Lou Reed – Street Hassle: Matilda dança a valsa

No cânone de Lou Reed, o álbum é tido como um dos seus melhores. Não concordo completamente. O tema-título, sim. Esta apreciação é pessoal e, além do mais, foi uma fase experimental da sua carreira, com funk, disco, jazz, r&b, rock e blues que se dispersa um pouco. As preocupações com as técnicas de gravação deixaram marca nesta obra que ainda é um dos trabalhos mais poderosos de um músico para quem o conformismo nunca integrou o dicionário.

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Sem querer cair em redundâncias, Street Hassle foi o álbum em que Lou Reed encontrou um terreno comum com os sons punk que inspirara, mantendo a sua própria personalidade e espírito de confronto. Houve a experiência falhada com o som “binaural”, técnica desenvolvida pelo engenheiro germânico Manfred Schunke, algo que o músico achou “espetacular”.

lou reed street hassle (7)Supostamente, deste modo era registado mais 50 % de som que o habitual, e podia-se reproduzir ou simular o impacto do som ao vivo. Tão entusiasmado ficou que queria originalmente lançar um álbum ao vivo empregando a técnica. Clive Davis e a Arista, porém, insistiram num registo de originais. Assim, Lou usou algumas músicas ao vivo trabalhadas em estúdio, extraindo-lhes quase totalmente o som do público, e juntando-as a outras, tornando Street Hassle num trabalho híbrido. Chamaria traidores e estúpidos aos executivos da editora.

As faixas ao vivo, gravadas em diversos concertos na Alemanha não foram registadas em clima pacífico. Reed ameaçou um promotor com um abre-latas e pontapeou os monitores para fora do palco.

Reed revelou à revista Creem alguns dos seus propósitos: “Conhecem a canção de Marvin Gaye, «Got To Give It Up?» Quando Marvin diz, ‘aqui vem a parte boa’ é verdade. O guitarrista ritmo, Ed Brown, toca riffs quase à toa, pelos quais a maioria dava o testículo esquerdo. Tentei imitar isso em «I Wanna Be Black» e evidentemente lixei tudo.”

Nas letras, temos um Reed cáustico. Abrasivo. A influência literária é forte: “Nota por nota, Street Hassle é exatamente o que devia ser. Não é descartável como a maioria dos discos. As situações são verdadeiras e humanas, como Eugene O’Neill poderia escrever uma canção. Não lhe alterava um cabelo.”

Lou achava também que era um trabalho comercial: “Acho que está ao nível do mercado”, disse, aquando da edição. “Gosto que o meu lixo soe melhor que o lixo dos outros. O meu público sabe sempre que vai ter um disco de Lou Reed, para o bem e para o mal. A orientação pode mudar, mas terá sempre a minha marca.”

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Isto sempre foi verdade.

O disco reúne circunstâncias anómalas: Richard Robinson fizera um trabalho amador no primeiro álbum a solo de Reed, e quando este se zangou com Richard e Lisa, esta escreveu muito negativamente sobre o músico. Sempre achei que Street Hassle soaria melhor com diferente produção e misturas. É algo lamacento, e os tiques vocais punk recém-adquiridos por Lou não ajudam nem o seu desprezo por escalas musicais.

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MAS…

lou reed street hassle (8)Reed começa por fazer troça da sua própria imagem estereotipada na canção de abertura, «Gimmie Some Good Times»: “Olha só o Animal do Rock and Roll em pessoa, o que fazes, pá?”, intercalado com frases de «Sweet Jane». A frase-chave é “não me interessa se és feia ou não, a mim, parece-me tudo o mesmo”. O tédio existencial de obras como Náusea de Sartre é sintetizado numa canção de três acordes, muito simples, no que Reed era exímio.

Outra coisa em que Reed era exímio era em fugir a rótulos – a sua relação conflituosa com a imprensa condiz. A seguir, atira-nos com lixo, «Dirt», sobre alguém tão canalha e abjeto que nem a sarjeta é habitat para ela ou ele. O objetivo do tema é encontrar palavra que descreva esta pessoa. A conclusão é “lixo”.

Depois disto, Lou Reed espeta-nos um prego que demove preconceitos sobre o disco: «Street Hassle», tema de 11 minutos, dividido em três movimentos – «Waltzing Matilda», «Street Hassle» e «Slipaway», que cristaliza a sua obra e propósitos artísticos.

Alicerçado num loop de violoncelos e enriquecido por vários overdubs, Lou Reed desenvolveu três vinhetas na canção.

“Achei que a coisa perfeita a fazer era desfocar a imagem, como num filme, alternar para um plano panorâmico e, de repente, boom, vai-se parar a um segundo mundo.”

Os vocais melancólicos de Genya Ravan tornam «Matilda» numa sórdida história de fazer sexo por dinheiro numa coisa quase romântica – zona estranha e nebulosa – e ninguém exprimia isto melhor que Lou Reed – os sentimentos limite. ‘Matilda’ troca 80 dólares com o “rapaz sexy” e, de manhã, ninguém está arrependido.

Três fotos de Reed, três movimentos em «Street Hassle».
Três fotos de Reed, três movimentos em «Street Hassle».

Várias vezes Reed se referiu a «Street Hassle» como reminiscente das suas influências literárias, William Burroughs, Hubert Selby e especialmente Raymond Chandler. Foi Clive Davis, achando que o idealizado álbum ao vivo não era substancial, a sugerir a Reed que expandisse este trecho, ideia que Lou não apreciou a princípio.

Surgiria este épico sobre fazer amor e uma prostituta a vir-se nas calças, e tentar explicar ao senhor agente como é que a patroa esticou o pernil de overdose, pelo que talvez seja melhor arrastá-la pelos pés e estendê-la numa rua escura… “Uma coisa é certa, essa puta nunca mais vai foder. Devias ter mais cuidado com estas miudinhas…”

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A parte de Springsteen é indistinta e inócua. Nota-se que é a voz dele, sentindo-se completamente desconfortável e provavelmente mais focado nas gravações de Darkness on the Edge of Town, a ler um papel à frente. Reed elogiou muito Springsteen dizendo que era “das ruas”, mas já dissera mal dele antes. Em 1976, era um “merdoso, uma coisa do passado”.

“Eu estava lá, Bruce Springsteen estava lá, Patti Smith estava lá, todos em estúdios diferentes. Eu conhecia Steve Van Zandt e perguntei-lhe se Bruce me leria um monólogo. Bruce disse, ‘claro, mas não uses o meu nome…’, e assim foi. Gostaria que todos os fãs de Bruce comprassem o disco, mas, como não pudemos usar o nome dele, acham que sou eu a imitá-lo.”

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“O final é como um monólogo de Tennessee Williams”, disse Lou. Revela, já sem cinismo, o ressentimento, desespero, angústia e saudade de amores perdidos e talvez irrecuperáveis. O amor levou os anéis dos dedos e já nada resta para dizer. A relação entre Lou Reed e Rachel estava no fim, e o compositor deu a entender que se tratava de uma mensagem para ela. “Essa pessoa existe realmente, levou-me mesmo os anéis dos dedos e tenho saudades dela.”

OS FODIDOS DA CABEÇA…

«I Wanna Be Black» mostra Reed num ponto extremo de sátira grotesca: “Quero ser negro, ter ritmo natural. Quero ter uma namorada chamada Samantha e um estábulo de putinhas boazonas. E quero ter uma grande pila também. Já não quero ser este estudante da faculdade de classe média, fodido da cabeça…” A questão aqui é que até o compreendemos, porque alunos de faculdades de classe média, fodidos da cabeça, já não são nada de original.

lou reed street hassle (10)Mas quando diz que quer ser “como Martin Luther King e ser alvejado na primavera” e “foder os judeus”, entramos em terrenos mais movediços. Quem conhecer Reed, judeu e influenciado por música de negros, sabe que isto é humor negro. Mas é forte e incomoda muitos. É um ataque subversivo aos valores brancos neo-liberais, se quisermos usar palavras caras.

“Ninguém o podia alguma vez levar a sério. O meu produtor disse-me que nada de bom podia advir disto, mas as ideias parecem-me histericamente engraçadas.” Lou gostava tanto da canção que pensou dar este título ao álbum. Nem é uma provocação, é um jogo com estereótipos raciais. Desenvolveu-se a partir de um rascunho de 1974, cujas intenções originais eram minar os músicos brancos que procuram imitar a desenvoltura dos músicos negros. “Uma forma de agitar as coisas”, comentaria Lou Reed. Até Nico disse que, em privado, Lou lhe confessara que gostaria de ser negro.

«Real Good Time Together», reciclado dos Velvet, não é nada animador. Vamo-nos divertir? Com tanto overdub de voz e guitarras e confusão vocal, fica-se com saudades do rockabilly enérgico e original da versão dos VU, se bem que, sim, seja cansativa a comparação entre versões.

Recordo-me de ler um crítico português relatar que «Wait», o tema final, é sobre um engate homossexual num urinol público! Não vejo nada disso na canção. Outro jornalista achou-o uma paródia sem humor aos grupos vocais femininos de Phil Spector, nos anos 60. Em que ficamos?…

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Street Hassle foi um álbum elogiado e comercializado em Inglaterra como sendo da autoria do homem que inventara o punk, o barítono que escrevia os hinos das ruas. É um Lou Reed inspirado e bastante nervoso que surge na maioria de Street Hassle. E, como Bob Dylan, quando as pessoas já achavam que o tinham rotulado, Lou partira para outra, mas sempre com o mesmo lema: Sem reféns.

David Furtado

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