Lou Reed – Rock and Roll Heart: Um nómada na encruzilhada

Este não foi um dos discos mais bem recebidos de Reed. Composto e gravado na altura em que o punk e a new wave surgiam em força, o álbum foi concebido após uma temporada em que o músico assistiu a vários novos grupos como os The Ramones, os Television e especialmente Patti Smith – artistas que tinham sido influenciados por ele e tocavam versões dos seus temas.

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No verão de 1976, Lou dedicou esforços a Nomad, disco que originalmente teria uma capa de Andy Warhol. Vir-se-ia a chamar Rock and Roll Heart e contava com imagens de Lou captadas por Mick Rock. Foi o seu primeiro trabalho para a nova editora, a Arista de Clive Davis, mas provou ser uma espécie de desilusão.

Isto explica-se em parte devido ao tempo que demorou a gravar e misturar, 27 dias, incluindo arranjos. Muito foi composto em estúdio. Rock and Roll Heart soa subdesenvolvido e apressado, apesar das boas canções que contém, do apoio incondicional de Clive Davis e da vida emocional de Reed, que estabilizara com Rachel.

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O teclista Michael Fonfara, que colaborou bastante com o músico durante a década de 70, foi testemunha da dedicação, bem como o resto da banda: Lou apresentava a canção ao grupo uma vez e Fonfara encarregava-se dos arranjos e de ensinar o tema aos músicos. Reed até tocou as guitarras todas do álbum, o que não sucedia há anos.

“Noutros discos, deixei as pessoas fazerem o que queriam, desta vez, levei as coisas a sério e toquei o que gostava. Em todos os temas. Há muitas canções de rock and roll burro no disco, mas eu gosto de rock and roll burro. É muito difícil encontrar um guitarrista ou um pianista burro, toda a gente está sempre preocupada em tocar bem em conjunto, tecnicamente. Mas eu adequei-me porque toco de modo muito estúpido.”

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Durante o verão de 1976, o mercado das anfetaminas sofreu um revés em Nova Iorque, e Reed não encontrava um médico que lhe recitasse Desoxyn. Isto provocou-lhe diversos efeitos indesejáveis como depressão e apatia.

OS TEMAS

«Vicious Circle» foi diretamente retirado de um poema que um elemento do seu clube de fãs britânico lhe enviou. «Follow the Leader», baseada num poema, era uma música trabalhada desde 1971 e tocada pela mesma banda, essencialmente, do álbum anterior, que aqui soa muito diferente.

«Banging on my Drum» era outro tema muito simples (a letra é uma frase): “Um miúdo veio ter comigo e disse que gostava muito da letra, e eu respondi que não havia letra. E ele disse, ‘frustração’. Eu pensava que tinha escrito uma canção sobre ‘fun, fun, fun’. Aparentemente, não foi o caso. A Rolling Stone disse que era sobre masturbação, portanto, isso só prova…” Outros disseram que era uma crítica à new wave. Sem dúvida que uma letra de Reed provoca escrutínios muito diferentes, mesmo com uma só frase…

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«Sheltered Life» era uma reciclagem dos Velvet Underground datada de 1966. Havia melodias boas no disco, como em «I Believe in Love», «Claim to Fame» ou no tema-título, além de um instrumental «Chooser and the Chosen One». Um toque de funk e os vocais em staccato de Reed caracterizavam o álbum, que varia entre o frenético e o simplista. O principal problema é que a uma boa canção segue-se uma tola, tornando o álbum muito heterogéneo. «Chooser» é um instrumental sem rumo nenhum, por exemplo.

«Ladies Pay» é um pouco mais sério. O compositor descreveu-o assim: “É quase maléfico, o modo como passa – é como uma onda de som.” «You Wear It So Well» é críptico. Reed convidou Patti Smith a visitar o estúdio, e ela terá dito sobre este tema, “como é que alguém tão complicado escreve coisas tão bonitas?”

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SONHOS A CORES

lou reed rock and roll heart (1)«Temporary Thing» é um tema mais visceral: O engatatão a descrever à sua conquista que ela pouco significa na manhã seguinte. Li que «Senselessly Cruel» é uma forma de descrever a “opção” pela homossexualidade na idade adulta devido a más experiências com o sexo oposto na juventude ou infância. Sem dúvida que pode ser encarado assim, mas o conteúdo global de Rock and Roll Heart é tão fugaz que deixa uma sensação quase insalubre – de Reed a tentar simular o imediatismo de uma banda de garagem. Neste tema, tocou piano, curiosamente, “por querer um som pouco polido”.

“Eu costumava ter sonhos a cores, sinal de um QI muito alto. De vez em quando, sonhava com um título fantástico como «Rock and Roll Heart». Há fanáticos que acreditam nas minhas letras, palavra a palavra. Mas ainda não sei a letra de «Rock and Roll Heart»… invento-a à medida que vou cantando.”

As vendas do álbum foram razoáveis e conseguiram manter-lhe a notoriedade, mas o trabalho foi um desapontamento para a recém-criada Arista de Clive Davis, que tanto tinha apostado em Lou Reed. A anterior companhia, a RCA, em busca de lucro, lança um greatest hits, Walk on the Wild Side, cujos principais atrativos são a inclusão de «Nowhere at All» faixa inédita (na altura) e as polaroids de Lou e Rachel na capa, captadas pelo “fotógrafo oficial” e amigo de Lou, Mick Rock.

“O que achas que a Arista vai fazer por ti que a RCA não tenha feito?”, perguntou Lisa Robinson a Lou. “Vender discos.” Respostas crípticas à parte, havia entre Clive Davis e Lou um respeito mútuo. Já se conheciam há algum tempo e Reed só tinha a ganhar com a associação a uma figura tão considerada no meio discográfico.

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Financeiramente, Lou vivia num caos – 10 dólares por dia no bolso e um processo com a RCA que se arrastava. Davis levou-o a ver novos grupos – Reed ficou impressionado com Patti Smith mas enfastiado com Bruce Springsteen. Custava-lhe a compreender a influência que os Velvet Underground tinham tido nas novas bandas: “Sou demasiado alfabetizado para estar envolvido no punk rock. As novas bandas são engraçadas, mas não percebo nada de punk.”

48 TELEVISORES

Os preparativos da digressão não foram fáceis. Reed continuava com o seu caso em tribunal contra Denniz Katz. Os advogados aconselharam-no que o seu estilo de vida podia prejudicar o processo. A tournée de Rock and Roll Heart mostrou porém um Lou mais envolvido e inspirado pela inclusão do trompetista Don Cherry, músico do jazz avant-garde e, em tempos, colaborador de Ornette Coleman, grande influência de Lou desde jovem.

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Os arranjos de antigos e novos temas foram substancialmente alterados e, por detrás dos músicos, viam-se 48 televisores a preto e branco (comprados a um hospital nova-iorquino) que mostravam Lou Reed ou imagens abstratas. A atracão de Reed pelas tecnologias e multimédia – se bem que neste caso fosse o poder efémero mas poderoso da TV – pode ser testemunhada já nesta fase.

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Além de Fonfara, Lou surgia acompanhado pela Everyman Band – o saxofonista Marty Fogel, o baterista Michael Suchorsky e o baixista Ellard Boles. Reed afirmou que pretendia um espetáculo mais intimista. Foi uma tournée bem recebida, se bem que o set-up das TV’s não fosse bem aceite nalguns teatros como o tradicionalista London Palladium, cujos responsáveis recearam uma invasão de punks drogados.

Acompanhando Reed, estava Rachel, tentando mantê-lo sóbrio e lidando com questões de dinheiro, organização e supervisionando a equipa. Em março de 1977, na Europa, as TV’s foram sendo vendidas por Lou, e Don Cherry já não integrava a banda. O cantor apresentou alguns temas novos como «Leave Me Alone» e «Pretty Face».

Rachel e Lou num dos concertos.
Rachel e Lou num dos concertos.

Com a imprensa, as relações permaneciam tensas. Parecia que os únicos jornalistas capazes de merecer o respeito de Lou eram os que conseguiam manter-se a par do seu enorme consumo de álcool, que, por estes tempos, continuava feroz.

Um repórter que já o tinha entrevistado, Bert van der Kamp, falou com ele antes dos concertos na Holanda. Reed não se lembrava dele. “Achei-o um tipo sensível, que facilmente se sentia magoado, mas exceto isso, agia como se quisesse ferir outras pessoas.”

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Era um Lou Reed diferente. Como Mick Rock o caracterizou recentemente, “prismático”. Incorporara um elemento jazz elegante nas atuações e tinha um grupo com quem interagia impecavelmente. Atenta à dinâmica do frontman, a Everyman Band podia atenuar o som quase ao ponto do silêncio e tocar com toda a fúria logo a seguir.

De sweater e jeans, Reed olhava intensamente para o público. Longe parecia a fase dos óculos escuros e do distanciamento. O seu único adereço em palco era um cigarro. Nem sempre pegava na guitarra. A tournée acabou mal, em dezembro de 1976, quando Rachel é atacada em Los Angeles, numa fase em que já sofria de uma infeção num pulmão.

Concluindo, 1975 foi um ano que dividiu o rock. Lou Reed, idolatrado pelas novas bandas, gostava de as ouvir. Foi certa vez ao CBGB’s nesta fase, acompanhado por Rachel, e ouviu Patti Smith cantar «Real Good Time Together». Disse a toda a gente na mesa que tinha sido ela a escrever a canção. Não havia grandiosidade na sua atitude, talvez mais curiosidade e entusiasmo juvenil. O tal coração de rock and roll.

David Furtado

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