Lou Reed e a fase Rock ‘n’ Roll Animal: As flores do mal

lou reed rock n roll animal (7)Um executivo de marketing da RCA foi certo dia abordado por uma senhora de aspeto conservador, uma secretária, que lhe perguntou o que sabia sobre aquele artista, Lou Reed. O executivo falou resumidamente da carreira dele até à data. “Por que pergunta?” A senhora olhou para ambos os lados e murmurou: “Ele é meu sobrinho. Mas, se não contar a ninguém, eu também não conto.”

No outono de 1973, o casamento de Reed termina sem ter durado um ano. “Acho que todos se deviam divorciar uma vez. Recomendo”, foi o comentário tipicamente sarcástico. A digressão de Berlin é um sucesso e poucos meses depois é editado o disco ao vivo Rock ‘n’ Roll Animal.

Foi uma manobra de carreira mais convencional depois do “desastre” de Berlin. O círculo mais próximo de Reed aconselhou-o a jogar pelo seguro. Mas a autoestima do músico não andaria de boa saúde. “Eles querem ver-me morrer”, disse. Achava que o público ambicionava uma espécie de freak show e foi o que lhe deu.

É tristemente lendário que, nesta fase, o consumo de estupefacientes por parte de Reed fosse elevado. Um amigo fez um comentário curioso: “Ele usava drogas com sabedoria. O homem tomava methamphetamine hydrochloride e usava a experiência na música. Passado um mês ou dois, decidia limpar o sistema. Parava de repente, ingeria alimentos saudáveis e fazia levantamento de pesos. Sabia os limites da sua tolerância.”

Reed não tocou guitarra no álbum (e pouco nesta fase), o que se deveu ao seu uso crónico de speeds. Devido às deficiências vitamínicas provocadas por tais substâncias, as suas mãos ficavam tão secas que os dedos e unhas estalavam e sangravam. Outros efeitos secundários eram a supressão do apetite e as flutuações de personalidade – serenidade, megalomania, paranóia e hostilidade.

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O cantor estava numa encruzilhada pessoal e profissional (prometera ao menos um registo comercial à RCA), e o irmão do seu manager, Dennis Katz, Steve, tentou auxiliar. Disseram-lhe que, por muito que lamentassem a má receção de Berlin, Lou tinha de ser prático, pôr de lado a “mística” e mostrar o seu antigo catálogo ao público que entretanto conquistara.

A 21 de dezembro de 1973, um espetáculo é gravado na Howard Stein’s Academy of Music em Nova Iorque; as faixas são rapidamente misturadas por Lou e os irmãos Katz. Na noite de Natal, Reed é preso em Long Island por tentar comprar droga com uma receita falsa.

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“Bom, o grupo é tão bom que quisemos gravá-lo, captar esse instante no tempo. Há muitos arranjos inéditos das minhas canções e também quis gravá-las assim – temas dos Velvet Underground, assim como versões mais lineares de Berlin. Gosto da direção da minha carreira agora. É mais coesa. Não me acho cantor, com ou sem guitarra. Faço leituras dramáticas, que quase se assemelham às minhas canções. Sabem que a minha voz real nunca foi ouvida? No estúdio, geralmente aceleram a faixa da voz e tornam-na aguda. Ao vivo, grito porque assim a voz fica aguda.”

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A PROGREDIR OU EM CÍRCULOS?

lou reed rock n roll animal (2)John Cale não gostou das novas versões dos VU: “Ele julga que, se fincar pé no seu ponto de vista, triunfará. E triunfou. Monopolizou o mercado dos doentes.” Cale era por esta altura muito crítico em relação ao ex-colega dos Velvet:

“Fico espantado ao ver como eu e Lou éramos diferentes em termos de ideias, agora que ouço o que ele fez desde então. Soa tudo a débeis representações de músicas e nada mais. Quero dizer, algumas das suas canções dos Velvet tinham mesmo algo a dizer. Agora parece que anda em círculos, a cantar sobre travestis e coisas do género.”

Na Rolling Stone, Timothy Ferris disse que o disco devia ser tocado alto: “Como um carro de Fórmula 1, só mostra o que vale quando levado ao limite. (…) Há aqui uma beleza que não advém da felicidade mas da miséria, do florescer da decadência, como é hábito dizer.” Nas páginas da revista lia-se que “as canções oferecem pouca esperança. Nada muda, nada melhora”.

A receção crítica foi maioritariamente entusiástica. Robert Christgau chamou-lhe um “álbum ao vivo com uma razão para viver”. Chrissie Hynde, que na altura escrevia para o New Musical Express, escreveu uma célebre e muito citada crítica: “O Lou animal. Atacando furiosamente, de tal forma que deixaria petrificada as tendências S&M contemporâneas. E o público aplaude após cada tema. Estamos contigo, sim, sempre adorámos essas canções, ha, ha. Bem, ele odeia-vos.”

lou reed rock n roll animal (3)Rock ‘n’ Roll Animal é uma clarificação do meu trabalho antigo… acho eu. Tive o meu single de sucesso e quero que todos aqueles miúdos saibam o que se passou antes, porque o desconhecem.” Em parte, as boas vendas do álbum restauraram alguma da autoconfiança perdida. O compositor, inconformado, viria a classificá-lo de “degradante”, mais tarde.

Após o lançamento do disco, Lou surgiu em público pálido e magro, de cabelo muito curto e com Cruzes de Malta rapadas até à pele da cabeça. Tendo em conta o facto de Reed ser judeu (e mesmo que não fosse) e as referidas cruzes terem conotação nazi, era uma exibição de tenebroso mau gosto e provocação abjeta que o manager Dennis Katz não admitiu. Pior do que isso, era sinal que algo não estava nada bem com Lou Reed.

Uma coisa era andar aos berros pela Academy of Music, com uma coleira ao pescoço, a imitar Iggy Pop, Bowie e Mick Jagger e a mandar foder o público, outra era esta decadência. Pouco depois, estava loiro. Perdia o contacto com a realidade.

[Escrevi um texto em abril passado sobre o disco que se seguiu, Sally Can’t Dance. Na altura, desconhecia em absoluto o estado de saúde do músico. Cronologicamente é a fase que se segue. Retomo a partir daí.]

ANTI

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Em janeiro de 1975, Reed, ocupado com um projeto eletrónico, autorizou a RCA a editar um álbum de “sobras” de Rock ‘n’ Roll Animal, Lou Reed Live. Ouvidos em conjunto, mostram uma banda coesa, com as guitarras de Dick Wagner e Steve Hunter em grande plano. Infelizmente, há pouco Reed e demasiado rock instrumental – algumas destas secções, por virtuosas que sejam, soam intermináveis e moem a paciência.

Os fãs costumavam perguntar aos roadies, em concertos, se Lou era bissexual. “Bi? O filho da mãe é quadri!” Foi em 1975 que Reed iniciou um relacionamento com “Rachel”, um travesti. O crítico Lester Bangs chamou-lhe “grotesca”, outros achavam-na elegante e bonita. De qualquer modo, Reed pareceu encontrar felicidade com ele/ela e começaram a viver juntos.

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A união com Rachel coincide com o final deste período errático e com o lançamento de um dos discos mais estranhos de sempre. Não é um disco, é um… manifesto? Em julho de 1975 é editado Metal Machine Music (*The Amine β Ring), produzido e interpretado por Reed, dividido em quatro movimentos, sem canções, só ruídos eletrónicos e feedback durante 64 minutos. Lester Bangs chamou-lhe “o melhor álbum de todos os tempos”.

“Foi um gigantesco ‘fuck you’”, clarificou Reed. “Editei-o para purificar o ar e para me livrar daqueles filhos da puta que apareciam nos concertos a gritar «Vicious» e «Walk on the Wild Side».” Os mesmos “filhos da puta” que lhe compravam os discos, entenda-se. Mais tarde ainda, viria a reavaliar que foi um esforço sério, mas que estava muito pedrado. Só assim se justifica este insulto aos fãs. Apenas enquanto ataque ao “mercantilismo” discográfico, Metal Machine Music é acutilante.

Algumas pessoas que o conheciam desde os anos 60, disseram que Lou já acalentava a ideia de tais experiências desde esses dias e agora possuía tecnologia para as consumar. Outra teoria refere que queria pôr fim ao contrato com a RCA e arranjou uma maneira excêntrica de o fazer.

O mais interessante acerca de Metal Machine Music são as anotações da capa. Nelas, Reed escreve, “este disco não é para festas/dançar/música de fundo/romance. (…) Ninguém o ouviu por inteiro, nem eu. Não é para ser encarado assim. Comecem onde quiserem. A maioria de vós não gostará e não vos culpo. (…) A minha semana bate o vosso ano”.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. mlenac diz:

    pois não posso gostar,( é como o horrivel nos mostrasse o belo.). parabéns! por nos transmitires com a tua« escrita» magnífica a complexidade dos conceitos que “estão ” no teu artigo, e que traduzem a complexidade da humanidade e disso ,gosto

    1. Agradeço, mlenac. Como disse Nietzsche, “quando olhamos muito tempo para o abismo, o abismo olha para nós”. Foi um pouco o que sucedeu aqui. A minha escrita não é “magnífica”. Agradeço o elogio mas tenho muita dificuldade com o vocabulário, verbos, sintaxe e muito a aprender. Os temas do artigo são complexos, sim. Obrigado.

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