John Cassavetes e as vidas com sentido

John Cassavetes apadrinhou Martin Scorsese, por assim dizer, viu nele um talento promissor e gostou do seu primeiro filme. Quando o encontrou numa festa de Hollywood, em finais dos anos 70, pedrado com cocaína, agarrou-o com violência e perguntou-lhe que raio estava a fazer, a desperdiçar a criatividade. Foi também John que chamou Scorsese ao seu escritório, depois de assistir a Boxcar Bertha e o confrontou: “Um tipo com o teu talento dedica um ano da vida a esta merda!?” Depois disto, Scorsese realizaria Mean Streets, Taxi Driver

Scorsese (segundo a contar da esquerda) e Cassavetes, no início dos anos 70.
Scorsese (segundo a contar da esquerda) e Cassavetes, no início dos anos 70.

Um crítico estúpido, defensor de Scorsese (e aparentemente apologista do vício que quase o matou), disse que isso não foi nada, que Cassavetes era um “notório bêbedo”. Ponhamos de parte essa questão: Cassavetes contraiu hepatite no set de um filme, em finais da década de 50. O médico aconselhou-o a não beber álcool durante seis meses, para que o fígado recuperasse. John não seguiu o conselho, o que terá enfraquecido o seu sistema. Os amigos raramente o viram embriagado, o que não significa que não fosse alcoólico, mas, quando lhe disseram que tinha meses de vida, nos anos 80, John ainda viveu anos antes de a cirrose o vitimar, encarando a doença com a coragem possível e recusando um transplante de fígado, devido à sua fobia a hospitais, médicos e à ideia de falecer numa mesa de operações.

O seu testamento foi muito simples: “Deixo tudo o que tenho à minha mulher, Gena Rowlands. Não tenho dívidas. Há despesas óbvias que podem ser pagas com facilidade.” Assim se cumpriu.

John Cassavetes e Gena Rowlands.
John Cassavetes e Gena Rowlands.

“Temos uma grande sorte se possuirmos 40 por cento de prostituta neste negócio do cinema”, comentou Gary Oldman, referindo-se à honestidade quase frenética de John Cassavetes.

john cassavetes lives (6)Quando John morreu, a notícia correu mundo. Em França, Gérard Depardieu não teve meias medidas: Comprou de imediato os direitos de distribuição de todos os filmes realizados por Cassavetes e colocou-os em exibição. Em Paris, durante algum tempo, houve sempre um filme seu a ser exibido nos cinemas todos. Isto é reconhecimento, isto é o tão apregoado “amor à arte” que Cassavetes despoletou em tantas pessoas, cinéfilos, pseudo-cinéfilos, atores, realizadores, vedetas, “you name it, baby”, como ele diria com aquela genica peculiar, e devolvo-lhe a expressão.

“Esta gente… se só querem dinheiro, que metam notas de dólar no ecrã, para as pessoas verem isso a passar! Se alguém aparecesse com um argumento em que um terrorista matava todos os patrões dos estúdios de Hollywood e, se os tipos achassem que isso fazia dinheiro e seria um sucesso, não tinham problema absolutamente nenhum em aprová-lo e chapar com isso nos cinemas!” 

john cassavetes lives (17)

“Ter uma filosofia consiste em saber como amar e saber onde enquadrar esse sentimento. Mas não o podes pôr em todo o lado. Terias de ser um padre a dizer, ‘sim, meu filho, sim, minha filha, Deus te abençoe’. Mas as pessoas não vivem assim. Vivem com cólera e hostilidade e problemas e falta de dinheiro, falta de… sabes, tremendas desilusões nas suas vidas. Portanto do que precisam é de uma filosofia. Penso que aquilo de que todos precisam é de uma forma de dizer, ‘onde e como posso amar, posso amar para que possa viver com algum grau de paz?’ E é por isso que tenho necessidade que os personagens realmente analisem o amor, o discutam, o matem, o destruam, se magoem uns aos outros, façam todas essas coisas nessa guerra, nessa polémica de palavras e na polémica que a vida é. O resto das coisas não me interessa realmente. Pode interessar a outros, mas sou de ideias fixas. Tudo o que me interessa é o amor.”

john cassavetes lives (4)“Há uma grande necessidade no cinema pela verdade, mas a verdade não é necessariamente sórdida e não é necessariamente sombria. Infelizmente, os filmes artísticos exploraram essencialmente os males da sociedade. Mas a sociedade é mais interessante do que violações e assassínios. Acho que podemos fazer mais através de atos positivos do que ao assinalar as fraquezas e as diferentes facetas da estupidez humana. Sim, qualquer homem é capaz de matar outro homem, sabemos isso, não temos de o sublinhar. Dizer que isso é certo e sabido, continuar a repeti-lo, ter a sociedade e os valores estabelecidos a confirmarem essa perspetiva, está errado.”

“Os filmes artísticos debruçam-se sobre as falácias mais óbvias da sociedade, como o preconceito racial. Tem sido um defeito do filme artístico – dedicar-se às doenças humanas, às fraquezas humanas. Um artista tem a responsabilidade de não se debater com isto e assinalá-lo; pelo contrário, deve encontrar esperança para esta Era e de ver que ela vence ocasionalmente. É suposto que os filmes clarifiquem as emoções das pessoas, expliquem os sentimentos das pessoas num plano emocional. Um filme artístico não deve excluir o riso, o divertimento e a esperança. A vida é toda um horror? Ou é sobre aqueles pequenos momentos que temos? Eu gostaria de dizer que a minha vida tem algum significado.”

David Furtado

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