Lou Reed – Set the Twilight Reeling: O desafio ao crepúsculo

Os três sucessos comerciais consecutivos de Lou Reed, New York, Magic and Loss e Songs for Drella, tornaram possível, e até oportuna, uma reunião dos Velvet Underground. Alguns chamaram-lhe uma ideia brilhante – falamos de um grupo que teve tanta influência como os Beatles, os Rolling Stones ou os Queen, etc., se bem que de forma diferente. Isso não está em discussão. O modo como o processo decorreu é que não foi pacífico.

lou reed set the twilight reeling

Os VU eram um mito, e o facto de se reunirem causou uma expectativa irrealista que nunca poderia ser satisfeita. A reunião não foi tão desastrosa como a apelidaram, e tal pode-se constatar no disco ao vivo e no vídeo daí resultante, mas também não foi gloriosa. Alguns espetáculos (da digressão que não passou pelos EUA), arrastavam-se, a magia tinha-se perdido.

A “culpa”, essencialmente, foi de… Lou Reed. Durante esta fase, e sendo o músico que desenvolvera uma carreira mais marcante ao longo do interregno de 28 anos, Reed achava-se o mentor dos VU. Obcecado por controlar o projeto, e com atitudes de “control freak”, tratou os restantes membros como uma banda de acompanhamento. Deixou também evidente uma certa inveja da reputação de intelectual geralmente atribuída a John Cale.

Sterling Morrison, Maureen Tucker, John Cale e Lou Reed.
Sterling Morrison, Maureen Tucker, John Cale e Lou Reed.

Houve várias situações incompreensíveis, como fazer a primeira parte de um concerto dos U2 em estádios italianos (!); ou o facto de a esposa e manager de Reed, Sylvia, encarar Sterling Morrison, Maureen Tucker e John Cale como meros acompanhantes do marido. E Lou não os tratou da forma adequada, nem sequer respeitosa, gritando-lhes em palco coisas pouco abonatórias. Isto quando não lhes deitava olhares fixos e silenciosos. As velhas quezílias do passado pareciam sem solução.

Laurie Anderson e Lou Reed.
Laurie Anderson e Lou Reed.

O elemento que mais se insurgiu contra isto foi justamente Cale. Allan Jones do Melody Maker perguntou-lhe se Reed se tornara “invulgarmente democrático”, e a resposta foi: “O Lou, democrático? Não vamos tão longe. Digamos que, se ele acha que vou aparecer e tocar «Walk on the Wild Side», vai ficar seriamente desiludido.” A imprensa não ficou impressionada com a “solenidade bizarra” de Cale em palco e achou estranho que “músicos com uma idade respeitável” cantassem “canções rock adolescentes com a mesma intensidade de anunciadores das estações dos caminhos de ferro”, como caracterizou sarcasticamente Roger Morton no New Musical Express.

Ainda por cima, o casamento de Lou e Sylvia estava em rápido declínio. Pouco tempo depois da reunião dos VU, separaram-se e a ex-mulher tornou-se também ex-manager. O divórcio não foi pacífico, com várias recriminações à mistura. Pode-se dizer que o início dos anos 90 não foi fácil para Lou Reed. O músico conhece então alguém que se tornaria sua mulher, literalmente até que a morte os separasse: Laurie Anderson.

O modo como Reed e Anderson se conheceram já se encontra divulgado em vários websites, não o vou repetir aqui, apenas recordar o comentário de David Byrne acerca do álbum a solo seguinte, Set the Twilight Reeling: “Parece um cartão de São Valentim sombrio.” Como o próprio Reed comentara em 1983, “os críticos musicais dizem muitas coisas” e há uma tendência irritante para declarar Lou como criativamente desinteressante a partir da reunião semifracassada dos VU.

lou reed set the twilight reeling (2)

A meu ver, Reed abrandou, talvez por influência de Laurie Anderson, que parece ter sido positiva a vários níveis. Ao contrário do que fizera no passado, Lou deixou de falar sobre a vida pessoal em entrevistas. Além de Set the Twilight Reeling, em 1996, e até falecer, Lou Reed só editaria um álbum, Ecstasy em 2000. The Raven (sobre Edgar Allan Poe) e Lulu ou até Hudson River Wind Meditations (música composta para ouvir enquanto se pratica Tai Chi) pertencem a uma categoria diferente de projetos e são bastante heterogéneos.

UM BOM EGG CREAM

lou reed set the twilight reeling (10)Set the Twilight Reeling mostrava um Lou Reed revitalizado, com o típico humor negro, escrevendo num tom que varia entre o ligeiro e o limar do diamante até à forma mais concisa. O primeiro tema é logo um tributo a um dos baluartes da cozinha americana, mais precisamente, de Brooklyn: O Egg Cream. Esta bebida, inventada por Louis Auster no final do século XIX, é composta por leite, água gaseificada, baunilha e xarope de chocolate. O Egg Cream é tipicamente nova-iorquino e não se deve confundir com um batido.

Considerações culinárias à parte, a canção é o ponto de partida para boas recordações de adolescência. Reed aconselha-nos inclusivamente vários locais onde podemos provar um Egg Cream: “Da próxima vez que fores a Brooklyn, por favor diz olá por mim, ao Totonno’s pela pizza e o gelado do Al and Shirley’s. Mas acima de tudo, vai ao Becky’s, senta-te num banco e diz olá e pede dois Egg Creams de chocolate, um para tomar e outro para levar.”

E o refrão sublinha, “tu gritas, eu fico empolgado, todos queremos Egg Cream”. Quem o rotulara de arauto da depravação, pode ter ficado um pouco surpreendido com o otimismo quase juvenil. «NYC Man» é uma declaração de princípios numa relação amorosa, incluindo várias referências a Shakespeare. Segundo o autor: “Tem uma sonoridade tão nova-iorquina. Um som romântico. É o que ouço quando penso na Ilha de Manhattan.”

«Finish Line» é dedicada a Sterling Morrison, que entretanto falecera.

Há várias canções em Set the Twilight Reeling em que Reed entra novamente dentro dele mesmo. É por isso louvável que não andasse a debitar discos sem sentido, preferindo editar quando tinha algo a dizer, o que não é o hábito nos dias de hoje. «Em Trade In» afirma que quer uma 14ª oportunidade na vida, que conheceu uma mulher com mil faces e quer torná-la sua esposa. “É uma grande canção”, comentou Lou. “De vez em quando, consigo uma canção dessas e ninguém repara. Adoro a letra, tudo. Captou realmente aquele tipo de sentimento… do género… ‘és amorosa’.”

Anderson fotografando Reed.
Anderson fotografando Reed.

CONSELHOS SÁBIOS

lou reed set the twilight reeling (6)«Hang On To Your Emotions» é uma observação/conselho a quem o ouve: “Quando um demagogo dentro da tua cabeça tomou conta e essa negligência faz com que tudo o que dizes ou fazes seja criticado. E esta ladainha de fracassos é recitada mil vezes, é melhor que te agarres às tuas emoções.” São conselhos sábios a pessoas que atravessam dificuldades na vida quotidiana ou sentimental. Denotam também grande inteligência porque usam metáforas simples para descrever emoções complexas e o que se pode fazer para enfrentá-las. Reed amadurecera sem ficar xaroposo.

«Sex With Your Parents (Motherfucker) Part II»: De seguida, apanhamos de chofre com este tema, um ataque venenoso aos Republicanos, a Bob Dole, ao falso moralismo e puritanismo dos EUA – aplicável a outros países. O tema valeu a Set the Twilight Reeling o famoso carimbo a alertar para o conteúdo explícito das letras. Reed verbalizou o asco que senadores, políticos e afins, supostamente preocupados com os bons costumes, lhe inspiravam. Motherfucker com “o” foi o termo “subtil” escolhido para descrever tais pessoas. Não “mutherfucker”.

HUMOR NEGRO

lou reed set the twilight reeling (7)«HookyWooky» é, do princípio ao fim, uma boa piada. Cáustica, sublinhe-se. Quem nunca teve ciúmes de ex-namorados da namorada? Reed leva isso um pouco mais longe. Afirma que as coisas, para ele, quando acabam, acabam. “Nenhuma das minhas velhas paixões alguma vez fala comigo. Elas levam-nos as calças, o dinheiro e o nome, mas a canção fica”. E portanto, não entende muito bem como se mantém um relacionamento afável com ex-amantes (ou é essa a perspetiva do narrador). Por conseguinte, “não” gostaria de reunir todos os ex-namorados da companheira e atirá-los do cimo de um prédio para serem prensados pelas rodas de um carro em Canal Street!

A partir daqui o álbum torna-se mais abstrato. «Riptide» é outra grande canção que descreve uma mulher em estado perturbado, apanhada numa corrente com a qual não pode lutar: “Eu estava a pensar no último quadro de Van Gogh, o Campo de Trigo com Corvos, talvez fosse isso que sentias.” Soa a uma elegia a alguém que se perdeu pelo caminho. O tema-título surge no fim, o narrador aceita o homem recém-encontrado, afirma-se como um homem novo e desafia o crepúsculo, ou pelo menos, agita-o. Soa triunfal? 

Sem ser o melhor disco de Lou Reed, Set the Twilight Reeling é um trabalho equilibrado que lembra uma frase acerca de Bob Dylan. A certo ponto, aprendeu a “fazer conscientemente o que outrora fazia inconscientemente”. O mesmo se pode dizer deste álbum e do seu autor.

David Furtado

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