Lou Reed – Berlin: Conhecem uma estrela rock mais odiada?

Em abril e maio de 1973 foi agendada uma digressão britânica para aproveitar o sucesso de «Walk on the Wild Side» no top inglês. Entretanto, o que fazia o artista? Outros estariam a escrever potenciais êxitos que pudessem dar seguimento. Reed adiou a tournée dois meses para compor. Não se conseguia adaptar ao casamento e andava obcecado com os efeitos das anfetaminas no corpo humano. Pediu ajuda ao produtor Bob Ezrin, e este sugeriu que o material já escrito formasse uma história, um “filme para os ouvidos”.

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Reed protestou que as canções eram ficcionais. O título e o cenário lembravam-lhe Von Stroheim e Dietrich. O certo é que pouco sabia da cidade. Mais uma vez, o músico viajou até Inglaterra, gravando em Willesden. O manager Dennis Katz explicou que o álbum pretendia ser uma “comédia negra” mas o resultado foi mais sombrio. De tal forma que raramente – antes ou depois de 1973 – um disco se aventurou a explorar territórios tão dolorosos e negros da psicologia humana.

Primeiro, Lou agrupou as canções, compondo uma narrativa: Um expatriado americano, Jim, encontra-se na fase final do seu relacionamento amoroso com uma viciada em speeds e/ou prostituta, Caroline. A violência mental e física de Berlin foi desde logo assumida por Lou Reed: “O narrador vai expondo o seu ponto de vista, que não é particularmente agradável.”

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Mas porquê escrever sobre estes temas? Suzanne Vega disse uma vez que ouvia o disco quando se preparava para escrever sobre algo difícil e que “Lou escrevia sobre as coisas que existiam mas que ninguém queria ouvir na rádio”. Em parte, o disco foi uma reflexão sobre o estado catastrófico do seu breve casamento com Bettye Kronstadt.

Durante as sessões de gravação, sucedeu um episódio de violência horrenda que só pode ter influenciado a atmosfera já de si deprimente do álbum. Reed falou disto cinco meses após o lançamento de Berlin, referindo que “estava ali aquela pessoa de navalha em riste, e parecia que me ia matar, mas, em vez disso, começa a cortar os pulsos e há sangue por todo o lado”. Mais tarde saber-se-ia que esta pessoa era Bettye.

Cinco anos depois, Lou seria mais frio na descrição: “A minha patroa, que era uma imbecil, mas eu precisava de uma imbecil para me apoiar, uma parasita servil, e ela adequava-se, embora ela lhe chamasse amor, ha!, tentou matar-se na banheira do hotel. Sobreviveu mas tivemos de a manter sempre acompanhada de um roadie.” Terminada a gravação, Reed deixou-a.

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Outros dois fatores influenciaram a obra: Em setembro de 1972, Andrea Feldman (aka Whips) a estrela do filme Heat de Andy Warhol, suicidara-se. Havia um elemento de autodestruição na Factory de Warhol. A verdade é que a morte de Andrea marcou Reed, e a Caroline de Berlin sofre o mesmo destino. No período em que deixou os Velvet Underground e ainda não começara a carreira a solo, escrevera o ensaio «Fallen Knights and Fallen Ladies» sobre as vítimas do rock da época, como Joplin e Hendrix, falando delas com compaixão. Ele próprio se afastou, receando o mesmo destino.

O produtor Bob Ezrin não suportou a pressão psicológica de fazer um álbum de tal natureza. Refugiou-se na heroína, sofrendo posteriormente um esgotamento e sendo hospitalizado. O irónico de tudo isto é que foi um dos pontos mais altos da carreira de Lou Reed. Exigiu uma coragem artística incomparável, este constante abrir de feridas antigas e matérias por resolver, e a sua exposição.

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Durante a atribulada digressão de Berlin.

O álbum foi um esforço de colaboração, com Ezrin a supervisionar os músicos de topo. Eram “contratados”, mas o baixista Jack Bruce, por exemplo, leu as letras todas de antemão, algo raro entre músicos de estúdio. E gostou tanto do projeto que ficou até ao fim, quando era suposto tocar só nalgumas faixas.

lou reed berlin album (8)Em estúdio estavam Tony Levin, Steve Winwood, os irmãos Michael e Randy Brecker, e os guitarristas Steve Hunter e Dick Wagner, com quem Ezrin já trabalhara nos álbuns de Alice Cooper. Nem todos adoraram a experiência, como o teclista Blue Weaver, que só tocou num tema, «Men of Good Fortune». Descreveu assim a sessão:

“Íamos lá gravar as partes instrumentais. Ficava tudo feito e soava ótimo. Então iam buscar o Lou. Ele não consegue fazer nada sóbrio, tem de ir ao bar, snifar isto ou aquilo, depois punham-no numa cadeira e deixavam-no cantar. Supunha-se que fosse excelente, mas algo correu mal.” A resposta de Lou consistiu em ameaças: “Esse Blue Weaver é um palerma do caralho. O cabrão devia calar a boca já que não sabe tocar.” Houve, de facto, dificuldades com os vocais de Lou, que tiveram de ser regravados mais tarde em Nova Iorque.

O teor conceptual do disco é discutível – não é propriamente conciso enquanto narrativa, pelo menos no começo. «Berlin» inicia o disco e estabelece o cenário, mas o tema seguinte, «Lady Day», não pode ser dissociado da lendária Billie Holiday. Retrata alguém que tem de entrar num bar e cantar por ser a sua vocação, e depois regressar a um hotel decadente com paredes esverdeadas. A tragédia pessoal de Holiday fica nas entrelinhas e, devido a essa ambiguidade, torna-se mais poderosa e permite uma associação à personagem de Caroline.

Os homens de boa fortuna que muitas vezes causam a queda de impérios, enquanto os homens de origens humildes muitas vezes nada podem fazer… É uma passagem de Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski adaptada. A escolha entre a riqueza e a pobreza. Os ricos têm oportunidades que os pobres não têm e o paizinho abastado em quem se apoiar, mas muitas vezes desejam morrer. E os pobres até morriam para terem o que os ricos possuem. A posição do narrador face a tal ironia? “Não me interessa absolutamente nada.” Julgamento moral: Zero.

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«Caroline Says»: Reed já pusera muitas das suas damas em apuros a “falar”: «Candy Says», «Lisa Says», «Stephanie Says». Até a Jeanie cuja vida foi salva pelo rock’n’roll. A Caroline deste tema é manipuladora profissional de homens porém, uma rainha germânica (poderá ser Nico). Seja quem for, o importante é que por esta altura, Reed já está a trocar as voltas, misturando autobiografia com ficção e até projeção.

Segue-se «How Do You Think It Feels» sobre solidão e uso de speeds, fazer amor por procuração e ficar a pé cinco dias por ter medo de dormir. «Oh Jim» fala de um homem que se tornou viciado por incentivo dos seus “amigos da onça”. O ódio pode ser destilado (segundo a canção e o personagem, entenda-se) dando uma “tareia de meia-noite” a uma mulher. A partir daqui é a decadência.

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Caroline regressa para dizer a Jim que, por muito que ele lhe bata, ela já não o ama. Distanciada dos sentimentos e refugiando-se nos speeds, dá um murro numa vidraça para ver se ainda sente. Durante tudo isto, a voz de Reed é tão fria que… torna as coisas complicadas, digamos, para quem segue a narrativa.  

Em «The Kids», a “miserável e repelente puta” fica sem os filhos. Tiraram-lhos porque não dava negas a ninguém. “Disseram que não era boa mãe.” O narrador é um homem cansado, já não tem muito a dizer, exceto que se sente “muito mais feliz desde que lhe tiraram as filhas”.

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«The Bed» é o local onde Caroline se suicida. A voz do narrador reflete algum espanto. “Não teria começado se soubesse que ia acabar assim, mas não me sinto nada triste com este desfecho.” Em «Sad Song», Jim olha para Caroline com mágoa num livro de fotografias. Mas vem novamente a raiva ao de cima: “Vou parar de perder tempo. Se fosse outro, tinha-lhe partido os braços.”

Terrenos emocionais deste tipo nunca tinham sido explorados no rock. Só em literatura. A teoria de “o meio é a mensagem” de McLuhan (que, de resto, está ultrapassada) cai por terra com Berlin: “Cada meio de difusão tem as suas características próprias, e por conseguinte, os seus efeitos específicos.” Reed não achava nada disto. Achava o rock uma forma de arte séria, que pode desenvolver e abranger temas sérios. E provou-o.

Lou Reed Amsterdam Berlin

Berlin e toda a obra de Reed recordam-me por vezes a situação do cliente do quiosque que pede o jornal, esconde a Playboy no meio e pergunta quanto é. Obviamente é muito mais fácil cantar sobre amor, flores lindas, mas a vida não é só isso e as pessoas não querem ver só isso. Não a assumem, não mostram. Mas, em segredo, lá está o disco.

lou reed berlin album (3)O manager Dennis Katz aconselhou férias a Reed, que passou um breve período em Portugal. Inicialmente, Bob Ezrin e Lou planearam um álbum duplo com fotos de estilo cinematográfico que contavam a história. Os executivos da RCA não acharam que o produto fosse meritório de tal edição. Ezrin ficou com a árdua tarefa de cortar 14 minutos de material.

O álbum foi um fracasso comercial e escandalizou muita gente. Chamaram-lhe “o pior disco de um artista a solo editado em 1973”. A Rolling Stone apelidou-o de “desastre”. A resposta de Reed foi comportar-se com mais distanciamento. “Quem quer saber dos críticos?”, disse a um jornalista. “Filhos da puta de selvagens iletrados das revistas masturbatórias, uns hippies juniores.” Na intimidade, estava amargurado e desabafou com amigos: “Conseguem lembrar-se de uma estrela rock que inspire tanto ódio?”

lou reed berlin album (4)Alguns críticos mais perspicazes perceberam o génio de Reed e o seu espírito pioneiro, mas a desilusão foi enorme para o músico, disse mesmo que foi a maior, e causou estragos. “Desde então fechei as persianas. E ficaram fechadas.”

A digressão do álbum trouxe à tona o ressentimento terrível de Reed, que, alcoolizado, drogado, ou ambos, detestava ensaiar e, exausto, se lançou numa sequência de datas europeias. “Ele não é boa pessoa e não consegue mudar”, disse Jim Jacobs que desenhou o palco e supervisionava o cenário. É então que Lou encarna uma nova personagem, o “Animal do Rock ‘n’ Roll”.

Os espetáculos foram dramáticos e bem recebidos. A banda era ótima, com bilhetes sempre esgotados e até distúrbios entre os fãs “esmagados” nas salas. As atuações dependiam do estado de Reed: Ou era brilhante ou terrível. As drogas eram parte do problema. Houve outro insólito, conta Jacobs:

“A certa altura, ele fez um movimento brusco, rasgou as calças de cabedal e ficou em palco com os genitais à mostra. Ora, Bernie Gelb [elemento da equipa] foi a correr aos bastidores buscar fita adesiva e colou-a em redor das virilhas dele. O Lou ficou muito irritado por ter de cantar com fita-cola à volta dos tomates. Cantou mais uma e saiu.” Noutra altura, não deu um encore, os fãs não gostaram e arrancaram cadeiras e tudo o que puderam, lançando-as para o palco.

Lou Reed divorciou-se, saiu do seu apartamento no Upper East Side, passando a vida em hotéis e pagando uma pensão a Bettye: “Todo o dinheiro que ganho vai para ela. Agora já não tenho dores de cabeça e sou mais pobre.”  

David Furtado

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