Great Balls of Fire! (1989) bem como Edward Scissorhands e Mermaids (1990).

Agora, em 1991, já estava um pouco farta do ambiente de Hollywood e das constantes viagens entre a Costa Este e Oeste. O seu pai era de Nova Iorque e os seus avós ainda lá moravam, mas, a contragosto, Ryder decidiu que não iria resultar: “Não conseguia lidar com o facto de… se tivesse fome à noite, não podia ir a lado nenhum devido à criminalidade.” Portanto, resignou-se, mudando-se para uma casa nos canyons a norte de Beverly Hills.

Foi por sugestão de um amigo que decidiu contactar o realizador Jim Jarmusch. A atriz sentia-se um pouco receosa devido à admiração que sentia por Jarmusch: “Aos olhos dele, eu poderia ser uma espécie de Farrah Fawcett. Ele era um conhecido cineasta independente e eu era uma atriz de Hollywood. Senti alguma vergonha na época.”

Winona Ryder e Jim Jarmusch na apresentação de Noite na Terra. (New York Film Festival, 1991.)
Winona Ryder e Jim Jarmusch na apresentação de Noite na Terra. Discrepância de alturas mas admiração mútua. (New York Film Festival, 1991.)

Apesar disso, combinaram um almoço e, para espanto de Winona Ryder, Jarmusch era também fã dela. Ficou surpreendida com o facto de quererem trabalhar um com o outro. Como se não bastasse, o realizador deu-lhe o guião do filme que preparava na altura, intitulado Los Angeles/NewYork/Paris/Rome/Helsinki. Tratava-se de várias histórias, sem relação entre si, passadas nestas cinco cidades, com taxistas e seus passageiros.

A satisfação da atriz ainda foi maior quando o realizador a informou de que havia um papel para ela, em que contracenaria com Gena Rowlands. Este fora porém escrito para um ator. Jim Jarmusch disse-lhe que estava disposto a reescrevê-lo, caso Winona aceitasse, e assim foi.

Gena Rowlands e Ryder, que ficou intimidada por filmar com a sua atriz favorita.
Gena Rowlands e Ryder, que ficou intimidada por filmar com a sua atriz favorita.

Escrita, produzida e realizada por Jim Jarmusch, Night on Earth é uma comédia dramática em que sub-repticiamente nos vão sendo mostradas realidades contraditórias com um olhar humanista. Jarmusch cria situações divertidas como a do taxista representado por Roberto Benigni, um dos mais tresloucados, no segmento italiano. (Em que o ator improvisou a maioria das suas falas.) Já no parisiense, Béatrice Dalle intrepreta uma cega que “vê” melhor que o taxista. Em Nova Iorque, o motorista Armin Mueller-Stahl não sabe guiar e mal conhece a cidade. Rosie Perez e Giancarlo Esposito são outros nomes que completam o elenco multinacional e multirracial.

Estas pequenas vinhetas, sem uma interligação óbvia, compõem um filme engenhoso e inteligente, como se esperaria de Jarmusch, e parece sempre haver uma lição de moral em cada uma, embora não seja imposta. Há o racismo, a convivência entre diferentes raças e nacionalidades em Nova Iorque, ou a situação dos passageiros de Helsínquia, que julgam estar a passar um mau bocado quando o taxista lhes conta uma história bem diversa. Sem esquecer a música de Tom Waits e Kathleen Brennan que se enquadra muito bem no espírito do filme.

Jim Jarmusch escreveu o guião em apenas oito dias, feito notável, sendo os diálogos (e excertos) posteriormente traduzidos para francês, italiano, alemão e finlandês. Para quem prefere um filme diferente dos blockbusters feitos a metro, Night on Earth faz rir e faz pensar. Como comentou Jarmusch certa vez, “a beleza da vida está nos pequenos detalhes, não em grandes acontecimentos”.

QUEM NÃO QUER SER ESTRELA DE CINEMA?

O primeiro segmento é discutivelmente o mais interessante. ‘Corky’, uma taxista sempre a mascar pastilha elástica, a fumar Lucky Strikes e a praguejar, deixa dois músicos rock no aeroporto. Do terminal, telefona para a central reclamando, “o González que mexa o cu”. O seu carro está “cheio de merdas” e ela já teve de lhe dar “uns jeitos”. Conduzir um táxi é, para ‘Corky’, apenas um passo para atingir a sua ambição de ser mecânica de automóveis.

night on earth cover ryder
‘Corky’ ao volante. De certo modo, Jarmusch realizou cinco curtas-metragens e fez delas um filme coeso.

É então que passa Gena Rowlands, trazendo consigo fitas com audições a potenciais atrizes. Durante uma conversa, notamos que não está particularmente satisfeita com elas. Depara-se com ‘Corky’: “Quer um táxi, senhora? O meu carro está aqui.”

Rowlands fica intrigada com os modos da taxista, que é uma autêntica personagem. “Volta para a escola de condução, pascácio do caralho!”, grita ‘Corky’ a outro condutor. As duas vão conversando e a motorista comenta, “homens, não se pode viver com eles e não se pode abatê-los!”

No final da corrida, a agente de casting dá-lhe uma grande gorjeta e propõe-lhe um papel num filme, o que ‘Corky’ recusa. “Vá lá, quem não quer ser uma estrela de cinema?” “Sou taxista, é o que eu faço. Gosto de cinema e vejo que a senhora é séria, mas isso não me diz nada… de certeza que há montes de miúdas que querem ser atrizes. Nah, o que eu quero ser é mecânica”, responde ‘Corky’. É assim apresentado um dos temas do filme, o de oportunidades que surgem nas alturas mais inesperadas, com desfechos igualmente insólitos.

Rowlands e Ryder.
Rowlands e Ryder.

O segmento foi filmado em duas semanas somente com a equipa habitual de Jim Jarmusch, composta por nove pessoas. Para Ryder, os dois primeiros dias foram algo difíceis:

“Eu era incapaz de dizer como era estar na presença de Gena Rowlands. Sou uma absoluta fanática pelos filmes de John Cassavetes e ela é a minha atriz favorita. Eu nem podia acreditar que estava sentada atrás de mim no táxi!”

night on earth gena rowlands winona ryder“A maior parte do nosso diálogo ocorre connosco a olharmos uma para a outra pelo retrovisor. Ela era bonita, engraçada, doce, educada. Tudo o que se esperaria de uma mulher como ela”, elogiou Ryder. A atriz ficou apenas arrependida por um motivo: “Estava demasiado intimidada para discutir o trabalho de Cassavetes com ela.”

O filme estreou em Outubro de 1991 e, de modo geral, pode dizer-se que é o menos conhecido de Winona Ryder. Nos EUA, a receção não foi como na Grã-Bretanha que fez grandes elogios à obra e à atuação de Ryder.

Numa fase da carreira em que se encontrava em ascensão, e ainda por cima tão jovem, Winona Ryder mudou de agência – Night on Earth foi o último filme sob contrato com a ICM. A atriz assinou pela Creative Artists Management, pedindo para ver todos os guiões disponíveis. Ou seja, depois de Edward Scissorhands, e excetuando este filme, não trabalhou durante quase dois anos. A sua justificação foi a de que os argumentos que lhe enviavam eram, na sua opinião, “uma porcaria”.

night on earth ryder 3No fim de contas, não admira que Noite na Terra abra com o segmento de Rowlands e Ryder. Jarmusch era “discípulo” de Cassavetes, embora encarasse o cinema independente de outro modo, talvez devido a pertencer a uma geração mais recente, para quem o cinema independente, em grande medida, já se vulgarizou ou é mal interpretado:

“Já sei. É tudo tão… independente. Estão tão farto dessa palavra. Lanço mão do meu revólver quando ouço a palavra ‘pitoresco’. Ou ‘arriscado’. Essas palavras estão agora a tornar-se rótulos colados a produtos para os venderem. Qualquer pessoa que faz o filme que pretende fazer, e que não é definido por uma análise de marketing ou uma manobra empresarial, é independente. Os meus filmes são mais ou menos feitos à mão. Não são polidos… é como se fossem feitos na garagem. É mais como ser artesão, de certa forma.”

Ryder night on earthOutra atitude pouco comum por parte de Winona Ryder foi a de não se interessar por guiões com um nome sonante já comprometido com o projeto, o que é prática comum em Hollywood. “Não me interessa se é um daqueles guiões aleatórios que andam por aí de mão em mão, quero ler todos.” A CAA enviou-lhe Dracula: The Untold Story, que serviria de base ao seu filme seguinte, em 1992, e que daria uma história à parte. Em 1993, é nomeada para Melhor Atriz Secundária por um desempenho brilhante em A Idade da Inocência.  

Por estes e outros motivos, a filmografia de Winona Ryder é algo “acidentada”. Pode-se dizer que a taxista não queria mesmo ser estrela de cinema, mas também nunca teve grande jeito para a mecânica da celebridade.

David Furtado

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