Jodie Foster: A outsider de Hollywood

Alicia Christian Foster, a quem chamavam Jodie, já formulava frases inteiras aos 12 meses, aprendeu a ler sozinha aos três anos e, aos cinco, já comparecia em audições como qualquer adulto. Aos 24 anos, fizera 24 filmes. Aos 30… 30. Não contei se já fez 52, mas o interessante é que permanece uma das atrizes mais paradoxais de Hollywood – sempre soube que o mundo em que trabalhava não era o mais edificante. A sua inteligência permitiu-lhe desenvolver uma carreira notável, permanecendo uma outsider.

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Era a mais nova de quatro irmãos. Quando nasceu, o pai tinha já abandonado a família. Lucius Foster III era um oficial da Força Aérea, formado em Yale, que abandonou a mãe, Evelyn Almond Foster (conhecida pela alcunha de Brandy) após 10 anos de casamento. O único rapaz era Lucius IV, que foi encaminhado pela mãe – outrora agente de imprensa – para audições na TV e filmes publicitários. Mas outra criança começou rapidamente a sobressair no lar dos Foster.

jodie foster (5)A criança nunca fez do abandono do pai um segredo, embora fosse obviamente um acontecimento doloroso – a maioria dos seus perfis, ao longo dos anos, mencionaram esta circunstância. Outra característica tornou-se a sua insistência em ser vista como “normal” e não “especial”; e várias vezes frisou que ser ator era apenas um trabalho entre muitos outros numa equipa. Para ela, fazer filmes era um trabalho em que se tinha de levantar antes da alvorada.

Na realidade, Foster fez-se notar muito cedo. Acompanhava o irmão, cinco anos mais velho do que ela, para todo o lado, até que inevitavelmente foi parar a uma audição, pois a mãe não a queria deixar sozinha no carro. Era um anúncio do protetor solar Coppertone, centrado num rapazinho. O pessoal da agência ficou tão impressionado com Jodie que alterou a campanha toda de imediato, centrando-a… numa menina. Começava uma carreira.

Seguiram-se biscoitos, cereais, comida para cão, batatas fritas, Oreos, junk food… Foster não tem boas memórias desses tempos: “Lembro-me que tinha de comer coisas nojentas todo o dia e de vomitar. Depois de entrar num anúncio de champô, não consegui tirar aquela merda do cabelo durante 10 dias…”

Jodie tornou-se porém, a principal ganha-pão da família ainda antes de entrar para a escola e, quando a mãe escolheu o selecto Lycée Français (colégio particular em Los Angeles) para a filha iniciar os estudos, quiseram colocá-la numa turma mais avançada, o que a mãe recusou. Aí continuaria até ao liceu, trabalhando simultaneamente em cinema e TV.

Ainda na infância, Foster já era o principal sustento da família.
Ainda na infância, Foster já era o principal sustento da família.

PRIMEIROS PASSOS

Foster aprendeu desde logo a disciplina da concentração, visto que era obrigatória por lei a presença de um professor nas filmagens. “Eu estudava 20 minutos de matemática e era chamada para fazer uma cena”, recordaria, “depois seguiam-se 40 minutos de inglês”. Apesar da educação invulgar e de querer ser apenas mais uma entre as demais, Foster tornou-se a melhor aluna do liceu e era também editora do jornal escolar.

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O mundo da TV comercial americana não era lugar para uma criança, mas nele, Jodie tornou-se veterana. Passou por várias séries como Bonanza, Gunsmoke ou The Partridge Family, como qualquer ator adulto. A mãe, atuando sempre como agente, subiu o preço e começou a negar papéis secundários para a filha – deixou de receber os normais 450 dólares por semana e passou a embolsar uma soma inaudita na indústria, mil dólares.

Produtores e estúdios tiveram de aceitar, uma vez que Foster era uma profissional e invulgarmente astuta para a idade. Mais tarde, em 1980 (quando Jodie tinha 18), o realizador de Foxes, Adrian Lyne, comentaria: “Era estranho… tínhamos a sensação de que ela possuía mais maturidade do que a mãe.”

jodie foster (4)Ainda adolescente, Foster já mostrava sinais desta precocidade, até em entrevistas, que fariam muitos atores de hoje parecerem umas crianças: “Detesto essa ideia que todos têm, de que se uma miúda vai ser atriz, significa que vai ser outra Shirley Temple ou a irmãzinha de alguém. A realidade já não é assim.”

John Badham dirigiu-a num episódio de Kung Fu em 1973 e reparou: “Era uma criança bonita e magra. Mas com um modo de se mover extremamente moderno. Era muito alerta; impressionava-nos de imediato… ela tinha aquela coisa inexplicável chamada presença.” Era uma qualidade que lhe apontavam, tanto na vida real como diante das câmaras. Badham recorda-se que lhe enviaram uma professora de francês para o set de Kung Fu, a qual teve de ser substituída. Jodie era mais fluente na língua do que a professora!

Atraindo as atenções, a pequena Jodie dava entrevistas como qualquer colega crescido: “Não gosto lá muito de Kung Fu. Começou por ser uma série pacífica, agora é só Karaté e mortes. Acho que a violência em TV é má para as crianças, dá-lhes más ideias e não a acho necessária no enredo a não ser que seja num documentário sobre o tema.” E prosseguia: “Vejo muitas coisas… vi O Último Tango em Nova Iorque [foi um lapso, Foster confundiu com Paris] e não me incomodou. A violência, sim.”

Aos 17 anos, comentava com à-vontade: “Não acho que sejam as crianças atrizes que têm problemas… são os filhos dos atores que sofrem mais. Aquela atmosfera de Malibu, Beverly Hills e do La Scala pode ser terrível. Se lhes pedem que a compreendam mas que não se metam nela, pode ser muito confuso.”

MORDIDA PELO LEÃO

O primeiro grande filme de Jodie Foster foi Napoleon and Samantha (1972), uma produção típica da Disney com Michael Douglas. Por pouco, não foi o seu último. Foster, então com oito anos, contou o incidente ao ser entrevistada por Andy Warhol:

“Estava muito calor, eram quatro da tarde e não se deve trabalhar com leões depois das três. Havia dois leões, Major, que tinha 25 anos, não tinha dentes e não fazia mal e Zambo. Mas o Major não podia fazer a cena, por isso, trouxeram o Zambo, que vinha atrás de mim a subir um monte, puxado por uma corda de piano. Ele mordeu-me e caí pelo monte abaixo.”

Jodie, ferida nas costas, foi hospitalizada e só regressaria após duas semanas. Anos depois, explicou: “Achei que, se tinha conseguido sobreviver àquele ataque do leão, podia ser atriz para a vida inteira. A minha mãe também achou que eu devia voltar; como se tivesse de montar o mais depressa possível depois de ‘cair do cavalo’.”

A 'Becky Thatcher' de Tom Sawyer (1973).
A ‘Becky Thatcher’ de Tom Sawyer (1973).

Participou noutras produções da Disney, como Tom Sawyer e One Little Indian, ambos de 1973. Neste último, contracenou com James Garner (que, muitos anos depois reencontraria em Maverick). Garner disse então: “Já nessa altura ela era uma pequena profissional que fazia tudo o que lhe requeriam. A sua atitude e temperamento não mudaram.”

Alice Já Não Mora Aqui (1974) de Martin Scorsese foi o primeiro filme “adulto” em que participou. Com apenas nove anos, quase rouba o protagonismo a Ellen Burstyn (que venceu o Óscar) e Harvey Keitel, no papel de uma miúda espevitada e sabida, atenta às hipocrisias do mundo. “Entrou por ali dentro uma miúda com voz de Lauren Bacall, o que nos deixou a todos desconcertados”, disse Martin Scorsese acerca da audição. 

Em 1976, novamente sob a direção de Scorsese, Foster desempenha o controverso papel de uma prostituta, ‘Iris’, em Taxi Driver. Contudo, as polémicas passaram-lhe ao lado:

“Eu não fiz de prostituta em Taxi Driver. Desempenhei uma fugitiva. Não aprecio essa coisa de nos enfiarmos nos papéis. Sou uma técnica. Faço o meu trabalho da mesma forma que o eletricista faz o dele. Aquilo em que sou boa é em fazer olhinhos à câmara.”

'Iris' em Taxi Driver.
‘Iris’ em Taxi Driver.

Inconscientemente, Foster admitiu a sua maior lacuna enquanto atriz, o facto de se notar que está a representar. Por este motivo, embora o seu talento seja inegável, os seus desempenhos não são sempre “fluidos”; a momentos inspirados, sucedem-se cenas em que está nitidamente a atuar para a câmara.

O crítico Roger Ebert conheceu-a por esta altura e ficou igualmente impressionado:

“Ela era tão ‘composta’, sendo tão jovem. Eu ia entrevistá-la mas ela disse-me, ‘vamos encontrar-nos no restaurante Old World em Sunset Strip’. E veio sozinha, sem agente, sem a mãe. E lembro-me da conferência de imprensa da apresentação de Taxi Driver no Festival de Cannes, pouco tempo depois. Ela foi a tradutora de Scorsese, De Niro. Keitel… punha tudo em francês e inglês para toda a gente. Pensei para comigo, ‘que pessoa extraordinária’.”

Foster, nomeada para o Óscar de Melhor Atriz Secundária por Taxi Driver, ficou estupefacta com a experiência, pois, segundo disse, foi o primeiro filme em que participou que tinha um estilo e uma técnica próprias. E o trabalho também foi mais metódico: “A cena entre mim e de Niro na cafetaria… não há nada de espontâneo nela. Foi ensaiada durante uma semana inteira. Podia recitá-la a dormir. Filmámo-la num dia. Mais de 50 takes. No entanto, parece muito espontânea e intuitiva.”

Com Robert De Niro na "trabalhada" cena da cafetaria de Taxi Driver. 50 takes, um dia de filmagem, uma semana de ensaios.
Com Robert De Niro na “trabalhada” cena da cafetaria de Taxi Driver. 50 takes, um dia de filmagem, uma semana de ensaios.

Jodie Foster teve de comparecer perante um psiquiatra da UCLA para uma entrevista de quatro horas, antes que lhe permitissem participar no filme, para que se certificasse que tal obra não lhe “corromperia a moral”. “Acho que eles pensaram que o facto de eu querer desempenhar um papel daqueles significava que devia ser doida”, brincou. Na realidade, houve uma batalha legal antes que fosse autorizada a participação da menor.

jodie fosterNesse ano, a vencedora do Óscar foi Beatrice Straight… Um pouco estranho, no mínimo, que um papel tão apagado em Network de Sidney Lumet tenha sido premiado, ao invés do trabalho notável de Foster. A adolescente, porém, mostrou-se filosófica acerca desta “perda”: Há tantas atrizes crescidas que trabalham há tanto tempo e nunca receberam nenhum prémio… não parece certo dá-lo a uma miúda. Detesto soar como uma pessoa de negócios, mas, se recebesse um prémio, isso significaria mais dinheiro, já que os Óscares são uma forma de elevarmos o nosso preço.”

Repita lá?!…

A VETERANA ADOLESCENTE

Jodie já demonstrava uma sabedoria para lá dos seus anos acerca da maquinaria hipócrita de Hollywood e, como insider que já era, foi então que começou a ser alvo de rumores. O primeiro foi o de que era difícil trabalhar com ela. Ainda em 1976, desempenha um dos seus melhores papéis, em The Little Girl Who Lives Down the Lane. Um dos paradoxos acerca da carreira de Jodie Foster é o facto de o seu melhor trabalho não se encontrar nos blockbusters que protagonizou, mas em obras mais obscuras como esta. A jovem, presente em quase todas as cenas, domina o filme e obscurece totalmente Martin Sheen e restantes atores.

The Little Girl Who Lives Down the Lane.
The Little Girl Who Lives Down the Lane.

Os ditos problemas que surgiram neste suspense/thriller franco-canadiano relacionaram-se com o facto de Jodie se recusar a fazer uma cena de nudez. “O produtor era um doido e um idiota, queria que eu subisse mais a saia, começou a dizer que, se não houvesse sexo e violência, o filme não vendia. Eu costumava mandá-lo calar. Todos o odiavam. Fiquei mesmo incomodada e abandonei o set.”

jodie foster (8)Nesta época, Jodie, de 14 anos, já era uma estrela de cinema, uma figura popular em Cannes, devido ao seu carisma, talento e facilidade com o idioma, e capaz de dar entrevistas e fazer a promoção de um filme como qualquer outro ator. Chegou mesmo a apresentar um episódio do famoso Saturday Night Live. Não precisava de regressar às produções da Disney, mas assim fez, trabalhando em Candleshoe e Freaky Friday com apenas três semanas de intervalo entre as duas produções. Houve ainda tempo para Bugsy Malone de Alan Parker, filme de gangsters filmado com crianças.

“Não me sinto confortável a trabalhar com crianças”, disse Foster, demonstrando alguns sinais de pressão. “Aqueles velhos miúdos de Hollywood nunca tiveram realmente de representar. Só tinham de parecer adoráveis, adorar o papá e a mamã e abraçar a Lassie ou o seu cavalo. Shirley Temple nunca foi atriz!”

Em Hollywood, a sua decisão de regressar à Disney após um filme como Taxi Driver foi aplaudida por demonstrar gratidão. Foster começava a dar sinais que conhecia muitíssimo bem o meio hipócrita em que se movimentava.

Com o final da década de 70, começaram a surgir rumores que se manteriam durante a sua vida adulta. Nunca fora fotografada com um namorado, etc. Alheia às especulações, Foster continuava a trabalhar, dobrando a sua voz em francês no filme Moi, Fleur Bleu. Era a segunda atriz a fazê-lo (a primeira foi Jane Fonda). Viaja depois para Roma, onde filma Casotto com Catherine Deneuve. É então fotografada a sair de um restaurante com a atriz Sydne Rome. Mais especulação.

Jodie protegia a sua vida privada de modo feroz, sem comparecer em festas ou eventos. Na ocasional entrevista, referia que não tinha tempo para namoros e preferia concentrar-se em aspetos profissionais: “Se tivesse começado a ser atriz enquanto adulta, nunca teria conseguido. Não me imagino a suportar as chamadas para audições, ter de lidar com o casting couch e ter produtores a darem-me beliscões em sítios inimagináveis. Estou grata por ter começado tão nova porque livrei-me de tudo isso.”

Era altura para uma nova etapa, a faculdade.

Jodie Foster em 1979.
Jodie Foster em 1979.

NA MIRA DO PSICOPATA

As suas notas eram tão altas que todas as principais universidades americanas estavam dispostas a recebê-la: Columbia, Berkeley, Stanford, Harvard, Barnard, Princeton, Yale… Foster escolheu Yale e anunciou que faria um interregno na carreira de atriz. Nos seus planos, constava já a ideia de realizar, da qual já falava desde os 14 anos.

Em Carney (1980).
Em Carny (1980).

A estadia em Yale foi interrompida para dois filmes notáveis, o subestimado Foxes, sobre um grupo de amigas de Los Angeles, em que Foster interpreta (e muito bem) a mais estável, e Carny, sobre um freak show. Sobre este último, disse: “Como não tinha muitos diálogos, passei a maioria do tempo a improvisar diante da câmara. Prefiro que me dêem as falas, pois, desse modo, a responsabilidade é de outra pessoa.”

Quanto a Foxes, Jodie revelou que muito da personagem foi criado por ela e que nunca trabalhara tão arduamente. Eram papéis adultos em filmes para públicos adultos. Com 18 anos, Jodie era adorada pela crítica e pelo público. Prosseguia os estudos em Yale, onde se viciou em junk food, fumava muito, não sobressaía entre os colegas nem demonstrava tiques de vedeta. Sucede então um episódio que, para muitos, lhe iria destruir a carreira.

A 30 de março de 1981, John Hinckley, Jr. tenta assassinar o presidente Ronald Reagan, alvejando igualmente o seu assessor de imprensa, um agente dos serviços secretos e um polícia. A cerimónia dos Óscares foi adiada 24 horas. Insolitamente, a imprensa divulgou a foto de Jodie Foster e cartas dirigidas a ela pelo atirador lunático, uma das quais datada do dia da tentativa de assassínio.

Os cabeçalhos foram bombásticos: “Obcecado com atriz”, “O romance de fantasia de Hinckley com a atriz Jodie Foster”. Parecia uma piada de mau gosto do dia 1 de abril. A atriz escondeu o que foi, de certeza, devastador, e fez uma declaração filmada à imprensa, admitindo que recebera “correspondência não solicitada”. A obsessão de Hinckley por Taxi Driver despoletara o seu desejo de a “salvar” de Yale. Foster afirmou não ver uma correlação: “É um dos melhores filmes que vi.” Também Robert De Niro, que venceu nesse ano o Óscar e desempenhara o taxista ‘Travis Bickle’ se demarcou de qualquer ligação.

Em 1980.
Em 1980.

Dias depois, foram divulgadas conversas telefónicas entre o atirador e Foster, chamadas feitas para Yale, em que a atriz pedia para que ele parasse. É oportuno referir que a palavra fã deriva do latim, fanaticus e significa “inspirado por uma divindade a um ponto febril”.

Este pesadelo perseguiria Jodie Foster durante anos. Embora a estudante de Yale objetasse, passou a ser protegida por seguranças. O fã obcecado tinha rondado Yale várias vezes e, inclusive, colocado cartas por debaixo da porta do dormitório de Foster. E surgiram pelo menos dois copycats, um homem e uma mulher, dispostos a terminar uma das fantasias de Hinckley: Assassinar a atriz e suicidar-se em seguida. O tribunal julgou este individuo insano e sentenciou que fosse internado num hospital para doentes mentais onde, uma década depois, ainda era considerado um perigo para si mesmo e para os outros internados.

GUERRA AO QUARTO PODER

Numa foto mais recente, Foster mostra o que pensa dos paparazzi e também de boa parte da imprensa.
Numa foto mais recente, Foster mostra o que pensa dos paparazzi e também de boa parte da imprensa.

Depois disto, a vida de Foster alterou-se; começou a faltar a aulas, era vigiada, entrava e saía de edifícios por elevadores de carga, viajava em malas de automóveis – em suma, um pesadelo. A atriz, todavia, fez os seus exames finais de caloira e filmou O’Hara’s Wife, obra com a qual se comprometera, ainda antes da tentativa de assassínio.

Um grande mérito tem de ser reconhecido a Jodie Foster: Apesar das investidas furiosas da imprensa, a sua vida privada era estanque, e a jovem, que aprendera a custo, era já mestre nas relações públicas. Não se escusava a dar entrevistas, mas certas perguntas eram excluídas liminarmente, tais como as relacionadas com Hinckley ou com a sua vida pessoal.

Para Foster, não havia Quarto Poder, a imprensa foi mesmo o seu alvo ao falar destes tempos conturbados, anos depois, já adulta:

“Para a imprensa, a minha presença foi sempre supérflua; era a história que contava – o cabeçalho aberrante e bizarro. Uma foto comprometedora, um comentário breve era tudo o que eles precisavam. Não posso dizer que não me senti explorada por aqueles homens amigáveis com as suas Nikons e microfones presos às lapelas. De repente, era-lhes permitido destruir a estabilidade da minha vida porque isso era o trabalho deles.”

O ponto mais baixo, segundo Foster, nem foi a loucura do fã psicótico, foi a perseguição incansável dos jornalistas. Certa noite, em Nova Iorque, durante a rodagem do telefilme Svengali, Foster regressava ao hotel. “Estava com uma amigdalite, tinha uma clavúcula partida e atravessava uma fase de depressão.” Parou num café cheio de gente e, de súbito… “um flash ‘rebentou’ a cinco centímetros do meu nariz. O fotógrafo só me queria incomodar. Quando dei por mim, estava a correr pela 11th Street, a chorar e a tentar libertar-me do seu casaco, empurrando-o. Escorreguei no gelo, caí mesmo sobre a clavícula magoada e fiquei ali a soluçar. O fotógrafo riu-se gritou, “apanhei-a! Apanhei-a!” Chorei durante todo o caminho até casa, até ao meu quarto, todo o serão e pela noite fora.”

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Aconteceu-lhe também os professores de Yale se recusarem a dar-lhe boa nota, por ser quem era. Apesar de tudo, Svengali, com Peter O’Toole, fez com que se apaixonasse novamente pela representação. A obra não foi bem recebida, contudo, assim como outros trabalhos de Jodie durante esta fase. A comunicação social “decretou” que a sua carreira já estava acabada.

Em 1985, a atriz forma-se em Literatura Americana Moderna em Yale e insiste que planeia representar, realizar e escrever. Reafirmou o seu respeito pelos colegas e o seu desprezo pela abordagem académica da representação, em particular, pelo Método. No negócio de Hollywood, Jodie Foster era vista como uma solitária, mas simultaneamente alguém que gostava de trabalhar em equipa, um dos seus muitos paradoxos. Conhecida por milhões, apenas se dispunha a enfrentar a máquina publicitária quando a profissão o exigia. A sua privacidade era guardada acerrimamente.

jodie foster (45)Outro paradoxo que lhe começavam a assinalar era a circunstância de as críticas aos seus desempenhos serem, regra geral, melhores do que as dos filmes em que participava como sucedeu em Siesta (1987). As suas escolhas também não incidiam em potenciais blockbusters – Foster interessava-se mais por filmes de orçamento modesto como Five Corners, obras mais sérias em que podia sobressair mas integrar-se no elenco.

“Nunca fiz um filme de mega-orçamento”, disse. “Nunca tive uma limusina à espera para me levar a casa. Nunca quis uma.” Seguir-se-iam outros filmes modestos como Stealing Home. Aos 24 anos, Foster já tinha participado no mesmo número de filmes: 24. Mais interessada pela profissão do que pelo estrelato, sabia de iluminação, de lentes de câmara e distâncias de focagem, o que despertava o apreço e respeito da equipa.

Aos 30 anos… já fizera 30 filmes. “É verdade, mas nunca tive um plano. Já faço isto há tantos anos que me sinto mais confortável diante da câmara do que noutro lado qualquer. Aprendemos com as dificuldades e as desilusões. Não aprendemos nada ao ganhar um Óscar ou a ganhar um milhão de dólares por ano.”

O ÓSCAR

Os vários filmes artísticos que fizera durante os anos 80 tinham-lhe mantido a reputação mais ou menos intacta. Não se pode, ainda assim, esquecer que “arte”, em Hollywood, significa muitas vezes “falta de apelo comercial” ao contrário do que sucede noutras partes do mundo.

Mantendo Hollywood à distância, Foster resignou-se: “A certa altura, temos de aceitar que somos um objeto. Não é nada de pessoal, mas alguém acaba sempre por dizer que a nossa voz não presta e que o nosso corpo não presta. Temos de aprender a não levar estas considerações pessoais de modo pessoal.”

Foi neste estado de espírito que compareceu à audição de Os Acusados (1988), para a qual não foi a primeira escolha. Contracenou com Kelly McGillis, atriz classicamente treinada na conceituada escola de música e artes cénicas nova-iorquina, Juilliard School. Durante as filmagens, um boato circulou por Hollywood: As duas atrizes mantinham um caso amoroso. Não importa se foi verdadeiro. O mais importante foi a dedicação que Foster demonstrou no papel de ‘Sarah Tobias’, a vítima de violação que leva os réus a tribunal.

Foster e Kelly McGillis em Os Acusados.
Foster e Kelly McGillis em Os Acusados.

A cena da violação foi árdua de filmar, Foster chorou tanto que os vasos sanguíneos dos seus olhos rebentaram. Ficou espantada com o profissionalismo de McGillis: “Quando lhe pedem para chorar, ela pergunta, ‘quanto?’, ‘de que olho?’, ‘quando?’” A atriz voltou a dobrar a sua própria voz para a versão francesa e… quando o filme estreou, também vieram os prémios e as críticas delirantes. Foster fez uma campanha promocional de três semanas, em cinco países europeus. A sua facilidade com línguas permitiu que desse uma conferência de imprensa em Roma, perante 40 jornalistas, falando italiano.

Nesse ano, Glenn Close, Melanie Griffith, Meryl Streep e Sigourney Weaver (em duas categorias) eram as nomeadas. Foster soube da nomeação antes de embarcar no avião em Roma e foi no aeroporto que comprou a indumentária com a qual compareceria na cerimónia. Ficou espantada ao vencer, tanto que o seu discurso foi simples mas eloquente:

jodie foster (1)“Isto é uma coisa tão grande e a minha vida é tão simples.” E terminou, referindo-se ao filme: “A crueldade pode ser muito humana e muito cultural mas não é aceitável.”

Cinéfila e frequentadora obsessiva do videoclube, Foster disse: “Aluguei três cassetes ontem à noite e eles disseram que, se eu aparecesse lá hoje com isto, não pagaria o aluguer, por isso, podem apostar que vou levá-lo ao clube amanhã.”

Jodie teimava em ser a mulher simples, para quem representar era um trabalho, mas era agora difícil escapar às atenções. “Não tive propriamente a carreira mais bem sucedida do mundo… tive muitos altos e baixos, filmes que não fizeram dinheiro, tempos difíceis e tudo isso. E continuarei a ter.” Mas admitiu: “Vencer o Óscar significa que projetos que não podiam ser feitos até agora, já podem ser, porque nós dizemos que os queremos fazer.”

O filme seguinte foi Backtrack (aka Catchfire), realizado e protagonizado por Dennis Hopper, mudança radical, pois não era uma obra propriamente dirigida ao grande público. Foster queria realizar, embora a tivessem desaconselhado. Agora era altura para grandes papéis e espalhafato à la Meryl Streep. “Tudo isso fazia sentido”, refletiu Foster acerca de Little Man Tate (Mentes Que Brilham), a sua estreia na realização, “mas, às vezes, temos de fazer coisas que fazem sentido para nós. Não foi bem uma coisa de carreira, eu simplesmente adorei esta história”.

Adam Hann-Byrd e Foster em Mentes Que Brilham (1991).
Adam Hann-Byrd e Foster em Mentes Que Brilham (1991).

Havia paralelos evidentes entre o miúdo prodígio da história e a mãe solteira que o cria. Foster negou: “A família monoparental é uma parte enorme da vida americana, e o filme é o retrato de um artista e de um desajustado.”

A MULHER DE NEGÓCIOS

Foster fundou a Egg Pictures e conseguiu um contrato milionário com a Polygram para a distribuição e outros custos, obtendo controlo criativo total. Achava representar muito mais difícil do que realizar pois tinha de se agradar a todos, “ao tipo da iluminação, ao público, sem perder de vista a personagem. É esgotante, muito mais do que realizar”. Estes novos desafios fizeram com que voltasse a fumar.

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Novamente, Foster não foi a primeira escolha para ‘Clarice Starling’, a agente do FBI que enfrenta o seu némesis, ‘Hannibal Lecter’ enquanto procura um assassino. Depois da recusa de Michelle Pfeiffer, a atriz achou interessante interpretar uma heroína. Ninguém se recorda hoje que, quando O Silêncio dos Inocentes foi lançado, em 1991, consideraram-no “homofóbico”, isto devido ao facto de o assassino ser gay. (Francamente, julgo que é um travesti…) A comunidade gay e lésbica americana, que acolhera Jodie Foster como sua “representante” – insolitamente, já que a atriz nunca se pronunciara sobre tais questões -, não gostou.

Em Hollywood, a imagem é tudo, pelo que o editor de uma revista pró-gay ameaçou expor a sexualidade de Jodie Foster, caso ela não se assumisse como lésbica e defendesse a “causa”. Era uma situação inacreditável. Chegaram a ser colados cartazes na baixa de Manhattan, dias antes da estreia do filme, com um retrato de Foster e a legenda: “Vencedora de Óscar. Licenciada em Yale. Ex-miúda da Disney. Fufa.”

"Às vezes ainda acorda, não é? Acorda no escuro e ouve o berrar dos cordeiros? Clarice..."
“Às vezes ainda acorda, não é? Acorda no escuro e ouve o berrar dos cordeiros? Clarice…”

Durante uma conferência de imprensa, um jornalista aludiu a esta situação, de modo pouco elegante: “Acha que os ativistas gay vão provocar distúrbios na entrega dos Óscares?” Apesar de toda a sua experiência, Foster ficou imóvel a fitar o interlocutor, quase incrédula. E retorquiu secamente: “Penso que não. Próxima pergunta.” A partir daí, respondeu a outras questões com a voz trémula, antes de recuperar a calma, nitidamente perturbada com a intrusão.

Os dois protagonistas elogiaram-se mutuamente, com Anthony Hopkins a dizer: “Ela trabalha com tanta economia. Não tem de fazer nada, mas vemos os pensamentos da personagem nos seus olhos. Julgo que é esse o grande trunfo de uma atriz como Jodie, transparece-lhe no rosto, ela não tem de representar.”

Os cães ladram, a caravana passa. Hopkins e Foster. O Silêncio dos Inocentes conquista o Grand Slam.
Os cães ladram, “os cordeiros berram” e a caravana passa. Hopkins e Foster. O Silêncio dos Inocentes conquista o Grand Slam.

Ninguém adivinharia que o relativamente modesto filme fosse tamanho sucesso de crítica e público. Na sala de imprensa, após receber o Óscar, Foster respondia às questões da praxe quando alguém gritou “olhe para trás!”, para o monitor onde a cerimónia continuava a ser transmitida. O Silêncio dos Inocentes conquistara o galardão de Melhor Filme. Foster, entusiástica, gritou, “nem pensar!”

Algumas perguntas aludiram de forma velada ao tal protesto: “Julgo que o protesto é bom”, disse Foster. “É americano, não infringe a lei… a crítica ajuda as pessoas a aprenderem… mas tudo o resto enquadra-se na categoria de indigno”, respondeu sucintamente.

O DERRADEIRO PARADOXO

Jodie Foster encontrava-se agora, mais do que nunca, numa posição paradoxal: A outsider e a “atriz séria”. Começou a diversificar ainda mais os papéis, aventurando-se na comédia, onde se moveu com facilidade, julgando por Maverick (1994):

“Enviaram-me o argumento numa quinta-feira… li-o à tarde, concordei na sexta e estava a fazer provas de guarda-roupa no sábado.” Durante a rodagem, Foster tornou-se grande amiga de Mel Gibson, o que despertou novamente a ira da comunidade gay. Gibson é considerado um homofóbico, racista, etc. No entanto, Jodie gostou dele. Aliás, recentemente Gibson protagonizou outro filme realizado por si, The Beaver (2011).

Com o amigo Mel Gibson em The Beaver (O Castor)  de 2011.
Com o amigo Mel Gibson em The Beaver (O Castor) de 2011.

“Mel é tão ignorante acerca do efeito que provoca, passa o tempo a fazer truques de magia para as pessoas, ou a pensar em coisas que as vão assustar ou repugnar. Ouve-nos de um modo quase inocente e desarma-nos por ser tão inofensivo… é como se se tornasse o nosso melhor amigo imediatamente. É tal e qual um miúdo.”

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Continuariam os papéis surpreendentes de uma mulher reservada, que, durante décadas, nunca foi fotografada com um namorado nem deixou que se lhe conhecesse nenhum caso amoroso, e que não se deixou rotular:

“Um dos grandes impulsos humanos é o de rotular as coisas, pô-las em caixas, para que nos possamos sentir melhor quando catalogamos outrem. Não é do meu estilo admitir a dor, ou que me feriram os sentimentos. Tenho sempre de fingir que estou acima disso”, disse, encolhendo os ombros. “Também faz parte de ser uma figura pública, quando as pessoas dizem praticamente tudo sobre nós e temos de construir uma espécie de armadura, acho eu.”

David Furtado

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