Saint Jack de Peter Bogdanovich: Um valete de copas nas noites de Singapura

Depois de três sucessos e três fiascos, Peter Bogdanovich quis regressar às raízes e conceber o filme que pretendia, sem interferências. O resultado foi Saint Jack (Noites de Singapura), uma história sobre moralidade protagonizada por Ben Gazzara. O “Santo Jack” do título tem uma profissão duvidosa, mas é capaz de maior honestidade do que políticos em altos cargos. “Um chulo com mais honra do que a maioria das pessoas”, como disse Gazzara. Para Bogdanovich, é esse o tema de Saint Jack.

Ben Gazzara.
Ben Gazzara.

A equipa passou seis meses no país a filmar Saint Jack, estadia que Bogdanovich classifica como uma “experiência que modificou vidas”. “É um filme sobre hipocrisia, valores, o envolvimento da América no Vietname, sobre política. E é um filme em que tentámos ao máximo evitar o cliché, o que normalmente se faria numa obra deste tipo. Portanto, fomos na direção oposta. Lutámos veementemente por evitar os lugares-comuns ou fazê-lo segundo as convenções.”

Por exemplo, quando os gangsters tatuam obscenidades nos braços de ‘Jack’, “ele iria supostamente dar-lhes uma tareia”, explica Peter Bogdanovich. “Mas não. Há um confronto, mas o que faz ele? Vai bater em alguém no meio da rua? Ele não é o Clint Eastwood. Não é um herói do cinema. Tentámos mostrar um tipo comum numa situação terrível. Um tipo que talvez exagere nalgumas facetas, alguém cuja moralidade está em questão. Mas que no fim tem de tomar uma decisão relacionada com moral a nível extremo, e faz uma escolha que pessoas em cargos muito altos, politicamente, talvez não fizessem. E o filme é sobre isso, no fundo. Moralidade, o bem e o mal. E as respostas são ambíguas. Acho-o um dos melhores filmes que fiz. Gosto dele.”

A cena do confronto: Ele não é o Clint Eastwood", comenta o realizador.
A cena do confronto: Ele não é o Clint Eastwood”, comenta o realizador.

“Embora ‘Jack’ fosse um chulo”, comentou Gazzara, “tinha mais honra do que a maioria das pessoas. Podia ganhar muito dinheiro ao arruinar a reputação de um senador, fotografando-o num encontro sexual com um rapaz prostituto, e assim regressar aos EUA, mas não é capaz de o fazer. Foi disso que gostei em ‘Jack’, a sua noção de honra”.

“Fizemo-lo a correr, com o mínimo de atores profissionais, excetuando os ingleses e um americano que, por acaso, estava ali perto, George Lazenby”, afirma o realizador. “Todos os outros, exceto eu, Gazzara e eles, eram amadores e nunca tinham representado. Não tínhamos plateaus, filmámos em edifícios verdadeiros, alguns deles estavam desocupados e arranjámo-los, pouco antes de serem demolidos. Tudo o que vêem no filme, aquela atmosfera asiática, desapareceu, foi tudo demolido para abrir caminho ao progresso.”

A atmosfera asiática que entretanto desapareceu. Gazzara e Denholm Elliott em Boogie Street. As pessoas em fundo não eram figurantes.
A atmosfera asiática que entretanto desapareceu. Gazzara e Denholm Elliott em Boogie Street. As pessoas em segundo plano não eram figurantes.

Uma das decoradoras era a filha do protagonista, Elizabeth Gazzara, contratada como assistente de produção – um pedido que Ben fez a Bogdanovich. Ainda que a filha de Ben Gazzara fosse integrada na equipa apenas devido à curiosidade de ver como se fazia um filme, e depois de o pai a ter feito prometer que não seria atriz, aplicou-se na tarefa. Gazzara ficou impressionado e reparou que Elizabeth se orgulhou do trabalho no interior de um edifício. Quando este local, um bordel, é vandalizado, Gazzara ficou de lágrimas nos olhos.

'Jack Flowers' contempla o seu sonho destruído.
‘Jack Flowers’ contempla o seu sonho destruído.

“Mal partiram a primeira vidraça e a mobília, senti uma faca no estômago. Era como se vandalizassem a minha própria casa. Peter pôs-me um braço à volta do ombro. Aquilo também lhe custava. Assistimos em silêncio, enquanto pintavam com um spray obscenidades chinesas nas paredes do sonho de ‘Jack’.”

PESSOAS E LUGARES REAIS

Peter Bogdanovich com o seu charuto Montecristo Especial.
Peter Bogdanovich com o seu charuto Montecristo Especial.

“Penso que ninguém foi o mesmo depois daqueles seis meses que lá passámos”, relembra Bogdanovich. Muita coisa aconteceu. Muitos filmes não são divertidos de fazer, mas este foi. Trabalhoso, mas muito iluminador.” Ao utilizar prostitutas, madames de bordel e transexuais autênticos para tais papéis, o cineasta retrata com um realismo pouco visto a vida nas ruas de Singapura. A produção fez um anúncio público: Qualquer pessoa que quisesse entrar num filme, podia comparecer para uma audição e assim foram selecionados os participantes.

Uma delas, relata Bogdanovich, era uma jovem da Malásia que fora parar à profissão por que o namorado a obrigara, e tinha um filho para sustentar. “Foi uma das pessoas mais simpáticas que conheci em toda a vida. E também muito atormentada com o que fazia e com medo dos demónios. Portanto, demos-lhe algum dinheiro, ela deixou a prostituição e voltou para casa. Acho que lhe salvámos a vida.”

Saint Jack baseia-se num livro de Paul Theroux. Orson Welles já tinha lido outro livro de Theroux e foi ele a sugerir a Bogdanovich que daria um filme interessante. Os direitos de adaptação pertenciam à Playboy. O realizador classifica isto de “divertido”: “Na altura, eu vivia com Cybill Shepherd e estávamos a meio de um processo judicial contra a Playboy devido a algo que acontecera num filme, uns anos antes.”

Gazzara com a rapariga a quem a equipa "salvou a vida".
Gazzara com a rapariga a quem a equipa “salvou a vida”.

O processo foi resolvido através da aquisição dos direitos de Saint Jack. A companhia de Cybill Shepherd, a Playboy Enterprises e Roger Corman chegaram a acordo, embora tenha sido Corman a investir verbas e a disponibilizar recursos, não a Playboy ou o seu patrão, Hugh Hefner, que surge creditado como produtor.

Shepherd foi também a primeira a elaborar um rascunho do argumento, posteriormente reescrito pelo autor Paul Theroux e finalmente por Howard Sackler, dramaturgo e vencedor do Pulitzer. “E foi mais ou menos essa a versão que usámos”, diz Bogdanovich. “Foi ele que teve a ideia de quebrar a história em três atos, com a personagem de Denholm Elliott a vir a Singapura três vezes, em vez de uma só, o que nos deu uma estrutura narrativa.”

Denholm Elliott e Ben Gazzara com dois habitantes de Singapura. A rapariga à esquerda era prostituta e o condutor do veículo era igualmente um condutor na vida real.
Denholm Elliott e Ben Gazzara com dois habitantes de Singapura. A rapariga à esquerda era prostituta e o condutor do veículo era igualmente um condutor na vida real.

A ESCOLHA DE BEN GAZZARA

Gazzara não agradou aos homens do dinheiro, que queriam um nome “maior” como Paul Newman, mas Bogdanovich fincou pé e disse que só realizaria com ele e mais ninguém. Ator e realizador tinham-se conhecido numa festa, alguns anos antes. Bogdanovich fez um pequeno cameo em Noite de Estreia de John Cassavetes. Foi então que lhe falou do filme. “Para mim, Ben ‘era’ ‘Jack Flowers’.”

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O actor recorda: “Quase no fim da rodagem, John teve um compromisso a que não se podia esquivar. De certeza que tinha a ver com dinheiro. Esses compromissos tinham sempre. Como era um dia de filmagens, John pediu a Peter Bogdanovich para dirigir uma sequência visual qualquer na sua ausência. Peter vira Husbands e fez-me uma data de perguntas sobre John e o modo como ele trabalhava com atores. Peter ficara muito impressionado com a liberdade das nossas interpretações. Eu não entrava na sequência que ele ia filmar, mas apareci no set para dizer olá e ele pediu-me para ficar por ali e almoçar com ele.”

“Durante o almoço, fiz o Peter rir sem parar. Estava nos meus dias bons. Nessa noite, o telefone tocou. Era ele: ‘Ouve, Ben, vou fazer um filme em Singapura baseado num livro de Paul Theroux. Chama-se Saint Jack. Quero que sejas o ‘Jack’.” Gazzara perguntou-lhe se havia argumento e Bogdanovich respondeu que sim, mencionando a versão final, a de Sackler. “Aparece amanhã em minha casa, por volta do meio-dia, conversamos e levas o script.”

Gazzara e Bogdanovich numa cena de Saint Jack.
Gazzara e Bogdanovich numa cena de Saint Jack.

O encontro correu bem e Gazzara ficou empolgado com a perspetiva de trabalhar com Bogdanovich: “Apesar de Roger Corman o produzir e a distribuição estar garantida, nós íamos com efeito fazer um filme independente. Julgo que Peter não tinha mais de um milhão de orçamento.”

O realizador elogia também Denholm Elliott, dizendo que foi dos melhores atores com quem trabalhou. Acerca de Elliott (e o mesmo se aplica aos atores ingleses) Bogdanovich diz que lhe deu a oportunidade de reescrever as falas. Numa cena em que Elliott descreve a vida que gostaria de ter, o realizador, insatisfeito com o guião, pediu-lhe que escrevesse o que quisesse. “No dia seguinte, ele apareceu com falas diferentes, achei-as ótimas e assim ficou.”

Ben Gazzara com o "brilhante" Denholm Elliott.
Ben Gazzara com o “brilhante” Denholm Elliott.

Ben Gazzara concorda: “Denholm Elliott, ator brilhante e originário do teatro, também gostou do modo de trabalhar de Peter. Antes de filmar, Peter ensaiava uma cena inteira com a câmara presente. Isto permitia aos atores familiarizarem-se tão bem com o material que tornava tudo mais natural.”

O ARGUMENTO FANTASMA

Quando Bogdanovich, o produtor George Morfogen e Ben Gazzara chegaram a Singapura, sabiam que era uma história sobre um chulo e prostitutas, embora não houvesse “muito disso no livro”, diz o realizador. Cineasta e protagonista descobriram mais sobre esse mundo, o que seria incluído no guião. O problema principal residiu na proibição de fazerem o filme. “Singapura banira o livro porque não gostava da ideia de ter sido, de facto, um lugar onde os soldados americanos iam de licença durante a Guerra do Vietname. Eles iam para lá, entre outros sítios, e divertiam-se com mulheres ‘recrutadas’ para isso, sendo depois reenviados para o Vietname.”

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“Era uma ‘herança’ que Singapura não apreciava”, diz Bogdanovich, “e fizeram tudo o que puderam para manter isso fora das notícias. Portanto, quando lá chegámos, não pudemos dizer que íamos filmar Saint Jack. Não queriam o livro por lá e, certamente, não nos queriam a nós. Dissemos-lhes que estávamos a fazer um filme chamado Jack of Hearts (Valete de Copas), que não era sobre um proxeneta, mas sim, sobre um tipo que quer abrir um clube noturno”.

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Peter Bogdanovich escreveu uma versão primária de um suposto argumento com cerca de 30 páginas, uma história completa, que foi dada às autoridades. “Nunca tivemos intenção de filmar isso, era o que eles pensavam que filmávamos, até algum tempo depois de termos deixado Singapura. Quando descobriram o que realmente fizéramos, não ficaram satisfeitos.” Por esta razão, o realizador nunca mais voltou ao país, o que lamenta, pois achou-o fascinante.

AS DIFICULDADES DE ENTRAR NO PERSONAGEM

Ben Gazzara chegou a Singapura em abril de 1978, Bogdanovich já lá estava a trabalhar na pré-produção há alguns meses. “Para captarmos melhor a essência de ‘Jack’”, recorda o ator, “andámos pelas ruas e procurámos o tipo de lugares que ‘Jack’ teria frequentado – bordéis, Boogie Street, a zona chinesa, o Raffles Hotel. Foi então que descobrimos que o argumento não resultava. Tinha de ser renovado por completo. E, como se isso não bastasse, íamos começar a filmar dentro de três dias.”

Bogdanovich, a amadora Monika Subramaniam e Gazzara.
Bogdanovich, a amadora Monika Subramaniam e Gazzara.

“No primeiro dia, eu estava ansioso”, recapitula Gazzara. “‘Jack’ devia estar descontraído e sereno, ao passo que eu estava nervoso e irritável. Adorava o papel mas não conhecia bem o meu personagem… ainda. Ele ainda não tomara conta. O problema é que eu me esforçava demasiado por encontrá-lo. Não tinha de o perseguir, ele viria ter comigo se eu apenas relaxasse. Isso equivalia a ter coragem suficiente para manter a minha interpretação simples até saber o suficiente sobre ‘Jack’ para fazer afirmações, sublinhar momentos.”

Ao fim do dia, depois de uma cena que correu particularmente mal, Bogdanovich convidou Gazzara para beber um copo na sua suite. E contou-lhe uma história:

“Eu tinha 14 anos e trabalhava como crítico para o meu jornal do liceu, era o meu primeiro trabalho. Foi a primeira crítica que alguma vez escrevi. E fiquei espantado com o que vi. Vi-te a ti, Ben, no Theatre de Lys na peça End as a Man.”

Gazzara explica: “Ele disse-me que me contava isto para me fazer refletir acerca do meu talento, que a câmara me adoraria se eu não ‘lutasse’ com ela.” Bogdanovich mudou de assunto e falou sobre…

TRES SUCESSOS E TRÊS FLOPS

saint jack bogdanovich gazzara (2)Bogdanovich admite que realizara três filmes de sucesso e três flops: “E três dos mal sucedidos que vieram depois dos três de sucesso… dois deles acabaram por não ser nada do que eu queria, o que foi doloroso, pois eram projetos pessoais. Foram fiascos dispendiosos, pelo que, a certa altura, parei de trabalhar e disse, ‘bem, algo correu mal pois eram projetos que me agradavam, queria que fossem bons e resultaram comprometidos, não fizeram sucesso nas bilheteiras e nem sequer eram o que eu tencionava fazer’.”

O realizador concluiu que a solução era afastar-se o mais possível da Califórnia e do processo de fazer filmes em Hollywood. “E Singapura era literalmente o mais longe que se podia ir. Nunca tinham feito um filme lá, não havia um estúdio nem um historial cinematográfico em Singapura.” Bogdanovich pretendia também regressar às raízes, ao modo como realizava quando começou a carreira com Roger Corman. A primeira obra do realizador fora produzida com 130 mil dólares e o apoio de Corman. “Não tínhamos dinheiro, tempo… 23 dias, mas foi um bom filme, trabalha-se no duro assim.”

Bogdanovich e Gazzara tornavam-se amigos e o resto da conversa dessa noite versou assuntos mais pessoais: “Ele agora abordava material mais difícil e não tão acessível para o público. Com um orçamento muito mais reduzido do que naqueles filmes iniciais e sem uma superestrela para carregar parte do filme aos ombros. A sua vida pessoal também estava em queda livre. Ele e a namorada, a atriz Cybill Shepherd, estavam no fim da sua relação. Enfrentando tudo isto, Peter ainda teve de dar uma reviravolta ao argumento. Achei que, se alguém podia tornar o filme um sucesso, era Peter. E disse que o ajudaria a conseguir isso. Acho que foi nessa noite que começámos realmente a confiar um no outro.”

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Esta entreajuda acabou por tornar o filme mais do que um trabalho para Peter Bogdanovich:

“Julgo que foi uma das experiências mais compensadoras em termos de realização que alguma vez tive”, afirma. “Originalmente, eu não ia participar como ator. Tentámos que Charles Grodin fizesse o papel e falámos com outros dois atores, até que Ben Gazzara disse, ‘por que não o fazes tu?’ E eu pensei, ‘está bem’. E foi divertido porque tive a sorte de ter George Morfogen fora de câmara a dizer-me se eu cometia algum erro e, quando o Benny Gazzara não estava em cena, também me vigiava, dando-me umas ótimas direções.”

Mediante pagamento, dir-se-ia. Durante o filme, Bogdanovich fuma charutos cubanos Montecristo Especial, de 15 dólares cada. “O Benny adorava-os. Estava sempre a usar os meus…”

Gazzara com um dos charutos de 15 dólares de Bogdanovich...
Gazzara com um dos charutos de 15 dólares de Bogdanovich…

A ESCREVER E A PENSAR…

Ator e protagonista trocaram ideias. Muitas cenas foram escritas antes de serem filmadas e, no caso dos atores não profissionais, era-lhes dito verbalmente o que deviam dizer e fazer, sem lhes fornecerem um papel. Gazzara achou o método empolgante: “Peter escrevia a cena que filmaríamos no dia seguinte. Foi quando o vi no seu melhor. Filmámos na zona chinesa, com Peter a deixar a vida nas ruas prosseguir normalmente enquanto eu deambulava pelo meio dela.”

O realizador diz acreditar na “economia do gesto”: “Se um plano faz duas ou três coisas, é melhor do que se fizer apenas uma. Acho que uma cena resulta melhor se matar dois ou três coelhos de uma cajadada, do que se estiver lá apenas por um único motivo.” Mas isto, sublinha, só é possível com “atores de primeira”. Também houve bastante espaço para improvisos. Gazzara, claro, podia desempenhar qualquer papel, e há vários momentos de humor que improvisou, tiques do personagem como “estás a brincar?”. “Isto era a maneira como o Ben falava”, diz o realizador, “e incorporámo-lo no personagem”.

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Gazzara também teve uma escapadela amorosa com Rita, uma das beldades da Malásia que integrava o elenco. Quando apareceu no dia seguinte, dormira pouco e… a filha disse-lhe que parecia arrasado: “O que andaste a fazer a noite passada, pai?” “A escrever e a pensar, Liz, a escrever e a pensar”, ripostou Gazzara, embaraçado. Bogdanovich quase caiu da cadeira, ao tentar conter o riso. “A escrever e a pensar” tornou-se um slogan para os pecadilhos da equipa.

Bogdanovich não gosta de se auto-analisar ou de examinar o seu chamado “estilo”. Diz apenas que o filme é um bom exemplo do modo como gosta de realizar ao melhor nível:

“Com isso, refiro-me a filmar em locais verdadeiros, usando bons atores mas também pessoas que não são profissionais. Há diversas mudanças de plano quando isso é imperativo, mas muitas das cenas são captadas num plano contínuo. E algumas das melhores sequências, a nível da representação, desenrolam-se em longos takes. Gosto disso também.” Durante uma pausa na rodagem, Bogdanovich apercebeu-se de que havia menos set-ups de câmara do que noutro filme que tivesse realizado.

A expressividade de Ben Gazzara num dos seus grandes papéis.
A expressividade de Ben Gazzara num dos seus grandes papéis.

Gazzara confirma: “Quando a minha primeira grande cena chegou, fiquei satisfeito ao saber que Peter tencionava fazer tudo num plano. Fez isto com frequência durante o filme todo. A câmara movia-se de um plano panorâmico, aproximando-se lentamente para um dos ângulos da ação, incluindo close-ups dos atores. Esses três elementos eram tradicionalmente feitos em separado e nós, os atores, tínhamos de esperar que o diretor de fotografia e a sua equipa reajustassem a iluminação. Peter fazia tudo ao mesmo tempo.”

FUGA AOS CLICHÉS

Ao esquivar-se aos lugares-comuns e sob a direção de Bogdanovich, Saint Jack foi bem recebido; o autor, Paul Theroux, achou-o até melhor do que o livro. Tornou-se num filme de culto com admiradores fervorosos: “Isso proporcionou-nos ótimas críticas, muitos elogios na Europa, o filme ganhou o Prémio da Crítica no Festival de Veneza, galardão que já não era atribuído há sete anos, desde Laranja Mecânica. Portanto, tornou-se numa espécie de sensação na Europa, embora tenha passado quase despercebido na América, ainda que tivesse tido excelentes críticas.” É verdade que Saint Jack não tem um público “gigantesco”, como refere o realizador.

"As pessoas fazem amor por tantas razões malucas... por que é que o dinheiro não há-de ser uma delas?" Um lema de 'Jack' transcrito no cartaz.
“As pessoas fazem amor por tantas razões malucas… por que é que o dinheiro não há-de ser uma delas?” Um lema de ‘Jack’ transcrito no cartaz.

Elaine May assistiu à versão primária e comentou, segundo relata Bogdanovich: “‘Caramba, realmente não nos dizes nada do que se passa, não podes incluir alguns elementos descritivos?’ De facto, deixámo-los de fora e acabámos por inclui-los mais tarde, apenas para auxiliar o público a seguir o enredo.” Um exemplo é uma tabacaria em que se nota o cabeçalho “Nixon chega à China”, situando a ação do filme em 1973.

Depois do percurso “acidentado” que tivera nos anos 70, Bogdanovich reunia-se outra vez a Roger Corman, com quem começara a trabalhar no cinema, tendo a sorte de assistir e participar em todas as etapas da conceção de um filme: “Ele veio a Singapura, uns dias antes de começarmos, viu que estávamos em boa forma e nunca mais nos incomodou. Fizemos o filme. E ainda somos bons amigos. Admiro-o e respeito-o tremendamente. Comecei com ele e ensinou-me lições inestimáveis.”

O FILME QUE QUERÍAMOS FAZER

Saint Jack foi realizado em 55 dias. “Mas fizemo-lo barato, sem uma equipa numerosa, eram 10 ou 12 pessoas. Não tínhamos nomes sonantes, muitos dos atores nem atores eram. Por isso, foi a tentativa de fazer algo com grande qualidade, um filme sobre alguma coisa, que tivesse uma ressonância política e moral, mas que não custasse muito dinheiro. E foi isso que fizemos. Ao olhar para trás, não digo, ‘oxalá tivéssemos mais uns dólares, mais uns dias’, não, fizemos o filme que queríamos. É um dos poucos filmes meus em que não tocaria. Pode não ser bom, mas era o que eu queria fazer.”

Saint Jack também era um dos trabalhos favoritos de Ben Gazzara, que se mostrou menos benevolente para com Roger Corman: “Tal como em Husbands, tive dificuldade em dizer adeus a Saint Jack. Ficara a gostar muito do Peter, especialmente da elegância que demonstrava sob pressão. Não foi fácil de concretizar. Peter não só o reescreveu enquanto o ia fazendo, por assim dizer, mas também tinha de ouvir ‘palpites’ do Grupo Corman ao longo da filmagem. Mas resistiu e fez o filme ao seu modo.”

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“Também descobrimos coisas pessoais em comum. Tornou-se a primeira pessoa a quem confidenciei coisas sobre o meu casamento, talvez porque Peter também passasse por situações semelhantes. Ele ouvia-me de olhos fechados e, quando eu acabava as minhas lamúrias, começava a relatar uma versão cómica das nossas tristes sagas. Rimo-nos a valer.”

A última noite de filmagem foi difícil para todos. Gazzara relata que Bogdanovich começou a dizer para filmarem pequenos inserts, como uma mão a pegar num telefone ou as catatuas no apartamento de ‘Jack’ quando, no fundo, já tinha o material que pretendia. George Morfogen sorriu a Gazzara – ambos sabiam que aquilo não iria ser incluído no filme. “Finalmente, Peter olhou para mim e sorriu”, recorda Gazzara. “Depois de uma longa pausa, virou-se para a equipa e disse, ‘muito bem, pessoal, está terminado’.”

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O realizador admite uma certa influência de Orson Welles em Saint Jack: “Foi ele a sugerir que eu lesse o livro e, a certo ponto, falou-se nele como realizador. Não diria que passei o filme a pensar nele. Eu já fizera alguns filmes por essa altura, tivera sucessos e fracassos, mas o mais interessante é que foi um marco na minha carreira.”

“Diria que Saint Jack foi influenciado por Welles, John Cassavetes e Jean Renoir, certamente. Mas foi um filme em que não tentei homenagear ninguém. O filme deve muito na verdade, à escola de cinema de guerrilha de Roger Corman, da qual sou um ‘licenciado’ orgulhoso…”

Segundo afirma, “os filmes, como qualquer arte, são um pouco como uma corrida de passagem do testemunho” e alude, neste caso específico, à aprendizagem com Roger Corman, Cassavetes e Welles. “Três cineastas que sempre insistiram na sua própria visão, em fazer as coisas à maneira deles.”

Peter Bogdanovich descreve-se como “um afortunado”: “Homens como Orson Welles, John Ford, Howard Hawks, Alfred Hitchcock e Jean Renoir foram muito generosos no tempo que me dedicaram, estudei o seu trabalho, aprendi muito com as suas obras e também com eles. E agora há pessoas que dizem ter aprendido algo com os meus filmes. E isso é bom, é uma espécie de corrida de testemunho em que passamos a outro o que sabemos, de uma geração para outra, e esperamos que isso torne tudo mais forte.”

E sim, parece que é verdade, a julgar por Saint Jack. Não sou grande admirador de outros filmes de Peter Bogdanovich, admito, mas este aconselho-o vivamente.

David Furtado

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