Amarcord de Fellini – A arte é uma mentira que diz a verdade

Embora geralmente se fale da obra-prima Amarcord como um retrato autobiográfico do cineasta e do seu crescimento nas províncias da Itália na época do fascismo, Federico Fellini sempre insistiu que a maioria das aventuras retratadas na obra aconteceram aos seus amigos e não a ele. Os seus filmes eram fantasias vagamente inspiradas na realidade. Com o extraordinário Amarcord, em 1973, Fellini recebeu o seu quarto Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Foi também o seu último êxito de bilheteira.

amarcord fellini poster

Fellini achava que o fascismo triunfou em Itália devido a “uma espécie de bloqueio na fase adolescente” em pessoas que negam a responsabilidade e se focam em sonhos absurdos, pensamento de grupo e provincianismo. As preocupações do realizador sempre se dirigiram mais para a liberdade de pensamento, a criatividade. Algo que deforme, reprima ou distorça este espírito criativo deve ser combatido. O realizador referia-se não só o regime fascista, mas também a qualquer tipo de cultura orientada para o consumo, como a que se vive hoje:

“O que mais me preocupa é a liberdade do Homem, a libertação do individualismo do Homem da rede de convenções morais e sociais em que acredita. Ou melhor, em que pensa que acredita, e que o enclausuram, o limitam e o fazem parecer mais mesquinho, pequeno e, por vezes, até pior do que é na realidade.”

Amarcord é uma espécie de olhar sobre os italianos da sua infância numa vila que, diz-se, é baseada em Rimini durante os anos 30. O filme é dotado de uma estrutura quase volátil, uma série de episódios ou vinhetas que parecem, por vezes, desconexas. Mas há muito a passar-se para além do visível.

Armando Brancia, Carla Mora, Giuseppe Ianigro e Bruno Zanin.
Armando Brancia, Carla Mora, Giuseppe Ianigro e Bruno Zanin.

Fiel ao modo de pensar do seu autor, Amarcord não é um filme político com pólos opostos, os fascistas não são os “maus” e os anti-fascistas os “virtuosos”. Não acho necessário contextualizar Amarcord no seu tempo. Como qualquer obra-prima, pode ser vista sob qualquer contexto. Mas, para que fique mais explícito: Em 1973, a política e as ideologias eram um tema dominante no cinema italiano. A Itália viveu sob o domínio do fascismo entre 1922 e 1943, ano em que os Aliados invadiram o país. Muitos cineastas italianos realizaram filmes sobre a Itália fascista, para “ajustar contas”, culpando a ditadura por problemas sociais e até psicológicos.

Apesar de caricaturar o fascismo, Amarcord não é um filme político.
Apesar de caricaturar o fascismo, Amarcord não é um filme político.

Ao longo da carreira, Federico Fellini foi bastante atacado pela sua suposta falta de visão social ou perspetiva política, pelos críticos de Esquerda, especialmente. E defendeu-se deste modo, que acho uma boa lição para os “defensores” da arte politizada:

“Boas intenções e sentimentos honestos, e uma crença apaixonada pelos nossos ideais, podem resultar em excelentes políticas ou trabalho social influente… mas não resultam necessária e indiscutivelmente em bons filmes. E não há nada mais feio e soturno – apenas por ser ineficaz e inútil – do que um mau filme político.”

Um exemplo é a relação entre política e sexualidade – ou como o homem italiano no contexto político daquela época se comportava perante o sexo feminino. Embora o faça de modo explícito, são sátiras que podem passar despercebidas, até porque o filme é bastante cómico.

O GÉNIO

Já aqui falei de Argento, Fulci e Sergio Leone (realizadores mais ligados ao cinema de género) mas nunca de Fellini, o que é uma lacuna grave, pois foi a figura mais importante da Era dourada do cinema italiano, com obras que ultrapassaram fronteiras e se tornaram sucessos bombásticos. La dolce vita, , Satyricon, La strada… uma lista infindável de filmes que marcaram os anos 60 e 70. Fellini era tão versátil que chegou a realizar anúncios publicitários televisivos para a Campari, para esparguete… até aí se notava o seu génio e sentido de humor. Curiosamente, detestava os intervalos para a publicidade durante filmes na TV italiana.

O genial Fellini.
O genial Fellini.

Durante às décadas de 60 e 70, goste-se ou não – e digo isto porque os seus filmes são muito diferentes entre si –, o realizador dominou o cinema italiano. Com um estilo inimitável, ao contrário de outros que se lhe seguiriam, explorando o peplum, o giallo, o western spaghetti e o poliziesco, cinema mais popular e dirigido a grandes audiências, Fellini ia no sentido oposto. Ou seja, começou por explorar temas autobiográficos, passou para políticos, para visões subjetivas do mundo, e para o cinema enquanto sonho, num campo totalmente antagónico ao do cinema de ação. Amarcord, que foi um êxito internacional, surgiu em 1973, precisamente na altura em que o cinema popular se tornou quase viciante para as plateias. Por conseguinte, a popularidade do realizador decaiu e o sucesso nas bilheteiras também.

Enzo De Castro, assistente do realizador durante muito tempo, afirma que foi recomendado por Sergio Leone a Fellini, quando este precisava de alguém de confiança: “Era como fumo nos olhos para Federico, ler cartas, contratos, contabilidade… Deus me livre! Ele era alérgico a essas coisas. Aliás, com o passar dos anos, deixou de ir buscar os seus cheques de pagamento, era eu que ia por ele.”

amarcord fellini (5)

De Castro relata que a relação com produtores sempre foi conflituosa: “O produtor, como podem imaginar, vê o filme como um negócio. O autor, por seu turno, vê uma criatura que tem de fazer nascer… e eu colocava-me entre estas duas dimensões e tentava aplacar ambas as partes. Às vezes, era alvo de uma certa cólera… que lá suportava diplomaticamente. Federico era capaz de se preocupar com coisas insignificantes, por isso, quem não o conhecia, podia julgá-lo negativamente. Mas era muito humano. E posso revelar que, em segredo, deu muito dinheiro para a caridade. Não andava com dinheiro no bolso e pedia emprestado a amigos para comprar o jornal…”

“Para ele, um grande ator era una bella faccia, um belo rosto.” Assim se entende um pouco melhor o comentário elogioso que fez a Ben Gazzara, quando este visitou a Cinecittà: Disse isso mesmo: “Che bella faccia”, ao que o ator americano, descendente de italianos, respondeu com “grazie, Maestro”.

Durante a filmagem do casamento de 'Gradisca' (Magali Noël).
Durante a filmagem do casamento de ‘Gradisca’ (Magali Noël).

“Ele vivia na sua própria dimensão, não vivia na realidade”, diz Fiammetta Profili, secretária de Fellini, que com ele começou a trabalhar muito jovem. “Ele tinha a capacidade de observar a vida com um distanciamento e um humor que o tornava capaz de fazer humor com tudo. E também de captar aspetos que escapariam às pessoas comuns. Foi algo que me ensinou.”

POLÍTICAS À PARTE

Assim, todas as personagens de Amarcord são cómicas. Uma parte do filme é centrada numa família estereotipada. As cenas passadas na escola são hilariantes, os rapazes que se portam mal, ouvem epítetos como “criminoso!”, “delinquente!”. A vivacidade de Amarcord deve muito ao mundo da banda desenhada, em particular aos desenhos de Frederick Burr Opper e Winsor McCay. Fellini caricaturou as figuras fascistas, e até os atores. Repare-se no famoso poster e nas instruções que deu ao desenhador Giuliano Geleng:

“Ele próprio era um personagem que podia ter sido poeta, escritor, coreógrafo, desenhador de guarda-roupa, pintor… Explicou-me o cartaz por carta, com uma precisão incrível… e fui capaz de o ver como se já o tivesse pintado”, diz Geleng. “‘Gostava que fosse como se estes personagens, no fim de uma peça de teatro, avançassem e fitassem o espectador, como se para agradecerem, como se faz no teatro.’ E falou depois de uma mistura entre um cartão de Natal e um de Páscoa. Ou seja, com cores garridas, vários tons e cenas do filme em fundo. Isto, já de si, era uma explicação precisa e poética, além de que os rostos não podiam ser muito próximos do retrato nem da caricatura; ele pediu-me um naif não tradicional. A execução não foi simples.”

Uma das personagens inesquecíveis de Amarcord é a beldade local, ‘Gradisca’ (Magali Noël), alvo das fantasias masculinas gerais. A atriz afirma que ‘Gradisca’ existiu: “Conheci-a uma vez.” Noël diz que “é impossível esquecer Fellini”. E foi curioso o modo como o realizador lhe pediu para interpretar o papel: “Ele telefonou-me e disse, ‘olá Magalotta’, era assim que me chamava, ‘olha que tenho uma coisa bastante importante para ti e queria que estivesses amanhã às 10:00 na Cinecittà para fazer um teste para uma personagem chamada Gradisca’.” A atriz retorquiu que eram duas da manhã, mas Fellini deixou-a à vontade…

Magali Noël, que fez uma audição peculiar para Amarcord.
Magali Noël, que fez uma audição peculiar para Amarcord.

“Lá arranjei forma e… às dez em ponto estava no estúdio 5 da Cinecittà. Danilo Donati [o designer de produção] veio-me buscar. Era como uma família, ninguém se importava com formalidades. Ele disse que me ia vestir como ‘Gradisca’. Arranjou um cobertor de Inverno grosso e enrolou-me como uma salsicha, pôs-me um grande cinto e foi só. Fiquei descalça. ‘Estás pronta’, disse ele. ‘Pronta como? Esperas que eu vá fazer este teste metida nesta coisa?’ ‘Não te preocupes, vai.’”

amarcord fellini (12)“Quando cheguei ao plateau, toda a gente se começou a rir, obviamente, a começar por Federico. Eu disse-lhe que aquilo não tinha muita piada, que me acordara, que tivera de apanhar um avião. ‘Olha para mim, pareço um chouriço, não tem graça. O que queres que faça então?’ E ele diz-me, ‘Magalotta, faz poses’. ‘O quê?… obrigas-me a vir aqui para fazer poses?’ E enquanto eu as fazia, ele passou e ficou atrás de mim. Eu não tinha reparado porque estava furiosa com a roupa, mas havia lá uma grande ardósia. E de repente, ouço-o: ‘Já está bem!’ Ele estava atrás de mim. Volto-me e o que vejo escrito na ardósia? ‘A Gradisca chegou.’”

O jovem Bruno Zanin (‘Titta’) acompanhava um amigo que ia servir de figurante quando viu uma fila no estúdio 5 e, ao saber que Fellini estava lá, “infiltrou-se”. Perguntaram-lhe se era outra pessoa e o rapaz disse que sim. Apareceu o realizador e disse, ‘idiotas, então ele estava aqui e não o encontravam?’ E, devido a este acaso, Zanin entrou para o elenco dos rapazes da escola.

“Eu não sabia o enredo”, conta Zanin. “Era mais um dos rapazes. Mas havia um deles, claramente o protagonista, que tinha de fazer uma cena e não era capaz, era bastante desastrado. Por isso, perguntei, ‘posso mostrar ao meu colega como se faz?’ E Fellini disse-me, ‘faz tu isso…’”

Fellini e Bruno Zanin.
Fellini e Bruno Zanin.

Zanin recorda também que “Fellini era capaz de dar um estalo a um ator para ele interpretar uma cena em que devia estar triste, num dia em que chegava eufórico. Um dia, deu-me uma estalada porque eu estava demasiado sorridente. ‘Ai estás contente? Anda cá!’ E trás, um estalo. E logo a seguir começámos a filmar. Era a cena da morte da minha mãe. E fiquei triste na cena porque Fellini me dera uma bofetada. É claro que depois me chamou ao estúdio e explicou que foi uma brincadeira e que eu estava a ser um palerma nessa manhã… Fellini era assim.”

O cineasta contratava senhoras da alta sociedade, que ficavam naturalmente todas lisonjeadas por entrarem num filme do Maestro, só que as punha em papéis de prostitutas! Segundo Zanin, dizia “’por dentro, é uma grande puta… vou trazer ao de cima o que tem dentro’. E a verdade é que desempenhavam muito bem esses papéis…”

CINEMA FULGOR

Em Amarcord surge o Cinema Fulgor, nome do cinema em Rimini para o qual Fellini desenhara cartazes caricaturais das estrelas de cinema americanas e italianas da época. Há a mulher da tabacaria, o padre local, a professora de matemática, os fascistas que visitam a cidade, enfim, um grupo de figuras bastante divertidas.

Alguns dos episódios situam-nos na Itália da época, como o ritual de queimar a bruxa, no dia de São José, 19 de março, a visita dos fascistas à povoação ou a passagem do transatlântico Rex, navio que existiu de facto e era o orgulho da tecnologia italiana nesses tempos.

A passagem do Rex. Fellini interrompeu a rodagem da cena porque reparou que... uma destas pequenas luzes estava fundida.
A passagem do Rex. Fellini interrompeu a rodagem da cena porque reparou que… uma destas pequenas luzes estava fundida.

Quando os habitantes se reúnem para assistir à sua passagem no Adriático ou nestes rituais em que se recorre ao pensamento em grupo, vivem-se, segundo Fellini, “situações de total estupidez. O pretexto de se juntarem é sempre um processo nivelador… o único ritual que os une. Já que nenhum personagem tem noção da responsabilidade individual ou possui apenas sonhos mesquinhos, ninguém tem a coragem de não se integrar no ritual, de ficar em casa, longe dele”. De facto, o único que fica na aldeia é o cão!

Há outros aspetos interessantes que podem passar despercebidos. O Cinema Fulgor de Amarcord não é o Cinema Paraíso de Giuseppe Tornatore. Fellini tinha enorme admiração pelo cinema americano a que assistira na juventude, mas, para ele, o cinema local serve para ilustrar as vidas reprimidas dos personagens de Amarcord, cujos comportamentos são demasiado influenciados por mitos superficiais. Gary Cooper, o sonho das mulheres, por exemplo. A meu ver, Fellini é genial, pois insere figuras políticas do regime neste contexto caricatural.

'Titta' tenta seduzir 'Gradisca' no Cinema Fulgor.
‘Titta’ tenta seduzir ‘Gradisca’ no Cinema Fulgor.

A confissão de ‘Titta’ é outro episódio cómico. O sacerdote está mais preocupado com o arranjo floral e vai interrompendo a solenidade do momento com umas invetivas ao pobre acólito, pouco importado se as flores amarelas ficam no vaso da esquerda ou no da direita. As perguntas dirigidas aos jovens são, “se se tocam”… Em voz off, ‘Titta’ começa logo a pensar em ‘Gradisca’ e na ninfomaníaca local, ‘Volpina’ ainda mais espicaçado! “Como é que eu não me havia de tocar, ah, Gradisca… e a professora, aquela leoa, e a mulher da tabacaria…”

'Volpina' (Josiane Tanzilli).
‘Volpina’ (Josiane Tanzilli).

Tudo isto pode parecer cómico e satírico (e é) mas é também subtil, porque Fellini vai-nos “dizendo” que há um processo de repressão sexual na atração pela estrela do cinema ou pelos poderosos do regime. Voltando a Cinema Paraíso de Tornatore: É muito influenciado por Amarcord. Tornatore excluiu os elementos políticos e focou-se na poesia, no sonho e na nostalgia. Comum a ambos há uma excelente banda sonora, que em Amarcord ficou a cargo de Nino Rota.

No meio da vida aparentemente banal da povoação, há momentos inesperados de poesia; ‘Titta’ a tentar seduzir ‘Gradisca’ no Cinema Fulgor, o surgimento quase mágico do pavão, e até a entrada dos fascistas na aldeia, por debaixo, não de um arco romano, o que seria historicamente mais fiel, mas através dos portões da Cinecittà, com um estilo arquitetural fascista.

Quem é espectador habitual de cinema italiano saberá que todos os filmes são dobrados. No caso de Fellini, isto permitia-lhe falar durante a rodagem e representar juntamente com os atores, dando-lhes indicações, “faz isto, faz aquilo”. Esta dobragem era efetuada de modo profissional em Itália. O problema é que as dobragens em inglês (de modo geral) são terríveis e desvirtuam filmes inteiros. Amarcord não é exceção e chegaram a classificá-lo de intragável por esse motivo. É uma questão cultural: Muitas vezes, os responsáveis pela dobragem em inglês não entendem as piadas, o tom de voz é forçado, simplificado e reduzido a uma atrocidade.

amarcord fellini (1)

Há certos espectadores e estudiosos muito interessados em saber até que ponto Amarcord é autobiográfico, até porque isso permanece ambíguo. Não acho importante, mas cito Fellini a esse propósito:

“Não consigo distinguir o que realmente aconteceu daquilo que inventei. Sobrepostas às minhas memórias reais estão memórias pintadas de um mar de plástico, e os personagens da minha adolescência em Rimini estão a par dos atores ou figurantes que os interpretaram nos meus filmes.”

Zanin comenta que Fellini era “um grande mentiroso e, quando dizia a verdade, não era muito credível”. “É uma coisa que tenho em comum com ele. Sou um mentiroso muito sincero.”

Fiammetta Profili diz que Fellini aprimorara a arte da mentira: “Para ele, era uma forma de tornar a realidade mais bela, de a melhorar. Mas era o tipo de mentiroso que, a certo ponto, começava a acreditar nas mentiras que dizia, pois era muito honesto no seu modo de mentir. Passado um bocado, tornavam-se realidade.”

Mas, como disse Picasso, a arte é uma mentira que diz a verdade…

David Furtado

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