Lou Reed – The Raven: Nas asas do corvo

Para esta homenagem a Edgar Allan Poe, Lou Reed rodeou-se de nomes conhecidos como David Bowie, Steve Buscemi, Willem Dafoe, Kate e Anna McGarrigle, Ornette Coleman, Antony e Laurie Anderson. O álbum é uma espécie de banda sonora do espetáculo de Robert Wilson sobre a obra do escritor norte-americano e, como tal, falta-lhe a componente visual e cénica. Um dos aspetos mais importantes em The Raven é explorar as afinidades entre Poe e Reed, pondo de lado as superficialidades cinematográficas das adaptações de Roger Corman. “Isso é pouco sério.”

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The Raven, editado em 2003, não obteve uma opinião especialmente positiva do público nem da crítica. O projeto foi originado pela colaboração anterior entre Reed e Wilson, Time Rocker, espetáculo baseado na obra de H.G. Wells. Reed aproveitou alguns dos temas que compôs e regravou-os em Ecstasy. Sobre Time Rocker, Reed escreveu na sua antologia de letras/poemas Pass Thru Fire: “Estávamos interessados em transcender o tempo, passando através dele e das suas diversas fronteiras e mundos.”

Só após cerca de 30 anos, Bowie surgiria novamente num disco de Reed.
Só após cerca de 30 anos, Bowie surgiria novamente num disco de Reed.

Em The Raven, Lou achou que, por ter muito em comum com Poe, o poderia reinterpretar ao seu modo e, para tal, foi buscar canções antigas como «Perfect Day» ou «The Bed», que se integravam no espírito do autor americano. Há várias recitações de Poe feitas por Willem Dafoe, que lê uma versão adaptada de «O Corvo» («The Raven»). David Bowie canta «Hop Frog». Reed interpreta outros temas ele mesmo, mas a miscelânea experimental, com altos e baixos contínuos, nem sempre resulta para o apreciador do “álbum convencional”.

Na época, Lou Reed explicou: “Decerto Edgar Allan Poe é o mais clássico dos escritores americanos – um autor mais peculiarmente em sintonia com o bater do coração do nosso novo milénio do que alguma vez foi em relação ao seu século. Obsessões, paranoia, atos deliberados de autodestruição cercam-nos constantemente. Embora envelheçamos, ainda ouvimos os lamentos daqueles para quem a atração pelo pesaroso caos é monumental. Eu reli e reescrevi Poe para voltar a colocar essas mesmas questões. Quem sou eu? Por que sou atraído por aquilo que não devia? Debati-me com estes pensamentos incontáveis vezes: o impulso do desejo destrutivo – a ânsia pela auto-mortificação. Na minha mente, Poe é pai de William Burroughs e Hubert Selby. Estou eternamente a ajustar o sangue deles às minhas melodias.”

Um dos fatores que mais fascinava Reed em Poe era justamente essa ânsia pelo que nos faz mal: “Por que temos uma paixão pela coisa má? O que queremos dizer com ‘má’? Fiquei absorvido por Poe novamente e quando surgiu a oportunidade de lhe dar vida em letra e música, texto e dança, lancei-me logo ao trabalho. Foi algo que me assaltou como um Rottweiler à caça de um osso ensanguentado.”

POE E REED: SOMBRIOS E ROMÂNTICOS

Outros antigos colaboradores de Lou detetaram a grande afinidade artística. O guitarrista Steve Hunter, por exemplo, que tocou nas gravações de Berlin e integrou a banda de Reed na digressão de Rock’n’Roll Animal. (Reuniram-se-iam em 2006 aquando das primeiras apresentações ao vivo de Berlin.) Já após a morte de Reed, Steve Hunter comentou:

“Lou lembra-me muito Edgar Allan Poe. Eu li «O Fosso e o Pêndulo» e foi… não podia acreditar que alguém podia escrever uma história como essa em oito páginas ou lá quantas eram, e assustar-me de morte, só de ler as palavras. Mas então, Poe mudava de rumo e escrevia «Annabel Lee», esse belo poema, incrivelmente romântico, para uma prima ou assim. Ele era tão estranho e peculiar e olhava para o lado sombrio da vida, como Lou. Ambos foram capazes de ser sombrios e românticos ao mesmo tempo.”

O emblemático corvo fotografado por Lou Reed.
O emblemático corvo fotografado por Lou Reed.

“A qualquer altura, pode conhecer um compositor ou até apenas um poeta que não se importa de despojar as coisas e olhar para o lado feio, e fazê-lo ver que o lado feio talvez não seja tão feio. É como conduzir e passar por um acidente, tem de olhar. E acho que Lou fazia-o olhar”, prossegue Hunter. E recorda a sua experiência em Berlin (1973): “Quando ouvi algumas das letras de Berlin, fiquei completamente espantado, ele estava a falar sobre um lado das drogas e uso de drogas que as pessoas que usavam as drogas não queriam ouvir falar. ‘Não quero ouvir coisas feias de drogas. Quero ouvir como é fixe’.”

Em 2000, Lou Reed foi a Amesterdão supervisionar a produção de Poe-Try no Thalia Theater e explorou a sua afinidade com o escritor e a influência que este exerceu no seu próprio trabalho. Como também sou admirador de Edgar Allan Poe, e é um dos poucos autores dos quais li a obra quase toda, achei as declarações de Reed extremamente astutas e identifico-me com elas:

“Li-o quando era novo. Mas foi muito diferente quando era mais velho. E uma das coisas que me fizeram interessar-me por Edgar Allan Poe foi porque… eu fazia uma beneficência para uma igreja de Brooklyn, a St. Ann’s Church, fazem projetos artísticos. E fazíamos uma coisa com o meu amigo Hal Wilner. Era Halloween, então o Hal pediu-me para ler algo de Edgar Allan Poe, à minha escolha. O «Coração Revelador», que já lera e vi nos filmes. Mas nos filmes é muito estúpido. Porque é muito superficial. É para 6 anos. O que está bem… Não quero cartas de protesto de pessoas de 6 anos. Não tenho nada contra elas. Mas os filmes do Roger Corman… aquilo é pouco sério.”

Reed "mascarado" de Poe.
Reed “mascarado” de Poe.

“E quando li Poe, não entendi bem porque… li superficialmente eu mesmo. Mas uns anos depois, quando o fiz com o Wilner e li em voz alta, achei extraordinário porque era em voz alta e isso mudou tudo. E sempre achei que percebia a história, mas só entendi nessa noite. A psicologia por detrás da personagem de «Coração Revelador». E foi tão espantoso desempenhar o papel do personagem do «Coração Revelador», em vez de o termos na cabeça. Porque aí não representamos. À frente de pessoas, começamos de repente a representar. E quando o ia fazendo, comecei a absorvê-lo. Achei espantoso. Como é que isto me escapou? E pouco depois… Bob Wilson perguntou ‘por que não escreves uma peça sobre Edgar Allan Poe?'”

“Bem, de certo modo, Poe era como um Shakespeare americano porque a linguagem é muito rica. Mesmo muito. Eu tinha de ter um dicionário porque ele emprega muitas palavras arcaicas ou que não são muito usadas. Portanto, achei interessante como ele escrevia com uma linguagem fabulosa. E… interessei-me em especial por um ensaio chamado «O Duende dos Perversos».”

“A ideia geral disso é, simplificando, por que somos atraídos por coisas que sabemos que são as piores que podemos fazer. Alguém diz ‘não faças isso’, sabes que não deves fazer… e é mesmo o que fazemos. E ele chama-lhe ‘o duende dos perversos’. E eu achei, ‘isto é fantástico!’ Mas ele extrapola isso. Como essa ideia se aplica a muitas coisas. Cada vez mais. E encontra essa ideia nos contos e vários exemplos nelas. Por isso… o que fiz foi pegar em ensaios e poemas e histórias dele e misturá-las numa Bouillabaisse de Poe…”

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Reed admitiu que não sabia citar os poemas de cor por serem “muito longos”, acrescentando que só sabia algumas frases: ‘Disse o corvo: Nunca mais.’ «O Corvo», um dos poemas mais conhecidos em língua inglesa? ‘Veio bater à porta do meu quarto, apenas isto e nada mais. Disse o corvo, nunca mais, à doce Lenore.’ Lenore, o amor desaparecido e ele está sozinho no quarto, a pensar, ‘nunca mais verei Lenore. Ela desapareceu’ e alguém bate. E é o corvo a recordar-lhe Lenore, que desapareceu.”

O UNIVERSO DE ANJOS CAÍDOS

Lou Reed não via em Poe nada de místico ou extra-terreno, pelo contrário: “Acontecem coisas muito estranhas que ninguém consegue explicar. E Poe “vive” aí. É onde ele constrói o seu castelo. O Bob disse, ‘vocês os dois são feitos um para o outro’. Referindo-se a mim e Poe.” [Risos]. O compositor revelou que inventou alguns dos contos de Poe. “Quis escrever uma história como se fosse ele, sim. Há lá um que não existe na obra de Edgar Allan Poe, mas está no mesmo estilo. E reescrevi… Sim. Ponho lá um bocado de mim de vez em quando. Porque não?”

“Adoro Poe. Quando comecei a lê-lo e a entrar mesmo naquilo, tomou conta de mim completamente. A linguagem é tão bela. E as ideias são muito… se começarmos a pensar assim. E todos nós, nalguma fase das nossas vidas, pensámos desta forma que pode ser considerada talvez um pouco destrutiva. Talvez você não… mas de vez em quando, podem tropeçar e cair, e se alguma vez tropeçaram a caíram, Edgar Allan Poe é para vós. Porque nos apercebemos do universo de anjos caídos.”

Longe dos excessos do passado, Lou continuava a dedicar-se ao Tai Chi.
Longe dos excessos do passado, Lou continuava a dedicar-se ao Tai Chi.

Reed achou estranho que o Thalia Theatre de Amesterdão “pedisse a dois americanos para escreverem uma peça sobre um terceiro americano”. “E nenhuma companhia americana fazia isso. Nunca consegui entender os Estados Unidos. Isso é de doidos porque… vai surgir em Nova Iorque, mas apenas lá. Em Brooklyn, a Brooklyn Academy of Music fará 10 espetáculos. Mas isso é o conjunto para todos os Estados Unidos.”

Reed gostou tanto da experiência de trabalhar novamente com Bob Wilson que teve a ideia de gravar o álbum The Raven: “Fiquei tão absorvido por isto que estamos a fazer um disco de toda a peça em CD. O texto e a música, com pessoas diferentes. Em inglês. Já gravámos as faixas básicas e estamos a trazer pessoas diferentes para cantar… pessoas diferentes para representar Poe e Ligeia e todas as personagens.”

O resultado ficou aquém das expectativas, ainda que Lou Reed tenha composto e interpretado uma das melhores canções (quanto a mim) da sua carreira, «Who Am I? (Tripitena’s Song)». Até porque uma constante na obra de Poe é a recusa em crer que a morte é o fim. Uma boa forma de terminar é com a tradução desse tema, que resume as intenções desta Poe-Try e em que Reed se tenta meter na pele de Poe, mas, como aconteceu durante todo o seu percurso, também incluiu uma boa parte de si mesmo. O gladiador que nunca se rendeu. Ambos rebelaram-se contra a morte. Uma homenagem a dois americanos, desta feita, por um português.

Quem Sou Eu? (Canção de Tripitena)

Às vezes pergunto quem sou eu
O mundo parece passar-me ao lado
Um homem jovem agora a ficar velho
Tenho de perguntar o que o resto da vida trará

Ergo um espelho perante o rosto
Há uns sulcos que podia ligar
A memórias de te amar
A paixão que parte a razão em dois

Tenho de pensar e deter-me agora
Se as reminiscências te fazem franzir o sobrolho
Uma pessoa pensa no que esperava ser
e depois enfrenta a realidade

Às vezes penso em quem serei
Quem fez as árvores, quem fez o céu
Quem fez as tempestades e os desgostos
Pergunto quanto mais da vida aguentarei

Sei que gosto de sonhar muito
E pensar noutros mundos que não existem
Detesto precisar de ar para respirar
Gostava de deixar este corpo e ser livre

Gostava de pairar como uma criança mística
Gostava de beijar um anjo na fronte
Adorava resolver os mistérios da vida
Cortando o pescoço a alguém ou removendo-lhe o coração

Gostavas de o ver bater
Gostavas de fixar nele os olhos
E embora saibas que morri
Gostavas de me segurar nas pernas

Se é errado pensar nisto
Guardar o passado morto no punho
Por que nos deram memórias
Percamos as mentes e libertemo-nos

Às vezes, pergunto-me quem sou eu
O mundo parece passar-me ao lado
Um homem jovem agora a envelhecer
Tenho de imaginar o que o resto da vida trará

Imagino…
Imagino…

Quem começou isto?
Deus estava apaixonado e deu um beijo
A alguém que mais tarde traiu
e um amor sem Deus mandou-nos para longe

A alguém que mais tarde traiu
e um amor sem Deus mandou-nos para longe

Texto e tradução: David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. mathmss diz:

    Excepcional, como todos os seus textos sobre Lou Reed. Parabéns!

Comentários:

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