Blue is the Warmest Color: A questão não é a cor

A Vida de Adèle (La vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2) venceu a Palma de Ouro em Cannes em 2013. Pela primeira vez, o galardão foi também atribuído a duas atrizes. Se o disser, ganho 40% de atenção. Se disser que é um filme excelente, talvez conquiste mais 5%. Se disser que as atrizes são bonitas, conquisto 90%. Se disser que é sobre uma história de amor, conquisto 100%. Se disser que envolve lesbianismo e que é uma prova de que o cinema americano está moribundo, perco 200 %. Por isso, podem parar de ler já.

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Porquê? Homofobia, preconceitos, repressão, estupidez. Futilidade… É o que caracteriza grande parte dos leitores que por aqui passam. Não escrevo para eles. Escrevo para mim. Se estão enfastiados com a retrospectiva sobre Lou Reed, podem contar com mais 10 artigos sobre ele até maio. Se gostam, ainda bem, se não, comam menos.

O filme apresenta-nos ‘Adèle’ (Adèle Exarchopoulos), quando anda no liceu, e as suas primeiras experiências enquanto mulher. É um percurso pessoal e íntimo que, por via do destino, não a satisfaz sexualmente com homens. Conhece ‘Emma’ (Léa Seydoux), uma estudante de Belas-Artes que a atrai mais, originando um caso de amor.

A certo ponto, ‘Adèle’  pergunta-lhe por que lhes chamam “belas artes”, há “arte feias”? ‘Emma’ explica-lhe.

Blue is the Warmest Color não é um filme fácil, até pela duração de três horas. Da maneira que o encaro, é uma história de amor, podia suceder com uma relação heterossexual e causar o mesmo impacto. Por esta altura, já ninguém está a ler, portanto vou dizer o que me dá na real gana (como sempre), esperando não ser tão maçador como os críticos de merda dos blogs e portais.

A primeira coisa que chama a atenção é o modo como foi realizado. É típico cinema independente, há ideias que se querem transmitir, não é George Clooney e Meryl Streep e Tarantinos empacotados para as massas seguirem as massas e terem medo de não concordar com a onda… o que é uma boa coisa. É reminiscente de John Cassavetes. (Mais de 800 horas foram filmadas, ao estilo do mestre.) É semi-documental, a câmara não se intromete. É a vida como é, sem sermões nem glorificações ou esse irritante cinema pró-gay que prolifera e é elogiado em certos quadrantes. Esquiva-se a esses rótulos.

blue is the warmest color (5)

Tenho de referir já a situação de Brokeback Mountain (2005), cowboys homossexuais, uma situação em que Hollywood quis passar a imagem de “tolerante”, parte da hipocrisia que define uma indústria para lá de definições a não ser “sarjeta”. Nunca vi esse filme nem pretendo – cowboys para mim são John Wayne. Mas a vida não é assim. Muito menos a de ‘Adèle’, que leva as fantasias à prática. Ao contrário de muitos admiradores do western que nunca montaram a cavalo. Eu já. Não é fácil como parece. E esqueci-me totalmente da noite dos Óscares. Vi resumidamente a palhaçada no dia seguinte.

O primeiro trunfo do filme reside nos atores. Nunca exagerados. Adèle Exarchopoulos é extraordinária, uma jovem e talentosa atriz que correu um grande risco. A sua espontaneidade é tanta que as cenas de sexo e  a sua beleza física podem afastar as atenções do talento. São sequências prolongadas, sabemos que demoraram (uma delas) 10 dias a filmar, mas não são pornográficas nem sequer eróticas. São o que são, necessárias à narrativa como a descrição de uma paisagem, o fulgor da excitação. Não têm o propósito de fazer o termómetro da libido subir em homens ou mulheres, só que, obviamente, há quem busque o filme por isso. Os tacanhos.

E os restantes atores também tiveram sorte com os diálogos. Estão exemplarmente escritos e não há uma nota de falsidade neles. Num filme que “incorpora” no centro do enredo uma relação lésbica, há sempre os clichés, a reacção dos pais, a exclusão, os preconceitos familiares… mas isso não é o mais importante aqui.

O realizador Abdellatif Kechiche filma com sensibilidade e contenção. Claro que há críticas pontuais – nem lhes chamaria críticas – à religião católica, que insiste de modo insano na repressão dos impulsos humanos… o que origina clientela entre os religiosos e os psiquiatras. Devem recambiá-los de um lado para o outro. Não sei o que pensar da religião católica ou de qualquer outra psicose. Parece-me que são responsáveis por mais infelicidade do que felicidade. Há dias, vi um casal sair da igreja após a missa de domingo e parecia que regressavam dalgum velório das próprias almas.

Há velórios mais realistas neste filme do que nessa pretensa vida real.

blue is the warmest color

Há as situações dos pais que aceitam e dos que não aceitam e a relação proibida que tem de ser escondida, embora o filme não bata nessa tecla até à exaustão, já sabemos que é assim. E quem concebeu o filme também sabe. Em certo sentido, é inovador, o tipo de cinema que gostaria de ver mais aclamado: Contido mas de um realismo extremo e doloroso. E foi um gesto de coragem, Cannes dar-lhe a Palma de Ouro. Não me admirou muito, tendo em conta o estado lastimoso do cinema americano. Dão os Óscares aos melhores funcionários da empresa. É mecânico e repulsivo.

Nem é a questão do final feliz. São as situações como aquela que ‘Adèle’ vive: Deitar-se no banco onde começou um romance depois de estar tudo acabado. As folhas outonais caem sobre ela, quando já nem tem capacidade para chorar. É difícil mostrar sorrisos em público e fácil transbordar lágrimas em privado.

blue is the warmest color (2)

Não é filmado de modo previsível, mas consegue encaixar os “quadrados” da vida num Cubo de Rubik. Não é fácil fazer isto em nenhuma arte. Não é frio como Kubrick ou Hitchcock, é a vida a desenrolar-se à nossa frente. Quem busca o cinema como pipocas e Coca-Cola, deve afastar-se de Blue is the Warmest Color. Esta cor não convém, o sabor das pipocas é mais saboroso, frio e requentado. E menos requintado em termos artísticos.

A montagem do filme é impecável. Pensei que o iria ver em duas partes, mas envolve-nos. Desde a cena em que ‘Adèle’ se indigna com uma colega de liceu e lhe vai ao focinho até à parte em que tem uma discussão terrível com ‘Emma’. A angústia de não querer revelar uma traição, aliada ao choque emocional tornam esta sequência uma das mais fortes. Por ser retratada com tanto realismo. Há uma bofetada, cólera, lágrimas. As pessoas não querem isto. Querem o herói. Por mim, o herói que se foda. E o que as pessoas acham que querem? Será o melhor para elas? Não.

A extraordinária Adèle Exarchopoulos.
A extraordinária Adèle Exarchopoulos.

Defendo a teoria de que, quem não vê realismo nisto, não se arriscou a viver. Talvez seja asneira. Mas a vida é uma asneira, no cinema corre bem. Adèle Exarchopoulos é, quase sempre, extraordinária. Não chora apenas. Chora baba e ranho como na vida real. E, quando a sua personagem está feliz, sentimos-lhe o êxtase. O facto de ser muito bonita interfere talvez. Só que, tal como as cenas de sexo, isso acaba por se esfumar, devido ao brilhantismo de uma obra em que a descoberta sexual, a luxúria e a frustração não se desenlaçam. Está tudo amarrado.

Por isso, nunca me achei crítico de cinema: A homossexualidade e/ou o lesbianismo não me interessam especialmente. Quando um filme ultrapassa isso e prende a atenção de quem se interessa por relações humanas, acho que cumpriu a sua missão. Não é preciso ser o Stallone com a missão de matar 1.560 pessoas algures. Isso não é cinema. É um jogo de computador. Posso consumir. Porque não? Também consumo uma anedota que me contam e esqueço-a passados dois minutos.

... igualmente extraordinária:  Léa Seydoux.
… igualmente extraordinária: Léa Seydoux.

Os interessados nas velhas glórias de Hollywood, no cowboy do faroeste ou no solo do guitar hero não encontrarão grande interesse aqui. E ainda bem. Porque ainda há filmes feitos por pessoas para pessoas numa Era em que o cinema está moribundo. Pelo menos, na arte há sempre esperança, parece.

Digam as pessoas o que disserem, terão sempre as mesmas ânsias e esperanças. Isso é cinema. E isto é arte. Escolham a cor que quiserem. Azul ou outra. Se forem daltónicos, não posso fazer nada. Amor rima com cor. Não no sentido literal, mas para quê explicar? As pessoas não ouvem. Pelo menos… que vivam como puderem e quiserem. E viva o cinema. E a vida também. É disso que falo. É essa a cor mais quente.

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. André diz:

    E um bom filme, sem duvida. Confesso que acho que tem uma componente erotica exagerada, e acho que a certa altura o filme parece um filme pornografico, com uma cena de sexo a durar para ai 6 ou 7 minutos. E um dos dois defeitos que tenho a apontar ao filme, sendo o outro a ausencia do guiao em explorar a situaçao da Adele na escola com os colegas… apos uma determinada cena, nada mais e dito sobre o assunto. De resto e excelente, e percebo porque ganhou a Palma de Ouro. As atrizes dao grandes atuaçoes, e toda a historia da vida de adele e interessante e emocionante… o final entao e devastador.

    Mas ja agora recomendo-lhe ver o Brokeback Mountain, que e um filme excelente, para mim ainda melhor que este. Mas na verdade sao filmes muito diferentes, a unica semelhança que tem e ter uma historia entre duas pessoas do mesmo sexo.

    Parabens pelo bom artigo.

    1. Obrigado, André, pelo comentário. Percebo as críticas que faz. Dá a ideia, realmente, que quiseram separar a parte da escola da parte referente à vida adulta, e o resultado é um pouco abrupto. Também é verdade que as cenas de sexo são prolongadas. Não achei que isto funcionasse em detrimento do filme, mas entendo que possa incomodar. O final é muito bom.

      Ouvi sempre dizer muito bem do Brokeback Mountain. São situações que não me dizem muito, por isso… nunca o vi. Mas vou fazer um esforço por pôr de parte alguns “preconceitos”. Abraço.

  2. André diz:

    Alem do mais, nunca percebi muito bem porque chamam o filme de “cowboys gays”, porque os protagonistas nao sao cowboys, sao pastores… deve ser por usarem chapeus e andarem a cavalo, so se for por isso, mas e parvo.

    1. Talvez por causa do poster, não sei. Mas foi esse o rótulo que lhe pregaram. É a ideia que tenho. Os media simplificam sempre em demasia. Não ligue.

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