Oliver Stone: 40 anos de cinema – De salvador a mito de uma geração

“Alguém escreveu uma vez: ‘O Inferno é a impossibilidade da razão.’ É com isso que este lugar se parece – com o Inferno. Já não posso com isto e só passou uma semana.” Esta é parte da narração de Platoon. Para Stone, já tinham passado 10 anos desde o início da carreira e o momento era crucial: Em dezembro de 1984 nasce o seu filho. Em março de 1985, morre o seu pai.

A imagem icónica de Platoon.
A imagem icónica de Platoon.

Oliver Stone já não estava para aturar as “brincadeiras” usuais do negócio. Instruiu os seus advogados a atacarem Dino De Laurentiis com diversos processos judiciais que poderiam impedir o lançamento de O Ano do Dragão. O produtor cedeu e Stone recuperou o argumento de Platoon.

Quando visitava o seu amigo, o fotojornalista Richard Boyle, o realizador encontrou anotações acerca das suas aventuras como correspondente em El Salvador. Ambos começaram a escrever um guião, viajando inclusivamente até ao país. Stone ficou espantado perante as semelhanças que encontrou com o Vietname, durante os anos em que os EUA se começavam a envolver.

James Woods (e John Savage ao fundo) em Salvador.
James Woods (e John Savage ao fundo) em Salvador.

O produtor Gerald Green mostra o guião de Stone a John Daly, que, com David Hemmings, chefiava a britânica Hemdale Films. Obtivera recentemente um grande sucesso com O Exterminador Implacável e, impressionado com os argumentos de Stone – tanto o de Salvador como o de Platoon –, Daly propõe o financiamento de ambos, com Stone a realizar.

Nos EUA, especialmente durante o regime de Reagan, poucos queriam saber das atrocidades que os “paladinos da liberdade” cometem pelo mundo fora, mas, em Inglaterra, as políticas americanas na América Central recebiam mais atenção. Assim, Stone pôde dispor de 3,5 milhões para filmar Salvador (acabando por gastar mais um milhão).

O temperamental James Woods, Elpidia Carrillo e Oliver Stone na rodagem de Salvador.
O temperamental James Woods, Elpidia Carrillo e Oliver Stone na rodagem de Salvador.

O argumento de Stone não dava tréguas ao criminoso imperialismo americano, que consistia, entre outras manobras, no fornecimento de armas e tropas para um encapotado combate ao comunismo. O governo de El Salvador apoiou a produção, visto que o argumento descrevia um final em que o exército destruía os rebeldes numa batalha. Porém, o conselheiro militar do filme, Coronel Ricardo Cienfuegos, foi assassinado ao jogar ténis e o presidente Duarte retirou o apoio.

EM CHEIO NO ALVO

Salvador continua a ser considerado (discutivelmente) o melhor filme de Oliver Stone. Foi certamente um dos mais corajosos – surgiu depois de Under Fire, obra de Roger Spottiswoode, sobre um fotojornalista obrigado a tomar posição na Guerra da Nicarágua, um bom filme que foi um fracasso. Obras sobre a América Latina não vendiam, mas o determinado Stone já ponderara realizar Salvador com um orçamento reduzido e com Boyle a desempenhar o seu próprio papel.

Outro trunfo foi a escolha de Robert Richardson para a fotografia. Já filmara um documentário em El Salvador para a BBC, sendo capaz de adicionar realismo bem como impacto visual. Stone escolheu Martin Sheen para o papel de Boyle e James Woods para o de Doc Rock. Só que Woods adorou o papel de Boyle, acabando por interpretá-lo de modo fulgurante. Entre todos os desempenhos de Woods, este é porventura o seu melhor. O ator foi injustiçado nos Óscares, perdendo para Paul Newman, num flagrante prémio de carreira. O papel de Doc Rock foi para James Belushi.

A rodagem teve os seus momentos humorísticos: Woods detestava poeira, escorpiões, enfim, animais rastejantes, e teve de suportar tudo isso. Houve algumas cenas perigosas e, numa delas, em que um avião voa a baixa altitude sobre Woods, o ator ficou compreensivelmente assustado com a hipótese de o aparelho se ensarilhar nos fios dos postes telefónicos e se despenhar sobre ele. Depois de uma acesa discussão com o realizador, abandonou o set, no México, e foi embora a pé! Quando o apanharam, estava quase na fronteira com os EUA. Felizmente regressou.

Em Salvador, todos os elementos se reuniram – a fotografia de Richardson a conferir autenticidade às cenas de combate, atores dedicados, um argumento de execeção e o enérgico Stone a empregar o humor para sublinhar a violência, o que não é de menosprezar; tal equilíbrio é muito difícil e, mal gerido, descambaria no caricatural.

James Woods: "Tenha dó, Sra. agente..."
James Woods: “Tenha dó, Sra. agente…”

Há um duplo sentido no título entre o termo “salvador” e o país. A salvação da “alma perdida” de Boyle é o que está em causa, no meio da injustiça e da revolução. Esta é alcançada através do amor de ‘María’. Há episódios de sacrifício, como a violação e assassínio das freiras ou a sequência em que o padre é assassinado na igreja. E uma visão extremista das mulheres: Ou são santas ou figuras da autoridade gélidas ou promíscuas. Ainda nos EUA, quando Boyle é detido a conduzir como um maníaco, gera-se este interessante diálogo com a agente, interpretada pela conhecida culturista Sue Ann McKean:

Agente: Sr. Boyle, a sua carta foi cancelada. Está a conduzir sem carta, documentos ou seguro. Tem quatro multas pendentes por excesso de velocidade, todas com mandado. 43 por estacionamento proibido, pendentes.
Richard Boyle: Caramba.
Agente: Nada no seu carro está legal. Até a sua carteira profissional de jornalista caducou.
Richard Boyle: Caducou? Porra.
Agente: Vou levá-lo.
Richard Boyle: Não, espere, eu não sou esse Richard Boyle. Isso está sempre a acontecer. Há outro Richard… tenha dó, Sra. agente…

Em El Salvador, enontramos ‘María’ (Elpidia Carrillo), inocente e que insiste na salvação de Boyle através do catolicismo, e a freira ‘Cathy Moore’ (Cindy Gibb), que, depois de violada e, ao ver uma espingarda apontada à cabeça, benze-se. Stone não filma o tiro. O filme vai alternando entre o registo da tragédia, do humor e da ação, sem nunca se tornar aborrecido ou de mau gosto. Ao ver o cadáver de ‘Moore’, Boyle coloca a sua aliança no dedo da amiga morta.

John Savage, num pequeno mas brilhante papel, e James Woods.
John Savage, num pequeno mas brilhante papel, e James Woods.

Começa aqui a desenvolver-se na obra de Stone a relação de fascínio/repúdio pelos jornalistas de TV. Em El Salvador, Boyle encontra ‘Pauline Axelrod’ (cujo apelido é um trocadilho sexual), jornalista mais interessada no protagonismo de fazer diretos no terraço do hotel do que em averiguar a verdade do conflito e o envolvimento criminoso dos EUA. Os diálogos continuavam a ser hilariantes e verosímeis, como este, entre Boyle e a jornalista ‘Axelrod’:

Richard Boyle: Esta reportagem e tu, Pauline, estão 100% inequivocamente cheios de merda.
Pauline: Olha quem fala. Tu e o teu amigo são tão cheios de merda que é inacreditável. Até me ofende…
Richard Boyle: Sabes o que me ofende? Ofende-me o que vimos em Santa Ana, no outro dia.
Pauline: Ah, sim? O que viram?
Richard Boyle: Um miúdo levou um tiro na cabeça e foi enforcado num tanque por não ter a puta da cédula. Sabes o que é a cédula?
Pauline: Sei.
Richard Boyle: Se vais analisar a situação, então analisa bem. Se não tens uma cédula carimbada no dia da eleição, estás morta. Que raio de democracia é esta, em que tens de votar e, se não votas, és considerado um comuna subversivo? As pessoas votariam no Pato Donald ou no Genghis Khan ou em qualquer um em que mandem votar, porque, se não votarem, é isto que acontece.
Pauline: És um profissional do caralho. É por isso que não duras duas semanas numa estação.
Richard Boyle: Yuppies de merda, fazem figurinhas no telhado do Camino Real e acham que sabem a história toda. Luzes da cidade, o tanas! “Duas semanas em El Salvador” por Pauline Axelrod.
Pauline: “Putas e bebedeiras em El Salvador”, por Richard Boyle.
Richard Boyle: Contigo não, rainha do broche de Nova Iorque. A lamber botas às pessoas certas, não admira que arrastes a cona por todas as estações.
Pauline: Com licença.
Richard Boyle: Pauline, desculpa.
Pauline: Vai-te foder, Boyle!
Richard Boyle: Leva isto na desportiva. Eu sou um idiota.

Para equilibrar possíveis radicalismos, Stone incluiu diálogos em que Boyle proclama a sua crença no “modo americano”. Como assinalou um crítico, e com muita perspicácia, “os cínicos são idealistas que não aceitam o facto de os seus ideais serem muitas vezes inalcançáveis”. Boyle pode ser um bandalho cínico, mas sai de El Salvador um ser humano porque se preocupa. A única coisa que resta acrescentar é, se não viram Salvador… vejam.

LUTA PELA ALMA

Em 1986, Oliver Stone compete consigo mesmo nos Óscares na categoria de argumentista por Salvador e Platoon, dois filmes extraordinários, produzidos num curto espaço de tempo entre si.

Platoon não é apenas uma história de soldados ou de guerra. Tal como Salvador, é a transformação de um conflito político (e bélico) numa história pessoal, refletindo a experiência íntima e autobiográfica do realizador. É a luta entre o Bem (‘Sargento Elias’) e o Mal (‘Sargento Barnes’) na alma e no coração de um jovem soldado que acaba por personificar a alma da própria América.

'Barnes' (Tom Berenger) e 'Elias' (Willem Dafoe). Ambos nomeados na categoria de Melhor Ator Secundário. E qual deles o melhor.
‘Barnes’ (Tom Berenger) e ‘Elias’ (Willem Dafoe). Ambos nomeados na categoria de Melhor Ator Secundário. E qual deles o melhor.

O sucesso e brilhantismo de Platoon reside no modo como se esquiva a todos os lugares-comuns. Samuel Fuller fora pioneiro nesta abordagem, e outros cineastas tinham conseguido alcançar um nível que se encontra em Platoon, como Sam Peckinpah em The Cross of Iron (1977), para dar um exemplo. Mas não de maneira tão coesa. Aqui, o inimigo nem é o mais importante e, quando surge, é tratado com respeito.

A verdadeira história do conflito, o único conflito, reside na alma dos soldados, capazes de violação, assassínio e de incendiarem uma aldeia, mas igualmente capazes de resgatar uma criança, levando-a nos braços. Paradoxal. A questão também não é o patriotismo ou a ausência dele. E Stone encara e caracteriza o heroísmo apenas e só como um instante em que o Homem se rende à besta que habita dentro dele, como descreveu os atos que levaram à sua condecoração por bravura. Por estes motivos, o título dado em português, Os Bravos do Pelotão, é um tiro no pé, passe a analogia.

Charlie Sheen ('Chris').
Charlie Sheen (‘Chris’).

Os oito Óscares para que Platoon foi nomeado, justificam-se pelo equilíbrio entre argumento, interpretações e realização. Dir-se-ia que não há uma falha. Stone fez questão de submeter os atores a treino de combate, supervisionado pelo conselheiro militar Dale Dye.

Como ‘Chris’ reflete, no final, “aqueles de nós que se safaram têm a obrigação de voltar a construir, ensinar aos outros o que sabem e tentar, com o que resta das suas vidas, encontrar uma virtude e um sentido para esta vida”.

O filme, que nunca cai no dramatismo fácil, seria o primeiro de uma trilogia sobre o Vietname, que Stone prosseguiu com Nascido a 4 de Julho e Quando o Céu e a Terra Mudaram de Lugar.

“A GANÂNCIA É BOA”

Platoon arrecadou quatro Óscares e tornou Oliver Stone no cineasta do momento. Em 1987, estreia Wall Street, na Era da ganância. Não é apenas uma sátira, é uma análise ao sistema capitalista e à obsessão por subir na vida em Manhattan. A “abordagem Stone” torna os ganaciosos quase uns ativistas empenhados como formigas obreiras, e Wall Street é, adicionalmente, uma parábola acerca de Hollywood: Os homens do dinheiro são os criadores da obra e importa menos quem fez o trabalho do que quem obtém o crédito por ele.

Charlie Sheen e Michael Douglas em Wall Street (1987).
Charlie Sheen e Michael Douglas em Wall Street (1987).

A escolha de Michael Douglas foi um claro exemplo (frequente em Stone) de contratar um ator “errado” para o papel, mas que resultou em pleno. Douglas, que era um produtor de sucesso, revitalizou a sua carreira na representação, vencendo o Óscar de Melhor Ator.

Em 1987, Oliver Stone realiza outro filme que foge aos estereótipos e está longe da panorâmica grandiosa de Wall StreetTalk Radio (As Vozes da Ira), sobre um apresentador controverso de um programa de rádio, ‘Barry Champlain’. A obra, baseada num livro, fora levada à cena com Eric Bogosian neste papel, e Stone, que originalmente seria co-produtor, acabou por realizar, com Bogosian a reinterpretar o personagem.

Eric Bogosian em Talk Radio.
Eric Bogosian em Talk Radio.

Muitos consideram ‘Champlain’ o mais próximo que se encontra de um auto-retrato na filmografia de Oliver Stone. Utilizando o programa de rádio para mostrar um retrato cínico da América, do fundamentalismo à intolerância, o cineasta emprega uma estrutura narrativa diferente dos filmes anteriores. O Vietname é referido como o momento que definiu a História americana; o casamento? “Fuck the marriage!” ‘Champlain’ é também acusado de querer “mudar o mundo” pelo diretor da estação.

Mas Stone personaliza a história, através dos problemas amorosos do agressivo e inteligente ‘Champlain’, e quando o personagem vocifera estas diatribes:

“Sou um hipócrita. Peço sinceridade e minto. Denuncio o sistema ao mesmo tempo que o aceito. Quero dinheiro e prestígio e poder, quero audiência e sucesso. E estou-me borrifando para vocês ou para o mundo. É essa a verdade: E podia dizer que o lamento, mas não digo. Porquê? Quem raio são vocês, afinal? O público! Atacam-me todas as noites como uma matilha de lobos porque não conseguem enfrentar o que são nem aquilo de que são feitos! Sim, o mundo é um lugar terrível. Sim, o cancro e aterros sanitários vão apanhar-vos. Sim, vem aí uma guerra. Sim, o mundo foi parar ao Inferno e vocês foram todos com ele. Está tudo lixado e vocês gostam assim, não é? Fascinam-vos os detalhes sangrentos. Vivem cativados pelo vosso próprio medo. Deliciados com cheias e acidentes de automóvel, doenças incuráveis. São mais felizes quando os outros sofrem. É aí que eu entro, não é? Estou aqui para vos levar pela mão através da sombria floresta do vosso próprio ódio, cólera e humilhação. Forneço um serviço público.”

oliver stone 2 (17)

A questão essencial do personagem é se ele deixa que o amem. Acaba assassinado. A obra, filmada em apenas um mês (e com as restrições inerentes ao facto de a maioria da ação se desenrolar num estúdio de rádio), é das mais intensas de Oliver Stone. O realizador compreendia o poder da rádio e dos media, em geral, a sua superficialidade e o que sucede quando a verdade se infiltra. ‘Champlain’ é tão radical que nem o podemos classificar de esquerda ou de direita. E os silêncios valem ouro, tal como na rádio.

NASCIDO A 3 DE JULHO

O ex-veterano do Vietname ainda não dissera tudo sobre o conflito e, em 1989, surge Nascido a 4 de Julho, 10 anos depois da tentativa frustrada com Al Pacino. Cruise nascera a 3 de julho curiosamente, mas, mais importante do isso, adorou o guião e, só assim, o filme pôde ser produzido. O ator, que se tornara numa superestrela com o sucesso estrondoso do superficial Top Gun, demonstrou um talento que não se lhe conhecia. O realizador, por seu turno, decidiu apostar num intérprete que, tal como Michael Douglas, não era, à partida o mais indicado para um papel tão exigente.

Oliver Stone, Kyra Sedgwick e Tom Cruise na rodagem de Nascido a 4 de Julho.
Oliver Stone, Kyra Sedgwick e Tom Cruise na rodagem de Nascido a 4 de Julho.

Enquanto ‘Chris Taylor’ escapa ileso e com cicatrizes psicológicas, Ron Kovic sofre na pele as consequências – a sua tragédia é ainda mais complexa. Os mitos de John Wayne são falsos e, quando regressa aos EUA, a devastação da sua psique e das suas crenças é mais profunda. O seu país rejeita-o agora. Existe também uma busca pela salvação (como em Salvador), só que Kovic tem de fazer as pazes com a América. Nascido a 4 de Julho retrata esse doloroso processo.

Tom Cruise no papel de Ron Kovic, em cujo livro se baseia Nascido a 4 de Julho.
Tom Cruise no papel de Ron Kovic, em cujo livro se baseia Nascido a 4 de Julho.

Restam poucas dúvidas de que este é o melhor desempenho de sempre de Tom Cruise, ainda que o filme seja heterogéneo, alternando entre o intenso, e até insuportável, e o politicamente correto: Kovic não se refugia em radicalismos.

O MITO DE DIONÍSIO

Não espanta que Stone se tenha dedicado, em seguida, a The Doors, um símbolo da “sua” geração. Foi uma fase em que começou a experimentar com vários formatos de película e com a montagem. Até então, não eram muitas as biografias de rock bem sucedidas e o cineasta tinha de o manter interessante.

Val Kilmer em The Doors: O Mito de Uma Geração (1991).
Val Kilmer em The Doors: O Mito de Uma Geração (1991).

A obra acabou por ser produzida sem a cooperação do teclista do grupo, Ray Manzarek e com tensão relativamente à família da companheira de longa data de Jim Morrison, Pamela Courson, falecida a 25 de abril de 1974. Stone dispunha do maior orçamento até então, 38 milhões de dólares. Em dois meses, conseguiu recriar a atmosfera dos concertos dos Doors – e estas sequências são notáveis –, chegando a encorajar 3 mil figurantes a comportarem-se como se estivessem em Woodstock, bebendo e drogando-se.

Meg Ryan (Pamela Courson) e Val Kilmer (Jim Morrison).
Meg Ryan (Pamela Courson) com Val Kilmer, uma inspirada escolha para o papel de Jim Morrison.

The Doors (1991) era um projeto que já andava em circulação há anos. Os direitos de adaptação tinham sido comprados pela Columbia Pictures em meados dos anos 80, e Stone fora mencionado para a escrita do argumento. A Imagine comprou por sua vez os direitos à Columbia, e Stone estava disposto a fazer o trabalho, tendo-se encontrado com os elementos do grupo, que tinham poder de decisão acerca do argumento. Foi no entanto, rejeitado por eles.

Brian De Palma, Paul Schrader, Walter Hill e Ron Howard foram sugeridos para o cargo de realizador. E entre os protagonistas considerados para o carismático (e difícil) papel de Jim Morrison constaram os nomes de Timothy Bottoms e John Travolta. Só depois de Oliver Stone realizar Platoon e da entrada em cena de Andrew Vajna da Carolco, em 1989, o grupo acedeu. Curiosamente, Stone ia realizar Evita, com Madonna.

A pesquisa e a escrita do argumento tinham sido inicialmente feitas por Randal Johnson, quando o projeto ainda estava em gestação. Johnson teve de reclamar a autoria e o crédito. The Doors era tão pessoal para Stone que este surge no papel de professor de cinema de Jim Morrison na UCLA, de barba, um pouco a fazer lembrar Martin Scorsese, o seu próprio professor de cinema.

Stone descobrira os Doors quando era soldado no Vietname, e retrata Jim Morrison como uma figura de libertação, inspirada em Dionísio, mergulhada na indulgência espiritual que tanto marcou os anos 60, numa obra em que a música assume papel secundário. A ascensão e queda do vocalista dos Doors é também uma batalha entre o Bem e o Mal, com Patricia de um lado e os vampirescos frequentadores da Factory de Andy Warhol no campo oposto.

oliver stone 2 (8)

Outro aspeto que universaliza o filme e torna The Doors apelativo para quem não seja admirador do grupo é o subtexto introduzido no enredo, o do artista atormentado e a forma como encara a sua musa, que, neste caso, é Pamela Courson e, noutros casos, terá outro nome.

Continua no próximo artigo.

David Furtado

Advertisements

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s