A sociopatia é um distúrbio encorajado: Há cor nas trevas?

É o distúrbio psiquiátrico mais estudado de sempre, o mais repulsivo e difícil de compreender. O que não implica que uma sociedade amoral e individualista lhe sirva de camuflagem. A ausência de culpa foi a primeira perturbação de personalidade a ser reconhecida em psiquiatria. Quando pensamos em sociopatas e psicopatas, associamos a palavra a crimes violentos cometidos por loucos. Mas o que diferencia um assassino psicopata de um cidadão “normal” é apenas o estatuto, o intelecto ou a mera oportunidade. O que distingue os psicopatas de “nós” é um vácuo na psique, onde devia estar enraizada a mais importante característica humana – a consciência. Os psicopatas não são loucos – distinguem o bem do mal, conhecem as emoções e o seu significado, mas são incapazes de as sentir. Como funcionam tais mentes?

sissy spacek badlands
Sissy Spacek em Badlands.

O mundo é um sítio perigoso para se viver, não por culpa das pessoas malévolas, mas por culpa de quem não faz nada acerca disso.

Albert Einstein

Em 1961, nos Estados Unidos, um professor da Universidade de Yale, Stanley Milgram, quer testar o limite da maldade. “Entre todos os princípios morais, o mais próximo de ser universalmente aceite é este: Não devemos provocar dor numa pessoa indefesa que não nos é maligna ou ameaçadora. Vamos contrapor este princípio ao da obediência.”

No seu laboratório, de bata branca e no papel de mestre-de-cerimónias, Milgram explica a dois homens que o estudo versa “os efeitos da punição na aprendizagem”. Um é designado como «aprendiz», sendo levado para outra sala e sentado numa cadeira, à qual os seus braços são atados. Um elétrodo é-lhe preso ao pulso, sendo-lhe dito que tem de aprender uma lista de palavras aos pares: “Caixa azul”, “dia bonito”, “pato selvagem”, etc. Sempre que errar, receberá um choque elétrico.

O outro homem é o «professor». Depois de ver o «aprendiz» a ser amarrado, é levado para outra sala, sentando-se diante de uma máquina com aspeto intimidador. Tem 30 botões na horizontal, dispostos por volts, entre 15 e 450.

É-lhe entregue a lista de palavras, sendo o seu papel o de ensinar o «aprendiz». Quando este responde a “caixa”, com “azul”, o «professor» passa ao item seguinte, mas, quando o «aprendiz» dá uma resposta errada, o «professor» tem de carregar no botão e administrar-lhe um choque, que aumenta progressivamente. O «aprendiz» é, na verdade, um colaborador de Milgram e um ator, que não receberá qualquer choque. Mas o «professor» não o sabe, e também desconhece que é ele próprio o alvo da experiência, e não o «aprendiz».

Os falsos interruptores da "Milgram shock box".
Os falsos interruptores da “Milgram shock box”.

Aos 75 volts, o «aprendiz» erra e o «professor» administra o choque. Aos 120 volts, engana-se. Aos 150 volts, exige que o libertem. Os gritos são cada vez mais desesperados e, aos 250 volts, grita em agonia. Milgram está calmamente situado atrás do «professor», dizendo “por favor, continue; não interessa, ele tem de aprender todas as palavras”. “Mas posso matar o homem!”, replica o «professor». “Eu assumo a responsabilidade. Por favor, continue.” “Ele já nem responde!” “Por favor, continue.”

A experiência de Milgram. Alguns destes vídeos foram colocados e retirados do YouTube devido a várias razões: Não eram para leigos, eram discutíveis, não eram éticos e, em suma, eram perturbadores.
A experiência de Milgram. Alguns destes vídeos foram colocados e retirados do YouTube devido a várias razões: Não eram para leigos, eram discutíveis, não eram éticos e, em suma, eram perturbadores.

Milgram repetiu o processo 40 vezes, com 40 pessoas diferentes, que, na vida diária, eram “responsáveis” e “decentes”; professores, empregados dos correios, trabalhadores manuais, engenheiros ou vendedores, representando todas as classes sociais. O objetivo era saber quanto tempo demorariam a desobedecer à autoridade de Milgram quando confrontados com um imperativo moral.

stanley milgram
Stanley Milgram.

Supomos que a maioria dos sujeitos se recusará a provocar dor; quase todos desafiariam o mestre-de-cerimónias ao ouvirem os gritos de agonia, exigindo que o homem seja libertado. Só concebemos que seres sádicos e doentes continuem a carregar nos botões nos 450 volts – «Perigo: Choque severo». Na verdade, 34 dos 40 sujeitos continuaram a administrar choques ao «aprendiz». Destes 34, 25 (62.5 por cento) nunca desobedeceram e carregaram até ao fim da sequência, apesar das súplicas e gritos. A experiência foi repetida noutras universidades, a ponto de envolver mais de mil sujeitos, sendo os resultados idênticos.

O teste concebido e filmado por Milgram foi uma das mais espantosas experiências psicológicas alguma vez realizadas. Ao longo dos últimos 50 anos, os resultados indignaram e surpreenderam humanistas, alunos e académicos, intrigaram e motivaram estudantes da natureza humana, que o acham doentio e anti-ético.

Milgram concluiu:

“Uma quantidade substancial de pessoas faz o que lhe é dito, independentemente do ato e sem limitações de consciência, desde que se aperceba que a ordem provém de uma autoridade legítima.” O sociólogo acreditava que a autoridade adormecia a consciência, já que a pessoa obediente faz “um ajuste de pensamento” passando a ver-se como “irresponsável pelos seus atos”. Este mecanismo permite que muitas lideranças benignas estabeleçam ordem e controlo, mas também legitima que “autoridades” malévolas e sociopatas exerçam poder sobre terceiros.

Um em cada 25 indivíduos carregaria nos botões até aos 450 volts, sem sentir nada. Foquemo-nos nesta pequena percentagem: Os sociopatas. Mas como se estuda um fenómeno que é, em grande parte, moral, apesar de ser a fronteira psicológica mais assustadora?

NÓS E ELES

Agora, olhando para trás, penso que não lutávamos contra o inimigo; lutávamos contra nós mesmos. O inimigo estava em nós.

Platoon de Oliver Stone.

A consciência é o nosso sétimo sentido. Os primeiros cinco são físicos – visão, audição, tato, olfato, paladar. O sexto pode dizer-se que é a intuição. Na evolução das espécies, a “consciência” foi o último a desenvolver-se. Imaginemos como seria viver sem ela. Poderíamos fazer tudo. Se o que sentisse por outra pessoa fosse apenas o desejo frio de “vencer”, como poderia assimilar o significado de amor, amizade ou afeto? Não assimilaria, continuando a dominar, a negar e a sentir-se superior. Talvez se sentisse um pouco vazio, às vezes, um pouco insatisfeito, mas não mais do que isso.

A guerra é o derradeiro confronto entre a consciência e a autoridade. O nosso sétimo sentido exige que não matemos alguém e, quando a autoridade o supera, é muito provável que um soldado venha a sofrer de stress pós-traumático. Os seres humanos não são assassinos por natureza.

Ao contrário da guerra, não podemos imaginar, na nossa vida diária, assistir a alguém que execute uma cruel vingança pessoal “contra uma pessoa que não a ofendeu ou magoou. Não o esperamos, pelo que não o ‘vemos’, ainda que nos aconteça. Os atos do sociopata ganancioso são tão arrojados e gratuitamente malévolos que nos recusamos a acreditar que possam ter sido intencionais”.

Os alvos primários dos sociopatas, segundo a psicóloga Martha Stout, “são pessoas que se distinguem de algum modo; possuem qualidades que os sociopatas sabem que nunca poderão ter – ou possuem ética ou são bons no que fazem; e o prazer reside no jogo de derrubar alguém desse pedestal, fazê-lo perder a dignidade, os valores, corrompê-lo, difamá-lo, em suma, destruí-lo”.

Martha Stout, Ph.D. define os alvos primários dos sociopatas, esclarecendo que escreve para leigos e para especialistas, sem confundir os dois tipos de leitores.
Martha Stout, Ph.D. define os alvos primários dos sociopatas, esclarecendo que escreve para leigos e para especialistas, sem confundir os dois tipos de leitores.

Muitas vezes, este objetivo é alcançado. Mas porquê?

“O que os sociopatas invejam e podem tentar destruir, como parte integrante do seu jogo, é normalmente algo na estrutura do carácter de alguém com consciência, e os possuidores de carácter forte são frequentemente selecionados. E digo isto porque os seres humanos são o alvo, e não a terra ou qualquer aspeto do mundo material. Os sociopatas querem encetar os seus jogos com outras pessoas, não lhes interessam os desafios de algo inanimado. A destruição das Torres Gémeas foi essencialmente focada nas pessoas que lá estavam e em quem veria ou ouviria a catástrofe.”

PAPEL RECORTADO

Robert Hare, que também dedicou grande parte da sua atividade ao estudo desta anomalia.
Robert Hare, que também dedicou mais de 30 anos de estudo a esta área.

Robert Hare dedicou mais de 30 anos a analisar a psicopatia e sublinha que “todas as pessoas já entraram em contacto com estes indivíduos e foram manipuladas por eles, sendo obrigadas a viver com os danos que lhes provocaram ou a repará-los. Tais seres, muitas vezes encantadores, mas frequentemente mortíferos, têm uma denominação clínica: Psicopatas. A sua marca é uma espantosa falta de consciência; o seu jogo é a auto-gratificação às custas de outrem. Alguns cumprem pena, muitos não”.

Hare é uma referência neste campo, mas um dos primeiros clínicos a escrever sobre psicopatas foi Philippe Pinel, psiquiatra francês que viveu no início do século IX. Após muitos anos de especulação, empregou o termo “insanidade sem delírio” para descrever um comportamento marcado pela completa falta de remorsos e restrições, diferente da comum “maldade humana”. Pinel considerava que tais pessoas eram “moralmente neutras”. Já no século XX, o americano Hervey Cleckley (1903 – 1984) foi o pioneiro no estudo desta patologia, na sequência das atrocidades – passe o eufemismo – perpetradas pelos nazis durante a II Guerra Mundial, tema que suscitou um intenso debate no pós-guerra. No tribunal de Nuremberga, os chefes das câmaras de gás queixaram-se do cheiro. Os guardas diziam que era “difícil comer uma sanduíche com semelhante fedor”. Não vamos pressupor que se tratou apenas de um “problema de socialização”. (Stanley Milgram também se inspiraria nos nazis para efetuar a sua experiência.)

O livro de Cleckley, The Mask of Sanity (A Máscara da Sanidade), publicado originalmente em 1941, foi uma influência determinante na classificação da psicopatia até aos dias de hoje. Cleckley apelou à atenção da comunidade médica para o que considerava um problema social extremo, mas ignorado. O título do livro derivava das suas observações: Ao contrário de indivíduos com graves distúrbios mentais, um psicopata pode parecer normal e até atraente, sem sofrer de alucinações ou falta de contacto com a realidade. A máscara ocultava uma psicose.

hervey cleckley
Hervey Cleckley, pioneiro na investigação desta patologia, e cujo livro foi retirado de circulação pois não era destinado ao “grande público”, mas sim, a médicos.

Para Cleckley, um psicopata é capaz de disfarçar a desestruturação interna da personalidade, um caos interior que resulta em comportamentos destrutivos e/ou auto-destrutivos reincidentes. Apesar de lúcida, a personalidade psicopática é incapaz de experimentar emoções genuínas.

A intriga é a ferramenta do sociopata, e longe de terem um carimbo na testa, um tique ou uma deformação física, são até bastante versáteis. Como os identificar? Fica um conselho de Martha Stout: “Fazem-se de vítimas. Se o diabo existe, provavelmente gostaria que tivéssemos muita pena dele.” Não há ninguém 100 por cento bom, nem ninguém 100 por cento mau. Mas um sociopata é o mais próximo que encontramos de ver o mal nos olhos. É um olhar vazio; alguém o descreveu como “raios de gelo” saídos do nada, após muito tempo de convivência e de um filho em comum. É um olhar bidimensional; como uma concha vazia e obscurecida. Apesar deste olhar opaco, os sociopatas são observadores exímios.

DALTÓNICOS NUM MUNDO A CORES

O seu fim nunca é feliz. Hitler suicidou-se, Mussolini foi enforcado, Ceauşescu foi executado com mais de 100 tiros. Genghis Khan foi uma excepção, caiu do cavalo. Os sociopatas que nos rodeiam acabam por se tornar conhecidos e por incitar vinganças de quem prejudicaram. 10 ou 15 anos de farsa terminam de forma silenciosa; mudam de cidade depois de terem destruído psicologicamente várias pessoas. Qual a justiça, nestes casos? Já que exercem uma manipulação pessoal, profissional e sexual forte e passam anos a projetar uma personalidade inexistente, não há lei que os culpe, ao contrário dos que estão detidos, já que a sociopatia funciona a vários níveis. Os sociopatas de colarinho branco adquirem notoriedade, eternas vítimas. Só uma pequena parte destes indivíduos está encarcerada ou representada nos ecrãs. Os crimes são idênticos, já que existem violações físicas e também psicológicas. Estas últimas são mais difíceis de provar. 

Martha Stout relata um episódio a que assistiu, quando acompanhava o seu filho numa visita de estudo. “Um miúdo maltratava outro, que sofria de atraso mental. Outra miúda, no banco de trás, disse-lhe para parar, que ele estava a ser mau. O fanfarrão deitou a língua de fora e foi para o seu lugar. E a miúda de 10 anos continuou a fazer recortes em papel. Isto equivale a dizer que não podemos deixar que os nossos filhos obedeçam cegamente a uma autoridade. O que será dessa miúda daqui a 20 anos? Espero que continue a fazer o mesmo, onde quer que esteja. No fim de contas, somos a maioria.”

“SABEM A LETRA, DESCONHECEM A MÚSICA”

Tratando-se de uma patologia complexa e a mais correlacionada com outros desvios, abordemos as “emoções genuínas”. A nível interpessoal e emocional, o psicopata é um daltónico que vê o mundo em tons acinzentados, mas que aprendeu a funcionar num mundo a cores. De acordo com Robert Hare, “aprendeu que o sinal colorido de Stop está no cimo do semáforo. Quando um daltónico nos diz que parou no sinal vermelho, pretende dizer que parou no sinal do topo. Tem dificuldade em discutir a cor das coisas, mas pode ter assimilado várias estratégias para compensar o problema e, nalguns casos, mesmo quem o conhece bem, pode nem se aperceber de que não distingue as cores”.

Falta, portanto, ao psicopata um importante elemento da experiência – neste caso, a emocional, embora possa ter aprendido as palavras que outros usam para as descrever, ou a mímica do que não consegue compreender. Tal como referiu Hervey Cleckley, “pode aprender a usar palavras comuns e aprenderá a reproduzir apropriadamente a pantomina das emoções… mas a verdadeira emoção não existe”. Ou seja, sabem o que é a empatia, o amor, a compaixão ou o ódio e identificam-nas nos outros – conhecem a sua descrição formal, tal e qual surge num dicionário ou na literatura, mas não têm capacidade de a experimentar. São incapazes de construir um fac-simile emocional ou mental de outra pessoa nem conceber o que é “estar no lugar dos outros” já que os sentimentos alheios nada lhes dizem. A emoção é uma linguagem secundária para os psicopatas.

No seu livro, Robert Hare tenta evitar termos médicos, empregando a expressão: “O psicopata sabe a letra, mas não conhece a música. Exímio em detetar as fragilidades alheias e usá-las em proveito próprio, um psicopata assemelha-se a um porco a farejar trufas”. A nível criminal, conseguem “torturar e mutilar as suas vítimas com a mesma despreocupação com que trinchamos um peru para o jantar de Ação de Graças”.

PSYCHO É UMA TRAGÉDIA

Há concepções erróneas por parte da sociedade acerca dos psicopatas e sociopatas, e falamos aqui de cinema, já que muitas advêm do modo como são representados. O público assiste, com certa dose de voyeurismo, a atos demonstrativos de uma falta de inibição moral. Não vamos abordar Hannibal Lecter. É demasiado fogo-de-artifício cinemático. Preferimos Sissy Spacek em Badlands (Os Noivos Sangrentos, de 1973). Esta obra de Terrence Malick baseia-se no caso verídico de Charles Starkweather e da sua namorada Caril Ann Fugate, que deixaram um rasto de mortes nos EUA, nos anos 50. Possui um “núcleo assustador de verosimilhança”, na opinião do psicólogo.

sissy spacek badlands
Sissy Spacek em Badlands.

À primeira vista, poderemos achar o filme um produto típico de Hollywood, envolvendo o psicopata com coração de ouro (o que não existe) e a sua pacata namorada, representados por Martin Sheen e Sissy Spacek. À segunda visualização, apercebemo-nos de algo mais assustador no relato de “dois amantes alienados do mundo real, e que, ao mesmo tempo, é uma história fascinante”, tal como o filme é descrito na versão portuguesa em DVD. “Se Kit (Sheen) é a concepção que o realizador possui de um psicopata, Holly (Spacek) é a real personificação da psicopatia, a verdadeira máscara falante, um desempenho excecional de Spacek”, afirma Robert Hare. 

“Dois aspetos na personagem de Holly exemplificam e dramatizam a personalidade psicopática. Por um lado, a pobreza emocional e o modo como simula sentimentos profundos. Uma das pistas é o comportamento descaradamente desajustado que demonstra em certas ocasiões. Depois de Kit assassinar o pai dela à sua frente, a rapariga dá-lhe um estalo na cara, senta-se numa cadeira e queixa-se de dores de cabeça”. O espectador não entende esta e outras incongruências, tendo em conta a pacatez de Holly, que, depois de ver o namorado incendiar a casa dela, o acompanha estrada fora.

No entanto, “talvez a prova mais subtil da psicopatia de Holly resida na sua narração do filme, executada com monotonia e adornada por frases saídas das revistas cor-de-rosa, dizendo às raparigas o que devem sentir. Holly fala do amor que partilha com Kit, mas a atriz, de alguma forma, consegue transmitir a noção de que não experimentou e desconhece os sentimentos que narra. Se alguma vez houve um exemplo de ‘saber a letra, mas desconhecer a música’, a personagem de Spacek é o perfeito exemplo, dando aos espectadores uma experiência em primeira mão do sentimento bizarro da inenarrável desconfiança e a sensação arrepiante que muitos – leigos e profissionais – relatam, após terem interagido com psicopatas”.

Uma das realidades da psicopatia é o facto de ser incurável. Pelo contrário, as terapias de reabilitação aplicadas a estes indivíduos só os tornam mas hábeis em manipular os testes a que são submetidos. “As suas personalidades são esculpidas em pedra”, afirma Robert Hare, e é curioso que Anthony Perkins tenha concordado, quando lhe perguntaram sobre a personagem que marcou a sua carreira: “É claro que os problemas de Norman Bates não podiam ser resolvidos. O caso dele é trágico, e Psycho é uma tragédia. O único modo de resolver os problemas de Norman seria matá-lo.”

anthony perkins norman bates alfred hitchcock psycho
Anthony Perkins: “A única maneira de resolver os problemas de Norman seria matá-lo.”

Quando olhamos demasiado tempo para o abismo, ele olha para nós.

Nietzsche

Muitas pessoas “normais”, “para sobreviverem, psicológica e fisicamente, desenvolvem um grau de insensibilidade face aos problemas alheios. Os médicos, por exemplo, se permitem que haja demasiada empatia com um paciente, rapidamente se podem deixar afetar, comprometendo a sua competência clínica. Trata-se de uma ‘insensibilidade circunscrita’ a determinado grupo-alvo. Da mesma forma, soldados, terroristas e elementos de gangs podem ser treinados efetivamente para encarar o inimigo de forma desumanizada, um objeto sem vida interior”, afirma Hare.

Hannibal Lecter: "Demasiado fogo de artifício cinemático."
Hannibal Lecter: “Demasiado fogo-de-artifício cinemático.”

De acordo com o teste elaborado por Robert Hare e seus assistentes, em pesquisas efetuadas em estabelecimentos prisionais, existem sintomas chave de psicopatia. Contudo, muitos indivíduos são impulsivos, superficiais, manipuladores e até cruéis, o que não implica que sejam psicopatas ou sociopatas. A psicopatia é um síndroma composto por elementos interligados.

Sintomas-chave, a nível emocional/interpessoal: Fluente mas não sincero, descontraído; egocêntrico; ausência de remorso, culpa e empatia; manipulador; emoções superficiais. A nível do desvio social: Impulsivos; pouco auto-domínio; necessidade de excitação; irresponsabilidade; problemas comportamentais prematuros, atitude anti-social na idade adulta.

O POLÍCIA INTERIOR

Uma questão apontada por Hare é o facto de bastar abrir o jornal para lermos acerca de crimes que nos parecem incompreensíveis. É sabido que, sob grande pressão emocional, muitos indivíduos estão sujeitos a ter atitudes desenquadradas da socialização, como sucumbir a um impulso violento. A maioria das pessoas controla, em maior ou menor grau, tais impulsos, devido ao chamado “polícia interior”, a voz da razão. O problema é que esta voz não é oportuna para indivíduos cujas crenças os colocam em conflito com a sociedade. Os psicopatas não possuem tal inibição. Aliás, um graffiti irresponsável da revolta estudantil francesa de 68, era “há um polícia a dormir dentro de cada um de nós. Tem de ser abatido”. Este exemplo descreve inadvertidamente outra característica dos psicopatas: Conhecem as regras da sociedade, mas optam deliberadamente por não as seguir.

David Furtado

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