Mike Nichols (1931-2014): O cinema vira os seus olhos solitários para ti

Mike Nichols era conhecido pelo dom especial na relação com os atores e aqui relato os bastidores de alguns dos seus filmes como Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, A Primeira Noite, Iniciação Carnal, Uma Mulher de Sucesso, assim como o trabalho inovador que desenvolveu com Elizabeth Taylor, Jack Nicholson, Harrison Ford e Paul Simon, entre outros. Um bom exemplo foi esta direção astuta que deu a Dustin Hoffman: “Este é o único dia em que vamos filmar esta cena, e não importa que estejas exausto ou te sintas mal. Quero que te lembres que aquilo que me vais dar, ficará em celulóide para as pessoas verem para todo o sempre. Sei que estás cansado, mas, quando fores ver este filme, se não gostares do teu trabalho nesta cena, lembra-te sempre que foi o dia em que meteste o pé na argola.”

mike nichols wandrin star (19)

Dustin Hoffman classificou este discurso de “choque elétrico”. Foi para o set, deu tudo o que tinha, deu vida à cena e a sua carreira estava lançada. O filme era The Graduate (A Primeira Noite). Mas a estreia de Mike Nichols na realização foi uma prova de fogo: Dirigir Elizabeth Taylor e Richard Burton em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? Logo na obra de estreia, Nichols mostrou ser um realizador inteligente, com génio para a comédia amarga e um ponto de vista irónico de uma sociedade retorcida, colocando personagens instáveis e refletir essas realidades sem sentimentalismos.

A amizade entre Mike Nichols, Elizabeth Taylor e Richard Burton começou quando Nichols ainda era humorista com Elaine May. “Richard e eu partilhámos, a certa altura, uma zona da Broadway – Camelot estava em cena no Majestic Theater e An Evening with Nichols and May estava no Golden Theater. Ele era um amigo e eu começava a conhecer Elizabeth bastante bem”, recordou o cineasta.

Burton e Nichols nas filmagens de Quem Tem Medo de Virginia Woolf (1966).
Burton e Nichols nas filmagens de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966).

Foi no início de 1962 que rebentou o escândalo Taylor/Burton, durante a filmagem de Cleópatra, em Roma. Este romance tem hoje contornos de glamour, mas, na época, foi uma complicação tremenda e capa no mundo inteiro. Os dois atores apaixonaram-se, e Burton, que era casado, ainda ponderou regressar à sua esposa, Sybil Williams. O estado de Elizabeth Taylor, que já era viciada em comprimidos, agravou-se. Rejeitada por Burton e pelo marido Eddie Fisher, foi internada com uma overdose de sedativos em Roma, a 17 de fevereiro de 1962. A esposa de Burton tentou suicidar-se.

Mike Nichols soube (ao reparar nas marcas) que Sybil tentara cortar os pulsos e, notando que as coisas se estavam a descontrolar, voou até Roma, alarmado pela publicidade do caso, tentando oferecer o apoio que pudesse. Terá sido esta demonstração de solidariedade o principal motivo que fez Taylor, que tinha direito de aprovação ou veto, a recompensar Mike Nichols escolhendo-o para realizar Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, lançando assim a sua carreira.

Elizabeth Taylor e Mike Nichols durante a pré-produção de Quem Tem Medo de VIrginia Woolf?
Elizabeth Taylor e Mike Nichols durante a pré-produção de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Foi uma escolha arriscada, dado que Taylor era a mulher mais poderosa de Hollywood, e Nichols, na altura com 34 anos, apesar de talentoso, nunca realizara. Tinha revitalizado a comédia nos anos 50 e 60, através da genial parceria com Elaine May, estudara posteriormente com Lee Strasberg e era um encenador imaginativo na Broadway. A escolha provou ser sábia. Desde que trabalhara com George Stevens em Giant, 10 anos antes, Elizabeth Taylor nunca recebera uma direção melhor.

mike nichols wandrin star (100)

Nichols, que viria a adquirir a reputação de trabalhar muito bem com atores, fez horas extraordinárias, ajudando Taylor a conseguir um dos melhores desempenhos da sua carreira, ou talvez o melhor, e conquistando o segundo Óscar de Melhor Atriz.

A tragicomédia doméstica de ‘George’ (Burton) e ‘Martha’ (Taylor) foi difícil de filmar, devido à relação tempestuosa do casal e, obviamente, às nuances da peça de Edward Albee. Burton lamuriou-se por Nichols estar a dedicar tanto tempo a Elizabeth. Foi ele que a encorajou a projetar a voz, fazendo-a ressoar num tom de contralto. O realizador queria mostrar como as pessoas realmente falavam e se comportavam, o que marcou uma viragem decisiva no modo como se faziam filmes em Hollywood.

Burton e Taylor. Por vezes, Nichols tinha de mediar o tempestuoso casal.
Burton e Taylor. Por vezes, Nichols tinha de mediar o tempestuoso casal.

Nichols não foi menos do que o mediador numa “zona de combate”: De certa forma, os atores, tal como foi notado por outros envolvidos na produção, transpunham o seu relacionamento para o filme. Nichols comentou que quem se estava a sair melhor naquele conflito passional era Elizabeth: “Ela estava a arrasar-lhe os nervos.”

Quando o filme estreou, em junho de 1966, gerou um tumulto quase sem precedentes, sendo aclamado e motivo de controvérsia. O argumentista Ernest Lehman e Nichols mantiveram a linguagem rude da peça de Albee, e a Warner contornou a censura, publicitando nos cartazes que o filme era para maiores de 18, quando não fossem acompanhados por adultos.

Filmagens de Virginia Woolf. (Mike Nichols à esquerda.)
Filmagens de Virginia Woolf. (Mike Nichols à esquerda.)

A estreia mundial rodeou-se de tantas atenções que nem Rock Hudson conseguiu bilhete. O New York Times chamou-lhe um dos filmes mais brutalmente honestos de sempre. Nomeado para 13 Óscares (incluindo o de realizador), a obra arrecadou cinco. Burton achou que tinha perdido porque Hollywood não lhe perdoara o facto de ter casado com Elizabeth. A verdade era que tinha dormido com várias mulheres de homens importantes de Hollywood…

De qualquer modo, Richard aconselhou a esposa a não comparecer à cerimónia, por recear perder. O receio justificou-se. O Óscar de Elizabeth foi aceite por Anne Bancroft (A ‘Mrs. Robinson’ de The Graduate). Informada da vitória, Taylor ficou exultante mas não conteve os palavrões ao saber da derrota do marido.

mike nichols wandrin star (34)

“MRS. ROBINSON, ESTÁ A SEDUZIR-ME?”

mike nichols wandrin star (1)Dustin Hoffman vinha da Broadway e já estava acostumado a vários fracassos. Não era esse o caso de Nichols. Os dois tiveram alguns problemas de compatibilidade nas filmagens de The Graduate (1967). Proveniente do teatro, onde a atmosfera era mais familiar e informal, Hoffman ficou chocado com o ambiente de Hollywood: “Entramos naqueles estúdios semelhantes a templos e ninguém fala com a equipa. Os figurantes eram tratados como escumalha. Trataram-me por “senhor” tantas vezes que comecei a achar-me um coronel do Kentucky.”

Quando a produção foi anunciada e se soube que o realizador seria Nichols, todos os agentes enviaram os atores para audições. O papel, por si só, era a garantia de uma carreira lançada. Harrison Ford ainda conseguiu duas audições, Jack Nicholson, não obteve nenhuma. Dustin Hoffman foi o escolhido.

Tinha a sensação de que nada do que fazia estava certo: “Ele [Nichols] nunca parecia feliz comigo. Atirava-me um biscoito, ocasionalmente.” O paranóico Dustin andava às voltas, repetindo “bem, nunca vamos trabalhar mais os dois, isso é certo. Este é o meu trabalho mais importante e vou apanhar um tiro”. Hoffman estava em sérias dificuldades com o papel de ‘Benjamin’, (para o qual contribuía o facto de ter mais 10 anos do que o personagem de 21 que desempenhava) até que Nichols lhe deu o conselho que já referi.

mike nichols wandrin star (9)

Foi outra obra de Nichols que desbravou novos caminhos. Quando se disse que era explosivo, Hoffman demarcou-se: “Sim, fiz um filme que explodiu, mas não sou o responsável.” Desta vez, o Saturday Review exaltou que “o cinema americano nunca mais será bem o mesmo”. Houve vozes discordantes, mas ninguém podia negar que era um dos retratos mais poderosos da “Generation Gap” de sempre, cativando públicos de várias camadas etárias.

Hoffman e Anne Bancroft ('Mrs. Robinson').
Hoffman e Anne Bancroft (‘Mrs. Robinson’).

A história de um recém-licenciado que se envolve com uma das amigas dos pais e se apaixona pela filha dessa amiga, era, de antemão, difícil de vender. No final, quando ‘Benjamin’ resgata a filha do casamento, Nichols cria um desfecho ambíguo. O impacto foi tal que, na época, Mike Nichols deu conferências em universidades. Perguntaram-lhe o que aconteceria a ‘Ben’ e ‘Elaine’. Nos anos 60, havia algumas ilusões de mudança no relacionamento entre os casais, mas o realizador mostrou-se irado e respondeu que o casal não ia “partir e tornar o mundo num lugar melhor ou criar a primeira comuna hippie”. “Provavelmente, daqui a cinco ou 10 anos, vão acabar exatamente como os seus pais”, argumentou Nichols, que conhecia bem os personagens e separava o seu filme da aura irrealista criada em redor dele.

As técnicas utilizadas por Nichols foram elogiadas e vilipendiadas. Acusaram-no de filmar The Graduate como um anúncio da Pepsi, quando o realizador procurava mostrar a alienação de ‘Benjamin’, filmando-lhe o rosto em closeup, por exemplo, e diminuindo lentamente o zoom, mostrando-o num avião cheio de gente de todas as idades, como sucede no início. O final é o oposto. ‘Ben’ parece ter encontrado a felicidade ao conquistar a mulher que ama, mas o zoom é inverso, terminando num grande plano do seu rosto e expressão desiludida.

Katharine Ross ('Elaine') e  Dustin Hoffman ('Benjamin').
Katharine Ross (‘Elaine’) e Dustin Hoffman (‘Benjamin’).

Ao longo do filme, são várias as subtis insinuações visuais de Nichols – o aquário no encontro com ‘Mrs. Robinson’ seguido da sequência em que ‘Bejamin’ está no fundo da piscina. ‘Ben’ espia ‘Mrs. Robinson’ através de um vidro e, no fim, bate num vidro, tentando impedir o casamento. A união entre ele e ‘Elaine’ provavelmente será tão insatisfatória como a pretensa união com ‘Mrs. Robinson’, sugere Nichols, mostrando um personagem isolado de todos, alienado do contacto humano. Até no modo impecável como se veste, que contrasta com o estilo casual dos jovens dos anos 60.

mike nichols wandrin star (25)

O DILEMA DE PAUL SIMON

Foi Mike Nichols que abordou Paul Simon para que escrevesse a banda sonora de The Graduate, por achar que a sua música se adequaria perfeitamente. Simon ficou lisonjeado, pois respeitava muito o trabalho de Mike Nichols e Elaine May. Mas leu o romance e não ficou tão convencido. Depois de ponderar, concordou. Surgiram, porém, dificuldades: O músico tinha a agenda preenchida com o compromisso de compor canções para o álbum seguinte do duo Simon & Garfunkel e concertos ao vivo.

Paul Simon só conseguiu escrever dois temas, «Overs» e «Punky’s Dilemma», que foram recusados. Não achou muito estimulante a escrita de bandas sonoras e desiludiu-se ao constatar que os estúdios de gravação cinematográficos eram inferiores aos do meio musical. Pressões e prazos também não lhe agradavam, o que provocou adiamentos. A solução encontrada foi integrar temas do álbum seguinte de Simon & Garfunkel na banda sonora de The Graduate, manobras geralmente lucrativas.

Art Garfunkel e Paul Simon.
Art Garfunkel e Paul Simon na época em que The Graduate foi lançado.

Face aos atrasos, Nichols teve de repensar o filme e mudou de estratégia, recorrendo ao catálogo de canções anteriores de Simon, contratando Dave Grusin para compor alguma música de fundo. O realizador insistiu com Simon que queria, pelo menos, uma canção inédita. Já desesperado, foi visitar uma sessão de gravação de Simon e Garfunkel.

É então que Art Garfunkel sugere a Paul que mostre a Nichols o tema originalmente chamado «Mrs. Roosevelt» e que, devido a um problema silábico, Simon mudara para «Mrs Robinson», o nome de uma das personagens centrais do filme. O duo andava a tentar moldar o tema de acordo com essa mesma personagem. Nichols ficou espantado, deu pulos e gritou: “Queres dizer que tinhas uma canção chamada «Mrs. Robinson» e não me disseste nada?!”

Além disso, o tema era forte, contendo versos que se tornariam clássicos. Simon especula para onde terão ido heróis respeitados como o jogador de basebol Joe DiMaggio no mundo menos civilizado que se vivia. O próprio Simon, embora fosse fã de basebol, não sabia donde tinham surgido as frases “para onde foste Joe DiMaggio, uma nação vira os seus olhos solitários para ti/O que diz, Mrs. Robinson, Jolting Joe partiu e foi-se embora”.

Elaine May e Mike Nichols, a dupla que revolucionou o humor nos anos 50 e 60, era admirada por Paul Simon.
Elaine May e Mike Nichols, a dupla que revolucionou o humor nos anos 50 e 60, era admirada por Paul Simon.

A música adiciona grande impacto à narrativa do filme, um dos primeiros a incluir rock na banda sonora; êxitos de Simon & Garfunkel como «Sounds of Silence» ou «Scarborough Fair». O álbum seguinte da dupla, Bookends, que continha a versão completa de «Mrs. Robinson» foi também um enorme sucesso por associação, em parte. The Graduate tornou-se intemporal pois, ainda que retrate os conflitos típicos dos anos 60, mencionando a política, ou os “agitadores”, também inclui algo de complexo de Édipo nos paralelismos entre a personagem de ‘Mrs. Robinson’ e a da mãe de ‘Benjamin’. ‘Mrs. Robinson’ é um símbolo de sedução embora o seu discurso seja parecido com o da mãe do protagonista.

Desta forma, Nichols diz-nos que os ideais dos anos 60 já estavam datados quando surgiam; houve a libertação sexual, sim, mas os instintos do ser humano não mudam. ‘Elaine’, por seu lado, é uma idealização de beleza e pouco mais, uma conquista. ‘Ben’ está a proceder como os seus pais provavelmente procederam antes, os nossos também e os do futuro, “perpetuando a comédia humana’, como diria o Cowboy de O Grande Lebowski (incidentalmente, Sam Elliott, que o interpreta, é casado com Katharine Ross).

'Ben' salva 'Elaine' durante o casamento.
‘Ben’ salva ‘Elaine’ durante o casamento.

‘Ben’ vive num mundo de fantasia e obsessão, de ideais românticos, oprimido por outro mundo de ânsias materialistas que também não o satisfazem. The Graduate é pessimista e satírico, não é romântico. Retrata desejos impossíveis, uma busca quixotesca. ‘Benjamin’ torna-se até numa figura “crucificada”, da maneira que Nichols o filma na igreja, de braços estendidos, tentando impedir o casamento de ‘Elaine’. O talento de Hoffman sobressai por ser totalmente errado para o papel! A imaturidade da sua personagem projeta a imaturidade da sociedade que o rodeia. E Mike Nichols filmou um romance relativamente medíocre de forma tão brilhante que lhe aumentou o impacto, tornando-o numa obra memorável para qualquer geração.

NICHOLS E NICHOLSON

Em 1970, é a vez de Nichols trabalhar com mais um grande ator em ascensão, Jack Nicholson, que, nas suas palavras, tinha o dom de “psicanalisar o que está sob as aparências”. Tinha sido um dos atores considerados para The Graduate. Iniciação Carnal (Carnal Knowledge) é outra das grandes obras de Mike Nichols em que Jack é perfeito como o porco chauvinista… O filme examina a amizade entre dois homens ao longo de 20 anos e os modos díspares como se relacionam com o sexo oposto.

Ann-Margret com Jack Nicholson, que é genial como o porco chauvinista de Iniciação Carnal (1971).
Ann-Margret com Jack Nicholson, que é genial como o “porco chauvinista” de Iniciação Carnal (1971).

Candice Bergen ficou ansiosa por trabalhar com o realizador. Na sua autobiografia, escreveu: “Desde o momento em que foi anunciado, houve logo a sensação de que algo de especial estava nos planos, uma curiosidade em saber o que Mike Nichols faria depois de The Graduate e Catch-22. Havia uma honra silenciosa só no facto de integrarmos este filme, um sentimento de privilégio.”

Aos 37 anos, Nichols era aclamado pelo LA Times como o génio precoce de Hollywood e partilhava o mesmo humor sarcástico de Jules Feiffer, o dramaturgo e humorista que escrevera Iniciação Carnal. Feiffer não achava Jack Nicholson apropriado para o papel: “Jack era bom, mas não o imaginava no personagem. Mike disse-me: ‘Acredita em mim, ele vai ser o ator mais importante desde Brando.’” Não andou longe da verdade.

Art Garfunkel e Jack Nicholson.
Art Garfunkel e Jack Nicholson.

O outro amigo era Art Garfunkel, que tentava agora fazer carreira no cinema, depois de terminada a dupla Simon & Garfunkel e se estreara na obra de Nichols, Catch-22 (filme vilipendiado por Orson Welles, que o queria realizar). Em setembro de 1970, começou a rodagem, e os atores mudaram-se para uma casa espaçosa em Vancouver, onde, segundo Candice Bergen, Nichols criou uma “pequena utopia”: “Em circunstâncias normais, vivermos tão próximos podia ser um pesadelo, mas eram condições idílicas; muitos de nós já eram amigos antes das filmagens, e os que não eram, tornaram-se amigos.”

Garfunkel e Candice Bergen.
Garfunkel e Candice Bergen.

Nichols sugeriu ao elenco que deixasse de fumar droga durante a filmagem. Nicholson viria a dizer numa entrevista à Playboy: “Ele achou que teríamos mais vitalidade, mais capacidade para entramos na faceta juvenil, especialmente nas sequências iniciais da Faculdade.”

Iniciação Carnal era um filme exigente para os atores, com Nicholson sob a direção de… Nichols. O realizador e o ator chamavam, na brincadeira, a si mesmos, “Nick and Nick”. “Acho que Jack apanhava tudo ao primeiro take, eu nem conseguia acreditar na sua franqueza, simplicidade e inteligência”, disse, impressionado, o autor Jules Feiffer. Nicholson era bom colega, ficou famoso por essa rara generosidade. Mantinha-se fora de câmara, depois de completar o trabalho, dando as deixas aos outros atores (geralmente as ‘vedetas’ não se encarregam desta tarefa). Na cena em que fala com Bergen ao telefone, exagerou propositadamente para a fazer reagir com mais intensidade, “puxando” pela colega.

Carnal Knowledge era mais um filme soberbo de Mike Nichols e, quando estreou, foi unanimemente aplaudido como tal, em críticas onde se assinalava a elegância visual de Nichols e o desempenho de Nicholson. Os dois ficaram amigos e voltariam a trabalhar juntos em The Fortune (1975), Heartburn (1986) e Wolf (1994), este último bastante superior.

As coisas não correram tão bem com Robert De Niro, que abandonou o projeto Bogart Slept Here em 1975, depois de ter sido escolhido por Nichols, após duas semanas de ensaios. De Niro não gostou que o realizador lhe desse lições sobre o que era ou não era cómico. A desculpa foi a habitual, “diferendos criativos”. No entanto, Nichols disse “é impossível dar direções àquele homem” e, mais profeticamente, “De Niro não tem piada”.

Nichols, Nicholson e May em meados dos anos 70.
Nichols, Nicholson e May em meados dos anos 70.

NICHOLS E FORD

Mike Nichols ficaria amigo de outro ator, Harrison Ford, uma associação que já vinha dos primórdios da aprendizagem de Ford na representação sob a orientação de Walter Beakel, um dos fundadores do inovador Compass Theatre de Chicago, onde Beakel trabalhara com Nichols e Elaine May. Foi Beakel que conseguiu a audição para The Graduate ao então desconhecido Harrison Ford, achando-o perfeito para o papel. “Aquele personagem parecia o Harrison da vida real mais do que outro ator que eu conhecia.”, disse Beakel. Mas o inexperiente Ford “não se saiu bem. Era jovem e faltava-lhe a confiança para enfrentar uma audição”.

Já nos anos 80, a agente de Harrison Ford convenceu o ator que era teimoso como uma mula. Patricia McQueeney era persuasiva e foi ela que se deparou com o script de Working Girl (Uma Mulher de Sucesso) e o adorou. Quando o sugeriu ao seu cliente, este disse “o filme é das raparigas”… 

"O filme é das raparigas..." Melanie Griffith, Harrison Ford e Sigourney Weaver em Uma Mulher de Sucesso (1988).
“O filme é das raparigas…” Melanie Griffith, Harrison Ford e Sigourney Weaver em Uma Mulher de Sucesso (1988).

Ford não se via numa comédia romântica, mas acabou por ser uma das experiências mais agradáveis da sua carreira, graças à persistência de McQueeney que convenceu o produtor Larry Mark. Este já se preparava para fazer a escolha decisiva: “É engraçado que tenha ligado. Íamos fazer uma oferta ao Alec Baldwin amanhã de manhã.” McQueeney disse, “veja se lhes dá a volta…”

mike nichols wandrin star (43)A oferta era irrecusável. Melanie Griffith e Sigourney Weaver já estavam escolhidas e Baldwin foi remetido para um papel secundário, ficando com um sério problema de dor de cotovelo: “ Mal aparece o Harrison Ford, vai tudo ao ar e assinam com ele”, desabafou o talentoso canastrão. Na realidade, Beakel tinha sido o mentor de Nichols e Ford, conheciam-se há 20 anos. Desta vez, quando apareceu nos ensaios, já não era o jovem inseguro que fora rejeitado para o papel em The Graduate.

Foi a primeira vez que veio à tona uma justificação para a cicatriz no queixo de Harrison num filme, ideia que surgiu numa conversa entre Ford, Nichols e Melanie Griffith. Ford sugeriu que o seu personagem, ‘Jack Trainer’ dissesse que a tinha adquirido num combate com facas, para depois admitir que desmaiou e bateu com o queixo no tampo de uma sanita…

Mike Nichols revelou: “Muitas das mudanças em Working Girl vieram por sugestões de Harrison, o facto de o seu personagem estar em sarilhos, o facto de arriscar a sua posição, tudo isso foi contribuição dele. É dos atores mais inteligentes que alguma vez conheci.”

Nichols também viu um rapazinho no set à procura do “ator que fazia de Indiana Jones”, em busca de um autógrafo. Foi perguntar a Harrison se o conhecia. “Desculpe, senhor, onde posso encontrar o Harrison Ford?” “Oh, ele anda por aqui, algures. De calças claras e casaco.” Nichols recorda: “Pôs-se a descrever como ele próprio estava vestido.” O miúdo apercebeu-se: “É o senhor.” “Harrison típico”, disse Nichols. “Encontrou a maneira mais gentil de o dizer ao miúdo sem o magoar.”

Ford tinha fobia a promoções e era um bicho-do-mato. Só saiu do seu exílio, nesta fase, para ajudar Nichols a promover Working Girl, submetendo-se a várias entrevistas. Numa homenagem a Mike Nichols, em 1990, em Nova Iorque, Harrison Ford também compareceu, embora odiasse tais eventos e estivesse pouco à-vontade.

Nichols e Ford ficaram mais amigos desde Working Girl. Tinham muito em comum: Eram ambos descendentes de judeus russos, dotados de um cinismo parecido e tinham andado a dormir na Faculdade… Possuíam também vários amigos em comum. Walter Beakel conhecia bem os dois e afirmou: “Não me recordo de ninguém com quem tenha trabalhado que fosse como Harrison, exceto talvez o Mike. Se disséssemos algo desagradável ao Mike, magoávamo-lo a sério, ele ia-se abaixo. Telefonava-me às duas da manhã. Harrison também era muito assim, na juventude. Mas não o demonstrava pois não queria que o detetássemos. Cada um ao seu modo, eram muito parecidos.”

Ford e Mikki Allen no subestimado Regarding Henry.
Ford e Mikki Allen no subestimado Regarding Henry.

A “INTERPRETAÇÃO” DOS ATORES

Quando surgiu a hipótese de trabalharem em Regarding Henry (O Regresso de Henry) nenhum dos dois hesitou. Este guião fora escrito por um recém-licenciado sem experiência, Jeffrey Abrams, e era fenomenal. A história de um implacável advogado de Nova Iorque que perde a memória e fica com a mentalidade de uma criança após ser alvejado e sofrer danos cerebrais, tendo de reaprender a viver e a conviver com a sua antiga e hipócrita vida.

O argumento impressionou o produtor Scott Rudin, que o enviou a Harrison. Este entrou de imediato em contacto com Mike Nichols, que detetou algumas falhas mas ficou igualmente surpreendido com a maturidade do trabalho. Na época, o filme foi subestimado; é um dos maiores desempenhos de sempre de Harrison Ford no papel de ‘Henry Turner’, o advogado egocêntrico, arrogante e elitista que se transforma num ser humano gentil.

Ford também era assim, como disse Mike Nichols: “Vi-o fazer um estardalhaço por causa de uma suite no Savoy e depois vi-o a ser fantástico com os seus filhos e com os meus.” Ford concordou: “Ambos os ‘Henrys’ estão em mim. Estão em todos nós.”

Bill Nunn, o diretor de fotografia Giuseppe Rotunno, Mike Nichols e Harrison Ford em Regarding Henry.
Bill Nunn, o diretor de fotografia Giuseppe Rotunno, Mike Nichols e Harrison Ford em Regarding Henry.

A realização de Nichols traz à superfície o melhor dos atores: Annette Bening e Mikki Allen, de 13 anos. Nichols conhecia Ford tão bem, a sua obsessão pelo perfecionismo, minimalismo, bom gosto e arrumação que, quando visitou o seu lar, comentou: “A casa dele é uma metáfora – tudo funciona na perfeição.” E acrescentou:

“Muitos atores de sucesso pagam um tremendo preço, a vergonha de fazerem algo que não é bem sério, que não é bem másculo. É por isso que bebem e se drogam e são mulherengos. O rigor e o sentido prático de Harrison, a sua convivência com a família e o facto de viver para ela, esquivando-se a qualquer tipo de vida social – a abordagem de carpinteiro que tem pela profissão – preservaram-no, de alguma forma, da inquietude e da auto insatisfação.”

O LOBO QUE MORDEU O HOMEM

pfeiffer nicholson wolf
Pfeiffer e Nicholson em Lobo (1994).

No início da década de 90, depois de trabalhar ano e meio no argumento de Wolf sem conseguir resultados satisfatórios com o romancista Jim Harrison, Nichols pede ajuda à sua antiga cúmplice, Elaine May, que já trabalhara como “script doctor” em vários filmes e ajudara Nichols. May não conseguira alcançar o estatuto do colega, apesar de ser igualmente talentosa. (Veja-se The Heartbreak Kid ou A New Leaf.) O descalabro financeiro e comercial de Ishtar (com Dustin Hoffman, ironicamente) banira-a de Hollywood. Mas foi a sua versão do argumento de Wolf que deixou Nichols e Michelle Pfeiffer satisfeitos. A atriz achou que o enredo apelava ao seu lado sombrio. (Ainda bem, pois Sharon Stone tinha sido considerada inicialmente para este papel.)

Mia Farrow deveria participar no filme, mas, por esta altura, rebentou o escândalo que a opôs a Woody Allen pela custódia dos dois filhos do casal, aliada à admissão de que Allen era amante da filha adotada de Farrow e acusações de abuso de outra filha, esta menor, por parte do realizador. Farrow saiu do projeto “para não provocar problemas a Mike”, segundo disse.

Wolf era uma interpretação do mito do lobisomem, genialmente recriada – um homem mordido por um lobo transfigura-se, física e psicologicamente. Não era um género que alguém associasse a Mike Nichols. A sua genialidade tornou a fábula em parábola; o guião é engenhoso, as interpretações muito acima da média e os efeitos especiais ficaram a cargo de outro génio, Rick Baker.

mike nichols wandrin star (44)

Tal como diz a letra de «Mrs Robinson», “para onde foste Joe DiMaggio, uma nação vira os seus olhos solitários para ti”. Algo de parecido sucedeu no cinema, cada vez mais pobre, agora com a perda de um dos maiores realizadores da sua História. Mas, como o próprio Nichols disse a Dustin Hoffman, o trabalho ficará para sempre.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s