Lou Reed e John Cale – Songs for Drella: Algures entre Drácula e Cinderela

Recapitular o que acontecera aos Velvet Underground é incontornável para situar Songs for Drella na época em que foi concebido. Era um grupo reverenciado pelo tremendo impacto que causara. Doug Yule não conseguira suster a carreira musical, apesar de ter integrado a banda de suporte de Lou Reed em 1975. Sterling Morrison optara pela carreira académica e Maureen Tucker dedicara-se à família. Nos anos 80 foi “redescoberta” e lançou discos de mérito artístico questionável. Os dois principais elementos criativos do grupo reuniram-se para este tributo a Andy Warhol.

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Ao longo do tempo, John Cale resignara-se a uma espécie de status de “marginal” no mundo da música. Produziu outros artistas e concentrou-se em caminhos mais experimentais no seu trabalho a solo. Reed já era há muito uma figura incontornável, ainda que o seu estatuto tivesse sido abalado na década de 80. O sucesso crítico e comercial de New York restaurou (e recordou) a importância do seu legado.

Nico, apesar de nunca ter sido um elemento formal dos VU, tivera o pior destino de todos. Vivia em Manchester, debatendo-se com um problema intermitente de vício em heroína. Nesta obscuridade, continuava a ter seguidores (e detratores) devido à sua voz invulgar. Em julho de 1988, durante um passeio de bicicleta em Ibiza, terá caído e sofrido uma hemorragia cerebral que lhe provocou a morte.

Nico e Reed em Nova Iorque (1975).
Nico e Reed em Nova Iorque (1975).

John Cale já pensava em fazer um tributo a Warhol (em parceria com o artista Julian Schnabel) desde o início de 1988. Trabalhou durante dois meses, mas, inseguro quanto aos resultados, decidiu telefonar a Lou Reed, em maio, para que este ouvisse e desse uma opinião.

Segundo Reed: “John e eu arrendámos um pequeno estúdio de ensaio durante três semanas e fechámo-nos lá dentro.” Cale explicou: “Começou connosco a discutir ideias, mas gradualmente tornou-se em composição… eu fiquei mesmo empolgado com o poder que duas pessoas podiam atingir sem precisarem de bateria, porque… o que tínhamos ali possuía uma ideia central tão forte que, quanto mais simples, melhor”.

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Reed e Cale interpretaram este ciclo de canções dedicado a Warhol em janeiro de 1989, na St. Ann’s Church em Brooklyn, perante uma plateia, ainda que o trabalho não estivesse concluído. Após estas duas apresentações, patrocinadas pela Brooklyn Academy of Music e recebidas com entusiasmo, Lou interrompe o projeto para se dedicar ao álbum New York, incluindo promoção e tournée nos EUA e Europa. A digressão foi interrompida por um acidente. Reed, que atravessava uma fase bastante prolífica, teve contudo tempo para colaborar com Dion ou os Simple Minds durante esse ano.

A 30 de novembro de 1989, Reed e Cale apresentam a versão finalizada de Songs for Drella na Opera House da Brooklyn Academy of Music. No dia seguinte, tocaram para as câmaras, sem público, e o momento ficou gravado, sendo mais tarde editado em VHS. Drella é um trabalho esmerado por parte de ambos. Entre o “trabalho em progresso” e a versão final, houve reescrita das letras por parte de Lou e reordenamento dos temas para que não se sucedessem arranjos similares. Em maio de 1990, é lançado o CD, que não obteve o sucesso comercial de New York. Não era um produto radiofónico mas, apesar disso, as críticas foram excelentes.

Cale e Reed em 1968, na Quinta Avenida, em Nova Iorque.
Cale e Reed em 1968, na Quinta Avenida, em Nova Iorque.

CONFLITOS EMOCIONAIS

A maioria do trabalho, admite Cale nas notas do álbum, foi do ex-colega dos Velvet Underground: “… a segunda colaboração entre mim e Lou desde 1965. Devo dizer que, embora ache que ele fez a maior parte do trabalho, me permitiu assumir uma posição digna no processo. Assim permanece, como se pretendia, um tributo a alguém cuja inspiração e generosidade oferecida ao longo dos anos é agora recordada com muito amor e afeto.”

Num tom menos protocolar ou diplomático, John Cale admitiria que “gravar Drella com Lou foi muito difícil. Houve muitas cabeçadas… nunca enfadonho, mas não gostaria de repetir a experiência”. É evidente que ambos tinham “bagagem”, devido a várias desavenças no passado. Cale confessou que, além desta amargura que sentia em relação a Lou, ambos sofriam de arrependimento perante o mentor que partilhavam, Andy Warhol.

Por seu lado, Reed quis contrariar a maré sensacionalista em redor da morte do ícone da pop art: “Fiquei incomodado com todos os livros malévolos que apresentavam Andy Warhol apenas como algo ligeiro e superficial. Quis mostrar o Andy que conheci. Não diria que foi concebido com base em emoções. Há uma técnica por detrás de tudo isto… não se trata apenas de dar largas aos sentimentos. É um trabalho muito ordenado e específico.”

John Cale e Lou com Andy Warhol em 1975.
John Cale e Lou com Andy Warhol em 1975.

PONTOS DE VISTA

“Drella”, combinação de Drácula e Cinderela, alcunha de Warhol, foi a denominação que os dois autores acharam apropriada. E assim, ao longo das canções, vão relatando a vida do artista e os ambientes do seu estúdio, a Factory. Truman Capote, Salvador Dali, Edie Sedgwick, Viva, Ingrid Polk e Valerie Solanis, em suma os nomes que fizeram a História “específica” de uma pessoa sem a restringir. É uma biografia, mas muitos de nós sempre ambicionaram sair de uma terra pequena que detestavam, como é descrito em «Smalltown»; além de que os problemas com os classicistas, impressionistas e outros “istas”, não se limitam à visão peculiar de Warhol.

Por falar em visão de Warhol, esta era mais profunda do que muitos ainda pensam. Por exemplo, previu os 15 minutos de fama e também que Marilyn Monroe se iria tornar num produto de consumo. A sua obsessão pela imagem e o fascínio que esta, numa vertente distorcida, exerce no público, foram um dos temas da sua obra. Acontece algo de semelhante no mundo de hoje. Nem é preciso ir mais longe do que este site. Imagens de estrelas são muito procuradas. Bem como as imagens dos cadáveres, autópsias e velórios das “estrelitas”… E já aconteceu confundirem a imagem de Chaplin com a de Lou Reed (na capa de Coney Island Baby). Portanto… cada um que tire as suas conclusões, pois não sou nem pretendo ser propriamente professor de educação musical ou apreciação artística face a semelhantes tarados e ignorantes com mentes vouyeuristas, deturpadas por idolatria e morbidez.

Ao longo do álbum são apresentados dois pontos de vista: O de Warhol e outro, facilmente identificável como o de Lou Reed. Falou-se em “exorcizar sentimentos de culpa” por parte do compositor. Outro aspecto importante do álbum é a ética lou reed john cale songs for drella (10)de trabalho de Warhol, que Reed assimilara e valorizava, ainda que se considerasse um “discípulo pecador”. Houve críticos e jornalistas que, ao longo dos anos, extraíram das letras significados que não estão lá, alguns por ignorância, outros por malícia, outros porque têm uma determinada “agenda”.

Termos como sentimentalismo, mesquinhez ou subjetividade não têm grande peso argumentativo pois trata-se de um trabalho assumidamente pessoal e subjetivo (aliás, é classificado como ficção pelos autores), sentimental, por vezes, pois lamenta a morte de uma grande influência, e “mesquinho” porque houve mesquinhez de parte a parte na relação entre Lou Reed e Andy Warhol. John Cale sempre foi mais constante na reverência por Warhol. Reed foi acusado de ter um ego que colocou acima desta homenagem. Lou Reed tinha um ego mas, ao menos, boas razões para isso.

A NARRATIVA

A história de Andy começa pela infância na terra pequena; mantém a porta de sua casa aberta, («Open House») uma acessibilidade que lhe custou caro, quando a lunática Valerie Solanis o tentou assassinar. As viagens em redor do mundo mudaram-no («Forever Changed»), mas Warhol nunca foi o mesmo após a tentativa de assassínio. O preço e importância das pessoas no mundo artístico, situação que Warhol observava com invulgar discernimento, são expostas em «Style it Takes», a par das dificuldades que lhe despertava o contacto humano.

Há um problema com os classicistas que “olham para uma árvore e é apenas isso que vêem, pintam uma árvore…” A ideia consiste em desmanchar os conceitos pré-concebidos da arte. Warhol, enquanto narrador na canção, acha que os artistas estão demasiado dominados pelo estilo, ao contrário dos miúdos dos graffitis urbanos. “Gosto da sua falta de prática e da sua técnica primitiva. Acho que às vezes te prejudica, ficares demasiado tempo na escola, acho que às vezes te prejudica, recear que te chamem tolo”, canta John Cale, interpretando Warhol. Os rostos e nomes só lhe causam problemas, pois, se todos tivéssemos o mesmo rosto e face, não havia invejas. “As pessoas que querem conhecer o nome que tenho, ficam sempre desapontadas comigo”. («Faces and Names»).

Cale e Reed tocando juntos em 1975.
Cale e Reed tocando juntos em 1975.

Grande parte do impacto de Andy Warhol na arte deveu-se aos seus conceitos, como a arte produzida em linha de montagem ou a obsessão pelas estrelas. Uma das canções que retrata isso melhor é «Images»: “Se achas que técnica equivale a significado, podes achar-me muito simples.” “Não sou esfinge ou mistério enigmático, o que pinto é muito comum.” “Não acho que seja antigo ou moderno, não acho que penso que estou a pensar, não importa o que eu penso, as imagens são o que importa repetir.”

Neste e noutros temas, Cale utiliza a viola (ligeiramente maior que um violino, afinada uma quinta abaixo e por conseguinte, obtendo uma tonalidade mais profunda e sonora) com a destreza habitual. Musicalmente, o álbum resulta devido ao contraste das teclas de Cale e da guitarra de Reed, com ou sem distorção. Uma dupla improvável que conjuga sons e vozes, à partida, incompatíveis. O sucesso do álbum deveu-se, é certo, a alguma nostalgia, mas também à interação entre dois músicos extraordinários.

Warhol e Reed em 1975.
Warhol e Reed em 1975.

Em «Starlight» é abordada a incursão no cinema, e sublinhada a destruição de barreiras entre vida e representação que Warhol almejava. A fase em que se começou a interessar ou a pensar em multimédia, o que já tinha sucedido na música, no caso dos Velvet, claro. “O mestre manipulador”, como John Cale começou a achá-lo, ainda nos anos 60. São mais os conceitos que interessam, pelo menos, falando pelo pouco que vi. É referida também a alta taxa de mortalidade entre os frequentadores da Factory, com as culpas a caírem em Warhol, que as nega em «It Wasn’t Me». “Não fui eu, fizeste isso a ti mesmo. As pessoas nunca ouvem, sabes que isso é verdade.”

O álbum termina com «A Dream», em que John Cale narra passagens do diário de Warhol; uma composição de citações elaborada por Lou Reed, que expõe os diversos temores pessoais do artista, como a saúde e a falta de inspiração, incluindo a frase: “I hate Lou, I really do.”

A 15 de junho de 1990, Lou Reed e John Cale foram convidados para tocar na abertura da Exposição Andy Warhol, que teve lugar na Fundação Cartier em França. O evento incluía uma homenagem multimédia notável aos Velvet Underground. Na ocasião, os antigos colegas Sterling Morrison e Maureen Tucker juntaram-se a eles para uma versão de «Heroin». Songs for Drella foi também interpretado no Japão em 1990, país onde Reed sempre foi bastante popular, a par de Espanha e Itália.

O clima era propício a uma reunião dos Velvet Underground. E assim aconteceria.

David Furtado

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