Fargo dos Irmãos Coen: Um sítio onde (quase) nada acontece

Até à data, Fargo era o filme mais complexo que os Coen tinham escrito, à exceção de Blood Simple (obra menos conhecida mas recomendável). O orçamento era dos mais baixos com que tinham trabalhado. Hoje aclamado como original (e genial), Fargo não era o filme que os Coen queriam sequer fazer. Esse projeto era The Big Lebowski, mas Jeff Bridges, que os irmãos achavam perfeito para o papel, encontrava-se ocupado com outros compromissos.

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Às vezes, a integridade artística deteta-se nos pormenores – em vez de seguirem o procedimento standard na indústria e arranjarem outro ator para The Dude (e os cinéfilos ficar-lhe-ão eternamente gratos), os Coen fizeram outro filme para ganhar tempo. Joel e Ethan Coen põem Lebowski de parte e escrevem um argumento em três meses: Fargo. Três meses depois, já estavam a filmar – curtíssimo espaço de tempo pelos padrões da indústria.

A obra começa informando-nos de que os eventos a que vamos assistir ocorreram no Minnesota em 1987, apenas os nomes foram alterados, etc. Ethan diria a um velho amigo, contudo, que “a maioria foi inventado” e houve mesmo um repórter do Estado que procurou tal caso de rapto e assassínio nos ficheiros policiais e não encontrou nenhum. Os Coen queriam brincar com o público.

Mais autêntico é o conceito de que o ambiente de Fargo se baseou na infância dos realizadores – os horizontes gélidos do Minnesota, os stands de automóveis e o espírito acolhedor dessas paragens. Ethan Coen explicaria que “as paisagens, os personagens e a sensibilidades do Midwest” eram-lhes muito familiares. Ambos disseram que queriam afastar-se do estilo artificial e autoconsciente dos dois filmes anteriores, procurando incutir mais realismo a esta história.

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O enredo é simples; um vendedor de automóveis, ‘Jerry Lundegaard’, quer que dois marginais lhe raptem a mulher para usar o dinheiro do resgate (pago pelo abastado sogro) para saldar um empréstimo bancário. As coisas correm mal, já que estes dois criminosos são uns cretinos e uns inaptos de primeira. Essa inaptidão não é característica de ‘Marge Gunderson’, a agente da polícia dedutiva, de discurso simples de bom coração mas implacável, que vai ocupar-se do caso. Os Coen escreveram o papel de ‘Marge’ já a pensar em Frances McDormand. Um dos marginais, ‘Carl’ foi também escrito com Steve Buscemi em vista.

Ethan e Joen Coen no set de Fargo.
Ethan e Joel Coen no set de Fargo.

“YOU BETCHA”

Houve alguns factos verídicos que de certo modo inspiraram Fargo: Em 1987, os irmãos leram num jornal a história de um homem que enfiou a mulher num triturador de madeira no Connecticut, e terá sido esta situação que despoletou uma história com intenções mais naturalistas ou realistas. O vendedor de automóveis ‘Jerry Lundegaard’ foi inspirado por um vendedor que Ethan conhecera algum tempo antes ao comprar um carro – algumas das falas foram reproduzidas na íntegra.

Joel Coen e Frances McDormand.
Joel Coen e Frances McDormand.

O tema do rapto foi também inspirado por High and Low, obra de Kurosawa admirada por Joel. Houve ainda um romance de Elmore Leonard, intitulado The Switch e publicado em 1978, em que é empregue um método de rapto muito parecido. Podia ser coincidência, se os dois cineastas não fossem admiradores de Leonard.

Um aspeto interessante em Fargo é a “filosofia” por detrás destas personagens banais envolvidas numa situação pouco convencional: “Interessava-nos a psicologia de uma pessoa que constrói esquemas financeiros piramidais mas que não consegue imaginar um minuto do futuro e antever as consequências”, disse Ethan Coen. Joel complementa, que, ao criarem as personagens, pretendiam “especular sobre as motivações individuais, intenções, ações e reações”.

Assim, surge outra, ‘Marge’, que os irmãos queriam que fosse o mais longe possível da polícia cliché. A preocupação em conferir a autenticidade partiu justamente da esposa de Joel Coen, Frances McDormand. A atriz achava que faltava algo às personagens femininas dos filmes dos Coen. E assim nascia uma agente pouco convencional, grávida, com uma vida familiar rotineira, empenhada numa caça a assassinos.

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“OH GEEZ…”

Como já assinalei aqui no texto sobre The Big Lebowski, a meticulosidade dos Coen é espantosa. Para Fargo, recordavam-se de expressões típicas do Midwest. Para serem ainda mais concretos, usaram um livro de Howard Mohr, How To Talk Minnesotan, acerca de um programa de rádio, A Prairie Home Companion. Distribuíram exemplares pelos atores no set e, assim, Fargo está cheio de termos como “you betcha”, “oh geez”, “yah think?”.

Desde Raising Arizona em 1987 que os Coen não dispunham de um orçamento tão reduzido: 6,5 milhões de dólares. Não lhes permitia contratar estrelas, o que não os incomodou, já que gostavam de dar papéis a rostos menos conhecidos.

Com McDormand foi simples: Deram-lhe o guião e disseram: “Toma, aqui tens a ‘Marge’”, para espanto da atriz que brincaria mais tarde: “Foi a primeira vez em 12 anos a dormir com o realizador que obtive um papel e sem me perguntarem nada.” Apesar disso, Frances McDormand guardava algum ressentimento por nunca lhe terem dado um papel principal.

Peter Stormare e Steve Buscemi.
Peter Stormare e Steve Buscemi.

Por parte de McDormand, não houve trabalho de pesquisa, observar polícias, etc., embora tivesse uma irmã, capelã numa prisão de máxima segurança, de quem terá retirado algumas características. A atriz decidiu seguir o instinto, considerando ‘Marge’ a primeira mulher a três dimensões que os Coen tinham criado:

“Ela tem uma vida interior que não é imediatamente óbvia mas que se vai revelando. Há algo de assustador acerca dela difícil de verbalizar. É simples e superficial, mas não é ingénua e inocente porque é boa no seu trabalho, no qual contacta de perto com crimes e assassínios. Mas não faz a mínima ideia do que motiva as pessoas a fazerem estas coisas horríveis.”

O vilão e opositor de ‘Marge’, Jerry Lundegaard foi interpretado por William H. Macy. “Era a melhor coisa que já lia há muito tempo. Essencialmente, supliquei aos tipos que me dessem o papel.” Macy era e é conhecido pela contenção.

William H. Macy foi "escolhido pela contenção".
William H. Macy foi “escolhido pela contenção”.

“Não suporto representação demasiado emocional com pessoas a chorar e a ficarem todas transtornadas quando atuam. É desgradável de ver. Não gosto disso na vida real nem no teatro e por aí fora. O que mais adoro em ‘Jerry’ é que ele não desiste. Ele elabora o plano, tem a certeza de que correrá bem e, ainda que os sinais sejam contrários a isso, segue em frente. Mesmo na última cena, ele ainda tenta. Temos de admirar alguém com esse tipo de fé. Por outro lado, é burro como um tronco e também gostei disso.”

"Há aqui mais um..."
“Há aqui mais um…”

UM INVERNO “QUENTE”

A 23 de Janeiro de 1995, começava a rodagem. Era a primeira vez que os Coen filmavam no sítio onde tinham nascido e empregaram locais que conheciam bem, como o Embers Restaurant em St. Louis Park, no qual Ethan lavara pratos enquanto adolescente.

O diretor de fotografia Roger Deakins (que já trabalhara com os Coen) apreciou a colaboração entre uma pequena equipa, achando-a mais flexível. Para obter o visual necessário (e naturalista) empregou tanta luz natural quanto pôde. Os realizadores deixaram-no usar lentes longas pois, desta vez, queriam que a câmara fosse um “observador” neutro da ação.

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Como descreveu Joel Coen: “O essencial é que não conseguíamos avistar a linha que separava o céu da neve. Os ângulos inferiores e superiores são muito semelhantes; queríamos um cenário vazio e despido onde pudéssemos colocar pequenos detalhes gráficos.” O conceito foi um desafio para Deakins, pois facilmente podia aborrecer o público.

Joel Coen e Frances McDormand tiveram de “reajustar” o seu relacionamento pessoal, pondo a vida privada de parte. Isto pode parecer banal para muitos, mas considero-o um ato de profissionalismo. A atriz dormiu noutro quarto de hotel, o que não lhe custou assim tanto, segundo afirmou, visto que o de Joel estava cheio de roupa suja e uma confusão. No set, o companheiro encorajava-a a ser mais aberta e calorosa, enquanto Frances temia tornar a personagem caricatural.

Por ironia do destino, Fargo, que se pretendia gélido e repleto de neve, foi filmado naquele que ficou na História como um dos Invernos mais amenos do Minnesota. Teve de se recorrer a neve artificial. As condições atmosféricas foram o maior problema da produção que, de resto, terminou sem percalços a 20 de março.

A montagem foi efetuada pelos Coen sob o pseudónimo Roderick Jaynes, com o auxílio de Tricia, a esposa de Ethan. Tendo em conta a gravidez de ‘Marge’ em Fargo, é curioso que, dois meses após o fim da rodagem, McDormand e Joel Coen tenham adotado uma criança. Ethan seria pai em 1996.

SUCESSO INESPERADO

Steve Buscemi.
Steve Buscemi.

Os Coen esperavam que receção de Fargo não fosse consensual. Surpreendentemente, a crítica da Variety foi altamente elogiosa para os cineastas e até para o editor fantasma, que seria nomeado para um Óscar!… Isto causou alguns problemas burocráticos com a Academia, pois os irmãos temiam que uma pessoa que não existia pudesse vencer o galardão. Os organizadores negaram a ideia dos Coen, de contratar um ator para desempenhar Roderick Jaynes na cerimónia.

Janet Maslin, do New York Times, exaltou o estilo combinado com entretenimento, o humor do filme e a sua “aguçada ferocidade”. Na Entertainment Weekly, Lisa Schwarzbaum disse que “os tipos têm o coração no lugar certo, não só cabeças astutas”.

As críticas negativas foram poucas. Quem não gostou foram justamente os habitantes do Minnesota, ofendidos por serem retratados como o que achavam uns tolinhos de bom fundo. A imprensa local achou que estavam a fazer troça deles, e Joel Coen defendeu-se, dizendo estranhar a reação. Sublinhou que ambos eram um produto da cultura local e que sentiam afeto pelas personagens que haviam criado.

Fargo tornou-se muito popular, recebendo sete nomeações para os Óscares, todos nas principais categorias. Contrariando todas as apostas – recorde-se que Kristin Scott Thomas por The English Patient era uma das favoritas do ano –, Frances McDormand vence o Óscar de Melhor Atriz. Era uma outsider em Hollywood, pelo que o espanto foi grande, bem diferente da entusiástica reação do público. McDormand tornar-se-ia uma das atriz mais respeitadas do cinema após este trabalho, e não é exagero dizer que nunca caiu nas armadilhas do star power nem dos vedetismos.

McDormand ficou tão surpreendida com o prémio que, durante algum tempo, recusou guiões, além da maioria das entrevistas e aparições públicas para que era requisitada. Na noite dos Óscares, Fargo venceu outro importante galardão, o de Melhor Argumento Original. Os Coen mostraram-se igualmente desconfortáveis, até porque já era da sua natureza encararem a fama e a atenção mediática com cinismo e desconfiança. Estavam agora envolvidos na produção do filme seguinte e mostraram-se algo perdidos quanto às consequências que a distinção teria no seu trabalho futuro, achavam-nas impossíveis de prever.

Fargo não foi um blockbuster a nível de bilheteira, embora tenha feito dinheiro e, sobretudo, exposto os Irmãos Coen a um público mais mainstream. E isso iria influenciar-lhes os objetivos artísticos? A pergunta estava respondida antes de ser formulada. Com Jeff Bridges disponível podiam agora dedicar-se a The Big Lebowski.

David Furtado

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One Comment Add yours

  1. WilsonApolinário diz:

    Assisti esse filme umas 3 vezes. Gostei muito. É o tipo que gosto. Uma pena que produções policiais como esta tenham se esgotado. Hoje só tem superproduções com excesso de efeitos especiais e rostinhos bonitos fazendo caras e bocas.

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