Lou Reed – The Bells: Há estrelas? Sim. No céu.

Como se disse, Reed inventou os anos 70. O álbum anterior, Street Hassle, denotara algum cansaço criativo. Seguir-se-ia Take No Prisoners, gravado ao vivo no nova-iorquino Bottom Line e editado em novembro de 1978, durante o auge do punk. Em abril de 1979, Lou Reed já tinha um trabalho novo: The Bells. Os sinos tocariam, mais do que uma forma, para alguém que nunca foi o protótipo de estrela do rock.

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Tal como o seu antecessor, The Bells é um álbum heterogéneo que desagrada a muitos fãs de Reed. Observando a sua carreira após tantos anos, constata-se que o compositor não estava parado, e a última carta no seu baralho era dar ao público o que ele queria – problema que aflige muitos artistas e provoca o seu declínio. The Bells é um disco importante, mas de difícil aceitação.

Gravado na Alemanha, foi um trabalho que resultou arrojado mas inconsistente. Lou ainda estava entusiasmado com o som binaural e recomendava o uso de auscultadores para melhor usufruir dessa técnica. Gravou mesmo no estúdio de Manfred Schunke, nos arredores de Hamburgo.

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Pela primeira vez desde os Velvet Underground, foi co-autor de canções num álbum seu. Nils Lofgren – que anos depois seria sidekick de Bruce Springsteen na E Street Band – compôs as melodias de três temas e enviou as gravações a Reed, que escreveu as letras: Falamos de «Stupid Man», «With You» e «City Lights».

O guitarrista e cantor, que lhe fora apresentado por Bob Ezrin, obtivera algum sucesso, tendo já acompanhado Neil Young, encontrando-se numa fase de menor notoriedade. O resto do álbum foi composto em colaboração com o grupo de Reed, a Everyman Band, à exceção de «Looking for Love». Esta hibridez não agrada a alguns puristas da obra de Reed.

MÍSTICA ARTÍSTICA

lou reed the bells (4)Há diversos pontos interessantes em The Bells. «City Lights» é uma crítica ao modo como os EUA trataram Charlie Chaplin e o expulsaram do território. Para Reed, a América perdeu o humor desde então. «Disco Mystic» é um tema minimalista em que a letra consiste em… “disco, disco mystic”. Eram os dias da mística da disco, sim, e este tema tem alguma, isto é, quando há paciência. Lou já demonstrara que gostava de gozar com o público de vez em quando, como em Take No Prisoners, por isso, esta “mística” pode ser uma experiência/devaneio, um mero groove ou uma tolice, dependendo do estado de espírito.

Por falar em experiências diferentes, donde terá vindo o sotaque cockney em «With You»? Talvez uma paródia a David Bowie. «All Through The Night» remete para «Kicks» com uma conversa de fundo semelhante e uma letra notável com rasgos de brilhantismo: “Quando as palavras se acabaram e a poesia surge e o romance foi escrito e o livro acabado, disseste, meu Deus, amor, dá-me isso pela noite fora.”

Ou então, “por que é que ninguém derrama apenas uma lágrima pelas coisas que não acontecem pela noite fora.” A letra e a vocalização sugerem o estado de espírito de um maníaco-depressivo, com ideias em catadupa e emoções desenfreadas. Por estas e por outras, Robert Quine (por muitos problemas que tenha tido com Lou) o classificou de imbatível e, comparando-o a Springsteen, disse que não imaginava alguém inteligente a apreciar o Boss.

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Comparações à parte, Reed (quase) sempre foi um artista sério, compenetrado nas emoções humanas mais delicadas e complexas sem lhes adicionar o xarope adolescente Springsteen, aquele verniz delicodoce. É isso que lhe falta e por isso é incómodo. «Families» é outro exemplo flagrante de algo que Springsteen (ainda que tenha composto bastante sobre laços de sangue) nunca conseguiria escrever, pois revela instintos de escritor e é implacável:

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«Como vai a família?» é o refrão sempre repetido, intercalado por frases como “nas famílias dos subúrbios, muitas vezes uns fazem os outros chorar” ou “acho que já não virei muito a casa”. Conclusões desiludidas e semi-autobiográficas de um narrador após uma visita familiar. O fracasso comercial de The Bells foi justificado por Lou Reed com lucidez: “Talvez as minhas coisas não apelem às massas por abordarem quem ouve a um nível pessoal.”

Por todo o álbum há um clima de impulsividade e desconforto e, sim, esse intercâmbio que Lou referiu e que culmina com «The Bells» – nove minutos de improvisos do trompetista de jazz Don Cherry. Termina com uma recitação de Reed acerca de um ator da Broadway que se atira de um telhado. Para a gravação do tema, foi levado para o estúdio um sino com 3,5 metros altura. Ellard Boles, o corpulento baixista, era o único com força para o tocar a preceito.

«The Bells» é a primeira demonstração de influência de Edgar Allan Poe, até pelo nome. Para Reed era “sobre um suicídio, mas não um mau suicídio” (!) “É um movimento de êxtase. É um tipo apaixonado pela Broadway, que está na berma de um prédio, olha e julga avistar um ribeiro, diz ‘ali estão os sinos’, aponta e atira-se ao som de um rufar de tambor… é belo.”

Reed, que dizia adorar a letra, proclamou que a improvisara “num só take, o que foi divertido de fazer. É interessante apenas inventar qualquer coisa, seja o que for, seja lá donde venha”. Esta “suposta mini-sinfonia rock”, como a descreveu, não é fácil de ouvir.

O CRETINO COMPASSIVO

lou reed the bellsO lendário crítico Lester Bangs escreveu incisivamente sobre The Bells na época em que foi editado. Bangs conhecia Reed demasiado bem para que este se sentisse confortável, o que terá contribuído para um desacordo entre ambos:

“Reed é um imbecil e um cretino que comete com regularidade o derradeiro pecado de tratar o seu público com desprezo. É também uma pessoa com profunda compaixão por muitas outras pessoas para as quais a maioria se está a cagar… sempre houve mais aqui do que drogas e perversões da moda e… o sofrimento, a solidão e o exílio psíquico/espiritual são grandes niveladores.”

Palavras sábias.

As declarações de Lou Reed sobre o sombrio The Bells indiciam um homem a passar por uma transformação – há seriedade artística neste período, acompanhada de incongruência. E era um “pouco” isso que se passava nos bastidores. A sua relação com Rachel tinha terminado. Vivia no West Village, em Christopher Street, no centro da comunidade gay com dois dachshunds. Até as suas declarações sobre a droga assumiam um tom estranho:

“Detesto sedativos, torna as pessoas desleixadas como os bêbedos. Não gosto de marijuana, isso é certo, só o cheiro… e é tão comercial. Só nos dá fome. É como os cartoons, e o LSD é como cartoons ainda maiores. Não gosto de ficar pedrado, porque o que digo pode não ser fiel ao que se passa. Descobrimos a verdade universal em quatro horas, esquecemo-la na quinta e, na sexta, estamos com fome. Vemos morangos a caminhar pelo teto e depois, que mais? Os Quaaludes tornam-me frenético, muito nervoso.”

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A sua sexualidade era também abordada de modo franco:

“Tenho um grande ressentimento devido a todos os preconceitos relacionados com eu ser gay. Como é que alguém gay consegue manter a sanidade? Às vezes, apetece-me sacar de uma arma e começar a abater pessoas, mas haveria demasiadas a abater. (…) Acho que as mulheres apreciam mais os homens que não precisam delas. Muitas mulheres fartam-se dessa carência.”

Após o lançamento de The Bells, o músico envolveu-se nalgumas polémicas: Em Berlim, recusou-se a prosseguir um concerto até que um espectador que lhe desagradara fosse expulso do recinto. Foi vaiado durante o resto do espetáculo e gerou-se um motim, Reed foi preso e atirado para uma carrinha policial, acusado de incitamento à desordem e obrigado a pagar 10 mil libras por danos.

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“Levaram-me sozinho para a cadeia. Gostavam de ser enfiados numa carrinha com uma dúzia de fanáticos religiosos a dizer que vos vão tirar o sangue?… o problema foi um bando de soldados americanos. Queriam um motim e tiveram-no.”

Depois de um concerto em Londres teve uma feia discussão com David Bowie e agrediu-o num restaurante em Chelsea.

“Sim, bati-lhe… mais do que uma vez. Foi uma disputa privada. Não teve nada a ver com sexo, política ou rock’n’roll. Tenho um código ético nova-iorquino – fala aos outros como gostarias que te falassem. Por outras palavras, cuidado com o que dizes.”

O DIA EM QUE OS SINOS TOCARAM

lou reed the bells (2)É mais ou menos por esta altura que entra em cena alguém que marcaria a vida pessoal e artística de Lou durante os anos 80: Sylvia Morales. Era uma bailarina que conhecera (e isto parece uma comédia negra) num clube de sadomasoquismo, mas foi também a mulher junto da qual Reed enfrentou demónios que o perseguiam há mais de 10 anos – o álcool e os estupefacientes – e que provocaram, soube-se em outubro passado, danos irreversíveis na sua saúde.

O músico não largou de imediato os excessos quando conheceu Sylvia. O embriagado Growing Up in Public, o álbum seguinte, seria prova disso. Este homem da cidade começou, porém, a ter atitudes pouco típicas; comprou uma pequena quinta na zona campestre de New Jersey. Começou a fazer coisas tão estranhas como olhar para as estrelas à noite: “Andy [Warhol] costumava dizer que não se consegue ver as estrelas em Nova Iorque porque elas estão todas no chão. Bem, aqui, as estrelas estão no céu.”

Começa o seu entusiasmo e obsessão pela prática de Tai chi chuan, a (fascinante) arte marcial chinesa que o acompanhou literalmente até ao último dia de vida: “É uma disciplina estética e física que acho extraordinária. A disciplina consiste na capacidade de relaxamento. É muito bonito de ver.”

Quem ouve os discos de Lou Reed a partir deste ponto, repara numa profunda alteração. Entretanto, no Dia de São Valentim de 1980, Lewis Reed casa com Sylvia Morales, que se torna sua esposa, musa e manager. Os sinos tocaram, mas desta vez na igreja.

David Furtado

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