Lou Reed, Coney Island Baby e o enigma de Rachel

Um dos melhores álbuns de Lou Reed na década de 70. Ponto. Depois de um período que mais pareceu um vácuo, o músico reencontrou um rumo, e muito se parece ter devido a Rachel, cuja influência em Reed e na sua criatividade foi determinante.

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Ainda hoje não se sabe ao certo quem foi Rachel. Sabe-se que era um transsexual ou travesti. (As fotos que existem, enganam – parece uma mulher.) Sabe-se que faleceu na década de 90. Excetuando este período de cerca de três anos em que viveu com Lou Reed, a sua vida é um mistério. Foi a sua enigmática musa. Conheceram-se num clube de Greenwich Village. Reed citou o encontro ao seu amigo, o fotógrafo Mick Rock:

lou reed coney island baby (11)“Eu não dormia há dias, como de costume, e estava naquela fase em que tudo brilha intensamente e parece super-real. Entrei e ali estava uma pessoa espantosa. (…) Rachel tinha maquilhagem e um vestido fulgurantes e obviamente pertencia a um mundo diferente de todos os que lá estavam. Eventualmente, abordei-a e ela veio para casa comigo. Falei durante horas e Rachel ficou ali a olhar para mim, sem dizer nada. (…) Não tinha interesse em quem eu era ou no que fazia, Nada a impressionava. Ele [Reed altera o pronome] praticamente nunca ouvira a minha música e não gostou muito quando ouviu.”

Reed não escondeu o relacionamento com Rachel, assumindo que era bissexual. Muitos acharam que era a prova derradeira do seu declínio… moral, sexual ou psicológico. O curioso é que as pessoas que conheciam Rachel a achavam uma mulher atraente e interessante, alta e elegante que possuía características masculinas e femininas. Tinha sido “um miúdo de rua”, segundo Reed e sabia defender-se.

O irmão do seu manager, Steve Katz, tentou descrever Rachel: “Imaginem uma mulher num corpo de homem que sobrevivia como delinquente juvenil. Compreender Rachel era uma questão de compreender a orientação de uma pessoa. Achei-a maravilhosa e muito serena. Toda aquela história, se Lou era homossexual ou era hetero?… Rachel era fisicamente estonteante para qualquer sexo. Homens heterossexuais estavam sempre a atirar-se a ela.”

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Fosse quem fosse, Rachel “parecia aceitar Reed e ter uma adoração pelo rapazinho que reconhecia nele”, como descreveu o biógrafo Victor Bockris. “Era um tipo, e isso era bem notório quando ficava a pé dois dias, se esquecia de fazer a barba e andava nos copos.” Reed gostava tanto dela que, quando Lester Bangs morreu, lhe deu um ataque de fúria, insultando-o por tê-la denegrido.

Há relatos de maus-tratos a antigas companheiras de Reed, mas Rachel parecia ocupar um lugar de proteção e carinho. Quando foi esfaqueada por marginais em Los Angeles, Reed ficou preocupadíssimo.

“Gosto de estar com Rachel, é só isso. Precise eu do que precisar, Rachel parece ter para mo dar; no mínimo, estamos no mesmo plano”, comentou Reed. Rachel falava pouco, mas, quando o fazia, dizia o que tinha a dizer. Esta personagem veio da obscuridade e para a obscuridade foi remetida, terminada a relação com Lou Reed. Após a sua morte, Rachel é uma das pontas soltas da vida de Reed que se procura reatar – o certo é que Coney Island Baby não teria sido possível sem ela.

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AS DIGRESSÕES DA NORMA

Dave Hickey era um amigo de longa data de Lou e comentou certas “fantasias” sobre orientação sexual: “Todas essas supostas digressões da ‘norma’ eram uma treta absoluta. Seja como for, se se toma speed durante tantos anos, não se sabe que raio se é. Psicologicamente, não acho que ele tenha uma orientação sexual específica. Mas ele tinha o brilhantismo de entrar e sair dos desvios e tornar aquilo numa ilusão. Ele sabia que tinha de carregar o peso da sua imagem dos Velvet Underground; ele sabia que Lou Reed tinha de ser Lou Reed. Se é suposto que Lou Reed tome drogas e tenha uma vida sexual bizarra… então tem de ser.”

lou reed coney island babyEm palco, essa imagem era cultivada. No final de 1974, perante cinco mil fãs em São Francisco, Lou tirou uma seringa da bota durante «Heroin». A multidão gritava, “mata, mata!” O fio do microfone serviu de torniquete, preso com os dentes. Com a veia saliente, ter-se-á injetado mesmo? O ritual enojava jornalistas, alguns iam a correr para a casa de banho com vómitos. A opinião geral era de que Reed não duraria muito tempo. Em público, era isto, em casa, Reed brincava com o seu cão.

Rachel veio resgatá-lo desta imagem e estilo de vida autodestrutivo ou, pelo menos, atenuá-lo. Muitos anos depois, Lou ironizava que foi “crescer em público”. As afirmações desse tempo (e doutros!) denotam-no; eram controversas, rudes, diretas. E, se Rachel era um enigma, Lou estava no mesmo plano:

“Todos os álbuns que editarei depois deste, serão álbuns que quero editar. Acabaram-se as merdas, o cabelo pintado, essa onda de maricas drogado. Imito-me melhor do que outro qualquer, portanto, se todos ganham dinheiro a imitar-me, acho que é melhor entrar no negócio. Porque não? Eu criei Lou Reed. Não tenho nada de remotamente comum com esse tipo, mas consigo desempenhá-lo bem… muito bem.”

Um ano passara e Lou praticamente não escrevera novo material. A chegada de Rachel parece tê-lo espicaçado. Em janeiro de 1975, encontrava-se no estúdio a gravar temas para um álbum intitulado provisoriamente Coney Island Baby. O manager Denniz Katz disse-lhe que os temas não podiam ser editados, eram demasiado negativos. Um deles, «Dirt» era um ataque brutal a Katz. Interpôs-se uma tournée europeia.

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DISTÚRBIOS EM DIGRESSÃO

Lou parecia destinado a atrair celeuma. A 13 de fevereiro, eclode um tumulto político em Roma, comoção que se transmitiu à arena em que atuava, apenas por estar repleta de gente. Logo no primeiro tema, «Sweet Jane», Lou é atingido na cabeça por um tijolo. Os fascistas e comunistas tentavam influenciar as eleições. Atiraram gás lacrimogéneo e objetos metálicos para o palco, invadiram-no e denunciaram Reed como “judeu porco e decadente”. Lou deixou o palco a chorar.

lou reed coney island baby (20)O concerto seguinte, em Frankfurt, foi cancelado, provocando um motim. Reed sofrera um esgotamento nervoso, foi dito. Em França, um fã salta para o palco e saca de uma faca; em Inglaterra, outro morde-o no traseiro.

A digressão acabou sem mais incidentes e Lou regressou com Rachel a Nova Iorque e ao apartamento do Upper East Side onde viviam. Aqui prosseguiu o trabalho em Metal Machine Music, que deixou toda a gente contra ele. Segue-se nova digressão, pela Nova Zelândia – desta vez sem Rachel, que não conseguiu passaporte. Reed passava horas com ela ao telefone.

Quando voltou, Lou defendeu Metal Machine Music com unhas e dentes. Não tinha agora o cabelo loiro e parecia desafiador. Mudou de manager, livrando-se de Dennis Katz e inspecionou a pente fino as suas finanças, envolvendo-se em três processos judiciais.

As gravações de Coney Island Baby registadas em Janeiro foram postas de parte. Steve Katz desentende-se com ele devido ao abuso de anfetaminas e chama um responsável da RCA ao estúdio para ver o estado do músico. No meio da batalha legal, Lou Reed decide recomeçar do zero com o talentoso e jovem produtor Godfrey Diamond, de 20 e poucos anos.

O “DROGADO INCONSCIENTE”

Os advogados de Katz contra-atacaram e, várias vezes, Reed chegava ao estúdio e entregavam-lhe notificações legais – Katz queria impedir a gravação do disco, que foi avante apesar disso. Nas cláusulas constavam acusações de Katz como: “… confuso, autodestrutivo e submerso na cultura da droga. (…) Um vagabundo musical drogado e inconsciente. Financeiramente irresponsável.”

lou reed coney island baby (22)Por alma sabe-se lá de quem – talvez devido ao apoio de Rachel –, Lou conseguiu concentrar-se em Coney Island Baby e produziu um disco que lhe agradou tanto a si como à editora. Melódico e com acordes simples, evocando o doo-wop e rock que sempre adorara, o disco era para Rachel. «Crazy Feeling» retrata o momento em que se conheceram.

No tema-título, que originalmente se chamava «The Glory of Love», tal como a canção dos Harptones que lhe serviu de inspiração, Lou fala de sonhos perdidos do liceu, de querer jogar futebol pelo treinador e termina com uma afirmação de amor, dedica o tema “a Lou e Rachel e a todos os miúdos da PS [escola pública] 192”, rematando com “man, I swear I’d give the whole thing up for you”. Para quem estava habituado ao sarcasmo, ironia e cinismo de álbuns anteriores, era uma demonstração de ternura surpreendente.

Isto não significa que não haja o Lou implacável no resto do álbum. Temos o humor de «A Gift» em que o narrador se acha um “dom para as mulheres deste mundo” e que tal “é uma grande responsabilidade”… «Kicks» é um caso diferente. Um jornalista escreveu que é sobre o “poder aditivo da violência”. “Meu, qual é o teu estilo, o que fazes para ter gozo? Quando cortaste aquele tipo com a faca, fizeste-o tão gratuitamente. E quando o sangue lhe escorreu pelo peito, foi melhor que sexo… arranjas aí um gajo qualquer e mata-lo…”

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É dúbio, pois não se percebe se é o retrato de criminalidade de rua ou de alguém como o personagem de American Psycho, capaz de esconder instintos selváticos sob capa sedutora. Há muitos anos que Reed não escrevia algo de tão violento. «Kicks» foi expandido em versão de poema e incluído numa antologia, All The Pretty People, com publicação agendada para 1976. Incluía poemas de amor para Bettye datados de 1971 e outros textos, um deles chamado Street Hassling, denotando a tendência de Reed para reciclar – ou moldar material anterior.

Temos o exemplo em «She’s My Best Friend», dos Velvet, que é uma canção pop e alegre. Em Coney Island Baby assume outro poder. Mas há um fio condutor desde os Velvet que Reed foi sempre aprimorando – aquela incoerência das ruas das grandes cidades, a violência que pode rebentar subitamente, as sombras na noite, as almas perdidas. Como ele próprio diz em «Coney Island Baby», “lembra-te que a cidade é um sítio engraçado, algo como um circo ou um esgoto”. A tal poesia urbana em que era exímio, mostrando personagens sem as moralizar, compreendendo-as como poucos.

“SE NÃO GOSTAREM, QUE O METAM…”

Bem ou mal, o seu contrato com a RCA estava terminado, e Lou vivia com Rachel no Gramercy Park Hotel por 15 dólares de diária. Clive Davis, ex-presidente da Columbia Records e que agora liderava os destinos da Arista, telefonou-lhe. Davis era conhecido como um homem de negócios que privilegiava o artista contra a faceta negocial do mundo da música.

Andy Warhol, Lou e Clive Davis.
Andy Warhol, Lou e Clive Davis.

Lou achou um ótimo sinal; estava agora incluído num lote de importantes artistas emergentes, como Patti Smith, cujo álbum de estreia fora produzido por John Cale. Foram tempos tumultuosos, em que Rachel tentava manter Reed afastado da sua tendência para abuso de drogas. Era uma fase em que ia com ele para todo o lado. Rachel era conhecido(a) pelas suas feições nativo-americanas.

lou reed coney island baby (7)Coney Island Baby foi bem recebido – seria o seu maior sucesso comercial até New York, em 1990. As pessoas, todavia, ainda se lembravam de como defendera Metal Machine Music e não queriam levar a sério canções mais sentimentais. O músico defendeu-se com veemência:

“Não são aquilo a que as pessoas chamariam de canções típicas de Lou Reed, mas esquecem-se que no primeiro álbum dos Velvet há «I’ll Be Your Mirror», «Femme Fatale», sempre gostei desse tipo de coisas, e agora têm um álbum inteiro cheio disso. As Muitas Disposições de Lou Reed, tal como Johnny Mathis e, se não gostarem, que o metam no rabo.”

(Há uma ótima edição remasterizada com material bónus de qualidade desigual, onde se destaca uma versão crua de «Crazy Feeling».) A opinião de Lou Reed na época:

“É o meu melhor álbum, sem dúvida. Foi uma afirmação de renovação porque foi o meu disco. Eu não tinha muito tempo nem muito dinheiro, mas foi meu. Ao dizer sou um ‘Coney Island Baby’ no fim dessa canção é como dizer que não recuei um milímetro, e não o esqueçam.”

David Furtado

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