Oliver Stone, 40 anos após o primeiro filme: O idealista desiludido

“A religião organizada é para as pessoas que temem o Inferno, mas a verdadeira espiritualidade é para as pessoas que estiveram no Inferno.” Oliver Stone foi alguém que, mesmo nos tempos em que era desconhecido, já mostrava propensão para temas polémicos, abordando-os com estilo próprio, que varia entre a pulp fiction e o documental; introduzindo temas metafísicos, políticos e intemporais no conflito humano.

Oliver Stone no Vietname.
Oliver Stone no Vietname.

Para uns, Stone é um cruzado de lança apontada ao puritanismo e à hipocrisia americana, arriscando visualmente de modo experimental. Para outros, é alguém sempre pronto a apostar no grosseiro, no violento, caracterizando a mulher como um objeto, caindo no mau gosto e no exibicionismo descarado e comercial. Esta mistura conquistou-lhe tantos seguidores como detratores. Anthony Hopkins achou-o o melhor realizador com quem trabalhou, acrescentando: “É um canhão sem freios como Orson Welles, é arrojado.”

Provavelmente, a realidade encontra-se algures no meio ou até nem possa ser tão polarizada ou “categorizada” desta forma, se examinarmos os seus argumentos. E era por aí que queria começar, a sua faceta de argumentista, já que muitos provavelmente desconhecerão, como eu desconhecia, que determinados filmes foram escritos por Stone e que este aspirava, de início, ser romancista.

oliver stone 1 (2)Nos sets dos seus filmes, o realizador é conhecido por criar tensão entre os atores, pondo-os uns contra os outros e gerando grandes interpretações. Quando era argumentista, a “guerra” era com realizadores e produtores que alteravam o que tinha escrito.

Apontaram-lhe muitos paradoxos. Cresceu na América dos anos 50 e 60, num contexto familiar privilegiado, o que não o impediu de viver a Guerra do Vietname como soldado, um conflito que destruiu esses mesmos ideais. A América julgava-se inocente. Foi um dos factores que transformou Stone num observador que desdenha áreas cinzentas.

Até a sua ascendência é peculiar: O pai era um corretor da bolsa judeu, a mãe, uma católica francesa, de mente menos conservadora e que frequentava os círculos artísticos de Nova Iorque. O filho poderia ter seguido um percurso nas elites da sociedade, mas optou pela cultura popular dos anos 60, as experiências com a droga e o caos da guerra.

Nos seus filmes, encontramos quase sempre traços constantes no herói: É um idealista desiludido, confrontado com injustiças que o revoltam. E estes personagens descobrem muitas vezes a besta dentro de si mesmos. Os temas que abordou foram bem recebidos pela Academia, pois o cineasta tem o cuidado de evitar radicalismos, preferindo uma imagem mais liberal. E o individualismo do herói de Stone torna-o atrativo para as plateias americanas.

O ex-veterano do Vietname 'Stanley White' (Mickey Rourke) em O Ano do Dragão é um dos típicos heróis de Stone.
O ex-veterano do Vietname ‘Stanley White’ (Mickey Rourke) em O Ano do Dragão é um dos típicos heróis de Stone.

O SOLDADO NO VIETNAME

Stone foi educado em Manhattan, frequentou a Igreja Episcopal e escolas seletas. Em 1965, estuda literatura na prestigiada Yale e sofre um esgotamento. É então que se inscreve num programa de ensino na Ásia e é destacado para Saigão. Stone não estava talhado para o conformismo social dos seus pais. Queria “realidade” na sua vida e encontrou-a em Saigão, em 1965, quando o contingente americano no território já alcançava o meio milhão de soldados. Levava uma vida dupla, ensinando de dia e envolvendo-se na desaconselhável vida noturna.

Martine Beswick no primeiro filme realizado por Stone, Seizure (1974).
Martine Beswick no primeiro filme realizado por Stone, Seizure (1974).

O ensino aborreceu-o, pelo que se alistou na marinha mercante, regressando aos EUA em 1966. Passou quatro meses no México escrevendo um romance, A Child’s Night Dream. Estava já obcecado pelo Vietname. O pai convenceu-o a regressar à faculdade, mas Oliver desistiu novamente alguns meses depois. Em abril de 1967, alista-se na infantaria e, em setembro, já está em solo vietnamita.

Foi ferido duas vezes, descobriu as drogas, a música soul. O pai tentou resgatar o filho, voando duas vezes para Hong Kong e tentando exercer influência para que Oliver fosse transferido para serviço de não-combatente. Oliver recusou-se e acabou na chamada Cavalaria Aérea, destacado para um pelotão de reconhecimento de longo alcance. É aí que conhece várias pessoas que serviriam de modelo para as personagens de Platoon. É condecorado com a Estrela de Bronze devido a um ato irrefletido e tresloucado, semelhante ao que é mostrado no filme, em que ‘Chris’ começa a disparar como um animal sobre os inimigos.

“Percebi que o combate é totalmente aleatório. A vida é uma questão de sorte ou destino, escolham… tornei-me espiritual no Vietname. A religião organizada é para as pessoas que temem o Inferno, mas a verdadeira espiritualidade é para as pessoas que estiveram no Inferno. Possivelmente, fui salvo por uma razão… para escrever sobre a experiência, talvez. Para fazer um filme sobre ela.”

O REGRESSO AOS EUA E OS PRIMEIROS ARGUMENTOS

Quando foi desmobilizado, viajou para o México onde foi detido por posse de marijuana, sendo acusado de tráfico e preso em San Diego. Avisou o pai, Lou Stone, que, por meio de subornos, conseguiu libertá-lo. Regressa então a Nova Iorque, onde escreve argumentos, influenciado pela Nouvelle Vague francesa. O seu estatuto de militar permite-lhe que se inscreva na Universidade de Nova Iorque e comece a frequentar o estabelecimento em 1969, no qual um dos seus professores mais influentes foi Martin Scorsese.

Irene Miracle e Brad Davis em O Expresso da Meia-Noite. Stone baseou-se, em parte, na sua própria experiência (e corrupção do sistema prisional) quando escreveu o argumento.
Irene Miracle e Brad Davis em O Expresso da Meia-Noite. Stone baseou-se, em parte, na sua própria experiência (e corrupção do sistema prisional) quando escreveu o argumento.

Nessa época, Stone destacava-se dos colegas, envergando o seu camuflado, à semelhança de ‘Travis Bickle’ em Taxi Driver. E, quando terminou o curso, um dos seus empregos foi o de taxista. É costume dizer-se que muitos não voltaram e que os que voltaram não eram os mesmos. Stone foi um deles. Consumia muitas drogas, era admirador dos Doors e andava à deriva. Teve a sorte, contudo, de conhecer a sua primeira esposa Najwa Sarkis, de origem libanesa, que o apoiou, ajudando, inclusive, a polir os vários argumentos que Oliver escrevia.

Os primeiros passos no cinema foram dados com a ajuda do seu amigo de infância Lloyd Kaufman. Ambos foram produtores associados de um filme insólito, mistura de thriller e soft porn, Sugar Cookies (1973), com Mary Woronov, antiga frequentadora da Factory de Andy Warhol.

Martine Beswick e Mary Woronov em Seizure.
Martine Beswick e Mary Woronov em Seizure.

Nesta fase, os seus argumentos misturavam a Nouvelle Vague com elementos da tragédia clássica, sendo difíceis de rotular. Ainda por cima, Stone escolhe o terror para a sua estreia na realização, concebendo Seizure, em 1974, em que assina o argumento com Edward Mann. Este projeto, cuja história se baseou num sonho que Stone tivera, foi financiado por canadianos, sendo a distribuição assegurada pela companhia que lidava com os filmes da Hammer nos EUA. Tratava-se de um filme série B, com um elenco bem escolhido, onde sobressai novamente Mary Woronov. O orçamento reduzido e os problemas de distribuição remeteram-no para o estatuto de filme de culto, muito procurado pelos admiradores do realizador. Vale decerto a pena, pois diversos elementos da sua filmografia posterior estão já presentes.

Impressionado por Aconteceu no Oeste de Sergio Leone, Stone escreve The Ungodly, a pensar em Charles Bronson como protagonista, bem como outro guião inspirado no rapto de Patty Hearst. Stone era praticamente um desconhecido e, como tal, não conseguiu concretizar os seus projetos, apesar de ter contratado um agente da poderosa William Morris.

Em 1976, enfrentava problemas conjugais, passava muito tempo em Los Angeles, o que levou ao seu divórcio em 1978. Foi em 1976 que redigiu vários argumentos, entre os quais o seu primeiro rascunho de Platoon, que, em Los Angeles, atraiu as atenções de Martin Bregman. O contexto temporal não era o adequado – a indústria de Hollywood não se mostrava interessada numa história sobre o Vietname.

O EXPRESSO DA MEIA-NOITE: SUCESSO SÚBITO

Ainda assim, o guião era sólido, e os seus méritos atraíram as atenções no meio cinematográfico. Peter Guber da Columbia, insiste que Stone escreva o argumento de O Expresso da Meia-Noite, que seria realizado por Alan Parker em 1978. Neste caso, era a adaptação do livro de Billy Hayes, aprisionado na Turquia. Stone conseguiu incluir vários elementos já presentes em Platoon, como a aceitação do lado feroz da natureza de um personagem. A obra gerou controvérsia devido ao modo como retrata o sistema penal turco, mas é inconfundível o “traço Oliver Stone”. Midnight Express torna-se um grande sucesso e Stone vence o Óscar de Melhor Argumento Adaptado.

John Hurt e Brad Davis em O Expresso da Meia-Noite.
John Hurt e Brad Davis em O Expresso da Meia-Noite.

Martin Bregman, que continuava a confiar no talento de Stone, quis que o jovem argumentista escrevesse Nascido a 4 de Julho, baseado nas memórias do veterano Ron Kovic, com Al Pacino a protagonizar e William Friedkin no cargo de realizador. Novamente, o timing não foi o melhor: Em 1978, os dois filmes que mais sobressaíram nos Óscares lidavam com a Guerra do Vietname: O Caçador e Coming Home (O Regresso dos Heróis), que não foi um sucesso de bilheteira. Neste último, Kovic fora também conselheiro técnico. Friedkin foi substituído por Dan Petrie que começara já a fazer testes de câmara com Al Pacino. O ator, porém, temendo que uma história tão parecida resultasse em fiasco comercial, abandonou o projeto. O filme só seria realizado por Stone em 1989.

O Óscar conquistado por Oliver Stone não foi benéfico durante esta fase: O seu feitio truculento acentuou-se, a par do seu consumo de drogas. Forçava os limites e não era propriamente diplomata, o que não lhe facilitou novas propostas de trabalho. O seu agente Roy Mardigan comentou: “Ele não se importava que o achassem um idiota, desde que o achassem um idiota talentoso.” Recusou trabalhos por capricho, como foi o caso de escrever a adaptação de um romance de mistério de PD James, negando a remuneração de 250 mil dólares, por detestar o material.

O produtor Edward Pressman contrata-o para adaptar Conan e os Bárbaros. O filme só seria lançado em 1982 pois agora, ironicamente, Hollywood estava empenhada em lucrar com películas sobre o Vietname, como Apocalypse Now. Em 1979, Oliver Stone conhece Elizabeth Cox, natural do Texas e de ascendência tipicamente americana. Cox também lhe datilografava os argumentos.

A CAUDA DO LAGARTO

Rejeitando várias ofertas, Stone decide empenhar-se na escrita e realização do seu segundo filme, um pequeno projeto intitulado The Hand, acerca de um artista de BD atormentado pela perda da sua mão. Seria protagonizado por Michael Caine e lançado em 1981. Tratou-se de um filme de terror, na linha de The Seizure. A estrutura de The Hand é mais complexa: Há o elemento gráfico do terror, bem como o fator psicológico.

Michael Caine em The Hand (1981).
Michael Caine em The Hand (1981).

Além disso, Stone pôde contar com um ator excelente como Michael Caine. A obra, ainda hoje, é aconselhável. O problema foi, como é habitual, dos estúdios, que quiseram acentuar o terror gráfico (a mão com vida própria) em detrimento dos distúrbios psicológicos do protagonista.

Stone ainda não se tornara o realizador autoconfiante de anos posteriores, e Michael Caine, com quem se deu bem, teve de o assegurar a toda a hora acerca do trabalho. O cineasta atravessava a fase pior do seu vício em cocaína, mas, devido à sua energia invulgar, conseguiu cumprir horários e prazos. Quanto à obra, baseada em The Lizard’s Tail de Marc Brandel, assenta no facto de os lagartos soltarem a cauda face ao perigo e terem a capacidade de a regenerar. O simbolismo da mão é explorado eficazmente (e de modo aterrador) por Stone.

Stone e Michael Caine que teve constantemente de sossegar o (então) inseguro realizador.
Stone e Michael Caine que teve constantemente de sossegar o (então) inseguro realizador.

Edward Pressman não desistira da ideia de Conan, contribuindo para tal o facto de os livros do cimeriano atravessarem um grande sucesso de vendas em início dos anos 80. Pressman considerou mesmo atribuir a direção a Stone, em conjunto com Joe Alves, que trabalhara anteriormente em Tubarão de Spielberg como assistente de realização. Surgiram vários obstáculos: O produtor Dino De Laurentiis aceitou a ideia mas apenas se um realizador experiente se encarregasse do trabalho.

Sandahl Bergman ('Valeria') em Conan. Stone concebeu uma visão mais global da narrativa. O realizador preferiu concentrá-la em 'Conan'.
Sandahl Bergman (‘Valeria’) em Conan. Stone concebeu uma visão mais global da narrativa. O realizador preferiu concentrá-la em ‘Conan’.

Ridley Scott, a primeira escolha, ainda trabalhou no script com Oliver Stone, mas abandonou a ideia para se concentrar em Blade Runner. O filme é então entregue a John Milius, cuja reputação ultrapassava a de Stone – tinha já colaborado no argumento de Apocalypse Now e realizado Big Wednesday e The Wind and the Lion (O Leão e o Vento, de 1975). Stone não gostou, acusando Milius de ter rasgado todas as suas anotações e de ter reescrito o argumento.

É verdade, em parte, tanto quanto se sabe, embora na primeira metade de Conan, John Milius não tenha alterado significativamente o guião de Oliver Stone. Ora, para a segunda parte, Stone concebera um final envolvendo uma batalha com as legiões do Inferno e um Armagedão! Milius preferiu focar-se em ‘Conan’, o indivíduo e, consequentemente em quem o interpreta… e, como tal, lançou o ator que todos conhecemos e que dá pelo nome de Arnold Schwarzenegger…

“I FUCKIN’ BURY THOSE ‘COKEROACHES’…”

A experiência seguinte seria mais agradável para Oliver Stone. O seu problema com a droga já o inspirara a escrever um argumento intitulado Inside The Cocaine Wars. Agora, surgia-lhe a oportunidade de pesquisar a fundo os meandros do tráfico e distribuição de cocaína. E foi deste modo que se mentalizou em deixar de consumir. Com a companheira, Elizabeth, mudou-se para Paris onde ambos largaram o vício, método cold turkey. Foi também lá que Stone escreveu o guião de Scarface, apelidando a experiência de “ajuste de contas com a cocaína”.

Pacino e De Palma discutindo o argumento de Oliver Stone na rodagem de Scarface (1983).
Pacino e De Palma discutindo o argumento de Oliver Stone na rodagem de Scarface (1983).

A obra resultou num filme mais ao estilo que Oliver Stone demonstraria como realizador por dois motivos: Primeiro, Brian De Palma não interferiu no guião e, segundo, também apreciava o exibicionismo e espetáculo visual. ‘Tony Montana’, o vilão magistralmente interpretado por Al Pacino pode ser um mero traficante que sobe à custa de massacres. Por outro lado, é uma figura shakespeariana – assassina uma figura parental e tem uma fixação pela irmã. Stone admitiu que o seu modelo foi Ricardo III.

De Palma (que seguiu o guião quase à letra) e Pacino.
De Palma (que seguiu o guião quase à letra) e Pacino.

Era também um remake do Scarface de 1932, embora não haja paralelos, especialmente ao nível da violência. Foi por este motivo que Sidney Lumet, que já trabalhara com Pacino, se inibiu de o realizar. O produtor Bregman e Pacino, pelo contrário, gostaram do script e De Palma foi contratado, seguindo quase à letra o que Oliver Stone escrevera. A tal ponto que a obra, mesmo com os cortes na duração, ultrapassou o orçamento. O argumentista, que recebeu 300 mil dólares, justificou o semi-fracasso comercial com o facto de se tratar da história de um vilão. A fraca receção de Scarface em 1983 contrastou com o estatuto de filme de culto que conquistaria, inspirando vários filmes de gangsters subsequentes.

“CORTARAM-TE A AVEIA…”

Stone não aprendera a lição com Dino De Laurentiis – voltou a trabalhar com o produtor no seu projeto seguinte e, de novo, ficou desapontado. Tratou-se do excelente O Ano do Dragão (1985), inspirado num livro de Robert Daley acerca de um polícia que trava uma guerra sem tréguas ao crime organizado em Chinatown.

Ariane e Mickey Rourke em Year of the Dragon (1985).
Ariane e Mickey Rourke em Year of the Dragon (1985).

O realizador Michael Cimino era um dos grandes entusiastas do argumento de Stone, Platoon, e foi ele que lhe propôs a escrita do argumento em parceria. O pagamento seria menor (200 mil dólares) e pouco apropriado a quem ganhara um Óscar. No entanto, De Laurentiis propôs a Stone que, em troca, financiaria Platoon, dando-lhe a oportunidade de o realizar. Cínico e já habituado às tropelias de Hollywood, Stone concordou. O acordo era também favorável a Cimino que ainda não recuperara da catástrofe financeira de As Portas do Céu (1980) um dos maiores desastres da História do cinema e que desencadeara a venda da United Artists à MGM. Com Stone do seu lado, Cimino sentiu-se mais seguro.

O enredo de O Ano do Dragão é envolvente e, no centro de tudo, está o veterano do Vietname, ‘Stanley White’ um polícia traumatizado pelo conflito e que o quer trazer para o centro de Nova Iorque. Stone tornou o personagem mais obsessivo do que no livro, construindo um dilema emocional amoroso (com a esposa e a amante) que torna ‘White’ ainda mais complexo.

À primeira vista, O Ano do Dragão pode ser a história de um polícia americano que enfrenta as tríades, só que a genialidade de Stone consiste em incluir sub-repticiamente algo nas entrelinhas: ‘White’ ainda está enraivecido com a Guerra do Vietname e tem de aceitar a inclusão de asiáticos no seu próprio país. Ao envolver-se com uma bela repórter televisiva asiática, ‘Tracy Tzu’ (Ariane) fica ainda mais dividido. Em parte, são estes dilemas que tornam filmes razoáveis em obras de exceção. Não é de estranhar que o filme tenha sido, porém, acusado de racista e de mostrar uma imagem estereotipada de Chinatown e dos seus habitantes.

Rourke e o vilão, desempenhado por John Lone.
Rourke e o vilão, desempenhado por John Lone.

Há também a imagem do yin/yang, na contraposição entre o herói e o mau da fita, ‘Joey Tai’, que culmina num inevitável confronto final. Um outro aspeto se deve assinalar em O Ano do Dragão: Mickey Rourke é claramente demasiado jovem para o papel, mas totalmente convincente; chega até a surpreender. Cimino preferia Nick Nolte ou Jeff Bridges, mas decidiu apostar em Rourke depois de ter assistido a The Pope of Greenwich Village (Iniciação ao Crime).

Logo no início, o veterano polícia tem uma troca de palavras inadvertidamente humorística com um agente a cavalo, que tenta mostrar a sua autoridade durante um funeral em Chinatown:

Stanley White: Olá, Will. Que tal a vista aí de cima?
Will: Consegue-se ver bem ao longe.
Stanley White: Ainda acreditas em manter uma forte presença policial?
Will: Se vestisses o uniforme de vez em quando, sabias que a visibilidade policial é o que mais desencoraja o crime.
Stanley White: Não parece que estejas a desencorajar grande coisa por aqui ultimamente.
Will: Não está na esquadra errada, Capitão?
Stanley White: Não. Deram-me um novo posto de comando.
Will: O que é que te deram?
Stanley White: Chinatown. Isso mesmo. Acabaram de te cortar a aveia.
Will: Por causa disto? Como é que eu havia de evitar isto?
Stanley White: Anda lá, eu pago-te um café…
Will: Que se lixe…

Stone trabalha depois no argumento de 8 Million Ways to Die, (já abordado neste artigo). Entretanto, De Laurentiis não conseguira encontrar distribuidor para Platoon e, como Stone já havia gasto parte do dinheiro investido no elenco e em busca de locais de filmagem, o produtor disse-lhe que não lhe devolveria o guião se o dinheiro não lhe fosse reembolsado. Oliver Stone perdera a hipótese de realizar, o seu argumento mais pessoal e teria de lutar por ele.

Continua no próximo artigo.

David Furtado

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