Oliver Stone: Quando o Céu e a Terra Mudaram de Lugar

Terminando a retrospetiva dos 40 anos da carreira de Oliver Stone, recordo outras obras do realizador. Uma das mais memoráveis foi Heaven & Earth, pelo modo como mostrou o conflito do lado vietnamita. Nixon, Natural Born Killers, U Turn e Any Given Sunday são histórias diferentes de um cineasta que vive entre a seriedade e o entretenimento.

Hiep Thi Le (Le Ly).
Hiep Thi Le (Le Ly).

“Tinha regressado mas a minha terra mudara, e eu estaria sempre entre o sul e o norte, o leste e o oeste, a paz e a guerra, o Vietname e a América. É o meu destino estar entre o Céu e a Terra. Quando resistimos ao destino, sofremos. Se o aceitarmos, somos felizes. Temos uma eternidade para repetirmos os nossos erros, mas basta-nos corrigir o nosso erro uma vez. (…) Se os monges tiverem razão e nada acontecer sem causa, o dom do sofrimento leva-nos mais perto de Deus e ensina-nos a sermos fortes quando somos fracos, a sermos valentes quando temos medo, a sermos sensatos no meio da confusão e a largarmos aquilo que não podemos mais reter. As vitórias duradouras são ganhas no coração e não nesta ou naquela terra.”

Narração de Le Ly em Heaven & Earth.

Quando o Céu e a Terra Mudaram de Lugar é o nome do livro de Le Ly Hayslip em que o filme se baseia. A obra divide-se em dois “atos”: No primeiro, assistimos ao crescimento de Le Ly numa aldeia quase idílica do Vietname. Stone contextualiza que o país já enfrentou várias invasões, antecipando o momento em que introduz no enredo a invasão americana e a Guerra do Vietname.

Mas o filme é a história de Le Ly que acaba enredada no conflito de modo pessoal, sendo violada, torturada, tornando-se mãe solteira e quase acabando na prostituição com os auspícios da mãe. Não há nenhum azar ou tragédia que não lhe aconteça. A rapariga quer apenas sobreviver.

Hiep Thi Le e Tommy Lee Jones.
Hiep Thi Le e Tommy Lee Jones.

A segunda parte tem início com a entrada em cena de Steve (Tommy Lee Jones), um sargento compassivo que quer mais dela do que os outros militares. Apaixonam-se, o americano leva-a para os EUA e ambos enfrentam dificuldades de adaptação, cada um ao seu modo. Não se pode classificar Heaven & Earth de filme de guerra. Lembra a frase de Hemingway, “quando duas pessoas se amam, não pode haver final feliz”. Mas vai mais além.

A obra foi a terceira da trilogia do Vietname de Oliver Stone, a que é menos pessoal e aquela em que o cineasta procura um relato ponderado e fiel dos acontecimentos, sem deambular por factos históricos. Stone mostrou o lado do conflito do ponto de vista dos vietnamitas, caso raro, empregando uma das suas técnicas favoritas, o percurso de uma pessoa.

Oliver Stone, Haing S. Ngor e a estreante e inexperiente Hiep Thi Le, que o realizador preferiu a Joan Chen.
Oliver Stone, Haing S. Ngor e a estreante e inexperiente Hiep Thi Le, que o realizador preferiu a Joan Chen.

Neste filme elaborado e complexo, Le Ly é assim uma personagem que tem de questionar praticamente tudo, inclusivamente a sua religião budista e a sua ascendência. Foi também a primeira vez que Oliver Stone fez de uma figura feminina a protagonista de um dos seus filmes.

Há um paradigma budista que considera o Pai o Céu, e a Mãe, a Terra, e Stone inverte o jogo, mas, tal como na vida, nada é a preto e branco. O realizador dedicou o filme, talvez o seu melhor das últimas duas décadas, à mãe, Jacqueline Stone.

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Oliver Stone recusou Joan Chen para o papel principal, que esta ambicionava, dando-lhe o papel da mãe, e preferiu uma estudante sem experiência na representação para o papel de Le Ly, Hiep Thi Le, que faz um ótimo trabalho, a par de Chen e Tommy Lee Jones. Alguns críticos não apreciaram certos aspetos do filme, achando que a personagem central é quase manipulada através do enredo e acusaram Stone de exibir de novo o seu tom melodramático/machista… isto não tem pés nem cabeça até devido à caracterização do personagem interpretado por Tommy Lee Jones.

NIXON

O realizador parecia obcecado pela América e Nixon era um tema inevitável. Já tinha examinado o assassínio de JFK, faltava o “inimigo” de Kennedy, que despoletou o Watergate e fez a América perder as ilusões. Richard Nixon foi, e a História provou-o, culpado de atos repugnantes. O que espantou o público, e a mim pessoalmente, tendo em conta as posições de Stone, foi o modo como o realizador humanizou uma personalidade tão detestada.

Anthony Hopkins em Nixon (1995).
Anthony Hopkins em Nixon (1995).

Stone foca-se mais no homem e no que o movia; a sua ânsia de poder para contrabalançar inseguranças, o ressentimento e frustração por não ser tão carismático como Kennedy, o seu problema de álcool e comprimidos e o desvario que o levou a cair na tentação de conspirar ao mais alto grau contra o próprio país.

O filme é longo e o enredo, complexo. Como sempre, Stone consegue manter-nos interessados, ainda que detestemos política. Para que o filme funcionasse, era fulcral a escolha do ator. Pode-se dizer que foi certeira. Anthony Hopkins terá entendido as intenções de Stone e não tenta copiar Nixon. O ex-presidente americano era um homem de fachadas e representação, e é assim que Hopkins, de modo perspicaz, o “representa”. Vejam-se os tiques, os falsos sorrisos e as referências de Richard Nixon a si mesmo na terceira pessoa. Os palavrões em privado e a diplomacia sob os olhares públicos. Hopkins é magistral em tudo isto.

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Stone começa logo pelo Watergate, evitando assim “ataques” ao modo compassivo como retrata Nixon posteriormente. De novo, a verdade não é tão simples – por exemplo, uma das personalidades que sai mais mal vista do filme é Henry Kissinger (Paul Sorvino), uma espécie de maquiavélico conselheiro da corte. Pouca importância é atribuída a Bob Woodward e Carl Bernstein, os dois principais repórteres que desvendaram o Watergate, o que se poderá dever ao modo ambivalente como Stone encara a imprensa e também ao facto de a dupla “Woodstein” não ser como é retratada em All the President’s Men (1976), paladinos da liberdade, etc. Aqui são figurantes e mal aparecem, são mais “instrumentos” que pessoas.

Para lá da política, Nixon é relevante pois mostra o que pode suceder a um homem que não foi amado ou que não deixa que o amem, um tema a que Oliver Stone tinha já aludido mais frontalmente em Talk Radio.

NATURAL BORN KILLERS

No início dos anos 90, a vida pessoal de Stone atravessou várias mudanças profundas. Em 1991, foi pai pela segunda vez, numa altura em que o seu casamento já se desagregava. O realizador continuava a consumir estupefacientes – após Heaven & Earth quase faleceu devido a uma overdose de aminoácidos. A recuperação veio com Nixon e com… mais um filme controverso: Natural Born Killers (Assassinos Natos), em 1994.

Juliette Lewis e Woody Harrelson em Assassinos Natos (1994).
Juliette Lewis e Woody Harrelson em Assassinos Natos (1994).

A história de ‘Mickey’ e ‘Mallory’ é um caso de amor retorcido, um percurso de violência e crime que serve de base a uma panorâmica mais ampla. Os dois assassinos tornam-se celebridades, os media são um asco absoluto, o sistema prisional é decadente, a polícia é corrupta e perversa, o público é estúpido… como se podia filmar semelhante niilismo e ainda criticar a superficialidade da sociedade americana?… caindo no caricatural e na montagem MTV.

Lou Reed disse sobre os EUA: “É um grande país, mas está 100 anos atrasado no tempo. Muito moderno na tecnologia, mas socialmente tão atrasado que se torna assustador, porque acho que isso se traduz em violência.” O ponto de vista de Oliver Stone não é muito diferente, é uma progressão dessa ideia: A violência nos mass media entorpece. 

– Wayne Gale? O sacana da TV?
– Nós chamamos-lhe media. Não gosta dos media?
– Atrai-me mais uma lombriga.

Woody Harrelson e Robert Downey Jr.
Woody Harrelson e Robert Downey Jr.

O modo como Stone filmou Natural Born Killers não é dos meus favoritos mas adequa-se ao material. É demasiado ríspido, sem subtileza, e até grotesco. Quentin Tarantino escreveu um argumento com Roger Avary intitulado The End Of The Road. Ora, este script foi cortado aos pedaços – um foi parar a True Romance, excertos a Reservoir Dogs e Pulp Fiction. O que restou, renasceu, passe a ironia, como Natural Born Killers.

Os direitos pertenciam a Don Murphy e Jane Hamsher. Stone comprou o argumento e incumbiu um amigo da dupla, David Veloz, de o reescrever. Mais tarde, o próprio Stone fez outras alterações. Bem… Tarantino enfureceu-se com as modificações de Stone e tentou impedir a produção. Sem conseguir, afastou-se dela o mais que pôde. Oliver Stone introduziu a sequência da sitcom e a influência índia, bem como o asqueroso repórter de TV ‘Wayne Gale’ (Robert Downey Jr.) O filme contém demasiados exageros e a montagem cansa, mas falo a título pessoal. São adequados a esta sátira pertinente que não se limita só aos EUA.

U TURN

Este filme é a prova de que podemos não apreciar um filme à primeira e rirmo-nos a valer à segunda vez que o vimos, devido a estados de espírito, experiência cinematográfica e vivências pessoais. O filme mais hilariante de Oliver Stone, U Turn (1997) é a triste história de ‘Bobby Cooper’ (Sean Penn) cujo carro avaria no momento errado. E vai parar à vilória errada para o consertar… no momento errado. “A mangueira do radiador pifou…” Não é a única coisa a pifar. Aliás, entra tudo em descalabro!

"A mangueira do radiador pifou." "O que acabei de lhe dizer?" Sean Penn e Billy Bob Thornton em U Turn (1997).
“A mangueira do radiador pifou.” “O que acabei de lhe dizer?” Sean Penn e Billy Bob Thornton em U Turn (1997).

‘Cooper’ mete-se em embrulhadas inacreditáveis, a começar pelo mecânico pouco prestativo (Billy Bob Thornton) e passando pelo conhecimento que trava com Nick Nolte (aqui com um cómico ar de roedor malicioso devido às “dentolas” falsas) que lhe propõe que assassine a esposa em troca de uma soma considerável. Várias traições depois…

Nick Nolte, o roedor malicioso de U Turn (Sem Retorno).
Nick Nolte, o roedor malicioso de U Turn (Sem Retorno).

U Turn é um neo-noir com um herói apalhaçado, mas a tradição do film noir já era adequada a Stone por natureza – as suas personagens são frequentemente obsessivas e tendem a fazer escolhas erradas. Em português, deram-lhe o título Sem Retorno e sucedem várias inversões de marcha, nada é o que parece, descambando numa tragicomédia.

ANY GIVEN SUNDAY

Cameron Diaz e Al Pacino em Any Given Sunday.
Cameron Diaz e Al Pacino em Any Given Sunday.

Um estudo sobre o futebol americano, Any Given Sunday (1999) contém tantos sub-enredos que se torna confuso seguir o argumento. O principal problema é esse; Stone não os aprofunda o suficiente para que consigamos sentir empatia por um personagem específico. As cenas no campo de futebol estão bem filmadas, o elenco também é ótimo, excetuando Cameron Diaz que destoa no papel de uma mulher a tentar impor-se num mundo de homens. Nem a atriz é boa nem a situação é apresentada de modo convincente.

A National Football League recusou qualquer envolvimento com Any Given Sunday devido ao teor de exposição do filme – o desporto gira em volta do dinheiro, os media servem tais propósitos, e o campo é uma arena de gladiadores. Por estes motivos, os nomes das equipas são ficcionais. Um dos pontos fortes é a presença de Al Pacino com os seus discursos ferozes de motivação e encorajamento à equipa. Infelizmente, Pacino não salva a confusão que é Any Given Sunday.

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Uma das principais razões para o sucesso comercial e crítico de Oliver Stone sempre foi a habilidade de conjugar interesse artístico com puro entretenimento. Vários dos seus filmes passam das duas horas e parecem muito mais curtos. Quando há algo a dizer e é dito sem rodeios ou deambulações… quando há uma controvérsia ou uma ferida por sarar na consciência dos EUA… quando há um artista e não um mero negociante atrás da câmara… quando há alguém como Oliver Stone atrás dessa câmara, há mais probabilidade de gostarmos do que a de dispensarmos. E, quando o Céu e a Terra mudam de lugar, há magia no cinema… com uma forte dose de realidade e para quem a encontrar.

David Furtado

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