Lou Reed – The Blue Mask: Ratos, homens e a máscara azul

O álbum do suposto renascimento de Lou Reed sempre foi um mistério. E alguns mistérios que duram anos, por vezes, desvendam-se num olhar ou num aperto de mão. Aos 16, eu não entendia esta “máscara azul”, o conceito, a capa. Apenas as partes – algumas canções. Era esse o problema: Ao fixar-me nos detalhes, faltava o todo, a imagem – essa imagem falsa, jocosa, radical ou carnavalesca que distingue os homens dos ratos.

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Sem querer soar místico – e a minha interpretação é pessoal, entenda-se –, isto abre portas para diversas maneiras de encarar o álbum. “O melhor trabalho de Reed desde os Velvet”, o melhor isto e aquilo… sempre ouvi tais definições e nunca as aceitei; não é o melhor disco de Lou Reed desde os Velvet Underground. É, contudo, um trabalho que contém algumas das músicas mais violentas alguma vez compostas por alguém que outrora integrara um grupo tão importante como os Beatles ou os Rolling Stones.

Lou Reed exprimiu incompreensão perante o teor sombrio:

“Não conheço ninguém com pulsação que não tenha experimentado a sensação de ansiedade. A não ser que haja alguém trancado algures, sempre feliz. Há um Yin e um Yang nas coisas, altos e baixos, não lhes chamaria sombrios. Chamaria vida real.”

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The Blue Mask é um álbum memorável, assente em contrastes extremos – felicidade celestial e absoluta miséria. A sobriedade de Reed permitiu-lhe focar-se no seu talento sem as névoas alcoólicas e euforias químicas que tinham transformado os álbuns recentes em pântanos heterogéneos com… partículas de génio. O catalisador não foi o casamento ou o assumir da identidade heterossexual, foi Delmore Schwartz. “Nos sonhos começam as responsabilidades.”

Este é o “melhor disco desde os VU” porque Lou encarou o seu talento com uma seriedade que lhe faltava há mais de 10 anos. Delmore Schwartz, o seu mentor da Faculdade… “o primeiro grande homem que alguma vez conheci”, tantas vezes Reed o descreveu assim, com as mesmas palavras reverentes. Acabaram de vez as “brincadeiras” com sexualidade ambígua, e o guerreiro espetou a lança no coração.

Como traduzi o livro In Dreams Begin Responsibilities and Other Stories  (em busca de pistas para The Blue Mask, talvez), possuo algum à-vontade para falar sobre isto: Delmore Schwartz era sem dúvida um escritor genial que se auto-destruiu, o que não acontece geralmente aos maus. (O que é penoso.)

INSPIRAÇÕES/CONTRADIÇÕES

lou reed the blue mask (12)Na vida privada, Lou era um homem novo: Alimentava-se bem, fazia exercício, tentava que o seu casamento funcionasse. Na escrita, apercebeu-se do tom narcisista que empregara, vaidoso e provocador, atenuando-o. Não é por acaso que regressou ao seu formato de eleição: Duas guitarras, baixo e bateria.

Bebida e droga estavam fora do radar. Agora pescava e passeava de moto. Houve um grande intervalo entre Growing Up in Public e The Blue Mask, dois anos em que as digressões (todas) foram postas de lado. Lou Reed, a potencial vítima seguinte e mais apregoada do estilo de vida do rock and roll dos anos 70, assentara ideias, ritmos e melodias.

Sylvia, por seu turno, começava a desenvolver um problema com a bebida sem o admitir. Viver com um homem tão difícil como Lou Reed não facilitava. Era uma mulher realista, prática; ajudara Lou a afastar-se de situações e pessoas “inconvenientes”. 10 anos depois, e segundo Victor Bockris, o mais bem informado biógrafo de Reed, seria uma mulher com as marcas de 10 anos de abuso psicológico bem visíveis no rosto.

“Ocorreram muitas mudanças”, disse Lou à Uncut em 2000. “Tinha um grupo novo, pessoas totalmente novas e algum tempo para pensar em que ponto retomar as coisas. [O álbum] soa ótimo. Foi quando comecei a preocupar-me com esse aspeto. Retirámos um excelente som daquele estúdio que era do tamanho de um campo de futebol. Tocámos mesmo muito alto lá. Mal nos conseguíamos ouvir uns aos outros.”

Robert Quine: Imprescindível, musicalmente e também por dar nova autoconfiança a Reed.
Robert Quine: Imprescindível, musicalmente e também por dar nova autoconfiança a Reed.

A influência de Sylvia Reed foi crucial: Apresentou o marido ao guitarrista Robert Quine dos Richard Hell & the Voidoids. Ao ouvi-lo tocar, Lou terá pressentido que uma excelente colaboração podia advir daí. E assim foi: Quine ensaiou a banda de quatro elementos e ajudou a moldar o material em bruto que Lou compusera. Esta “osmose” produziu, ou “expeliu” uma obra com todos os músicos a tocar em simultâneo no estúdio, só os vocais seriam adicionados posteriormente.

Em 1982, Lou Reed era uma figura já venerada. Nem a Rolling Stone se atrevia a cilindrá-lo como fizera com Berlin. Reed, sóbrio e direto, era agora capaz de cilindrar a Rolling Stone e a cobardia dos críticos. (Por falar nisso, Transformer e Berlin foram, esses sim, os melhores desde os Velvet, se quisermos pôr as coisas nesses termos.) A bíblia do rock ficou sem palavras: “Com The Blue Mask, Lou Reed alcançou uma coisa que nem John Lennon conseguiu: Juntou Plastic Ono Band e Double Fantasy [de Lennon] no mesmo disco. E fez-nos sentir que, finalmente, estes dois caminhos se uniram nele.” A primeira audição de The Blue Mask deve ter tomado a redação da Rolling Stone de assalto, a julgar por estes comentários desastrados e o recurso a metáforas rebuscadas…

Estranheza também na capa: Sylvia Reed tornara-se, além de manager e esposa, na designer, convertendo a imagem icónica de Transformer num fantasma azul. Lou justificou a “transformação” de modo pouco convincente: “Neste trabalho, tentei unir todos os Lou Reeds num só. Mas a imagem básica é, e sempre foi, a de que Lou Reed é de Nova Iorque e escreve canções de rock and roll.” O conceito simplista da capa, com o lettering a néon, esconde temas mais complexos.

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My House

“A imagem do poeta está na brisa…” Dedicado a Delmore Schwartz. Lou Reed reclama a influência do poeta e escritor, aliando-o à sua vida doméstica, à sua escrita, à sua motorizada e à sua mulher. Uma referência a James Joyce e a Retrato do Artista Quando Jovem (Bloom e Daedalus). A estrutura do tema é simples e melodiosa, o refrão? “A nossa casa é mesmo bonita à noite.” Mas é óbvio que isto não é rock para fãs de Madonna.

Women

Para quem seguira a carreira de Reed até então, esta canção deve ter parecido o cúmulo da bizarria. “Adoro mulheres, acho-as fantásticas. São o bálsamo para um mundo num estado terrível.” É verdade, mas vindo de Lou Reed, seria… insólito? Não tanto. Pelo que se sabe da sua vida durante os anos 60 e 70, Lou teve relacionamentos com mulheres (muito bonitas, por sinal, como Nico e Barbara Hodes). E uma namorada do liceu que o marcou. “Um coro de castrados para fazer uma serenata ao meu amor”? O que seria Lou Reed sem sarcasmo! Por enquanto, o álbum flui como um regato… melodias, vocais expressivos… e começa a traçar uma curva cada vez mais enviesada, nos três temas seguintes, culminando em «The Blue Mask», que aperta como um torniquete.

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Underneath the Bottle

A toada altera-se nesta canção de rock com três acordes – e ninguém os tocava como Reed. Examina com honestidade a desgraça da bebida: “Descemos tanto que não podemos descer mais.” A mais pura verdade, e só encontrei uma frase que a contradiz num western spaghetti: “Fizeste uma coisa notável. Vieste de baixo e conseguiste descer ainda mais.” Mas isto aplica-se também a abstémios…

The Gun

Apontando uma arma, o sinistro narrador obriga o marido a assistir à violação da esposa. Que dizer?… Esta música serena com uma bárbara letra foi descrita com perspicácia pelo autor:

“Descobri que, sem exceção, qualquer pessoa que a ouça, reage com um medo universal. E também é perigosa para mim. Porque… se faço uma canção e há um personagem vil, um drogado ou algo do género, às vezes sou eu, e outras vezes não sou. Mas a questão é que, quando a canto, vivo-a. Passo mesmo por ela. É uma catarse em muitos aspetos. É representar. Disso gosto. Mas, se desempenhamos essas personagens muito tempo, elas podem apoderar-se de nós. Algumas dessas letras são muito rudes.”

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The Blue Mask

Rudes?… Para mim, a letra mais violenta que Lou Reed escreveu é esta. E também o motivo que me levou, durante muitos anos, a não entender o álbum. Li que “Reed vê na máscara azul um símbolo de castração”. O que quer isso dizer? Até ao tal aperto de mão: Castração mental ou espiritual? Era essa a chave. Portanto, é melhor traduzir o primeiro verso, para sabermos a agressividade destravada com que lidamos:

Ataram-lhe os braços atrás das costas
Para o ensinar a nadar,
Puseram-lhe sangue no café
E leite no gin,
Soergueram-se sobre o soldado
No meio da sordidez
Havia guerra no seu corpo
Que fazia o seu cérebro gritar

Faz o sacrifício
Mutila a minha cara
Se precisas de alguém para matar
Sou um homem sem vontade
Lava a navalha à chuva
Deixa-me delirar com dor
Por favor, não me libertes
A morte diz-me muito.

Soa “melhor” em inglês. E prossegue. Usem o dicionário…
Com a voz a destilar veneno, as sílabas concentradas num ódio e desespero desmesurados, ambos os canais inundados de distorção e feedback, Lou Reed suplica que lhe tirem a máscara e o olhem nos olhos. A minha interpretação desta brutalidade sonora é metafórica: Violência psicológica em alto grau. O tema despoletou louvores, escárnio e muita confusão por parte dos fãs.

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Average Guy

Um tipo mediano. É o que Lou se considera em 1982. Preocupa-se com os impostos, tem altura mediana, cintura mediana, aspeto mediano, é mediano em tudo, até na temperatura corporal. Um tipo como todos nós. E a reviravolta para os mais atentos: Aí reside o contraste. Seremos tão “medianos” como nos… achamos?

The Heroine

A canção foi quase “aparafusada” no sítio certo; é uma demo a solo, com Reed a tocar e cantar (aqui sim, em direto), descrevendo como o poder da heroína, “transcende todos os homens”. O “e” distingue-a da obra-prima dos Velvet Underground, «Heroin», sobre a droga. Aqui, num mar turbulento, almas debatem-se, afogam-se sob o domínio de uma torrente que tudo submerge. Podemos equiparar o amor a uma heroína ou força destrutiva? É disto que se trata, quanto a mim. Um Ahab enfrenta Moby Dick: O sentimento mais belo, raro, e ambicionado até um ponto obsessivo, pode também conduzir à aniquilação de uma alma.

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Waves of Fear

Encaixando na minha (discutível) teoria, há ondas agora. Robert Quine ataca a guitarra neste relato sobre vagas de medo que vêm à noite, o terror do viciado e do deprimido terminal que se arrasta pelo chão em busca de uma réstia de algo que o acalme. O pânico de estar só e sem os vícios, o ódio auto-infligido que acerta no núcleo da personalidade.

The Day John Kennedy Died

À partida, uma discussão ligeira assente no lema “onde estavas quando Kennedy morreu?”. Fará mais sentido para cidadãos americanos, embora não deixe de colocar questões sobre liberdade, estupidez, quem a defende e combate, respetivamente, e, por conseguinte, “apanha um tiro na cara”. Valerá a pena lutar pela raça humana? Podemos vê-la sob vários aspetos.

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Heavenly Arms

Vale a pena, afirma Reed, após um catálogo de horrores, neste tributo à sua “salvadora”, Sylvia: O refrão é o nome dela. “Só uma mulher pode amar um homem”, reafirma. Na imprensa, chamaram ao músico “génio amaldiçoado”. Os jornalistas não gostaram que o seu “arauto do rock decadente” cantasse este hino de amor heterossexual à esposa. Mas sobretudo, uma elegia ao amor num mundo cheio de ódio, nisso não estava errado. Não é agradável ouvir isto, mas… No que toca à técnica vocal – e para aqueles que acham que Lou não sabia cantar –, repare-se nos trinados. Em estúdio, já espantara todos, dizendo, “querem que faça a minha voz de Transformer?…” replicou os vocais de vários álbuns na perfeição, deixando os músicos boquiabertos.

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Musicalmente, e para terminar, há duas situações que não podem ser esquecidas em The Blue Mask: Robert Quine, que desenxovalhou Lou Reed e o pôs em forma, a cantar com um vigor inédito, a tocar guitarra e a dar o melhor de si mesmo. E… o extraordinário baixista Fernando Saunders, que pela primeira vez colaborou com Lou, um músico fora de série que ficou até ao “fim”.

The Blue Mask não é um álbum acessível. Dá semelhante estalo de realidade ao ouvinte casual que provoca náuseas. Lou Reed ainda apalpava terreno; como fazer música sóbria? A partir daqui, todos os álbuns seriam “sóbrios”. Maus, bons ou medianos, average. A essência do homem sempre estivera lá. Os ratos? Apertei a mão a um hoje e só lhe tenho a agradecer. Às vezes, sai beleza do lixo e The Blue Mask prova-o. Ainda por cima no Carnaval. Quem as usa é rato, quem as enverga por diversão é um homem mediano.

David Furtado

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