Bruce Lee e The Big Boss: O triunfo da fera

A rodagem deste primeiro grande sucesso de Bruce Lee foi uma vitória da força de vontade. Filmando em condições deploráveis e sofrendo de diversos problemas físicos, Lee, o maior expoente das artes marciais que o mundo já conheceu, conseguiu mostrar do que era feito.

Bruce Lee big boss

Para compreender as dificuldades inerentes à conceção de The Big Boss, temos de referir os Shaw Studios, que eram, à exceção de Hollywood e da Europa, a maior super-potência cinematográfica desses tempos. 2/3 dos filmes chineses produzidos no mundo eram deles e tinham, em média, sete produções simultaneamente em andamento.

Esta fábrica funcionava muito ao modo do western spaghetti em Itália – os filmes eram gravados sem som e dobrados conforme o idioma requerido. Muitas vezes, não havia guião, o qual era elaborado à medida que se avançava, pela equipa, que ia também fazendo a montagem em cima do joelho, com poucos retakes.

As histórias eram diretamente retiradas dos filmes ocidentais, e nem eram bem uma adaptação – a expressão em cantonês significava “aquecer o arroz frio do dia anterior”. Toda a gente era mal paga. Isto não impedia o sucesso dos Shaw Studios, e tais condições provocaram os esgotamentos e suicídios de vários atores. O patrão Run Run Shaw disse, benevolente, que tal se devia às “pressões da fama”.

Era uma verdadeira dinastia que dominava 140 cinemas em Hong Kong, Singapura e outras zonas do território mandarim, e mais 500 nas Chinatowns de São Francisco, Nova Iorque e Los Angeles, movimentando muitos milhões.

bruce lee big boss 4

A filosofia de Shaw era simples: “Se o público quer violência, damos-lhe violência. Se quer sexo, damos-lhe sexo. O que eles querem, nós damos.”

Por esta altura, Bruce Lee (embora a proposta tenha partido dele) recusou trabalhar para os Shaw Brothers pois exigia controlo do projeto, coisa inaudita. Lee não se integrava: Hollywood achava-o demasiado diferente dos outros, e o estúdio asiático considerava-o igual aos outros. Lee regressa momentaneamente aos EUA, onde obtivera um modesto sucesso, convencido que aí residia o seu futuro.

UM BIFE TÃO DURO COMO O PRATO

Uma pessoa vislumbrou em Bruce Lee um grande trunfo: Raymond Chow, que fora empregado de Run Run Shaw e que, desde então, se desentendera com ele (tornaram-se grandes rivais). Chow fundara o Golden Harvest Studios com Leonard Ho, e ambos enfrentavam enormes dificuldades em impor-se devido ao monopólio e hostilidade da Shaw. A Golden Harvest pouco mais era que um modesto amontoado de barracas numa encosta de Kowloon em Hong Kong.

big boss thailand 71 bruce lee
Com Maria Yi na Tailândia durante as filmagens.

Chow viu em Bruce Lee a hipótese de atacar Shaw e ofereceu ao ator 15 mil dólares por dois filmes. Desaconselharam-no a aceitar, mas, impaciente e desiludido, Bruce não seguiu o conselho. Assistiu aos filmes da Golden Harvest, que lhe pareceram unidimensionais e de má qualidade. Quando soube do contrato, Run Run Shaw tentou convencer Lee a mudar de ideias, oferecendo mais dinheiro, mas já era tarde. O ator voou para Banguecoque. A norte, na vila de Pak Chong, ia ser filmado The Big Boss.

Era a época quente, o hotel minúsculo não tinha ar condicionado, a humidade e a água poluída eram outros fatores. Não havia alimentos frescos, correio, e a atmosfera estava repleta de insetos.

O ator partiu um copo na mão, tendo de levar 10 pontos num hospital de Banguecoque. Aí, contraiu gripe e perdeu 4,5 quilos. A coprotagonista de Lee no filme, Maria Yi, viu Bruce a lutar com um bife tão duro como o prato. Se não o comesse, ficava para baratas e lagartos.

O argumento de The Big Boss, lançado nos EUA com o título Fists of Fury, nem existia; estava “anotado” em bocados de papel. Na primeira semana de filmagens, Bruce Lee não continha a impaciência, especialmente devido ao equipamento arcaico. O violento realizador Wu Chai Wsaing berrava com todos. Mrs. Lo Wei, supervisora da produção e responsável pela contratação de Lee, teve de o substituir.

O substituto foi Mr… Lo Wei, um jogador compulsivo, tão preocupado com o que sucedia nas corridas de cavalos que colocava os comentários às mesmas a soarem em altos berros no set. Mais um fator de stress e desconcentração para Lee que… sofreu uma grave lesão no tornozelo ao cair mal após um salto. Com dores, febre e uma perna magoada, tinha de receber injeções para as dores nas costas depois de cada cena de combate, e de repousar.

CALMARIA ANTES DA TEMPESTADE

bruce lee big bossConsciente de que o guião era uma trapalhada. Lee procurou melhorá-lo, o que despoletou conflitos com Han Ying Chieh, o ator que interpreta o ‘Boss’. Chieh era o coordenador dos combates, e Lee recorreu a estratagemas como fingir que perdera uma lente de contacto na fábrica de cortar gelo, com milhares de fragmentos de gelo pelo chão.

Bruce estava determinado em provar as suas capacidades, portanto, fez questão de que a câmara filmasse takes de meio minuto englobando um único plano – provando que não havia montagem ou truques envolvidos. Tentou reduzir a presença de armas de fogo, como modo de dar ênfase à ação, que decorria em locais… uma sequência foi rodada num bordel, sítio malcheiroso e sujo, onde as prostitutas, acostumadas a receber menos de um dólar por cliente, receberam 10, só para não interferirem.

Mesmo antes de The Big Boss estrear, já se pressentia que vinha aí qualquer coisa diferente da linha de montagem do cinema asiático. Foi em outubro de 1971 que Raymond Chow e Leonard Ho, juntamente com Bruce e Linda Lee, se sujeitaram à reação do público de Hong Kong, que não costumava ter meias medidas. Apupava e até esfaqueava os assentos se achava o filme mesmo mau!

Mas desta vez foi diferente porque ficou tudo em silêncio.

E seguiu-se um tumulto de aplausos.

Lee quase nem conseguiu sair do cinema. A imprensa elogiou-o até não poder mais.

bruce lee big boss scene

Tendo em conta que praticamente não houve segundos takes, que o orçamento era minúsculo e as condições foram execráveis, The Big Boss conseguiu conjugar as cenas de ação com um enredo moderadamente plausível. Encarado pelo mundo ocidental, era uma obra exagerada, mas, segundo a tradição mandarim, com regras bem estabelecidas a nível de argumento, design de cenários, costumes, gestos e expressões, The Big Boss foi revolucionário. Isto deveu-se ao que Bruce Lee deu ao filme – muito do que aprendera na América até então.

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Lee conferiu um toque mais humanizado a uma personagem de cartolina, possuía um carisma invulgar, mas foram as cenas de combate que o notabilizaram. O que o público reconheceu foi o resultado de quase 20 anos de prática. Ainda hoje espantam a fluidez animal e o controlo de Lee sobre os seus movimentos corporais.

Bruce previu que The Big Boss se saísse bem, tendo em conta a euforia da estreia. O que não podia prever é que batesse recordes de bilheteira no circuito mandarim. Pobre Run Run Shaw, que achava Bruce Lee “um ator como tantos outros”… “Como é que eu havia de saber?” inquiriu-se o produtor. Quem foi afinal o big boss?

David Furtado

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