Lou Reed – Growing Up In Public: O último juramento do cavaleiro

lou reed growing up in publicDar a um disco o poder de um livro foi sempre um dos objetivos de Reed. Algumas vezes fracassou, muitas vezes conseguiu e, quando estava em forma, acertava no núcleo. Foi o que sucedeu neste álbum de transição para uma nova década, para um casamento – um trabalho que daria bastante que fazer a um psicanalista… O poder dos grandes discos reside em funcionarem como livros ou filmes; afetam da mesma maneira. É um pouco o que se passa em Growing Up In Public, que contém humor, agressividade e auto-análise suficientes para preencher um romance curto, sem deixar de ser musicalmente atrativo. Vale por isso a pena revê-lo canção a canção, traduzindo excertos das letras.

O disco foi editado meses após o casamento de Lou e Sylvia, que se tornou também sua manager e influenciou a sua escrita e carreira; incentivá-lo-ia a focar-se mais em temas sociais e políticos. A década de 70 quase toda foi complicada para Reed: Os quatro anos com Rachel tinham sido intensos e, mesmo quando conheceu Sylvia, não quebrou o contacto com Rachel.

Reed estava quase a completar 40 anos mas a idade não o assustava: “Não queria ser mais jovem, sei mais coisas. Quando tinha 18, andava a esbarrar contra paredes a toda a hora.”

Growing Up In Public não é um álbum impoluto – os arranjos são frequentemente trabalhados em demasia pelo teclista Michael Fonfara. Com uma atmosfera de jazz, funk e rock semi-orquestrado que chega a lembrar os Queen, o trabalho não era um dos favoritos de Reed.

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Foi gravado nos Air Studios de Montserrat, “no meio de nenhures”, disse o músico, numa fase de bebedeira constante. “Quase nos afogámos nas piscinas que eles tinham”, comentou Lou, referindo-se às picardias com o companheiro dos copos Fonfara.

Os estúdios estavam sempre abertos e eram servidos cocktails aos músicos ao pequeno-almoço. Clive Davis da Arista proporcionou estas condições, e a banda não se fez rogada. Contudo, o álbum, segundo Lou Reed, foi ensaiado exaustivamente de antemão e concebido do modo mais profissional possível num estúdio que considerava excelente.

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Impressiona o modo como o autor se encara a si mesmo e as suas várias facetas, é esse o tema geral: Crescer em público… de calças para baixo, como lhe aconteceu. Ou seja, exposto. O paralelismo com o cinema lembra de imediato Woody Allen e as neuroses são dissecadas de forma inteligente e até cómica. Aqui e ali, o timbre – especialmente nos vocais – é nervoso. Mikal Gilmore, da Rolling Stone, ficou porém impressionado com a honestidade artística de Growing Up In Public:

“É um álbum sobre arranjar coragem de alto grau, a coragem de amar e, ao mesmo tempo, a vontade de perdoar tudo e todos os que nos aniquilaram as hipóteses anteriormente. Toda a carreira de Reed – ou melhor, toda a sua vida – parecia destinada a desaguar aqui. Pode ou não ser o seu melhor álbum, mas é certamente a sua vitória travada com mais bravura.”

Maio de 1980.
Maio de 1980.

Algum tempo depois do lançamento do álbum, Reed concluiu que tinha de mudar de rumo, e o caminho era o dos Alcoólicos Anónimos, a única forma de manter a sobrevivência do casamento, se o queria levar a sério. A capa mostrava-o com um ar algo desgastado e houve quem comentasse que Lou estava a tornar-se fisicamente mais parecido com o pai.

Armado com a eloquência e a argúcia habituais, escreveu algumas das letras mais extensas da sua carreira. O conteúdo levou a editora a comercializar o disco com o slogan imbecil de “há sete milhões de histórias na cidade. Growing Up In Public é todas elas”.

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Houve as especulações inevitáveis – o trabalho seria um auto-retrato? Até que ponto era autobiográfico? Reed não ajudou às interpretações:

“Sou tão terrivelmente são. Talvez os demónios que as pessoas encontram nestes discos não sejam, de todo, os meus, talvez sejam os de outros. Quando começar a escrever sobre os meus, então talvez se tornasse realmente interessante. As canções são um retrato combinado de um certo tipo de personalidade, não necessariamente a minha.”

How Do You Speak To An Angel

Reed começa em tom “angélico” com piano e um canto mais convencional:

Um filho amaldiçoado por uma mãe que é uma bruxa
Ou um pai fraco e afetado, na melhor das hipóteses
É criado para desempenhar os cenários clássicos e intemporais
Do amor filial e do incesto.

Como é que ele fala a
Como é que ele fala à rapariga mais bonita?
Como é que conversa com ela
O que começa por dizer
O que diz ele se é tímido?

Sem dar grande tempo para assimilar esta entrada, Reed confronta o ouvinte:

O que fazes com as tuas paixões pragmáticas
E o teu estilo classicamente neurótico?
Como lidas com o teu vago autoconhecimento?
O que fazes quando mentes?

 

My Old Man

A canção cuja letra Reed citou como uma das suas favoritas fala do seu velho, exemplo que sempre quis seguir desde o liceu, quando alinhavam as crianças “por ordem alfabética, Reagan, Reed e Russo, ainda recordo os nomes”. Mais tarde, o pai espancava a mãe e o rapaz escondia-se debaixo de uma mesa, “tão agoniado e em sufoco” e já não queria ser como o seu pai, que lhe disse, “Lou, faz-te homem”.

Não há registo de violência doméstica desta índole nas biografias de Reed, e o facto de usar os nomes confunde. Robert Quine disse que nunca viu Lou ter medo de nada; a única vez que o viu assustado foi quando ambos se cruzaram com os seus pais, o que indicia uma vida familiar disfuncional ou talvez a traição que sempre viu no facto de o terem enviado para tratamento de eletrochoques na juventude sem lhe explicarem o tormento que enfrentaria.

O antagonismo familiar não passou despercebido aos amigos de Lou. Achavam que a angústia obsessiva de que sofria provinha da família: “Os pais ignoravam por completo o que ele conquistara artisticamente, o que é muito irritante.” Ou, “eles não se identificavam de todo com o que ele fazia. Não conseguiam aceitar nada sobre a realidade da sua vida. Achavam Sylvia boa rapariga.”

Keep Away

Dirigindo-se à amante, o narrador jura que se afastará de tudo o que lhe dá prazer e alterará todo o seu estilo de vida para salvar a relação: “Se eu não cumprir, juro que me afasto.” “Aqui tens uns livros e um puzzle de Escher e, de Shakespeare, aqui tens Measure For Measure” – rimas interessantes. “Juro que me alisto no exército ou talvez nos marines, começo a usar fatos de estilista e deito fora as minhas jeans.”

Este rol de atividades que o personagem negará, vai-se tornando cada vez mais sarcástico e imbuído de humor negro: “Juro que me afastarei da dignidade e do orgulho, afasto-me do abstrato, guardarei tudo cá dentro, barro-me com manteiga e derreto numa prateleira, frito nos meus sucos e torno-me noutra pessoa.” A punchline vem no fim: “Juro que fecho o livro e não te vejo mais porque só me quero afastar.”

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Growing Up In Public

Reed critica as personagens “semi-efeminadas apaixonadas pela gratificação oral que te edificam a integridade para jogarem com os teus medos”. Sinais da heterossexualidade e do fim da bissexualidade ou mero jogo de palavras? O certo é que Reed questiona neste tema o que faz de um homem um homem e se declara “como um Príncipe Hamlet, entre a razão e o instinto”. Renegaria totalmente o seu passado bissexual em discos posteriores. “Algumas pessoas gostam do poder do poder, o poder absolutamente corruptor que enlouquece grandes homens. Ao passo que outros se satisfazem com os atos, a manipulação, invasão e destruição dos seus inferiores” é outra passagem forte.

Standing On Ceremony

As famílias que passam a vida a fazer cerimónia, reprimidas e a proclamar moralismos disfuncionais são algo muito comum. A reação do narrador é: “Se esse telefone tocar, diz que não me tens visto, diz-lhes que não me vês há semanas.”

So Alone

A complexidade dos relacionamentos interpessoais entre um casal a tentar conciliar-se. “Ela telefona, diz que não quer estar só, diz que isso a está a pôr neurótica mas que não confunda com erótica”. As frases mais poéticas vão-se misturando com o humor (e esta não traduzo): “You said you liked me for my mind, well, I really love your behind.” E mudanças abruptas de estado de espírito: “Por que não vamos para minha casa, acredita que sou muito casto. E estou tão sozinho.” É um ataque subliminar ao feminismo – por outras palavras, as mulheres querem igualdade de tratamento, mas não passará isso de demagogia biológica quando vista à luz do feminismo?

Quando Bono escreveu na Rolling Stone um dos obituários de Reed, disse que “o mundo teria de digerir a perda”. Foi por estes motivos; esta capacidade rara de encontrar formas humorísticas, sérias e contrastantes de identificar os conflitos de intenções nos relacionamentos entre os sexos – amor/luxúria, pecado/moralidade, o que é moral, em suma, a mistura que todos somos e as relações complexas que vivemos.

Love Is Here To Stay

As coisas que um casal gosta de fazer em união e o que o distingue. Gostam ambos de jogar pinball; “Ela gosta de Truman Capote, ele de Gore Vidal. Ela acha que comer carne é repugnante, ele gosta de cachorros quentes.” Ele gosta de Edgar Allan Poe, como Reed. Mas “o amor está aqui para ficar”. Otimista e realista.

The Power Of Positive Drinking

Esta canção semi-disparatada sobre os prazeres do álcool soa hoje a uma piada de mau gosto. O trocadilho veio de um conhecido livro de auto-ajuda, The Power of Positive Thinking. Contém frases inspiradas sobre os bêbedos que nunca param de falar. “E alguns bebem para libertar as libidos e outros para emproar os egos.” “Alguns dizem que o álcool nos torna menos lúcidos, acho que é verdade se já formos meio estúpidos.” “Outros dizem que mata as células da cabeça e, já agora, sair da cama também.”

Reed comentou apenas que foi escrita por “duas pessoas que gostam de beber”.

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Smiles

Aqui Reed parece explicar por que raramente sorria. Porque a mãe lhe ensinou a nunca deixar que os outros percebessem quando estava feliz. Porque o iriam tentar deitar abaixo. Sabedoria… Mas outros são abrangidos, como os imbecis que se fartam de rir na TV; a apresentadora do talk-show, as estrelas de cinema, o assaltante, o violador, o político lambe-botas, “todos se riem na TV com aqueles sorrisos berrantes, doentios e de dentes à mostra”.

Think It Over

Depois desta série de vinhetas tragicómicas, o tom altera-se radicalmente com uma canção de amor que descreve como (supõe-se) Reed pediu Sylvia em casamento.

Ao acordar, ele olhou extasiado para o seu rosto
Nos lábios dele, o seu cheiro o seu sabor
Cabelo negro emoldurando o seu rosto perfeito
Com a sua mente maravilhosa e graça incrível.

O narrador acorda-a repentinamente e faz o pedido com espontaneidade. A resposta é cautelosa num mundo longe do ideal:

Então ela suspirou, la-dee-dah-dee-dah
Tu e eu já fomos muito longe
E temos de ter mesmo cuidado com o que dizemos
Porque, quando pedes o coração de alguém,
Tens de saber se és esperto
Esperto que baste para tratar dele, portanto
Vou pensar.

É uma das canções mais bonitas de Lou Reed.

Teach The Gifted Children

Nesta homenagem a «Take Me to the River» de Al Green (que seria revista pelos Talking Heads), Reed aconselha a “ensinar as crianças dotadas”. Não se lhes deve ensinar apenas as coisas boas e floridas, mas também os perigos dos vícios, os pecados, a capacidade de perdão e a misericórdia. É o tema mais fraco, mas uma conclusão oportuna e otimista.

“Penso que casar tem uma influência enorme na vida de qualquer pessoa. É bom saber que estamos resguardados e para além da simples amizade. Sou partidário dos compromissos. Gosto de olhar para séculos passados, quando florescia a época dos cavaleiros, isso ainda me atrai. Acho que encontrei a minha flor, portanto, isso faz-me sentir mais como um cavaleiro.”

Já a droga era, para ele, a “pior coisa concebível”. “Antes não me importava.” Convém recordar que Reed começou a beber para largar a droga. As músicas foram compostas em parceria com Michael Fonfara, embora se note o esforço sincero em encarar traumas do passado, por parte de Reed, nas letras. A Everyman Band, que acompanhava Reed há vários anos, terminou:

“Durante uns tempos, trabalhei com músicos virados para o jazz e o funk. Eu não tocava guitarra nos meus discos porque não podia tocar com aqueles tipos, já que sou um simples instrumentista de rock’n’roll. Achei que seria interessante explorar esse caminho, mas havia uma divisão entre mim e eles. Podem ouvir isso nas gravações. Por isso, disse a mim mesmo, ‘já levaste esta experiência longe de mais. Não está a resultar. As ideias estão lá e a seguir desaparecem, a música não é consistente, pareces isolado, falta lá alguma confiança porque não estás a controlar realmente’. Portanto, dissolvi o grupo.”

Passariam dois anos até um novo trabalho, uma fase e uma década diferente, que resultara de crescer em público.

David Furtado

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