Lou Reed – Mistrial: Presumível inocente

Inocência até prova em contrário… é o que Reed reclama neste disco, editado em abril de 1986. Repleto de observações acerca do mundo que o rodeava, ataques aos políticos e à superficialidade e imediatismo da TV, Mistrial sofre de algumas das lacunas às quais faz mira. Salvo raras exceções, as letras são de um autor competente, mas das mais superficiais que Reed escreveu. Musicalmente, é frio. Como se a figura por detrás dos óculos escuros se tivesse esvaído nesta misturada de programações de bateria, guitarras flashy e diatribes fáceis.

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Mistrial é considerado o álbum mais fraco da “trilogia dos anos 80”, depois de Legendary Hearts (1983) e New Sensations (1984). Chamar-lhe-ia mais uma “dupla”, pois Legendary Hearts não padece dos “ruídos” dos anos 80, e o baixo vocal de Fernando Saunders (que produziu Mistrial com Reed) domina grande parte de Legendary Hearts.

ALEGAÇÕES INICIAIS

lou reed mistrialEm meados dos anos 80, Lou Reed já era parte do sistema, aceite pela indústria musical. No lapso de tempo entre o comercialmente bem-sucedido New Sensations e Mistrial, os Velvet Underground foram objecto de revivalismo, com compilações de material inédito. Neste disco, Reed quer a todo o custo impor a sua imagem de “mediano”, de simples roqueiro, de rapaz da porta ao lado, originando um trabalho que se torna frequentemente constrangedor e se contradiz a si mesmo.

Lou Reed defendeu-se: “É muito fácil ver que a mesma pessoa que escreveu as coisas dos Velvet Underground também assinou Mistrial. Não é tão diferente. Apenas um pouco mais velho.”

Reed começou a envolver-se de modo altruísta em causas como a Amnistia Internacional e a oposição ao Apartheid; surgia na MTV que criticava. Tornava-se numa espécie de Phil Collins, como alguém disse, acabando por seguir a máxima jocosa que espetou a um jornalista em 1975, quando este lhe disse que era um monte de paradoxos: “Quando me deparo com um paradoxo, torno-me paradoxal.” Coerência…

Hoje, Mistrial parece um navio em água turbulentas, ajustando o leme. Recordemos o rock da Era. Penteados ridículos, poses abomináveis em palco, uma mixórdia de sintetizadores, one-hit wonders… o emergir de… Madonna, Reagan e os yuppies. Um somatório de desgraças.

Madonna surge em «Vídeo Violence» de modo pouco abonatório, tratada como coisa, a rádio toca qualquer música dela enquanto, na televisão, fica-se a ver Corvettes a explodir e a 13ª decapitação num filme de terror que se confunde com o noticiário. Só faltava falar dos Rambos do “cinema”, a cilindrar exércitos de músculos salientes e metralhadora em punho, soltando um grito de guerra simiesco.

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Nas actuações da época, Lou permanecia enérgico, se bem que um pouco maçador. Filmou um documentário sobre os Velvet em separado, não se juntou aos outros membros, revelando megalomania/rancor. Juntou-se a Sam Moore dos Sam and Dave para um dueto em «Soul Man», single de sucesso, o seu maior êxito em Inglaterra desde «Walk on the Wild Side».

JULGAMENTO

lou reed mistrial (2)O que importa, neste disco gravado em piloto-automático, é a reavaliação ou anulação do julgamento que Reed pede aos habitantes de Nova Iorque; quer o seu nome “limpo”. Estava a fazer o seu papel e com a mesma persona de modo forçado. Assim, o disco soa agradável – sempre gostei dele – mas maquinal.

“Não gostei da produção. Houve por lá umas lutas feias”, comentaria anos depois acerca deste trabalho que soa a um disco de Bruce Willis, se ainda se lembram deles… o guitarrista até é o mesmo. Sonoridade para estudantes de liceu, não que haja mal nisso.

O que se aproveita de Mistrial? Há uma excelente canção, «Tell It To Your Heart», a última. O propósito é, acho, num contexto de “romance à Nova Iorque”, como Reed disse, fazer com que as pessoas reavaliem as suas relações amorosas ou íntimas e não rejeitem o que sentem. Assemelha-se a uma flor num charco. Nunca ninguém fez isso melhor que Lou Reed. Um romantismo que cede.

As restantes canções não são más. «Outside» fala sobre o mundo terrível “lá fora”, contrastando-o com o mundo de duas pessoas. Os conceitos são razoáveis, e insisto, gosto desta canção, mas é subjetivo. Pode-se fazer uma ligação direta entre o doo-wop e as canções pop que Lou Reed apreciava, e a estrutura minimalista destes temas. O arranjo é pop, soará sempre aos tempos. Era o queria fazer na altura. Como foi o seu último disco para a RCA antes de assinar com a Warner, talvez não estivesse demasiado preocupado. «Don’t Hurt a Woman» é um exemplo simplório. Lamechice pegada.

Uma música que sempre achei divertida é «The Original Wrapper». O fundamento é que Reed inventou o rap e o hip-hop. Injustiças sociais, SIDA, o fenómeno do rap, “o miúdo a ver fantasias violentas da MTV” e críticas a figuras americanas e mediáticas da época – Louis Farrakhan e Jerry Falwell.

“Foi concebida para ser a melhor letra rap de todos os tempos. Li-a ao meu amigo Jim Carroll e ele disse, ‘já fizeste isso em «Street Hassle»’. Respondi, ‘de facto, tens razão’.” Reed precavia-se. Não podia fazer melhor nesta ambiência de anos 80… o argumento da defesa deixa dúvidas ao júri, contudo.

Tão bem escrita está a letra que eu, aos 15 anos, sabia-a de cor e julgavam-me apreciador de rap. “Não, gosto do Lou Reed.” “Quem?” Problemas de adolescência… “Nasci nos Estados Unidos, cresci com dificuldades, mas integridade, vi falta de moral e falta de preocupação, um sentimento de não termos para onde nos virar. Não me tratem como um lacaio, o assassino vive e as vítimas morrem, preferia que fosse olho por olho”. Nasci noutro lado, mas vi a mesma coisa no meu país. E a canção é muito cool.

SENTENÇA

O paradoxo, novamente, é que a violência televisiva que Reed criticava está patente no vídeo de «No Money Down», em que arranca a pele da cara. Algo que desagradou à esposa e à mãe. O vídeo foi banido da MTV por ser considerado demasiado violento. A linguagem bancária é misturada com a da rua. O trust dos amantes é não interpor dinheiro na equação. Bom conselho. “Há coisas que se aprendem nas ruas e que uma educação de faculdade não compra.”

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Portanto, a minha apreciação deste álbum é bastante pessoal. Não sou um crítico pago para expelir disparates em peso de caracteres. Pelo menos, são as minhas asneiras e não recebi um cheque. «Mama’s Got a Lover» é, por exemplo, a abordagem de uma situação que, tanto quanto sei, não há noutra canção rock: Um filho a comentar que a mãe tem um amante ou um companheiro novo. Falta profundidade. Boa ideia, má execução.

«I Remember You» é isso mesmo, a lembrança de um amor antigo. Um episódio de nostalgia que faz sorrir. Nem sempre. Demasiado imberbe, infelizmente. E não terão sido? O que se consegue extrair daqui é o diagrama de três acordes, tocados em linha recta, mas de modo reediano com variantes. Como ele próprio afirmou, “gosto do Academia de Polícia. Foi bom às duas da tarde de quinta-feira. Às vezes, não queremos ver uma coisa que faça pensar de mais. Apenas algo básico e directo. E o Academia de Polícia é perfeito. Não sei se o ensinam na escola de cinema…”

Mistrial não é ponto mais baixo da carreira de Reed. Metal Machine Music é, com louvores. (Por favor…) Não será ensinado na escola de música. Se fosse professor não lhe dava negativa. Razoável +. Às vezes, é bom ouvi-lo e recordar. É o disco de um culpado que tenta escapulir-se como presumível inocente. Tem atenuantes. Como na vida.

O réu é declarado inocente perante este juiz sem (re)curso, declaro a audição do seu trabalho seguinte como “fiança” obrigatória. O júri está dispensado. Pode ir em liberdade.

David Furtado

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