Natalie Portman e Léon, o Profissional: A criança/atriz prodígio

Há 20 anos, o filme de Luc Besson retratava a relação carinhosa entre um homem e uma criança que perdeu os pais. Hoje é popular, quase universalmente adorado, mas, na época, houve controvérsia. A obra revelou um talento precoce, Natalie Portman. A jovem percebeu-a melhor que os críticos: “É sobre o amor de um pai por uma filha, alguém que cuida dela, e ela nunca teve isso.”

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Desde cedo, Natalie Hershlag, judia e nascida em Jerusalém, tentou escapar a rótulos. A profissão de modelo não lhe agradava devido à inexpressividade requerida. Aos pais, não agradou o uso do apelido, por razões de exposição e intrusão na vida privada da filha, e sugeriram vários. A criança decidiu-se pelo nome de solteira da sua avó materna – Portman.

Jean Reno, veterano ator francês, tornar-se-ia muito mais conhecido no estrangeiro – até porque as grandes carreiras se fazem de decisões arriscadas. Com o seu ar de quem não dorme há três dias, Reno era não se enquadrava nos moldes do típico protagonista de Hollywood. Ao longo dos anos 80, participou em vários filmes de Luc Besson, entre os quais, La Femme Nikita (1991). Foi durante esta rodagem que o ator sugeriu ao realizador que escrevesse um argumento à parte, tendo como protagonista o assassino profissional que desempenhava nesse filme.

natalie portman leon (18)“Comecei por escrevê-lo para Jean o protagonizar”, disse Luc Besson, “mas não para eu o realizar. Só que, ao escrevê-lo, apaixonei-me pela história. Pensei em equilibrar a sua personagem, um mau da fita ao estilo de Exterminador Implacável, com uma outra. Imaginei todas as opções, uma mulher, um cão, um gato, uma planta e uma criança. Concluí que o melhor seria arranjar o completo oposto, 12 anos, pura, feminina, gentil, inocente”.

Quando terminou, Besson falou com Reno, comunicando-lhe que realizaria o filme, por achar que conseguira uma história especial, mas, ao mesmo tempo, achava que precisaria de um ator americano conhecido para que o projeto tivesse a notoriedade desejada. Jean Reno não levou a mal, pois não era conhecido na América. Esta decisão baseou-se no facto de, em França, os críticos acharem os filmes de Besson demasiado americanos devido à violência… Ironicamente, nos EUA, o projeto idealizado por Besson foi encarado com relutância.

Todos os atores famosos o recusaram devido à tensão sexual entre os protagonistas, ‘Léon’, o assassino profissional, e a pequena ‘Mathilda’. A sombra de uma insinuada ou suposta pedofilia impediu que nomes de topo se envolvessem, temendo uma conotação negativa. Só na mentalidade puritana dos americanos poderia haver tal problema. A desculpa dada foi, porém, que a personagem de ‘Léon’ não inspirava grande simpatia no público.

Isto explica-se pela estupidez da indústria cinematográfica americana, o puritanismo do país, e também por fatores culturais. Nos EUA, as leis que determinam o crime de pedofilia eram diferentes das de França, onde a “idade de consentimento” é inferior. Ou seja, na América, havia conotações sexuais mais óbvias. (Quando assisti a Léon, tal nem me passou pela cabeça, mas a questão não ficaria por aqui.)

Luc Besson e Jean Reno nas filmagens de Léon.
Luc Besson e Jean Reno nas filmagens de Léon.

Luc Besson conseguiu um acordo entre a Columbia Pictures (para distribuir o filme) e a sua própria empresa de produção, a Les Films Du Dauphin. Voltando a França, comunicou a Jean Reno que o papel era dele. Faltava encontrar o restante elenco.

Para vilão, a escolha recaiu em Gary Oldman, já reconhecido como excelente ator, especialista em papéis de desequilibrado. Era também alcoólico, o que lhe terá provocado sérios problemas pessoais. Durante as filmagens, Oldman bebia, não deixando porém de ser profissional. O elenco seria completado por Danny Aiello, então com 61 anos, ator de méritos igualmente reconhecidos nos EUA.

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POUCO IMPRESSIONADA COM O SANGUE

Foi problemática a escolha da criança. O realizador estava sobretudo interessado no contraste entre o implacável ‘Léon’ e a docilidade de ‘Mathilda’: “São iguais; a idade mental de ambos é de 12 anos; ela, cronologicamente, ele, mental e emocionalmente”. Besson teria de agir com precaução, devido às “insinuações”. Optou por organizar um casting que incluísse amadoras, seguindo a política de “encontrar um novo talento”; seria também necessária coragem por parte da atriz, fosse ela qual fosse.

Para Natalie, que estava desempregada após um trabalho no teatro, o teste não foi fácil, requerendo várias chamadas, visto que parecia demasiado nova para o papel. O procedimento habitual nestas situações, dependendo dos envolvidos, consiste em fornecer o guião inteiro, algumas páginas ou uma cena. No caso de Portman, não lhe disseram quase nada. Só à terceira, após um teste de vídeo, lhe deram oportunidade de representar, desempenhando a cena em que ‘Mathilda’ encontra a família assassinada e os criminosos ainda no local. Teve de expressar uma variedade de emoções que convenceram o realizador.

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O argumento de Léon continha cenas de nudez e atos violentos por parte de ‘Mathilda’, o que horrorizou os pais de Natalie. Só quando as sequências foram cortadas, aprovaram a contratação da filha. A mãe de Portman confessou à imprensa que partes do argumento a deixavam constrangida. Sem que os pais soubessem, o realizador adicionou alguma sensualidade a certas cenas aquando da filmagem.

O que mais impressionou a jovem nem foram as sequências de violência. Descreveu que achava piada quando os atores cobertos de sangue falso se erguiam e brincavam entre takes. Tê-la-á impressionado muito mais a transformação a que assistiu por parte de Gary Oldman, que passava de pessoa simpática no set a assassino psicopata quando a câmara filmava. Representar, para Natalie, não era um faz de conta, era uma “hipnose”; como descreveu. Desempenhava certa cena e, mal ela acabava, era como se alguém “estalasse os dedos”.

Gary Oldman impressionou a jovem Portman.
Gary Oldman impressionou a jovem Portman.

Luc Besson brincou com ela, colocando-a certa vez num carrossel. Com Jean Reno, a interação também foi boa, ficaram amigos e Natalie convenceu-o a deixar de fumar quando terminou a rodagem. O método de Reno era um pouco diferente – afastava-se do realizador e restante equipa para meditar no papel enquanto não filmavam.

Houve momentos desconfortáveis. As insinuações sexuais, por ténues que fossem, não deixaram Portman à-vontade. Mas comentou: “Esta rapariga está numa idade em que começa a despertar para a sexualidade, mas não há nada de nojento no modo como é isso tratado.” Sublinhe-se que os progenitores foram criticados por terem deixado a filha participar em Léon.

Aparentemente, Besson descobrira mais do que uma criança prodígio. A sequência em que ‘Mathilda’ faz várias imitações – Madonna, Marilyn, Charlot e Gene Kelly – para brincar com ‘Léon’ nem estavam no guião – era o que Natalie fazia para divertir a família. Nesta e em muitas outras cenas, Portman dá a sensação de ser adulta no modo de representar, com uma naturalidade que muitas atrizes atuais – meras caras bonitas – não possuem.

A obra desenrola-se em Nova Iorque, mas a maioria das cenas de interiores foram rodadas em Paris. Filmar na Big Apple era um sonho do realizador francês. Não esperava as diversas dificuldades com a luz: “Os prédios são tão gigantescos que a luminosidade se infiltra nas ruas às 11:00, desaparece às 13:00 e acabou-se.” A metrópole não se mostrou pouco hospitaleira como é conhecida. No Spanish Harlem, por exemplo, a comunidade hispânica acolheu a produção e todos colaboraram, desde transeuntes à NYPD, a polícia nova-iorquina.

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OS FALSOS AMIGOS

O pior foi o regresso à escola. Os colegas não gostaram de saber destas luzes da ribalta e, com a crueldade típica das crianças, puseram Natalie de parte. Portman diria que, quando voltou das filmagens de Léon, chorava todos os dias devido à exclusão a que a submeteram, continuando, apesar disso, a obter notas excelentes e a dedicar-se aos estudos: “Os meus amigos não eram meus amigos”, lamentou-se a uma revista. Aparentemente, tinham mudado mais do que a “vedeta”. “Diziam coisas como ‘ela tem a mania’. Foi uma das experiências mais dolorosas por que passei.”

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Quando Léon estreou, em setembro de 1994, Natalie Portman mudara de local de ensino, frequentava uma escola pública, um liceu em Long Island. Recebida com entusiasmo em França, a obra foi encarada com desdém pelos críticos americanos mais conhecidos. Entre eles, o lambe-botas profissional de Clint Eastwood, Richard Schickel, um pedante que escreveu umas quantas barbaridades numa publicação prestigiada como a Time. (Quando nem deveria estar a escrever para o jornal local.) Desta vez, deu-lhe para dizer que estavam a “explorar uma criança, o que não aconteceria num filme sério” (como os de Eastwood, presume-se); e achou a Nova Iorque mostrada por Besson “arrepiantemente irrealista”. Um gordo cheque na conta e tal opinião mudaria de certeza.

Estas implicações, por parte de críticos que vislumbraram teor sexual entre ‘Léon’ e ‘Mathilda’, irritaram Natalie: “Os críticos é que têm problemas. Um escreveu um artigo mau, dizendo que os meus pais deviam ter cuidado para eu não me transformar na Linda Blair. A dizer que os meus seios estavam provocantes e espetados através de uma t-shirt branca. Perguntei a mim mesma, ‘que filme foi este tipo ver?’”

Depois de Léon, Portman participou em Heat com Pacino e De Niro, Val Kilmer e Ashley Judd – estava em curva ascendente, mas nada podia garantir que se estabeleceria como excelente atriz, ao contrário de outras crianças sensação do cinema que desapareceram sem deixar rasto.

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E era apenas uma criança que frequentava o 8º ano do liceu quando surgiu pela primeira vez na TV nacional americana, no The Late Show with David Letterman, a 24 de novembro de 1994. O apresentador perguntou-lhe se os pais não objetaram a que participasse num filme com tanta violência:

Portman e Reno ficaram amigos.
Portman e Reno ficaram amigos.

“Não, sabe, quando os vemos no chão com aquele sangue falso por todo o lado, eles depois levantam-se e dizem ‘olá!’” Foi à estreia em Paris e admitiu que adormeceu pois já era a quinta vez que via o filme. No programa de Conan O’Brien disse não ter gostado da comida, pois era vegetariana e “os franceses comem coelhos e sapos”. O’Brien começou a brincar, dizendo-lhe que perdera o juízo. A resposta: “Oh, desculpe, pelo menos não perderei a cabeça.” E acabou a fazer um apelo, diretamente para a câmara, ao seu professor de Estudos Sociais, pedindo-lhe que adiasse a entrega de um trabalho pois tivera de ir à televisão.

Esta precocidade e reações espontâneas cativaram público, apresentadores e estúdios. O filme seguinte, Heat, também, mas nenhum dos críticos pareceu reparar na prestação de Natalie, então com 14 anos.

No verão de 1995, Portman regressava ao Stagedoor Manor Performing Arts Camp, preocupada em tornar-se melhor atriz. Vivia então uma existência quase esquizofrénica: A rapariga que contracenava com alguns dos nomes mais conhecidos do cinema mundial e a adolescente que ia à escola.

O que fica de Léon, além de um grande filme, é a revelação de um talento que deu uma lição aos críticos. Não seria o canto do cisne…

David Furtado

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