«Por Que Praguejava o Jovem Empregado?» por Stephen Crane

stephen crane clerkTudo estava silencioso na pequena loja de artigos para homem. Um solitário empregado, de bigode loiro e gravata vermelha, levou a mão lânguida à testa e afastou uma madeixa pendente. Bocejou, olhando com ar sombrio para as vidraças foscas das janelas.

Lá fora, o vento e a chuva rodopiaram à volta dos edifícios de tijolo e fustigaram as ruas. Um eléctrico passou, impassível e ruidoso. Na lama dos pavimentos, alguns transeuntes lutavam com empolgados guarda-chuvas.

– Que praga! – comentou o empregado. – Dava dez dólares do meu bolso se alguém entrasse para comprar alguma coisa, nem que fosse só um par de meias de algodão.

Aguardou nas sombras da tarde pardacenta. Não apareceram clientes. Soltou um longo suspiro e sentou-se num banco alto. De trás de um monte de camisas por lavar, tirou um romance francês com uma imagem na capa. Voltou a bocejar, olhou com indolência para a rua e instalou-se, tão confortavelmente quanto os deuses lhe permitiam, no banco alto.

Abriu o livro e começou a ler. Em breve se pôde notar que o bigode loiro se avivou com entusiasmo e que as madeixas rebeldes, na sua testa, mostraram sintomas de uma suave agitação.

«Silvere não viu a jovem durante alguns dias», leu o empregado. «Sentia-se infeliz. Parecia sempre estar a inspirar aquele subtil perfume do cabelo dela. À noite, via os olhos dela nas estrelas.»

«Os seus sonhos eram atormentados. Ele vigiou a casa. Eloise não apareceu. Um dia, encontrou Vibert. Vibert envergava uma sobrecasaca negra. Tinha manchas de vinho no lado direito do peito. O colarinho estava manchado. Não se barbeara.»

«Silvere desatou a chorar. “Eu amo-a! Eu amo-a! Ai que morro!” Vibert riu de desprezo. A sua gravata fora comprada em segunda-mão. Era idiota, este rapaz apaixonado. Palerma! Simplório! Mas, por fim, demonstrou compaixão. “Ela vai à aula de música todas as manhãs, tonto.” Silvere abraçou-o.»

«No dia seguinte, Silvere aguardou à esquina de uma rua. Havia lá uma vendedora de castanhas. Duas crianças de rua lutavam num beco. Uma mulher esfregava uns degraus. Esta grande Paris pulsava com vida.»

«Eloise chegou. Não se apercebeu da presença de Silvere. Passou com um sorriso feliz no rosto. Tinha um aspecto fresco, belo, inocente. Silvere sentiu-se desfalecer. “Ah, meu Deus!”»

«Ela atravessou a rua. O jovem sentiu um choque que lhe fez subir o sangue à cabeça. Tinha estado a chover. Havia lama. Com uma mão esguia, Eloise subiu as saias. Silvere, inclinando-se para a frente, viu-lhe…»

Um jovem de impermeável molhado entrou na pequena loja de artigos para homem.

– Ah, fazia o favor – disse ele ao empregado –; funciona aqui uma lavandaria a vapor? Tenho frequentado um chinês aqui na avenida, há algum tempo, mas ele… o quê? Não? Não funciona cá nenhuma? Bom, por que não abrem uma, então? Seria óptimo para esta vizinhança. Vivo mesmo ao virar da esquina e seria óptimo para mim. Conheço muitas pessoas que… o quê? Oh, não funciona? Oh!

Quando o jovem do impermeável molhado se retirou, o empregado de bigode loiro pegou com avidez no romance. Continuou a ler: «…o lenço cair numa poça de lama. Silvere deu um salto em frente. Apanhou o lenço. Os seus olhares encontraram-se. Quando lhe devolveu o lenço, as suas mãos tocaram-se. A jovem sorriu. Silvere estava em êxtase. “Ah, meu Deus!”»

«Um padeiro do outro lado da rua discutia com uma velha por causa de dois soldos. Um veterano grisalho com uma medalha ao peito e um ajudante do talho assistiam a uma luta de cães. Dos matadouros adjacentes vinha o cheiro de animais mortos. As letras na tabuleta por cima da loja do latoeiro, à esquina, brilhavam com um tom rubro, como grandes coágulos de sangue. A vizinhança era um perfeito inferno.»

Neste ponto, o empregado passou à frente uns dezassete capítulos, descrevendo diversas transacções monetárias complexas, os sinais no pescoço de uma costureira parisiense, o processo de confecção do brandy, o inchaço nas pernas após o parto da tia de Silvere, a vida nas minas de carvão e cenas na Câmara dos Deputados. Nestes capítulos, a reputação do arquitecto do palácio de Carlos Magno era justificada, e explicava-se por que motivo a avó de Eloise não usava as meias puxadas para cima.

Depois, prosseguiu: «Eloise foi para o campo. No dia seguinte, Silvere seguiu-a. Encontraram-se nos campos. A jovem vestira o trajo dos camponeses. Corou. Tinha um aspecto fresco, belo, inocente. Silvere sentiu-se desmaiar, de tão arrebatado. “Ah, meu Deus!”»

«Ela andara a correr. Sem fôlego, deixou-se cair no feno. Estendeu a mão. “Estou feliz por vê-lo.” Silvere ficou encantado por esta visão. Curvou-se para ela. De repente, desatou a chorar. “Amo-a! Amo-a! Amo-a!”, gaguejou ele.»

«Uma fileira de camisas vermelhas e brancas estava pendurada numa linha, a alguma distância. À terceira camisa, a contar da esquerda, faltava um botão no colarinho. Um gato, nos degraus das traseiras de uma herdade, junto às camisas, bebia leite de um bebedouro. A zona Nordeste do bebedouro tinha uma racha.»

«“Eloise!”, murmurava roucamente Silvere. Curvou-se para ela até que o seu hálito ameno fizesse mover os caracóis no seu pescoço. “Eloise!” murmurou Jean.»

– Jovem – disse um cavalheiro idoso com um guarda-chuva gotejante ao empregado de bigode loiro –, vende camisas de noite que abram à frente e atrás? Hã? Camisas de noite que abram à frente e atrás, disse eu. Ouviu, hã? Camisas de noite que abram à frente e atrás! Ora, então por que não disse? Far-lhe-ia bem ser um pouco mais educado, meu jovem. Quando se chega à minha idade, descobre-se que vale a pena ser… o quê? Não o vi a fazer nenhuma conta de somar. Peço desculpa, nesse caso. Não tem camisas de noite que abram à frente e atrás, hã? Muito bem, bom dia.

Quando o cavalheiro idoso desapareceu, o empregado de bigode loiro agarrou o romance como um animal faminto. Continuou a ler: «Um camponês abordou as duas crianças. Apertou as mãos. “Viram uma vaca perdida?” “Não”, exclamaram as crianças em uníssono. O camponês chorou. Apertou as mãos. Foi um momento supremo.»

«“Ela ama-me!” disse Silvere, empolgado, consigo mesmo, enquanto mudava de roupa para o jantar.»

«Caíra a noite. As crianças sentaram-se junto à lareira. Eloise envergava um vestido branco e justo. Tinha um aspecto fresco, belo, inocente. Silvere estava em êxtase. “Ah, meu Deus!”»

«O velho Jean, o camponês, nada viu. Estava a consertar arreios. O fogo crepitou na lareira. As crianças amaram-se. Através da porta aberta da cozinha, veio o som da velha Marie amaldiçoando estridentemente os gansos que queriam entrar. Diante da janela, dois porcos discutiam por causa de um vegetal. O gado bradava num campo distante. Uma carroça de feno passou lentamente, rangendo. Trinta e duas galinhas dormiam nos ramos de uma árvore. Esta subtil atmosfera exerceu um poderoso efeito em Eloise. Diminuía-lhe o auto-controlo. Sentiu que perdia as defesas. Sufocava.»

«A jovem fez um esforço. Ergueu-se. “Boa noite. Tenho de ir.” Silvere pegou-lhe na mão. “Eloise!” murmurou ele. Lá fora, os dois porcos lutavam.»

«Um ameno rubor espalhou-se pelo rosto da jovem. Volveu olhos húmidos para o amante. Tinha um aspecto fresco, belo, inocente. Silvere estava louco. “Ah, meu Deus!”»

«De repente, a jovem começou a tremer. Tentou futilmente libertar a mão. Mas o seu joelho…»

– Quero comprar algumas camisas para o meu marido – disse uma cliente que transportava seis embrulhos. O empregado de bigode loiro fez um gesto privado de desespero e dispôs rapidamente várias camisas de diferentes padrões sobre o balcão. – Ele é muito exigente com as camisas – disse a cliente. – Oh, acho que nenhuma destas serve. Não têm da marca Invincible? Ele usa sempre dessa marca. Diz que lhe servem melhor. E é muito exigente com as camisas. O quê? Não têm? Não? Sabe quanto custam? Não faz a mínima ideia? Bem, julgo que tenho de ir a outro sítio, então. Mmm… bom dia.

O empregado do bigode loiro estava prestes a fazer mais gestos privados de desespero quando a cliente dos seis embrulhos deu meia volta e se foi embora. Os dedos agarraram o livro, instantaneamente e com nervosismo. Tirou-o do esconderijo e abriu-o no sítio onde interrompera a leitura. Os seus olhos vorazes pareceram devorar as palavras na página. Continuou: «… bateu cruelmente numa cadeira. Isto pareceu acordá-la. Ela sobressaltou-se. Fugiu dos braços do jovem. Lá fora, os dois porcos grunhiam em tom amigável.»

«Silvere pegou na vela. Dirigiu-se ao seu quarto. Estava desesperado. “Ah, meu Deus!”»

«Encontrou a jovem nas escadas. Pegou-lhe na mão. As lágrimas corriam pelo rosto dele. “Eloise!” murmurou.»

«A jovem estremeceu. Quando Silvere pôs os braços à volta dela, ela resistiu debilmente. Este abraço pareceu esgotar-lhe as forças. Desejou morrer. Recordou-se do velho poço e dos ancinhos partidos em Plassans.»

«A jovem tinha um aspecto fresco, belo, inocente. “Eloise!” murmurou Silvere. As crianças trocaram um beijo longo e firme. Pareceu unir-lhes as almas.»

«A jovem desfalecia. A sua cabeça tombou no ombro do jovem. Nada mais existia a não ser estes beijos amenos no seu pescoço. Silvere envolveu-a nos braços. “Ah, meu Deus!”»

– Jovem, diga-me uma coisa – disse um rapaz com um charuto inclinado entre os dentes ao empregado do bigode loiro –; onde diabo fica a espelunca do Billie Carcart, por estas bandas? Sabe?

– É na próxima esquina – disse ferozmente o empregado.

– Oh, caramba – disse o rapaz –, não percisava de ficar irritado. Compre’nde? Não percisa de ficar irritado quand’um tipo faz uma pergunta educada. Compre’nde? Caramba.

O rapaz ficou imóvel e com ar agressivo por instantes. Depois, foi-se embora.

O empregado quase pareceu atirar-se ao livro. Os seus dedos febris viraram rapidamente as páginas. Quanto encontrou a passagem onde ficara, os olhos colaram-se a ela. Leu:

«Então, um grande relâmpago iluminou o corredor. Projectou matizes lívidos numa fila de vasos de flores no banco por baixo da janela. O trovão abanou a casa até aos alicerces. Na cozinha, ouvia-se a voz da velha Marie, rezando.»

«Eloise gritou. Libertou-se violentamente dos braços do jovem. Deu um salto para dentro do quarto. Trancou a porta. Atirou-se para cima da cama, com a cara virada para baixo. Desatou a chorar. Tinha um aspecto fresco, belo, inocente.»

«A chuva, tamborilando no telhado de colmo, soava, na quietude, como passos de espíritos. No céu, para os lados de Paris, brilhava uma luz carmesim.»

«Todas as galinhas tinham caído da árvore. Estavam agora num charco, tristes. Os dois porcos dormiam debaixo do alpendre.»

«Lá em cima, no corredor, Silvere estava furioso.»

O empregado de bigode loiro soltou um grito frenético de desilusão. Enlouquecido, atirou o romance com a imagem na capa para longe. Ergueu-se e disse:

– Maldição!

Tradução de David Furtado

«Why did The Young Clerk Swear?» (Truth XII, 18 de Março de 1893.)

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