Oliver Stone e JFK: A corrupção é inerente ao sistema

O idealismo perdido de Oliver Stone levou-o por caminhos certeiros nos anos 90 e no novo milénio. Um exemplo é JFK, onde vemos o seu herói típico em ação, um defensor da ética e da moral, constantemente a deparar-se com obstáculos. Foi uma obra que tornou Stone no alvo de piadas nem sempre justificadas, envolvendo teorias da conspiração sobre a América.

Kevin Costner (Jim Garrison).
Kevin Costner (Jim Garrison).

Quando JFK ainda estava a ser filmado, o Chicago Tribune publicou um artigo, acusando o realizador de tentar reescrever a História, um homem que “vê conspirações em toda a parte”. É hilariante, por vezes, o modo como a imprensa americana funciona: Um jornalista do Washington Post, publicação que denunciou o Watergate, escreveu (apenas com base num rascunho do argumento de JFK obtido por baixo da mesa) que Stone só se envolvera no projeto para “ganhar uns trocos”. O The New York Times publicou quase 30 artigos acerca do filme! Pode dizer-se que Stone mobilizou a imprensa em peso com JFK, excluindo a Time, que pertencendo ao grupo Time/Warner, só o podia promover…

A ironia é que JFK (1991) levanta questões legítimas que não foram convenientemente exploradas pelos jornalistas ao longo de 30 anos (refiro-me ao Warren Report, que investigou formalmente o assassínio de John Kennedy). Passaram mais 20 e o filme continua a cativar por vários motivos, e este é um deles. As instituições americanas, tal como são mostradas no filme, são corruptas; a corrupção é inerente aos sistemas – foi por isto que muito criticaram JFK e foi por isto que o público correu para as salas de cinema para ver o cruzado Jim Garrison (Kevin Costner) “desvendar” um dos grandes enigmas da História americana.

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Com uma duração de três horas e 10 minutos, JFK não dá repouso ao espectador. E o seu impacto não deu repouso às instituições soberanas dos EUA, que tornaram público muito material que deveria permanecer secreto durante décadas. Despoletou tanta celeuma por motivos positivos, como Laranja Mecânica, por exemplo, pelos negativos. Stone chegou mesmo a publicar o seu argumento anotado, incluindo as polémicas em redor dele. Foi ocorrência inédita na História do cinema – um realizador na pele de pensador político, preparado para defender o seu caso se fosse necessário, e não se recusou a fazê-lo nos anos seguintes. Notável.

HILLARY CLINTON: “A” OLIVER STONE

O filme teve semelhante impacto na consciência americana que acabou por se aludir a ele em ambientes cómicos. Num episódio de Seinfeld, o humorista fez a sua versão da teoria da “bala mágica”. E, no mundo real, a imprensa sentiu-se atacada ou julgada como incompetente por Oliver Stone.

Hillary Clinton insinuou que os casos Whitewater, Paula Jones e Monica Lewinsky estavam a atingir proporções desmesuradas, devido a uma “vasta conspiração de Direita” que visava e destituição ou impeachment do então presidente Bill Clinton, seu marido. À distância de 17 anos, sabemos que tinha razão. Na época, a imprensa atacou-a em força, chamando-lhe… “uma Oliver Stone”!

O que a imprensa não fez foi averiguar convenientemente os intuitos do procurador Kenneth Starr ou dos advogados de Paula Jones. Bill Clinton acabou julgado como adúltero (fosse ou não, tal não impedia o desempenho das funções presidenciais) e demitiu-se, coisa que inúmeros políticos portugueses já deviam ter feito há anos, mas não fazem, pois estão colados à cadeira devido às propriedades da Super Cola 3, que até cola inocentes ao teto.

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PARA LÁ DAS GERAÇÕES

Oliver Stone terá ficado obcecado com On The Trail Of The Assassins, escrito pelo procurador Jim Garrison, pagando 250 mil dólares pelos direitos de adaptação. Contratou o editor do livro, Zachary Sklar para trabalhar o argumento, que continua a ter alguns diálogos cómicos ao jeito de Stone, como esta elegante metáfora que pretende expor como se tenta criar secretismos em vão: “Vou sair disto porque estais todos a cagar nos arbustos de cu ao léu!”

Elevando o nível… a nível técnico… há muito a elogiar em JFK. O elenco é excelente, semelhante a uma lista telefónica de atores lendários, mas não foi escolhido ao acaso, se virmos atentamente. Da histeria frenética de Joe Pesci à sensibilidade de Jack Lemmon (que tantas vezes personificou a consciência da América), passando pelo camaleónico Tommy Lee Jones ou Sissy Spacek, Gary Oldman (que quase nunca fala), Kevin Bacon, Walter Matthau, John Candy, Tomas Milian (!), Donald Sutherland… como se Stone quisesse frisar que o assassínio de John F. Kennedy ultrapassa a barreira das gerações.

As principais críticas da imprensa focaram o pretenso dilema de Stone: O realizador não denuncia o assassino. Mas seria essa a sua função? Negativo. Nova ironia. Conseguiu provar que o assunto era mais complexo, relatando histórias, todas elas com elementos verdadeiros, em que a dúvida central é jornalística: Quem, como, porquê? E à qual os jornalistas de investigação nunca responderam.

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Com o Filme Zapruder, as cenas de tribunal, misturando a granulosidade da película e vários tipos de celulóide com flashbacks em estilo documental, reconstituições, imagens de arquivo; diálogos acutilantes, montagem rápida e lenta, variando entre o film noir, o mistério, o drama histórico e o thriller, JFK nunca é maçador e transforma uma situação complexa numa trama compreensível.

Os dois Óscares atribuídos a JFK resumiram-se a categorias técnicas – fotografia e montagem, o que se justifica face à perícia monumental nestas duas áreas. Há tantos personagens que é difícil realçar um desempenho. É injusto mas também necessário que o protagonismo se centre em Kevin Costner, mais uma vez, à semelhança de Tom Cruise em Nascido a 4 de Julho, num papel em que se “excedeu” pela positiva. (Apesar de tudo, a meu ver, não está à altura da tarefa.)

Kevin Costner e Michael Rooker.
Kevin Costner e Michael Rooker.

Talvez seja o maior exemplo da obra de Stone em que este é um malabarista exímio, denunciando e entretendo. Toda a trama culmina numa explicação parecida com os desfechos de Agatha Christie ou Sherlock Holmes. Por isso, os críticos tiveram sérios problemas em catalogar ou rotular JFK.

UM CINEASTA NO ARAME

Um crítico sublinhou que “Hollywood adora recompensar filmes liberais com abordagens muito conservadoras”. A frase descreve bem a carreira de Stone e também ajuda a explicar o sucesso inexplicável de certos atores, atrizes e realizadores junto da Academia.

Costner e Oliver Stone.
Costner e Oliver Stone.

Outro ponto interessante acerca de Oliver Stone, já abordado, mas que repito, é o facto de apresentar os conflitos de uma nação sob um ângulo ferozmente individualista. Os norte-americanos adoram ver estes enredos em cinema e contagiaram o resto do mundo. World Trade Center (2006), só poderia ser elaborado assim; dois personagens presos numa trama desproporcionalmente diabólica. Quanto a mim, não resultou, mas não era fácil para nenhum realizador enfrentar um filme sobre o 11 de Setembro.

Em WTC, tal como em Wall Street ou JFK, são as relações pessoais que estão em causa e é através delas que Stone se repete um pouco. O jovem (Charlie Sheen) de Wall Street não quer muito saber se “a ganância é boa”, está mais preocupado em defender a honra do pai. A família de Jim Garrison perdoa a obsessão deste em descobrir o assassino de Kennedy, o que se torna mais importante para a resolução do filme. Encarado deste modo, Oliver Stone é um cineasta no arame: A mesma metodologia não resulta sempre, quando é enfiada à martelada num argumento…

Jim Garrison e a esposa (Sissy Spacek) numa das cenas de tribunal de JFK.
Jim Garrison e a esposa (Sissy Spacek) numa das cenas de tribunal de JFK.

Aquando da sua estreia, JFK foi criticado pela Direita por sugerir conspirações, e pela Esquerda, por sugerir que Kennedy era um símbolo de mudança liberal. Mas Stone queria realizar dramas históricos e assim o fez, misturando vários estilos de modo eficaz. Foi comparado a Samuel Fuller por ter vivido a guerra pessoalmente, experiência que se nota na sua obra inteira, e também devido ao modo rude e quase sensacionalista como se atira ao material, escrevendo diálogos fulgurantes. Se assistirmos a todos os seus filmes, vemos que é um pouco como Fuller, sempre a pôr o dedo na ferida, a abordar temas polémicos, um troublemaker. Mas, ao contrário de Fuller, Stone gerou muito dinheiro e Hollywood vive disso e da imagem.

Tal como o agressivo ‘Barry Champlain’ de Talk Radio, Stone ataca o sistema e abraça-o em simultâneo. Criou uma companhia sua, facilitando a outros realizadores a possibilidade de concretizarem os seus projetos. No recente documentário televisivo The Untold History of the United States, encontramo-lo de novo a trazer ao de cima as histórias mal contadas do jornalismo americano. Exagerado, controverso, a dar que pensar… a corrupção é inerente ao sistema, é um dado adquirido. Mas, sabendo que se trata de Oliver Stone, vale a pena assistir, pois raramente um cineasta faz o trabalho de casa de um repórter. O que já não é um dado “tão” adquirido.

David Furtado

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