Lou Reed – New Sensations: Os benefícios de uma musa intemporal

Quando New Sensations foi editado, em abril de 1984, vivia-se uma fase que não se pode dissociar do álbum. Os anos 80, com os seus excessos e futilidades, deixaram alguns artistas de mérito estagnados. Foi o caso de Eric Clapton, por exemplo, que admitiria ter cedido ao comercialismo da década com os álbuns Behind the Sun e August, escolhendo produtores como Phil Collins. Clapton afirmou que a sua mortalidade o “fitava nos olhos” e que as editoras despediam pessoas como Van Morrison, o que o “assustou”.

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Vejo-me como um escritor. Se sou um tipo simpático, se sou um mentiroso, se sou imoral… isso não deve ter nada a ver com o assunto.

Entre Legendary Hearts e New Sensations, Lou Reed lançou um disco ao vivo, Live in Italy, gravado no fim de 1983 em Verona e Roma e editado no início de 1984, registo que também irritou críticos e fãs. Não é que Reed não se preocupasse com o seu público e fosse totalmente insensível a opiniões, mas, contas feitas, acabava por seguir o seu caminho.

Foi-lhe oferecido um contrato com a RCA e a verdade é que, na Europa, Lou Reed enchia estádios. O álbum é algo monótono, mas possui alguns méritos. No Circus Maximus romano, a polícia obrigou a enorme quantidade de fãs a dispersar, usando gás lacrimogéneo, pelo que a banda, também afectada devido ao vento, passou 45 minutos a tocar sem ver um palmo à frente.

“Eu não via os pontos do braço da guitarra. Eles atiravam garrafas de urina para o palco. As pessoas disseram que fomos muito corajosos ao actuarmos nestas condições, mas tínhamos de o fazer ou haveria um motim. Só Deus sabe quantas pessoas lá estavam. Foi uma actuação emocional”, relatou Robert Quine.

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O QI DE UMA TARTARUGA BASTA

Aos 42 anos, Lou Reed já era um ícone, mesmo que parasse de tocar e gravar. A reforma só viria com a morte. De resto, o sarcasmo permanecia intacto:

“Duas guitarras, baixo, bateria, qualquer banda consegue tocá-lo. É disso que gosto nas minhas canções. Pode-se ter o QI de uma tartaruga e tocar uma canção de Lou Reed. Adoro isso no rock and roll, qualquer pessoa o pode tocar, incluindo eu. Três acordes bastam perfeitamente; quero ser mestre nesses. Se foi suficientemente bom para John Lee Hooker, é suficientemente bom para mim.”

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Nem todos os temas de New Sensations são tão simplistas a nível musical. Há boas canções. O que desafina é o facto de Lou ter começado a integrar sintetizadores no som, o que não parecia incomodá-lo. Numa entrevista à TVE, quando a digressão passou por Barcelona, relatou que se interessava pelos sons que ouvia na rádio, sublinhando que as letras não lhe interessavam para nada. E assim, passou o dobro do tempo que costumava, no estúdio, em busca de novos sons ou sensações.

O facto interessante acerca desta fase anos 80 (e de cujo álbum seguinte, Mistrial é mais exemplificativo) é o teor – apesar das imposições comerciais/sonoras da década. Reed não se vendera, pelo menos, completamente. O seu humor negro encontra-se em muitas das canções, dando porém a impressão de que há algum retraimento.

Reed também se envolvera no cinema. Um papel em One-Trick Pony de Paul Simon (1980), experiência que disse ter odiado, e em que se saiu bem como produtor discográfico com a mira nas vendas, deu o mote para subsequentes participações em filmes. Em Get Crazy (1983) passa o filme todo a tentar chegar a um concerto, sofrendo várias peripécias, para fazer a sua entrada quando só resta uma fã entusiástica, perante a qual canta «Baby Sister».

Temas seus começaram a surgir em filmes como White Nights de 1985 («My Love is Chemical»), neste caso uma versão, num drama interessante com Mikhail Baryshnikov, Gregory Hines e Helen Mirren. Outro caso foi Perfect, produto manifestamente inferior com Jamie Lee Curtis e John Travolta, para o qual Reed contribuiu com a sua composição «Hot Hips»…

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“FUNKY HOT HIPS” NA ERA DA INANIDADE

Eram temas saturados com a sonoridade anos 80: “I would anything to get to your funky hot hips”?… É parvo, mas curiosamente é também divertido; Reed conseguia fazer músicas de dança. O pior era o som estridente de guitarra que encaixaria melhor num disco de qualquer one hit wonder desta época de inanidade. A contratação de Peter Wood para os teclados revelou-se tão desastrosa como as camisas havaianas do pianista. Sinto-me tentado a concordar com uma pessoa que me disse: “Os anos 80 não foram bons para ninguém…”

A maré estava favorável para supergrupos em fase superficial e enfadonha como os Dire Straits, com o blockbuster Brothers in Arms que rotulou o grupo de rock FM para adultos e yuppies (e é verdade) ou Born in the USA de Bruce Springsteen. Onde se enquadrava a figura antipática e remota de Lou Reed? Ia-se afastando cada vez mais das raízes e não lhe perdoaram. Por outro lado, era já um nome lendário, mantinha a postura, vestido de preto, com óculos escuros, observador impenetrável do mundo em redor. Por estes factores, New Sensations é um trabalho “esquizofrénico” e deliberadamente comercial; há ideias e melodias, acompanhadas de uma produção frequentemente tenebrosa. Reed hostilizara-se com Robert Quine:

A atmosfera, que não andava saudável, foi de mal a pior devido a um incidente quase banal. “Aconteceu quando voltávamos daquela coisa do Live in Italy. Estávamos arrasados de todo, e ainda por cima doentes devido à comida do terrível hotel onde ficáramos. Eu estava ao lado de Fred Maher no avião, e o Lou apareceu com duas cassetes que gravara para um possível álbum ao vivo.”

Reed pediu-lhe que escolhesse as melhores versões de cada música e Quine achou que era óbvio: “Já fizeste isto antes e acabas sempre por ignorar as minhas opiniões. É uma perda de tempo para ambos.” A resposta do ameaçador Reed: “Quine, vais-te arrepender a sério por teres dito isso.”

Observadores acharam que havia uma óbvia inveja por parte de Lou, relativamente a Robert Quine, bem como uma megalomania exacerbada. Um chegou a dizer que “miserável” era a palavra favorita de Reed, que ele era a incarnação da miséria. Que isso podia ser apelativo para muitos, mas que Lou era uma pessoa vingativa e doentia e cito, “fodida da cabeça”.

Durante a sessão de fotos para a capa.
Durante a sessão de fotos para a capa.

Quine ia, à partida, participar em New Sensations mas foi despedido dois dias antes de o trabalho começar. Reed usou um intermediário para esta tarefa suja, foi apelidado de “maquiavélico” por insiders. Viria a chamá-lo para a digressão, e Quine aceitou pelo dinheiro, nada mais. O músico podia estar sóbrio, mas continuava a comportar-se de modo hostil e agressivo, humilhando Quine e, para não ficar tentado, proibindo todos os músicos de beber.

A TENTAÇÃO DA MAÇÃ

Lou tocou todas as guitarras num álbum que é um flirt com o comercialismo. «I Love You Suzanne» é disso exemplo flagrante. Algum sentido de humor prevalecia. No videoclip, Reed começa como figura austera vestida de cabedal e termina a cantar para ‘Suzanne’ saltando do palco e a dançar breakdance… era notoriamente um duplo, o que só torna isto hilariante. E mais, Reed jurou que tinha sido ele próprio a dançar na sequência… e afirmou que os vídeos eram apenas uma forma de publicidade. “Não me interessa minimamente se são bons ou maus para a música.”

Outra ironia: As palavras proféticas de Andy Warhol tinham-se tornado reais: Os 15 minutos de fama, a Era da MTV e dos jogos de computador, uma febre criticada por Reed em «My Red Joystick». Parece haver um duplo sentido neste joystick, mas adiante. Foquemo-nos no lirismo humorístico:

A primeira dentada na maçã tornou Eva esperta
A segunda dentada ensinou-lhe a partir os corações dos homens
A terceira dentada ensinou-lhe a exibir os seus “dotes”
Mas nunca chegou à quarta dentada, que diz
O que é de mais já basta

O que é demais já basta, já estou farto de ti
Podes ficas com os teus vestidos, com as tuas jóias,
Podes ficar com a TV a cores, essas novelas só me enojam
Só peço que me deixes o meu joystick vermelho.

Lindo.

Mudando de tom, temos «Endlessly Jealous», uma letra com um hábil jogo de palavras, em que Reed se afirma ciumento perante o interminável domínio da sua amante:

Jealously thinking of you
Of your endless possession of me
Of my jealousy, endlessly, jealousy, endlessly
Jealous of you.

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Portanto, o álbum não é totalmente desprovido de sentimento e sátira. Apelidaram New Sensations de muzak, o que não impediu o público de correr para as lojas. Desde meados dos anos 70, com Sally Can’t Dance, Lou Reed não obtinha tanto sucesso. A indústria musical alterara-se, a geração era outra. Talvez nem ficasse espantada quando Reed surgiu na TV a fazer publicidade às scooters da Honda.

Defendeu-se assim: “Faço publicidade por dinheiro e para tentar vender os meus discos. O principal é fazer com que as pessoas os ouçam, porque gosto mesmo deles, e penso que as pessoas gostariam mesmo deles. E, se gostarem de um dos meus discos, há 17 ou 18 por aí. Não é mau viciarem-se em mim.”

ARROGÂNCIA COMO MODO DE VIDA

No meio disto, o que se perdeu? O intimismo. Parecia que a arrogância era o seu modo de sobrevivência. Lou confessou que queria vender discos:

“Só me quis divertir com New Sensations. Havia certos sons que ouvi na rádio, um certo tipo de bombo, por exemplo, que eram realmente fortes e empolgantes, e quis isso. Passei muito tempo recentemente a trabalhar o som da guitarra.”

“Só porque escrevo sobre os temas que escrevo, não quer dizer que não me preocupo com o mundo à minha volta. Os dias em que me mantinha alheio a certas coisas, terminaram.”

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Outros toques reedianos são notórios no disco. Os elogios à sua motorizada GPZ indiciavam um “é pegar ou largar, agora sou assim e vivo assim”.

O seu apreço pela peça de Sam Shepard, Fool for Love e a paixão pelo cinema de Martin Scorsese estão explícitas em «Doin’ The Things That We Want To». O divertido «Down at the Arcade» refletia o entusiasmo duradouro pelos videojogos, um seguimento da paixão pelo pinball. Uma das exigências de Reed em várias cidades era ter uma máquina de flippers no camarim, ao contrário doutras prima-donas da música.

O álbum é diversificado: «What Becomes a Legend Most» pegava num slogan publicitário da época e transformava-o na história de uma estrela de cinema paranóica com o desvanecer da popularidade, esquecida pelo público. O que acaba por se tornar num espelho da obsessão estúpida pela celebridade por parte da maioria dos basbaques. Lou Reed continuava a ter algo a dizer. Não podia era dizer muito, tendo em conta os tempos que o mundo vivia. O que não equivale a chegar ao extremo de dizer que se vendera.

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New Sensations não é o trabalho que aconselharia a quem não conhece muito da obra de Lou Reed. Mas poderá ser um bom começo para quem tenha certa dificuldade em assimilar o realismo brutal de Berlin. Como Reed menciona no tema «New Sensations», “quero os benefícios de uma musa intemporal, quero erradicar as minhas opiniões negativas”. Foi essa musa que o salvou parcialmente das futilidades dos anos 80. Não editou uma obra-prima, mas também não concebeu nada de que se pudesse envergonhar. Um músico genial como Lou Reed está quase sempre acima da média.

David Furtado

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