A Nova Iorque de Lou Reed – A única cidade digna do nome

Três anos depois de Mistrial, Lou Reed regressou com um álbum considerado, então e hoje, um dos melhores da sua carreira. O seu percurso artístico, mais acidentado que uma montanha-russa, aliado à insistência de não dar ao público o que este esperava, transformaram-no num artista amaldiçoado. Basta ver os livros que se escreveram sobre ele, o último dos quais uma tentativa fracassada de lucrar à custa da morte de um dos músicos mais influentes do século passado. (Goste-se ou não.)

lou reed nova iorque

Mas o mundo atravessa uma Era bastante aparvalhada. E claro, Reed nunca foi parvo e quem o ouve geralmente também não é. Neste interregno entre Mistrial e New York, o músico dedicou-se à causa da Amnistia Internacional com outros nomes em voga na época como os U2, Sting, Peter Gabriel ou Bryan Adams. Compôs uma canção para a causa: «Voices of Freedom».

A sua associação com Nova Iorque (New York City, sublinhe-se para que se compreenda o significado da citação) era já um cliché e, em 1985, foi um dos nova-iorquinos proeminentes a ser convidado para escrever um artigo para a revista New York. «Do que gosto em Nova Iorque?», assim se chamava a rubrica. E Reed escreveu:

“Liberdade, infindáveis oportunidades em tudo… os filmes, a cultura chinesa, as pessoas, os lugares – uma cidade de misturas e energias maravilhosas e impossíveis. A única cidade do mundo digna desse nome. Do que não gosto – o crime, o trânsito, um sistema de metropolitano criminoso, um governo municipal que ignora a luta e os sentimentos dos pobres, as minorias, os sem-abrigo… um antiquado sistema de crime/justiça; um antiquado sistema de serviços públicos, regras, regulamentos e sociedade de sindicatos, sistema de escolas públicas de segunda categoria…”

Artisticamente, Lou Reed era uma “instituição”. Os Velvet Underground tinham atraído um renovado interesse, e já não era sem tempo. Em 1986, colabora com Sam Moore dos Sam and Dave num êxito do duo, «Soul Man». Ironicamente, foi o seu primeiro sucesso no Reino Unido desde 1973 com «Walk on the Wild Side».

Reed não cortara totalmente o contacto com o passado, pedindo a uma antiga protegida de Andy Warhol, Baby Jane Holzer, para aparecer num dos vídeos de Mistrial. Contudo, aprofundava-se o fosso entre o mentor e o discípulo, com Warhol a lamentar a atitude de Lou nos seus diários, na última referência que fez a ele. “Odeio Lou Reed cada vez mais. Até porque ele já não nos dá trabalhos de vídeo.”

O homem que previra a Era aparvalhada que já mencionei, em que todos querem os seus 15 minutos de fama (hoje querem 15 dias e muito mais) estava quase esquecido. E esquecido ficou numa cama de hospital durante uma hora, depois de ser submetido a uma operação rotineira. Os médicos tentaram a reanimação quando já se estabelecera o rigor mortis. Warhol faleceu a 22 de fevereiro de 1987.

A morte de Warhol afetou de modos diferentes os antigos frequentadores da Factory. No caso de Lou, levou a reexaminar o seu sentimento de culpa e a sua arrogância. Ignorara-o nos MTV Awards (quando nomes como Reed e Warhol ainda iam ao que hoje é uma fantochada), não o convidara para o seu casamento. As biografias esclarecem o possível. Sabe-se que Warhol se sentiu traído e que Reed procurou “ajustar” as contas. Em público, ao ser entrevistado, e nas canções.

Durante 1987, colaborou com Ruben Blades no seu álbum a solo, decidiu deixar de vez a RCA e assinar com a Sire, uma companhia nova-iorquina mais vocacionada para a new wave e grupos como os Talking Heads e os Ramones. O seu dono, Seymour Stein, sabia o artista que contratava. A Sire editava também os discos de Madonna. Reed nunca conseguiria ultrapassar tal fenómeno pop estupidificante em vendas, mas, a nível de prestígio, Madonna nunca o eclipsaria. Chegou-se a acordo: Lou assentiu em promover o seu trabalho de modo mais convencional do que no passado e foi-lhe dada independência criativa.

OS EUA ESTÃO 100 ANOS ATRASADOS NO TEMPO

Reed considerava Nova Iorque quase o seu ADN, como disse, e também o local dos EUA onde as desigualdades eram mais notórias. Em 2001, uma perspicaz jornalista holandesa perguntou-lhe, “adora o país que odeia ao mesmo tempo…”, recebendo uma resposta igualmente sagaz:

“É terrível. Adoro Nova Iorque. Mas é sempre… escrevi uma canção sobre isso. Adoro Nova Iorque mas vou partir, todos lá dizem isso. Por que é tão terrível entre Giuliani e Bush, meu Deus! É impossível viver cá. Mas não deixa de ser uma cidade maravilhosa. E é um grande país, mas está 100 anos atrasado no tempo. Muito moderno na tecnologia, mas socialmente… tão atrasado que se torna assustador porque acho que isso se traduz em violência.”

Sem querer cair em redundâncias, é a cidade selvática onde um corpo caído no pavimento não impressiona quem sai de uma limusina, uma cidade de sonhos alimentada a pesadelos e dinheiro, o que não é muito diferente de Hollywood nem do impacto que produz em públicos semi-pensantes.

Na época em que Reed escreveu e compôs o álbum, era uma cidade suja, nauseabunda e fascinante – sempre achei que os filmes de Scorsese sobre a metrópole e as músicas de Reed se complementam. Havia também a questão política em finais dos anos 90, se relembrarmos as políticas de Reagan, a spitting image de Thatcher em Inglaterra. O governo federal extraía dinheiro à cidade, com os Republicanos a cortarem no apoio social, deixando uma cidade problemática ainda mais vulnerável.

Houve esforços por parte de nomes conhecidos do rock, no sentido da beneficência e angariação de fundos. Paul Simon organizou, em dezembro de 1987, um concerto em auxílio do Children’s Health Project no Madison Square Garden, visando apoiar uma carrinha médica que percorresse as ruas de Nova Iorque em busca de crianças sem casa. Lou Reed compareceu, é claro, acompanhado nos coros por Grace Jones e Debbie Harry, e juntando-se posteriormente a Billy Joel, Ruben Blades, Bruce Springsteen e Paul Simon.

Com Billy Joel, Paul Simon e Bruce Springsteen, no concerto organizado por Simon.
Com Billy Joel, Paul Simon e Bruce Springsteen, no concerto organizado por Simon.

As preocupações com o seu “habitat”, Nova Iorque, acumulavam-se, apoiou também a New York Society for Ethical Culture. O antagonismo perante os políticos intensificava-se. Na sua obra e nas suas tomadas de posição públicas, Lou Reed parece ter tido sempre um político de referência, Kennedy. Agora tinha os pregadores ou reverendos como Jesse Jackson a discursarem sobre a liberdade dos pobres ou Louis Farrakhan que não sabia o que fazer aos judeus. E aqueles bairros sociais, “onde eles metem os pobres”, como Lou criticou em «Dirty Blvd».

No próximo artigo falarei do álbum propriamente dito.

O ESPÍRITO DE NOVA IORQUE

O espírito de Nova Iorque sempre me atraiu porque reside num gosto pela vida perante adversidade extrema. É essa ironia ou paradoxo que se vive nas ruas. Os espanhóis chamam-lhe corazón, em Yiddish, é chutzpah. É a fibra que anima a cidade que nunca dorme, foi a humanidade demonstrada perante ataques terroristas diabólicos há 13 anos; todos os rostos na multidão têm uma cara e uma identidade no meio cosmopolita e poluído; uma agilidade mental que todos já vimos num filme, sejam pobres ou ricos, seja qual for a etnia ou a nacionalidade.

E possuem uma agressividade própria também. Isto explica, em parte, os milhões de testemunhos referentes ao 11 de Setembro, isto explica a falta de popularidade da cidade perante os turistas, isto explica por que motivo a vida de Freedie Mercury dos Queen vai ser editada em banda desenhada. (Espero que carreguem nas cores.) Isto explica por que Lou Reed não é tão popular como deveria, e explica parcialmente a Era parva que vivemos; com os Iphones e os Facebooks, gadgets que simulam proximidade, estatuto e comunicação quando tal não existe, mas é socialmente aceitável, mais do que apanhar uma bebedeira ou ser um drogado que vive noutros mundos.

David Furtado

(Continua no próximo artigo: Lou Reed: New York.)

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2 Comments Add yours

  1. mlenac diz:

    gostei deste final.Parabens David, está genial!

  2. Muito obrigado, mlenac. Não sou digno do epíteto “genial”. Lou Reed, sim. O espírito de Nova Iorque, esse merece um artigo próprio porque admiro a atitude combativa de quem lá vive desde que me conheço. 🙂

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