Lou Reed – Ecstasy: A droga do amor

lou reed ecstasy (9)Em 1998, Lou Reed edita o álbum ao vivo Perfect Night: Live in London, gravado no festival anual de Meltdown. Os fãs teriam preferido um trabalho de originais, mas as ironias da carreira do paradoxal Reed continuavam (e continuam). «Perfect Day» foi escolhido pela BBC como tema promocional. A empresa britânica reuniu os artistas mais díspares possíveis, de David Bowie a Bono, Emmylou Harris, Elton John a Tom Jones, adicionou a Royal Symphonic Orchestra e, com cada um a cantar uma frase, parecia uma manobra promocional perfeita. Tão perfeita que o single chegou a nº 1. Este «Perfect Day», geralmente considerado um tema ambíguo e sarcástico sobre a heroína, é agora música promocional de um banco português! Abra uma conta e passe um dia perfeito connosco. O dinheiro sempre foi uma boa droga. E o amor?

Na minha opinião, tudo isto é excelente, já que se trata de uma composição lendária e extraordinária e poucos sabem que a música e a letra são de Lou Reed. Dando um salto no tempo até maio de 2000. Reed edita aquele que foi discutivelmente o seu último grande trabalho: Ecstasy.

A Uncut chamou-lhe “uma obra de cólera e beleza, a sua melhor desde 1992”. Publicamente, Reed era o roqueiro de sempre, pouco parecia ter mudado desde os Velvet Underground, embora as rugas lhe sulcassem visivelmente o rosto: Vestido de preto, de Telecaster, sem concessões. Parecia mais sereno, ainda que tivesse surgido uma certa especulação de que a sua vida pessoal com Laurie Anderson não corresse tão bem como se esperaria. Sejamos diretos, para quem passara por dois divórcios, ambos com acusações de agressões psicológicas (e físicas) por parte das companheiras e vivera com um homem, era fácil especular… tudo.

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Achei estas especulações pouco sólidas. Até que alguém próximo de Lou verbalizou uma opinião mais coerente. “Quando estamos felizes, não temos necessariamente de escrever sobre felicidade. Podemos até focar o nosso trabalho naqueles que não tiveram a nossa sorte.” Os temas de Ecstasy assemelham-se a um eletrocardiograma com altos e baixos e variações de temática. O ponto forte é que Reed estava novamente a pegar o touro pelos cornos e a falar de coisas complexas, com humor cáustico, seriedade e bom rock and roll.

lou reed ecstasy (6)Felizmente, os críticos repararam que Ecstasy era um pouco melhor que o antecessor, Set the Twilight Reeling, pelo simples facto de o músico, com mais ponderação que noutros tempos, é certo, estar a mergulhar dentro de si próprio. “Se New York foi um grande álbum sobre tudo o que rodeava Lou Reed, Ecstasy é um grande álbum sobre tudo dentro de Lou Reed.” Quem o disse foi Nick Johnstone da Uncut, e não andou longe da verdade.

Astutamente, Reed preferiu ser enigmático quanto ao teor do disco, dizendo sobre o tema-título, por exemplo, igualmente enigmático: “O importante é que tem um estrondoso riff de guitarra. Penso nele como o riff de «Sweet Jane». De vez em quando, arranjamos uma frase de guitarra mesmo boa… adoro isso.” Ao ouvir «Ecstasy» repara-se numa metáfora baseada na substância, cujos efeitos passam, como quem equipara o amor a uma droga, e já clinicamente o fizeram, se quisermos lembrar a psicologia pop, estudos médicos e outras ciências…

NINGUÉM REPARA NO ROMÂNTICO…

O interessante em Ecstasy é que Lou Reed contrapõe quase a seguir uma das canções mais românticas e sábias que alguma vez compôs sobre o amor: «Turning Time Around». “Não lhe chamo família e não lhe chamo luxúria e, como todos sabemos, o casamento não é imperativo. E acho que, no fim de contas, é uma questão de confiança. Se tivesse de lhe chamar algo, chamar-lhe-ia tempo.” E a letra prossegue: “Muitas vezes, o tempo não tem significado, futuro nem passado, e quando estás apaixonado, não tens de fazer perguntas. Nunca há tempo suficiente para agarrar o amor na nossa mão. Dar a volta ao tempo. O amor é isso.”

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Reed tornara-se filosófico e mais do que cumprira a promessa de querer alcançar o brilhantismo artístico dos seus mentores literários. Durante um concerto, nos anos 80, lamentara que as pessoas não ligassem à sua faceta romântica, apresentando «Satellite of Love». Mas, em Ecstasy, como um furacão, Reed leva tudo à frente. «Tatters», por exemplo, como o título sugere, é sobre uma relação em farrapos, acusações mútuas e pessoas que não se dão. «Mad» é a personificação do desespero, reminiscente de Berlin.

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O tema mais violento é «Rock Minuet», descrito pelo seu autor desta forma: “É uma canção ligeira sobre um homem e o seu pai. Gosto da ideia de tentar revisitar Édipo Rei [a tragédia ateniense de Sófocles]. Acho mesmo que esta é uma das melhores canções que alguma vez fiz, nesse estilo. Está lá no topo, com «Street Hassle». É uma… verdadeira viagem pela cabeça de alguém, um exame realmente sério dos sentimentos que se tem pelo pai. Algumas pessoas vão compreendê-lo; outras vão mostrar-se ativamente perturbadas por ele.”

lou reed ecstasy (7)Reed pegou no minueto, dança de origens aristocráticas, e aplicou-lhe uma dose de rock, a história brutal de um rapaz que testemunhou a vida conjugal violenta dos pais e se desviou dos “padrões”. Droga, prostituição e assassínio, tudo a este ritmo de 3/4, histórias que existem nas cidades. “Na maldição do beco e na excitação da rua, nas docas amargamente frias, onde os marginais se encontram, eles dançavam ao som do minueto do rock.” A linguagem é explícita e, por muito que admire Reed, esta é uma canção para maiores de 18.

Deve ser feito um elogio ao esmero com que Reed supervisionava o som dos álbuns. Isso nem sempre aconteceu. Bob Ludwig, o reputado engenheiro americano de masterização (pós-produção audio, para leigos) mostrou-se impressionado com a forma quase obsessiva com que Reed queria obter o som certo. Até no inaudível Metal Machine Music. Gostava do zumbido que saía do amplificador e até isso controlava. Não queria um som limpo e “desinfetado” de ruídos.

A vitalidade deste trabalho de Reed reside também no facto de o músico estar atento como um falcão aos tempos. «Modern Dance» examina com humor a forma como as relações amorosas se modificaram. Agora é uma dança moderna, qual o papel de cada um? “Talvez não queiras ser uma esposa, não é vida para ninguém ser-se uma esposa.” It’s no life being a wife, sempre a rimar. O vídeo é divertido, com Reed vestido de galo, depenado e enfiado numa panela por vamps!

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

lou reed ecstasy (11)«Paranoia Key of E» é o tema de abertura, com riffs de guitarra semelhantes aos dos Rolling Stones. Paranoia em tom de Mi. “Vamos jogar um jogo da próxima vez que nos encontrarmos, eu serei as mãos e tu os pés, e juntos vamos manter o ritmo da paranoia em tom de Mi.” “Mas sabes que as manias são em tom de Si, a psicose é em tom de Dó, espero que não estejamos destinados à paranoia em tom de Mi.” “A anorexia é em tom Sol bemol, e o Fá é tudo o que me esqueci, dislexia, cleptomania… Mas vamos fazer um fim em tom de K [tom inexistente], algo que apenas nós sabemos tocar.” É um humor que retrata genialmente a complexidade dos relacionamentos, esperanças goradas, preconceitos. Como Albert Camus disse, “ninguém entende que muitas pessoas fazem um esforço tremendo por serem normais”.

O que faz de Ecstasy um trabalho genial são também as variantes que Reed vai introduzindo pelo caminho. Em «Baton Rouge» parece lamentar a vida convencional que o iludiu, os filhos, casamento. “Quando penso em ti, Baton Rouge, penso numa banda mariachi, penso nos 16 e num campo de futebol verde e límpido, penso na rapariga que nunca tive.” Nem o significado de rouge é deixado ao acaso: “Penso em quando o amor acaba e o ódio começa a corar.”

Poético, intenso, realista ao ponto do incómodo: “Quando me tornei o vilão do teu coração, e pus os travões no teu arranque? Deste-me um estalo, choraste e gritaste, foi isto o que o casamento passou a significar, o fim mais amargo de um sonho.” E o narrador termina a tentar não pensar nesse campo de futebol verde, nos 16 anos e na rapariga que nunca teve, pois tudo parece ter descarrilado desde então.

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O TRUQUE EXCLUSIVO

Sem querer cair na psicologia pop, a confissão que Lou Reed fez a certo ponto da sua carreira, de que o seu trabalho era uma mistura de pessoas que conhecia ou observava e dele mesmo, soa correta. Mas só ele o sabia. «Baton Rouge» é uma canção com grande ternura, e como se consegue fazer conviver na mesma canção emoções tão opostas era um “truque” exclusivo e inimitável de Lou Reed.

Recordo-me que, quando o álbum foi editado, os maiores elogios foram para «Like a Possum», tema já no fim do disco, ao qual os críticos se renderam, chamando-lhe um “monólito” de 18 minutos. Reed chamou-lhe “monumental”. Não iria a esse extremo de “delírio” crítico, mas com as guitarras a rugir e a frase insistente, “I got a hole in my heart the size of a truck, and it can’t be filled by a one night fuck”, ou “gosto de dançar com as minhas diferentes facetas que se neutralizam mutuamente”… É a faixa mais intensa e arrojada. Alguma vez alguém disse num disco, “tenho um buraco no coração do tamanho de um camião e não pode ser enchido por uma foda de uma noite”?…

“Tocávamos simplesmente o riff durante horas a fio”, disse Lou. “E horas a tocar aquilo originou algo de maravilhoso. Depois foi questão de arranjar forma de a cantar.”

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O álbum termina com «Big Sky», o grande céu que tudo suporta, a Lua, o Sol, as estrelas, Vénus e Marte, mas que já não mantém juntas duas pessoas, nem com amor torrencial que dele possa cair. O grande amor é agora um torno que já nada prende. O reverso da medalha é que existe a metáfora de “o céu é o limite”. Reed parece jogar com isto, mantendo esperanças em aberto, sem nunca negar o lado negro que do  céu pode vir.

Reed escreveu estas canções por volta das cinco da manhã, admitindo agora que sofria de insónias. Ecstasy foi uma surpresa para críticos e fãs. Estamos em 2014, e vivemos a Era da Amnésia, 14 anos passaram. O Lou Reed da t-shirt preta renascia com um trabalho impecável, ao nível de tudo de melhor que fizera no passado. “Chamam-te êxtase, nada se prende a ti, nem velcro nem fita-cola…” As vidas das pessoas não são telenovelas, são difíceis, são complexas, o vilão não é punido, a moralidade é difusa.

Quando Ecstasy foi editado, fiquei eu próprio em êxtase, ao ver que ainda havia alguém capaz de pôr em rock o que eu lia em livros. Achei-o um trabalho admirável. E hoje ainda mais. Porque hoje não há tempo. Temos a tecnologia. O disco? Não ficou datado. As emoções? Não ficam. As tecnologias? Ficam obsoletas passado um ano. Felizmente o humano permanece.

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. Marcos David diz:

    Ótimo texto, David
    Eu tenho uma dúvida que vem de 2000 quando o álbum Ecstasy foi lançado:
    o que significam St. Ivory e St. Maurice na faixa-título?

    1. Obrigado, Marcos.
      “Alguns homens chamam.me St. Ivory, outros St. Maurice”, é a frase. St. Ivory ou “ivory” é o nome de rua dado a certas drogas. St. Maurice é o nome de uma clínica de desintoxicação em Los Angeles. Julgo que terá a ver com isso, tendo em conta o teor dessa letra. Ou seja, alguns aceitam a droga, neste caso, o ecstasy, outros tentam renegá-la. Mas é apenas a minha interpretação.

  2. Marcos David diz:

    Muito obrigado, David!
    tenho apreciado muito a sua página.
    Um abraço1

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