Os melhores filmes de 2014: Agulhas no palheiro

À semelhança do ano passado, os 20 melhores que vi ou revi em 2014 são aqui resumidamente descritos. Não são os “melhores” filmes estreados – o critério é subjetivo, nem se trata de crítica cinematográfica. Há de todos os géneros – comédia, terror, séries de TV, obras mais sérias, outras que são simples entretenimento, outras que conjugam tudo e algumas relevantes para os tempos atuais. Portanto cá ficam as “agulhas no palheiro” de 2014, ordenadas por ordem cronológica, seguindo o conceito de Orson Welles, de que as ideias contidas num filme cabem na cabeça de um alfinete.

Elaine May e Walter Matthau em A New Leaf.
Elaine May e Walter Matthau em A New Leaf.

A New Leaf (Vida Nova) (1971)

A história do arrogante ricaço (Walter Matthau) que perde a fortuna e procura uma esposa rica (a desastrada, ingénua mas honesta Elaine May). A comédia realizada por May foi bastante alterada, o que desagradou à cineasta. É uma lição de moral, por vezes hilariante mas sempre perspicaz, de como os sentimentos podem surgir entre pessoas tão díspares, alterando o percurso de ambos para sempre. Devido ao fracasso estrondoso de Ishtar (1987), à sua integridade artística e constante antagonismo para com o meio cinematográfico, Elaine May ficaria banida de Hollywood. O que é lamentável, no mínimo, para uma realizadora tão talentosa.

Pierre Clémenti e Tomas Milian em La vittima designata (1971).
Pierre Clémenti e Tomas Milian em La vittima designata (1971).

La vittima designata (A solução final) (1971)

Este filme italiano é um remake assumido do clássico Strangers on a Train (O Desconhecido do Norte-Expresso, 1951): Um estranho alicia outro para trocarem de vítima, eliminando assim provas que os relacionem, cometendo o crime perfeito. O que é interessante em La vittima designata é o facto de a execução ser diferente, e o final, uma surpresa. A realização de Maurizio Lucidi e as interpretações de Pierre Clémenti e Tomas Milian (brilhante, num dos seus desempenhos sérios), assim como a atmosfera italiana, tornam La vittima designata num filme a não perder, mesmo para quem tenha visto o original.

Cross of Iron (A Grande Batalha) (1977)

James Coburn em Cross of Iron.
James Coburn em Cross of Iron.

A maioria das vezes, os melhores filmes de guerra são concebidos por cineastas que presenciaram um conflito, como Samuel Fuller ou Oliver Stone. Embora Sam Peckinpah tenha sido incorporado nos Marines durante a II Guerra Mundial, não presenciou um combate, o que o terá desiludido. Apesar dos seus problemas de saúde, o cineasta ainda estava em forma quando realizou Cross of Iron, com o seu típico estilo brutal e violência em câmara lenta. A obra centra-se sobretudo no conflito entre James Coburn e Maximilian Schell e no significado fútil de uma condecoração no meio do caos e irracionalidade da guerra. Sem sermões e com uma dose de ação quase exacerbada, Peckinpah criou aqui um dos seus últimos grandes filmes.

Missing (Missing – Desaparecido) (1982)

Spacek e Lemmon em Missing de Costa-Gavras.
Spacek e Lemmon em Missing de Costa-Gavras.

Durante um golpe militar no Chile, em 1973, um escritor desaparece, sendo procurado até ao limite das forças pela esposa (Sissy Spacek) e o pai (Jack Lemmon). Costa-Gavras venceu o Óscar de Melhor Argumento Adaptado e os dois protagonistas foram nomeados para o galardão. Spacek e Lemmon começam por não se dar bem, relação que se vai modificando ao longo do filme, quando entendem que o desespero e a aprendizagem são mútuas. Pelo meio, o realizador vai mostrando como funciona a “diplomacia” americana, que acaba por desiludir o patriota Lemmon. A história é forte e, com dois atores da craveira de Lemmon e Spacek, adquire ainda mais impacto. A mensagem inicial: “Este filme baseia-se numa história verídica. Os incidentes e factos estão documentados. Alguns nomes foram alterados para proteger os inocentes e também para proteger o filme.”

A obra gerou controvérsia, conquistando, porém, a Palma de Ouro em Cannes, com Jack Lemmon a ser igualmente distinguido no certame pelo seu extraordinário desempenho. É um thriller/mistério não politizado (pelo menos, a política não é um elemento que se intrometa na narrativa).

Mel Gibson e Sigourney Weaver em O Ano de Todos os Perigos (1982).
Mel Gibson e Sigourney Weaver em O Ano de Todos os Perigos (1982).

The Year of Living Dangerously (O Ano de Todos os Perigos) (1982)

Mel Gibson reencontrou o realizador Peter Weir neste filme, no qual interpreta um correspondente na Indonésia durante o regime de Sukarno. A crise política no país é, de modo hábil, equiparada ao conflito emocional de Gibson com uma diplomata, Sigourney Weaver. A energia quase elétrica do ator ajusta-se ao papel como uma luva, e Weaver mostra-se à altura do coprotagonista. Mas o foco vai para Linda Hunt, que desempenha um homem, ‘Billy Kwan’ amigo de Gibson e Weaver e simultaneamente narrador. O notável desempenho de Hunt valeu-lhe o Óscar de Melhor Atriz Secundária.

O filme marcou também uma época em que o cinema australiano atravessava um boom, em parte devido ao estrelato de Mel Gibson, mas O Ano de Todos os Perigos é um filme extraordinário por várias outras razões.

Year of the Dragon (O Ano do Dragão) (1985)

Mickey Rourke em O Ano do Dragão.
Mickey Rourke em O Ano do Dragão.

A guerra implacável aos criminosos asiáticos de Chinatown por parte do NYPD e do ex-veterano do Vietname interpretado por Mickey Rourke funciona a vários níveis. O realizador Michael Cimino varia entre o registo do drama e da súbita violência, auxiliado pelo argumento de Oliver Stone, com rasgos de humor, como na situação em que Rourke atira esta deixa a um superior que nunca expressa grandes opiniões: “Kearney, é sempre um prazer falarmos, é como bater palmas com uma mão.”

Cimino conseguiu obter de Mickey Rourke um dos melhores desempenhos da sua carreira, comparável a The Wrestler. Ainda jovem em 1985, Rourke lança-se em diatribes como a seguinte: “Vocês acham que apostar ao jogo, a extorsão e a corrupção são legais porque já têm mil anos? Bem, esta coisa toda dos ‘mil anos’, para mim não passa de uma treta. Isto aqui é a América e já tem 200 anos, por isso é melhor acertarem os relógios.” ‘Stanley White’ está em guerra com os asiáticos do seu país, mas envolve-se numa relação extraconjugal com a asiática ‘Tracy Tzu’. Nada é a preto e branco em O Ano do Dragão.

Cimino foi tão cuidadoso com os detalhes que criou o apartamento de ‘Tracy’ de forma a obter uma vista privilegiada de Nova Iorque. Restantes cenários de rua nova-iorquinos foram igualmente recriados na Carolina do Norte. O realizador Stanley Kubrick, nascido no Bronx, nem acreditou, devido ao realismo.

China Beach (A Praia da China) (1988–1991)

Dana Delany em China Beach.
Dana Delany em China Beach.

Esta série televisiva sobre mulheres (e não só) no Vietname é uma das melhores alguma vez feita e, apesar de não ter durado muitas temporadas (quatro), deixou lembranças em muitos fãs. Chega a espantar que um “produto” tão forte fosse exibido em TV nesses tempos. Vários episódios e argumentos são da autoria de mulheres e o ponto de vista é muitas vezes feminino, situação original para um contexto mais associado a homens. Assim, A Praia da China foi pioneiro – mostra personagens femininas tão fortes como as masculinas num cenário devastador, onde a moral é dúbia e diariamente se convive com mortes violentas, a par do companheirismo e solidariedade.

Deste modo, a uma cena descontraída, sucede-se uma violenta como um ataque dos vietcong, criando um ambiente dramático raramente visto em televisão. As edições em DVD, muito adiadas, provocaram a impaciência dos fãs. A maioria dos problemas deveu-se à banda sonora, composta por temas dos Jefferson Airplane, The Doors, Jimi Hendrix, e outros nomes da época, provocando um conflito de direitos de autor. Há duas opções, por agora, edição truncada e sem a banda sonora carismática (num box set bastante caro), ou versões VHS, em que o som e a imagem são inferiores. E quem, entre a plateia masculina, não teve um fraco pela ‘Tenente McMurphy’ (Dana Delany)? Mea culpa

melhores filmes de 2014 (7)

Groundhog Day (O Feitiço do Tempo) (1993)

A história de um meteorologista arrogante que acorda sempre no mesmo dia e enfrenta os mesmos acontecimentos é uma comédia de rara inteligência, realizada por Harold Ramis. Para tal contribui o desempenho de Bill Murray, um dos melhores trabalhos de um ator geralmente associado à comédia e que tem piada sem forçar – a dificuldade de muitos. Encurralado sempre no mesmo dia e na mesma rotina, Murray começa a reavaliar a sua vida e a relação com Andie MacDowell, compreendendo-se melhor a si mesmo e ao seu interesse romântico. Um filme cómico que tem muito de sério a transmitir, este “dia da marmota” é uma obra que aconselharia a todos os que não a tenham visto.

The Man Without a Face (Um Homem Sem Rosto) (1993)

A obra em que Mel Gibson se estreou na realização, antes da hype de Bravehearté um filme sobre um homem cuja metade do rosto ficou desfigurada. Este ex-professor exilado do mundo trava amizade com um jovem em busca de uma figura paternal que o oriente (o estreante Nick Stahl). Gibson sempre foi misterioso, e a escolha deste projeto para sua estreia na realização diz bastante sobre a natureza complexa do ator/realizador. A sua paixão por Shakespeare vem à tona, aliada ao modo como as aparências enganam. É um filme de rara sensibilidade que poucos associariam à personalidade de “Mad Mel”.

Gibson dirigindo o estreante NIck Stahl em Um Homem Sem Rosto.
Gibson dirigindo o estreante Nick Stahl em Um Homem Sem Rosto.

Beautiful Girls (Mulheres Giras) (1996)

Um filme algo subestimado sobre o papel que as mulheres desempenham nas nossas vidas, Mulheres Giras (cujo título em português desvirtua o original) conta com interpretações excelentes. Todos os personagens têm qualquer dilema sobre a mulher das suas vidas e, quando o reencontro de velhos amigos se dá, aprendem um pouco melhor como funcionam as relações e os compromissos, resignando-se a uma simples verdade: A mulher perfeita não existe. Como comenta uma das personagens, “vocês homens, têm de se pôr a pau. Senão o futuro da raça humana está em perigo”. Comédia que também aborda temas sérios, Beautiful Girls é interessante para ambos os sexos.

Elisabeth Shue e Woody Harrelson em Palmetto (1998).
Elisabeth Shue e Woody Harrelson em Palmetto (1998).

Palmetto (Tiro pela Culatra) (1998)

Esta obra de Volker Schlöndorff não será, cinematograficamente falando, um primor. Mas consegue reunir Elisabeth Shue, Gina Gershon e Chloë Sevigny, três beldades a atormentar o desgraçado ‘Harry Barber’ (Woody Harrelson) numa atualização frequentemente humorística do film noir. Com as trocas de identidades da praxe e reviravoltas no argumento, Palmetto mostra-nos um mundo quase saído dos romances de Raymond Chandler. A obra peca por algum teor pastiche exagerado, mas é bastante divertida e um bom mistério.

Payback (Payback – A Vingança) (1999)

Outro film noir modernizado é Payback com Mel Gibson, anti-herói em topo de forma, numa obra repleta de ação e humor negro, remake de Point Blank (1967) com Lee Marvin. Mas aqui a atmosfera é diferente. Os vilões são de cartolina e há espaço para sentimentos mais profundos. Payback é uma espécie de híbrido, com uma fotografia cinzenta/azulada e momentos hilariantes. Excelentes escolhas de casting (Maria Bello, Lucy Liu, Kris Kristofferson, William Devane, James Coburn) e uma banda sonora a condizer. Hubba, hubba, hubba…

melhores filmes de 2014 (10)

V for Vendetta (V de Vingança) (2005)

À superfície, V de Vingança é a luta pela liberdade numa tirania britânica futurista, à qual se opõe o enigmático ‘V’. A obra tem muitas outras qualidades. Refiro-a também devido ao simbolismo que a máscara obteve em situações relacionadas com opressão dos direitos individuais. É um tema demasiado complexo para breves linhas, onde não se pode desenvolver opiniões mais elaboradas. Recentemente, assistimos a episódios de limitação na transmissão de informação e outras, de divulgar dados pessoais. É complexo, já que os extremos se tocam. Será um filme a rever e a reavaliar em tempos futuros.

Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon, ambos excelentes em Walk the Line.
Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon, ambos excelentes em Walk the Line.

Walk the Line (2005)

Sendo admirador de Johnny Cash, fiquei surpreendido com esta biopic que se esquiva a estereótipos do género. Joaquin Phoenix, ao não se colar demasiado a uma persona inimitável como a de Cash, fez, quanto a mim, a escolha acertada, evitando o caricatural (e cantando ele próprio, o que foi ainda mais arriscado para um timbre tão único como o do cantor). Reese Witherspoon fez o mesmo, e os dois conseguem recriar de forma surpreendente a cumplicidade entre Johnny Cash e June Carter, numa vida que dava um filme. E deu. Dos bons.

Kseniya Rappoport e Filippo Timi em A Hora Dupla (2009).
Kseniya Rappoport e Filippo Timi em A Hora Dupla (2009).

La doppia ora (A Hora Dupla) (2009)

Sem ser uma obra-prima, A Hora Dupla é um dos filmes italianos com argumento mais engenhoso em tempos recentes. A reviravolta final é inesperada. O título do filme remete para vários significados, cujo princípio é… 23:23. “Uma hora dupla”, explica ‘Guido’ a ‘Sonia’ no início. “É como quando cai uma estrela cadente. Tens de fazer um desejo.” “Funciona?” “Não”, responde ‘Guido’ em tom misterioso. Jogando com este conceito, vai-se desenvolvendo uma intriga repleta de surpresas e uma história de amor nada convencional.

Surrogates (Os Substitutos) (2009)

melhores filmes de 2014 (17)O filme protagonizado por Bruce Willis desenrola-se num mundo futurista em que todos temos substitutos na vida real, duplos ou clones que vivem a vida por nós. À partida, é um filme de ficção científica original. Se retirarmos algumas camadas, observamos os perigos de uma tecnologia desenfreada que se vira contra os seres humanos, enclausurados em mundos virtuais, com todos os canais abertos, a comunicação vedada e habitando num mundo cada vez mais desumanizado pelo progresso e a inovação.

The Beaver (O Castor) (2011)

melhores filmes de 2014 (18)O vilipendiado Mel Gibson passou de bestial a besta, em tempos mais recentes. Jodie Foster não se importou com isto e, sendo amiga do ator, além de confiar no seu talento, convidou-o para interpretar um homem deprimido que só se consegue expressar através de um castor que fala por ele. O castor começa a dominar a personalidade do homem, travando com ele uma luta semelhante à de um boneco de ventríloquo que adquire vida própria.

É um filme complexo sobre comunicação e depressão, em que o foco vai para o talento de Gibson, que, para além do sotaque britânico, tem ainda de falar pelo castor e pela sua personagem. Foster, embora também participe como atriz, mantém-se fora do caminho e dá o protagonismo a Gibson, num dos melhores papéis – talvez o melhor – da fase recente da sua carreira.

The Magic of Belle Isle (Um Lugar Especial) (2012)

O sempre competente (e com frequência genial) Morgan Freeman interpreta um escritor alcoólico e irascível que conhece uma mãe solteira (Virgínia Madsen) e as suas três filhas em Belle Isle. Sem grandes sentimentalismos, o realizador Rob Reiner filma a transformação que encontros fortuitos podem despoletar. Também aqui, as vidas dos protagonistas se alteram para sempre, com cedências, paciência e, sobretudo, com a magia inexplicável da vida.

La vie d’Adèle (A Vida de Adèle) (2013)

Mudando de registo, serei breve com este filme, pois já lhe dediquei um artigo. É uma obra corajosa sobre a relação entre duas raparigas. É difícil encontrar filmes que abordem temas controversos sem cedências ao mainstream. São necessários atores, argumento e, acima de tudo, objetivos bem definidos ou então não se retratam realidades. É um filme doloroso, por vezes, e incisivo no modo como ilustra o fim da inocência, a auto-descoberta, a desilusão e a maturidade.

Timothy Dalton, Reeve Carney, Eva Green, Harry Treadaway e Josh Hartnett em Penny Dreadful.
Timothy Dalton, Reeve Carney, Eva Green, Harry Treadaway e Josh Hartnett em Penny Dreadful.

Penny Dreadful (2014…)

Terminando em grande… das melhores séries que já vi e, curiosamente, é deste ano. Nada de parecido foi alguma vez feito. Há vários temas que se entreligam, sendo o principal a busca de ‘Sir Malcolm Murray’ pela filha desaparecida. Envolvendo elementos sobrenaturais com figuras ficcionais da literatura, como Victor Frankenstein ou Dorian Gray, Penny Dreadful consegue o “milagre” de nos transportar para a Inglaterra Vitoriana, com um esmero artístico raro de ver em televisão.

Os desempenhos são todos excelentes. Há muitos anos que Timothy Dalton já não revelava o talentoso ator que sempre foi; Josh Hartnett mostra que é mais do que um galã, mas a surpresa é Eva Green, que, no papel de ‘Victoria Ives’, é fulgurante. Resta esperar pela segunda temporada, que certamente figurará na lista do ano que vem…

David Furtado

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