Lou Reed – Magic and Loss: “A vida é boa… mas não é nada justa”

Entre um Abril e outro, perdi dois amigos, entre um Abril e outro… magia e perda. Esta é uma peça sobre amizade e amor e a perda que todos sentimos na vida quando alguém próximo de nós morre.

As pessoas desta peça são os meus amigos, Rita, que não conhecerão, e Doc Pomus, que talvez conheçam. Compôs «Save the Last Dance for Me» entre muitas outras.

Começamos com «Dorita», uma evocação do espírito humano na música. Depois, passamos a uma definição da situação vista do exterior e, em seguida, do interior, do ponto de vista da pessoa que sofre de cancro.

Os meus amigos eram pessoas extraordinárias, contudo, e as emoções que partilho convosco, a dor, cólera, desejo de vingança, culpa e, finalmente, o poder transformador do espírito são o tema da peça.

Tive a sorte de conhecer estas pessoas, e a sua alegria e luta pela vida marcaram-me até hoje. Sinto orgulho em poder partilhá-las convosco e espero que a magia deles vos ajude a assimilar qualquer perda que também vocês possam ter sofrido.

Parafraseando a canção de abertura: “A vida é como sânscrito lido a um pónei… a vida é boa… mas não é nada justa.”

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Em janeiro de 1992, era lançado Magic and Loss, disco conceptual sobre a morte. O álbum provocou tanta disparidade de comentários ao longo dos anos que achei melhor começar com a descrição do próprio autor, contida no vídeo homónimo.

Nesta época, Lou Reed tinha a crítica e o público a seu favor. Podia ter enveredado por vias mais fáceis. A verdade é que, se Magic and Loss fosse publicado como um livro de poemas, ninguém estranharia. Era pouco ortodoxo que se tratasse de “música rock”, essa “coisa de adolescentes” em que os temas sérios estão interditos, pelo menos, para algumas mentes retrógradas. Atualização: Já desde Bob Dylan que isso não acontece, há mais de 50 anos.

Os admiradores do Lou Reed com a imagem de acólito da depravação, ou algo assim, ficaram desiludidos com um álbum que explorava áreas (ainda mais) sérias da experiência humana. São incontáveis os “livros, histórias, filmes e peças de lou reed magic and loss (3)teatro que tentam explicar isto”, citando «Power and Glory part II». Porque não um disco? Não havia. Lou acentuou isso, dizendo que não teve outra alternativa senão compor estas canções. Equiparou, enigmaticamente mas de forma penetrante, a magia e a perda humanas ao processo de criação:

“Escrever implica uma emoção que não é nossa. Está lá, no trabalho, e quando escrevemos… depois disso, deixamos de a ter. Também há perda. Como se tivéssemos desistido de algo que não queríamos dar.”

Magic and Loss é um trabalho importante, tanto na obra de Reed como na música em geral. As emoções que aborda e descreve já foram vividas por tantas pessoas que seria “irresponsável” da parte do criador não editar o álbum. Criticou-se a postura excessivamente séria de Reed relativamente às técnicas de gravação e à meticulosidade com a fase de mistura, trabalho do autor em conjunto com Mike Rathke, que durou mais do que a gravação propriamente dita, a qual decorreu no estúdio Magic Shop nova-iorquino. Este esmero deveu-se às preocupações do músico: Queria que o disco soasse bem em qualquer tipo de aparelhagem, boa ou má.

FALAR DO QUE NÃO SE FALA

Para Reed, era a fase da consagração, dos prémios, de entrevistar e conhecer um admirador insólito da sua música, o presidente checoslovaco Václav Havel. Foi condecorado com a Ordem de Cavaleiro das Artes e Letras pelo Governo francês. A sua obra foi celebrada numa caixa/compilação bastante boa, Between Thought and Expression. As letras foram publicadas em livro. Reed chegava à fase em que os ícones do rock já não têm geralmente nada de novo a dizer, provar e/ou provocar, e vão colecionando honrarias.

O Ministro da Cultura francês, Jack Lang entrega a Lou Reed a distinção de Cavaleiro das Artes e Letras, a 18 de fevereiro de 1992.
O Ministro da Cultura francês, Jack Lang entrega a Lou Reed a distinção de Cavaleiro das Artes e Letras, a 18 de fevereiro de 1992.

Aconteceu a praticamente todos, de Knopfler a McCartney, em maior ou menor grau; refugiam-se no estatuto de realezas do rock, no conforto doméstico e estagnam, não criam nada de interessante. É uma consequência da idade, não é uma crítica. Quero com isto sublinhar que Reed foi dos poucos que seguiu caminho. Um artista tentar fazer com que as pessoas pensem. Poderá ser um conceito obsoleto hoje, mas esteve sempre na base da verdadeira arte.

“Como se lida com a doença numa sociedade que não fala sobre ela? Certamente não se fala dela no rock ’n’ roll, não do modo que se fala dela nos romances, nas peças. Nem sequer numa porcaria de um filme de Hollywood como Love Story. Mas não temos nada de profundo no rock.”

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Jerome Pomus ou “Doc” escrevera êxitos para Elvis Presley, Ray Charles ou os Dion & The Belmonts, clássicos do rock ‘n’ roll. “Não passa um dia em que não tenha a dolorosa consciência de que não posso pegar no telefone e ouvir a sua voz rouca.” Reed frequentou a Writers’ Workshop de Pomus, onde o compositor mais velho editava as canções dos jovens entusiásticos. Um dos “aprendizes” era, imagine-se, Lou, sempre com a sua atitude de veneração genuína perante o rock clássico e os seus mestres, fossem da Motown ou do doo-wop.

lou reed magic and loss (4)Rita é “Rotten Rita”, ou melhor, Kenneth Rapp, frequentador da Factory de Warhol, traficante e consumidor de anfetaminas. “Rotten Rita” também é citado na canção de New York, «Halloween Parade». Um parêntesis: Swimming Underground de Mary Woronov é um livro de memórias interessantes sobre esses tempos. Menciona “Rita” e também a relação quase fraternal entre Woronov e Reed.

“Foram pessoas que me inspiraram até ao último minuto. Num curto espaço de tempo, duas das pessoas mais importantes na minha vida faleceram de cancro, portanto a ‘peça’ é sobre amizade e como ela transforma as coisas… mas teria sido pior não os ter conhecido de todo.”

Enquanto muitos assinalaram a falta de apelo comercial, outros disseram que a lacuna era colmatada pelo impacto emocional. Houve exageros: Para uns, era de uma morbidez insuportável. David Fricke, da Rolling Stone, viu no álbum tantos méritos que até vislumbrou um “intimismo de capela” reminiscente do terceiro álbum dos Velvet Underground. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra… É um álbum com poucos temas que cativem como “música de fundo” (mas isso, Reed raramente fez) e que nos obriga a prestar mais atenção do que o habitual às letras. Pensando melhor… esse também é habitualmente o caso de Lou Reed…

Até Seymour Stein, o chefe da Sire Records (responsável pela contratação de Madonna, Echo and The Bunnymen, The Cure, The Smiths, The Pretenders e também pela de Reed), ficou à toa: “Isto é sobre cancro?!”

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Ao vivo, durante os concertos de promoção do disco, o músico tentou impor uma estranha política entre a banda (já o fizera) e que agora também abrangia o público. Ninguém podia fumar ou beber. E era obrigado a estar calado e a ouvir. Sempre admirei Lou por ser um rebelde genuíno, mas tais atitudes, postura autoritária e uma insistência para lá do razoável em levar a sua vontade avante, tornam-se presunçosas.

Não se pode pôr em causa a seriedade de Lou Reed, quanto aos amigos e aos seus propósitos artísticos. Achava Magic and Loss o seu melhor trabalho desde Berlin:

“Adoro esse disco e este é o seu descendente mais próximo desde então, Compõe um todo coerente em vez de ser um amontoado de 14 canções desconexas. Berlin foi uma nobre tentativa de lidar com um velho cavalo de batalha, rapaz conhece rapariga, perde rapariga, e não há reunião. Estava condenado desde o começo. Mas já deixei há muito de ser essa pessoa. Já abrangi esse tema, e foi num lugar diferente. Não ouço os meus discos há muito tempo, mas sempre tentei ter alguma compaixão.”

“Os meus personagens podem não ser grandes pessoas, mas apresento exemplos do seu comportamento, não os condeno nem assumo uma posição moral. Não são assim tão diferentes de pessoas que toda a gente conhece.”

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“ESTE NÚMERO JÁ NÃO SE ENCONTRA OPERACIONAL”

“Para nos identificarmos com este álbum, talvez tenhamos de ter levado umas pancadas da vida. Não significará muito para alguém com 8 anos, exceto o som, que é muito divertido.” Abordar tais temas causou hesitação ao próprio autor: “Tive dúvidas, de facto. Mas, como escritor, só existem algumas grandes temáticas, e a morte é uma delas. Podia tê-lo guardado, mas tinha de o fazer.”

“Sombrio” e “macabro” foram alguns dos termos que a imprensa usou para descrever Magic and Loss. É inegável… cremações, radioterapia, missas de sétimo dia, as desconfortáveis cadeiras das capelas, a linha desligada pela companhia telefónica, para a qual o narrador liga, por engano, por hábito, para ouvir, “este número já não se encontra operacional. Se precisar de ajuda, não desligue, o telefonista…”

A Espada de Dâmocles que paira sobre a cabeça do doente sujeito à destruição de células malignas e benignas… o peso na consciência por não se ter tido oportunidade de dizer adeus, as fotografias e as memórias, a certeza de que o mesmo destino nos espera… Nada disto é agradável, no mínimo. Por outro lado, conceber um disco destes com seriedade, é andar no fio da navalha, outra forma de Wild Side, bem mais difícil e abrangente em termos de afirmação artística e expressão pessoal.

O autor teve inevitavelmente de argumentar perante uma imprensa inquisidora e algo agressiva: “Não é sobre morte, é sobre perda! O disco de rock ‘n’ roll é considerado um brinquedo de lata porque ninguém escreve coisas desse nível. Eu quero mexer nisso, fazer algo que ajude as pessoas nas suas vidas. Isto soa pretensioso, mas falo a sério. Não ando a brincar.”

“Este disco não é soturno. Não sou a única pessoa do mundo que enfrentou uma perda – especialmente nos tempos que correm, com a SIDA e o que as outras doenças fazem. Trata-se de emoções complexas… o disco é como um amigo que nos fala. É revigorante para a alma. Por isso é que o acho tão positivo, porque nos dá algo a que nos podemos mesmo agarrar. Este álbum dá ao ouvinte algo mais do que música. Quando a perda nos entra pela vida adentro, o que fazemos? Vamos embebedar-nos? No fim, acordamos e a pessoa continua ausente. Não podemos ficar bêbedos para sempre – ainda temos de lidar com a situação.”

Sem o sarcasmo de outros tempos, talvez porque o assunto em causa não fosse caso para graças, Lou ia-se defendendo nestes termos: “Ajuda, se o ouvinte tiver alguma experiência de vida, não é um disco para meninas”, “este disco tem por tema a forma como se extrai algo de positivo de algo tão trágico”.

Penso que estar a divagar sobre Magic and Loss não tem grande importância face aos factos e emoções que descreve. A abordagem de Reed parece-me sempre muito mais original. «Warrior King» “é” alguém que se dirige encolerizado “aos elementos que atacaram e mataram os seus amigos. Mas não é dirigido a uma pessoa. É dirigido a uma coisa. Com uma doença terminal, não há ninguém a quem nos possamos dirigir. Não o podemos levar para um beco e fazer isto e aquilo. Se eu pudesse… mas com a morte, não se pode”.

Parafraseio, agora eu, a canção final, referindo-me a Reed: “Há um pouco de magia em tudo, e depois alguma perda para equilibrar as coisas”.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. mlenac diz:

    A abordagem a um dos temas mais sérios da vida é feita com um respeito e dignidade de mestre. Faz uma pessoa pensar sem cair em dramatismo exagerado. Está muito bem escrito. Um Grande Obrigada.

    1. Obrigado eu, mlenac. O comentário resume bem o conteúdo de Magic and Loss. Além de o tema ser sério e complicado, Lou Reed conseguiu, quanto a mim, um equilíbrio entre as músicas e as letras. Parece estranho por ser um disco, mas há milhões de livros e filmes sobre este tema e ninguém estranha. Reed nunca entra em dramatismos exagerados e eu também tento não o fazer.

Comentários:

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