Pam Grier, Coffy e o nascimento de uma nova heroína

O mercado da blaxploitation obtivera grande relevo com Shaft. Neste género, o essencial era ter um ator negro como herói e, com frequência, o vilão. O realizador Jack Hill já trabalhara com Pam Grier em The Big Doll House e The Big Bird Cage, ambos filmes do estilo “mulheres em prisões”, onde Grier desempenhara papéis secundários. O inédito em Coffy foi dar o protagonismo a uma mulher vingadora ou justiceira. O sucesso seria de tal ordem que Pam Grier foi apelidada de “primeira mulher negra a alcançar o estrelato com filmes série B”.

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O público-alvo destas obras era afro-americano, mas o êxito alcançou tais proporções que os estúdios mainstream não ficaram indiferentes. Atores como Richard Roundtree (nomeado para um Globo de Ouro) e Fred Williamson, e filmes como Shaft (1972), que venceu o Óscar de Melhor Canção Original, ou Superfly, impulsionaram um tipo de cinema que inicialmente teria uma audiência mais restrita. Os temas de discriminação racial eram óbvios e as figuras principais eram sempre homens másculos num cenário nova-iorquino. Até surgir uma atriz que mudaria o panorama.

Pam Grier descreve o conceito confuso de beleza e raça nesses tempos: “A sociedade andava num dilema sobre o que era considerado ‘bonito’ em mulheres de cor. Se alisávamos o cabelo, chamavam-nos ‘bonitas’, se mantínhamos o nosso ‘afro’ natural, éramos consideradas ‘étnicas’. Havia poucas pessoas do mainstream dispostas a aceitar o nosso visual natural como parte da nossa beleza, e isso irritava mesmo Tamara [Dobson] e eu.”

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Quando a amiga Dobson filmava Cleopatra Jones, Pam Grier deparou-se com a hipótese de trabalhar num filme em que, pela primeira vez, ganhou algum dinheiro. Concordou em protagonizar Coffy nos termos de um contrato que abrangia mais dois filmes, Foxy Brown (1974) e Sheba Baby (1975).

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“Originalmente, fora escrito para uma atriz branca. Ela recusou-o, contudo, por não estar disposta a fazer as cenas de duplos, obviamente perigosas. Muito poucas atrizes se dispõem a isso, e não as culpo, mas foi por este aspeto que me singularizaram”, afirma Grier. “Eu era uma aventureira por natureza e tudo aquilo me empolgava.” (Sublinhe-se que, em 1973, praticamente não existiam duplos de raça negra.)

‘Miss Coffin’ (trocadilho divertido) ou ‘Coffy’ é uma enfermeira empenhada em fazer guerra aos traficantes de droga depois da sua irmã mais nova ter sido apanhada nessa rede. E, para tal, usa os seus atrativos físicos ou que apanhar à mão. Logo no início, surge Pam Grier empunhando uma espingarda de canos serrados e a “sentenciar” um traficante: “This is the end of your rotten life, you motherfuckin’ dope pusher!” Pode-se até comentar que este tipo de enquadramento fundou o género “vigilante” que Charles Bronson celebrizaria logo no ano seguinte (1974) com Death Wish.

Há outras questões nestes filmes que vão para além da racial. Temos um político corrupto (por acaso, negro) a dizer que não lhe interessa a cor, se é negra, verde ou amarela, interessa-lhe é o “verde do dólar”. Coffy destoou porque também não é um filme feminista devido à nudez de Grier e outras atrizes. A obra gerou rivalidades com outros estúdios e filmes como Cleopatra Jones. E, curiosamente, ambos foram realizados por cineastas brancos…

Temos também a situação de Quentin Tarantino, que integrou Coffy na lista dos seus 12 filmes favoritos de sempre. (Muitos anos depois, em 1997, realizaria Jackie Brown, com Pam Grier a protagonizar, trabalho que revitalizou a sua carreira.)

A PERSONAGEM CONFUNDE-SE COM A ATRIZ

Coffy foi uma produção muito rápida – demorou 18 dias a filmar – com um orçamento de 500 mil dólares. “Eles tinham um limite para o que apelidavam de ‘filmes para negros’ por acharem que, com um preço destes, podiam lucrar com qualquer um deles”, afirma o realizador Jack Hill. “O termo blaxploitation nem existia.”

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Hill recorda-se do sucesso que foi Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971): “Foi o primeiro que apareceu, abriu horizontes e todos queriam fazer os chamados ‘filmes para negros’, mas ninguém conhecia bem a fórmula para o sucesso.”

O realizador deu-se bem com Grier: “Tínhamos um relacionamento muito profissional. Ela contribuía com excelentes ideias acerca de um estilo de vida com o qual eu não estava familiarizado; e assim idealizávamos coisas que ela poderia fazer e eu escrevia algumas delas no guião. Essencialmente, baseei a personagem na personalidade dela, tal como ela me parecia.” A atriz afirma que o modelo que usou para a personagem foi a sua mãe, uma enfermeira.

Grier e o realizador Jack Hill (à direita).
Grier e o realizador Jack Hill (à direita).

Houve outras especificidades: “Eu queria criar uma personagem distintamente feminina e que usasse essa feminilidade como arma, mas que não fosse uma super-lutadora ou coisa assim. ‘Coffy’ podia ser qualquer pessoa – qualquer mulher se podia rever nela, e ela usa as suas astúcias em vez de artefactos ou capacidade de combate”, afirma Hill. Ao criar ‘Coffy, o realizador também deu um papel forte a uma negra num filme de ação, mas não se acha inovador nesse aspeto: “Não me ocorreu isso, na época. Pensei apenas que talvez fosse divertido fazê-lo.”

pam grier coffy (22)As cenas de nudez (e não são assim tantas) não foram problema para Pam Grier: “Eu já estivera na Europa e tinha um espírito mais aberto relativamente a tais matérias.” Mas também isso era uma questão delicada para atrizes afro-americanas. “Era considerado impróprio. Agora ninguém pensa nisso quando vê Halle Berry em Monster’s Ball. Mas, naquela altura, as pessoas estavam acostumadas a ver negras a desempenhar essencialmente prostitutas ou toxicodependentes, mal vestidas e que se deixavam explorar. Encarei essa exposição como artística e não sexualmente apelativa, e senti-me confortável com isso.”

A promoção de Coffy permite recordar como se fazia a propaganda de um filme há 40 anos. Pam Grier explica que “não havia entrevistas por satélite, difundidas para milhões de pessoas. Nesses tempos, para se promover um filme adequadamente, um ator tinha de ir pessoalmente a, pelo menos, 30 cidades. Quando isto se arrastava durante dois meses, era absolutamente esgotante. Eu não fazia ideia da cidade em que estava, pois só via o interior de uns quantos estúdios de TV e um hotel em cada sítio.”

CORPO E PERSONALIDADE

Quando se fala em blaxploitation, Pam Grier é considerada a rainha e com mérito. Em 1973, era uma atriz com arestas por limar, mas há que elogiar a sua atitude. Sob a silhueta curvilínea (ou voluptuosa) havia uma forte personalidade. Foi ela que insistiu em dar mais glamour à sua personagem. Em Coffy, vemo-la com decotes ousados, ou de fato de banho, fazendo-se passar por uma jamaicana (numa das cenas mais divertidas do filme, devido ao sotaque e postura de Grier).

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Tendo em conta as declarações de Pam Grier, acerca do modo como as atrizes negras eram vistas, não é exagero dizer que o género blaxploitation foi crucial na maneira como as atrizes afro-americanas passaram a ser encaradas no cinema e na TV. Se, nos westerns, os índios eram sempre os opositores, maus, bêbedos e facínoras, os chineses, os palermas donos de lavandarias ou a construir caminhos-de-ferro, os negros eram os escravos ou os marginais. Nessa fase, Sidney Poitier conseguiu superar tal estatuto e foi o único, talvez, a tornar-se numa superestrela.

pam grier coffy (20)E o facto de Pam Grier surgir num papel desta força fez com que as pessoas encarassem tais estereótipos doutra forma. Uma personagem assim era inédita e a sua importância não deve ser menosprezada apesar da natureza comercial do género. Até a nível do sexo, quantas heroínas de filmes de ação havia antes? Também neste ponto, os anos 70 e Grier tiveram um papel importante. Recorde-se Sigourney Weaver em Alien, por exemplo. Sem comparar a qualidade dos argumentos, a carismática Pam Grier conferiu autenticidade a tais papéis.

Ironicamente, o estatuto de “Rainha da Blaxploitation” de Grier não foi consensual junto de líderes de opinião afro-americanos, que consideraram tais filmes toscos e criticavam a fraca imagem que a atriz projetava da comunidade negra. E, para Pam Grier, o sucesso de Coffy e dos dois filmes seguintes não seria inteiramente positivo. Ficou rotulada e até “estigmatizada”, encontrando sérios obstáculos em conseguir trabalho no cinema mainstream.

O sucesso de bilheteira foi grande, mas a crítica detestou. Jack Hill recorda e assinala a diferença dos tempos, citando algo de impensável nos anos 70: “Todos os críticos tratavam esses filmes como lixo. Um deles chamou a Pam Grier uma ‘miúda negra antipática’. Outro chamou-lhe ‘gaja negra’. Era um tipo de linguagem que nunca empregariam se alguém fosse, digamos, judeu. E agora estes filmes são analisados por sociólogos e tratados pelos críticos como clássicos. Fui entrevistado por uma professora universitária de Birmingham, Inglaterra. Ela ensina Coffy no seu curso de cultura afro-americana.”

Pam Grier é hoje uma figura de culto. E se recentemente Oprah Winfrey se queixou de alegada discriminação racial numa loja, para consternação e espanto de muitos, refira-se que o mesmo já acontecera a Pam Grier. Há uns 35 anos. Certas coisas nunca mudam.

David Furtado

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