Lou Reed pela sua irmã “Bunny”: “Sempre adorei o meu irmão mais velho”

A 15 dezembro de 2013, Merrill Weiner, ou “Bunny”, participou numa homenagem ao irmão, organizada por Laurie Anderson no Apollo Theater em Nova Iorque. Há uma canção, «Little Sister», que parece dirigida a ela, ou parcialmente inspirada por Merrill, alguém que Lou sempre tentou proteger. O título é o mesmo de um romance de Raymond Chandler, escritor que Reed adorava. Na letra consta: “Sempre adorei a minha irmã mais nova.”

Lou Reed bunny tributo

No tributo, estiveram presentes nomes conhecidos relacionados com a carreira de Lou Reed. Este texto é uma tradução/transcrição do que a “Baby Sister” de Reed disse nesse dia. Tenho feito uma retrospetiva da vida e carreira de Lou Reed, disco a disco. O interlúdio parece necessário porque o próximo é The Blue Mask. “Analisar” estes álbuns tem sido tarefa árdua. Para quem já sabia de cor a letra de «The Original Wrapper» aos 15 anos, aos 39, digamos que sei muitas outras. Nunca tanto como Merrill:

Como é que uma pessoa daquelas nos pode deixar? Estava tão intensamente vivo…

Por muito que me tente lembrar, sempre adorei o meu irmão mais velho. Talvez tenha feito dele um modelo, uma idealização, como o pato mais novo e o mais velho. Em criança, esperava à janela para o ver a regressar da escola. E, quando ele chegava a casa, eu ficava tão feliz. Sempre o adorei.

lou reed bunny (12)

Provavelmente, todos vós conheceram Lou enquanto adulto… [Risos na plateia.] O tipo duro, intimidador, que comia jornalistas ao almoço, de casaco de cabedal e óculos escuros. Era cool, sim, mas deixem-me lembrar-vos a altura em que Lou foi obrigado a fazer de “meu babysitter” quando eu tinha uns sete anos, ele teria 12. Quando me ia deitar, uma aranha épica estava no meu quarto. Meu Deus, do tamanho de um porta-aviões. “Lou, Lou, anda matar a aranha!” E ele disse. “Nem penses. Não vou lá, a sacana é demasiado grande.”

Um Lou mais sereno, assinando autógrafos.
Um Lou mais sereno, assinando autógrafos.

Em Syracuse [Universidade], Lou ainda era mais cool. Fundou um grupo, tinha o seu programa de rádio. Pelo que me lembro, difamou um tipo qualquer nesse programa; a família do miúdo tentou processar o meu pai. E houve, acho eu, outras atividades extracurriculares, pelo que a Faculdade o tentou expulsar. Mas a verdade é que o meu irmão era um génio. Um génio. E formou-se.

lou reed bunny (6)Então, avançando 40 anos no tempo, Syracuse implora, “por favor, deixe-nos fazer um grande jantar em sua honra e estabelecer uma bolsa de estudo com o seu nome… E foi um grande jantar, sentei-me com David Bowie, Bono, isso é fixe, não? Exibiram o documentário de Timothy [Greenfield-Sanders] sobre Lou, Uma coisa em grande. Então Lou levanta-se e vai receber o prémio, eu estava a uns dois metros e, a meio do discurso, ele parou de repente. Ergueu o olhar para mim: “Bunny… foda-se, acreditas nisto?” [Risos na plateia.] Podem estar a rir, mas eu chorei como um bebé.

Foi uma longa jornada até ao fecho desse círculo. Recordo-me de o ver com os Velvet Underground no La Cave, um clube de Cleveland, quando andava na faculdade.

Estavam umas 20 pessoas no público e pelo menos metade odiou. Mas o meu irmão Lou era o Lou. Não se podia ter importado menos.

E talvez para me proteger – a mim ou a ele, não sei –, instruiu-me para nunca dizer a ninguém que era parente dele. Algumas pessoas souberam, por isso, comecei a dizer a quem perguntava, que o tínhamos mantido na cave e o alimentávamos com pão através de um buraco no soalho. [Risos.] Isto pareceu satisfazê-lo. E depois havia aquelas pessoas que simplesmente não entendiam bem quem era o meu irmão. Ingenuamente, perguntavam-me, “o Lou trouxe para casa uma rapariga judia para apresentar aos vossos pais?” Eu dizia, “já ficamos satisfeitos se não trouxer um bode”. [Risos.]

lou reed bunny dogQuando Lou deixou os Velvet Underground, veio viver connosco em Freeport – a sua “fase de datilógrafo”, como lhe chamava. Assinou contrato com uma editora e começaram a tirar fotos para a capa. E a primeira era uma fotografia de Lou na praia, ao lado do nosso adorado cão Seymoure. Não foi usada, mas ficou na parede de casa dos meus pais muitos anos. Era uma maravilhosa foto das duas coisas favoritas de Lou: Cães e praias.

Vocês sabem o resto. Lou nunca fez compromissos. Mesmo se estivesse errado. Mesmo que essa concessão tornasse a sua vida muito mais fácil. E quando nos relembrava por que estávamos errados, tinha aquela expressão no olhar, aquele trejeito da boca, deixando-nos pressentir que vinha aí uma resposta astuta. Quando filmou Berlin no St. Anne’s Warehouse, houve uma pausa da filmagem e ele falou ao público. Recapitulou como os executivos da discográfica ficaram horrorizados quando ele lhes entregou o álbum – poderia dar-lhe um final mais feliz? Lou respondeu, “o que acham? O Hamlet acabou em felicidade?” [Risos.]

Uma vez, estava atrasado, que novidade, com a sua assistente Elyse ao volante, vinha-nos visitar em Long Island, liguei-lhe a perguntar onde estava. “Lou estás atrasado, onde paras?” “Acho que acabámos de passar a fronteira para a Croácia.”

Mesmo quando estava doente, o seu sentido de humor subsistiu. Houve tempos difíceis. Os seus amigos disseram-me que andava com tendências suicidas. “Bunny, tens de falar com ele.” Liguei-lhe e perguntei, “o que andas a fazer? Vais fazer mal a ti mesmo?” “Oh, Bunny, deixa-te disso! Não me posso matar com uma espada de Tai Chi. Não são afiadas que chegue.”

Mas ele estava assustado – quem não estaria? Durante aquele último e difícil ano, exprimiu a sua preocupação ao falar comigo, “não quero ser apagado”. Os seus amigos ficaram a seu lado e agradeço-vos a todos.

Amo o meu irmão. Ele está no meu coração. Sei que também está nos vossos. Conforta-me saber que, com a sua bonita e talentosa esposa Laurie, encontrou o amor da sua vida. Ela trouxe-lhe tanta satisfação e felicidade, tanto quanto “Lou Reed” podia possivelmente ter… [Risos na plateia.] Por isso, de certa forma, ele teve sorte. Morreu com a pessoa que mais amava no lugar que mais amava no mundo. E sei que, tanto Lou como a minha família, todos estamos gratos a Laurie, cuja visão criou esta magnífica celebração da sua vida e um momento para todos nos juntarmos e sararmos feridas. Agradeço-lhe do fundo do coração.

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Em outubro e novembro, o meu adorado irmão faleceu, e a nossa mãe, Toby, 10 dias depois. Tomei a decisão de contar à minha mãe sobre Lou, apesar de ela estar completamente sem reação. Falei-lhe dos grandes tributos, da reação do mundo à morte de Lou. Ela despertou daquele estado semi-consciente, ergueu-se, arregalou os olhos, disse uma frase sem sentido e voltou a estender-se. Quando me ia embora, abraçou-me, pela primeira vez em dois anos, apertou-me o ombro. Foi a última vez que vi a minha mãe. Toby percebeu e partiu para se juntar a ele. Que perfeito. Foi juntar-se ao seu adorado filho, de quem tinha tantas saudades e em relação ao qual se sentia tão arrependida por ter deixado ficar mal. Estava destinado. Estou feliz por ela, por se ter libertado e por estar em paz.

Mas tenho saudades do meu irmão. Ao longo da vida, nunca tive o suficiente de Lou – sempre quis mais. Vocês não? Mais uma conversa, mais um comentário sardónico. Mais um olhar à Lou Reed… mais um telefonema de Lou Reed. Vou sentir-me assim para o resto da vida. Ele não será apagado. E, sim, Lou, foda-se, acredito mesmo nisso.

Merrill Weiner
(Tradução: David Furtado)

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