Natalie Portman: Mulher(es) Gira(s)

Várias sequências que provavelmente mais me marcaram, no fim dos anos 90, pertenciam a um filme chamado Beautiful Girls, uma comédia sobre velhos amigos do liceu que se juntam para a proverbial reunião, numa fase em que têm de decidir rumos e lidar com desilusões. Há várias mulheres no filme, todas diferentes. E uma que sobressai. Infelizmente é Natalie Portman.

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Mulheres Giras analisa o modo como os homens são homens; gostam de mulheres… giras. Caí nesse engodo, em termos “cinéfilos” e aluguei o filme em 1997, sentindo-me assolado pela única profecia cinematográfica de que me recordo: “Esta miúda vai longe.” Falo de uma adolescente de 14 anos que me recordava de ter visto em León, o Profissional.

Durante o filme, Portman rouba o protagonismo a Uma Thurman, Lauren Holly, Rosie O’Donnell ou à inexpressiva Mira Sorvino, atriz sobrevalorizada. Eram, na época, nomes importantes.

Foi depois de Léon que Natalie Portman começou a receber ofertas para filmes com notoriedade. Duas delas foram Heat, com Al Pacino e Robert De Niro, e Beautiful Girls (Mulheres Giras), com Matt Dillon, Uma Thurman e Timothy Hutton.

Relembre-se que tinha apenas 14 anos. De Niro tinha participado, até então, em 48 filmes e conquistado dois Óscares. Pacino não ganhara nenhum, mas a sua reputação (e talento) era equiparável. Portman representou a enteada problemática de Pacino e já contracenava com atores lendários. O interessante é que parece ter aprendido. Em O Amor e Outras Coisas Impossíveis (2009), muitos anos depois, revela-se como uma atriz que conviveu com a sua arte e a assimilou.

O filme de Michael Mann, lançado em Dezembro de 1995, focou-se mais no confronto entre Pacino e De Niro. Ashley Judd foi elogiada, Val Kilmer era um nome em ascensão. Ninguém ligou a Natalie Portman. O seu nome era “pequeno” e a concorrência desmesurada. Quatro boas cenas numa obra de três horas não impulsionaram a sua carreira.

Portman regressa então ao Stagedoor Manor Performing Arts Camp, com o intuito de aperfeiçoar a arte dramática. Foi nesta época que lhe propuseram o guião de Beautiful Girls. Adorou-o de imediato, especialmente pelas cenas da pequena ‘Marty’ de 13 anos. “É tão raro encontrar um argumento em que a personagem tem a minha idade. É esperta, engraçada e não faz sexo.”

Scott Rosenberg escreveu o argumento e produziu Beautiful Girls. Achou Natalie perfeita para interpretar ‘Marty’. Embora tivessem feito audições a muitas raparigas, nenhuma se comparava a ela. “Para mim, ela era ‘Marty’.” A adolescente teria de lidar com atores de certo estatuto: Matt Dillon, Lauren Holly, Timothy Hutton, Rosie O’Donnell, Mira Sorvino, Michael Rapaport e Uma Thurman.

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A história desenrola-se no Massachusetts, pelo que as filmagens decorreram no inverno. Temeu-se que não houvesse neve lá no início da estação, e decidiu-se filmar no Minnesota, onde os meteorologistas diziam que haveria abundância de neve durante esses meses. Sucedeu o oposto, e a equipa teve de se adaptar, usando neve artificial, por vezes cortando blocos de gelo de um lago.

No filme, Natalie Portman praticamente só contracenou com Timothy Hutton, veterano com 35 anos e cerca de 30 trabalhos. Também começara cedo no cinema, com cinco anos, sendo alvo do mesmo typecasting que Portman tinha agora de ultrapassar. Era sempre o jovem sensível e problemático. Matt Dillon não era muito diferente, outrora o alienado teenager de Rumble Fish (1983) e The Outsiders (1983). Tinha 31 anos. Ironicamente, Natalie Portman brilhava em papéis comparáveis à sua idade, ao passo que estes dois atores se debatiam com problemas de “velhice” aos 30 e tal.

Timothy Hutton e Natalie.
Timothy Hutton e Natalie.

Em parte, Beautiful Girls é sobre isso – a idade de assentar, ou será que nós (os homens, entenda-se) ainda não temos flexibilidade para isso, porque adoramos mulheres ou só uma? O principal dilema é o do pianista ‘Willie’, que tem de “enfrentar” a vizinha do lado, ‘Marty’, uma Lolita inteligente e precoce que o desconcerta. As cenas entre ambos são excelentes, e a sensível Portman parece deixar Hutton, enquanto ator, boquiaberto, quando o surpreende a retirar neve da entrada de casa:

Marty: Não usas muito a pá, não é?
Willie: Por que dizes isso?
Marty: Dá-me a impressão. A tua técnica deixa bastante a desejar. Ou vives numa cidade ou num clima quente.
Willie: Numa cidade.
Marty: Cresceste aqui?
Willie: Sim.
Marty: Não apareces muito?
Willie: Não.
Marty: A tua mãe morreu?
Willie: És polícia?
Marty: Não.
Willie: Sim, a minha mãe morreu.
Marty: Eu sabia. O teu pai parece triste. E o teu irmão parece ter perdido algo, aquilo que uma mãe dá. É uma casa solitária, se não te importas que o diga.
Willie: Como te chamas?
Marty: Marty.
Willie: De Martha?
Marty: De Marty. De um avô que nem conheci, Martin. Assim sou a Marty. Uma rapariga que se chama Marty, a maldição da minha existência.
Willie: Que idade tens?
Marty: 13, mas sou uma velha alma. Por que voltaste?
Willie: Bem… para uma reunião de alunos do liceu.
Marty: Coisa pesada…

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‘Marty’ é a imagem da juventude perdida de ‘Willie’. A rapariga ideal, só que há discrepância de idades. O cerne do filme, que evolui entre várias situações tragicómicas, é essa aceitação forçada e desconforto face ao aproximar da meia-idade. ‘Marty’ também gosta de ‘Willie’ e até lhe diz para esperar por ela. “Serei uma brasa!” ‘Marty’ dá-lhe conselhos amorosos:

Marty: Devias esperar até encontrares alguém que te excite mesmo.
Willie: Bem, pode ser que ela não exista.
Marty: É como no Feiticeiro de Oz. Sempre a tiveste mesmo ao teu lado.
Willie. A que te referes?
Marty: A ti. A mim e a ti.
Willie: A sério?
Marty: Não achas?
Willie: Bom, temos um problema de idade.
Marty: Eu sei. Ri-te de Romeu e Julieta. No nosso caso, é uma tragédia de proporções isabelinas.
Willie: “Que luz é essa que trespassa a janela. É o Oriente e a Julieta é o sol.”
Marty: “E as raparigas de cor cantam: Doo-doo-doo…”

A referência a Lou Reed acerta no alvo, vinda de uma miúda esperta. Tal como Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman) pergunta ao jovem jornalista de música ‘William Miller’ (Patrick Fugit) em Almost Famous (2000), com ar desconfiado, para o testar: “Gostas de Lou Reed?…”

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‘Willie’ acaba por perceber que não pode voltar a esses tempos. Para tristeza de ‘Marty’, que quer esperar. E os homens que se babam perante as super-modelos? A rapariga que conhecem não bastará? É complicado…

natalie portman mulheres giras (1)O filme estreou em Fevereiro de 1996 e obteve boas críticas. Acharam que era um caso de “homens a serem homens”… Rita Kempley escreveu no Washington Post que Natalie Portman era uma “sensação”. Achou que Hutton fizera o seu melhor trabalho desde há muitos anos. Encontrou “ternura” na relação entre ambos, algo raro entre a perceção dos críticos. Janet Maslin disse algumas asneiras no New York Times, mas sublinhou o modo como Natalie Portman “roubou as cenas” a atores mais experientes e conhecidos.

Voltando por momentos ao “doo-doo-doo” e a Lou Reed: Este disse que só fez filmes porque precisava do dinheiro e por ter mais curiosidade em ver como os faziam do que entrar neles. Achou aborrecido porque tinha de se esperar muito tempo sem fazer nada. “Não é como o rock, em que vamos lá tocar e já está.” Valeu a pena esperar pela maturidade de Natalie Portman.

O realizador de Beautiful Girls, Ted Demme, descreveu assim a representação de Portman: “Daqui a 10 anos, ela vai ser dona do mundo e quero ser um dos seus assistentes.”

A carreira de Natalie Portman foi irregular desde então, mas quando representa e tem um bom argumento, é extraordinária. Algumas coisas nunca mudam. Foi pena a personagem de Timothy Hutton não ter esperado por ela.

David Furtado

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