Lou Reed – Transformer: Um fantasma pouco etéreo

Como se faz um disco de sucesso? Fácil: Letras sobre homossexuais, transsexuais, travestis, a tentativa de assassínio de Warhol, droga, prostitutas, marginalidade, sexo oral e perversão. Depois, põe-se as raparigas negras do coro a cantar “doo-doo-doo”… e obtém-se um clássico com mais de 40 anos. Uma condição: As canções têm de ser boas. Esta é parte da história de Transformer.

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Compor canções é como escrever uma peça de teatro e dar a nós mesmos o papel principal. E damos a nós próprios as melhores deixas que conseguimos e somos o nosso encenador. E são peças curtas. E podemos desempenhar todo o tipo de personagens. É divertido. Escrevo através do olhar de outra pessoa. Ando sempre a observar pessoas sobre as quais sei que vou escrever. E depois transformo-me nelas.

Foi durante o verão de 1972 que Andy Warhol convidou Lou Reed para compor alguns temas para um musical da Broadway – tratava-se de uma colaboração com o estilista Yves St. Laurent. O tema era vago e a proposta nunca se concretizou, mas parece ter inspirado Reed a escrever abertamente sobre homossexualidade e travestis.

Reed e David Bowie, que, obviamente, contribuiu imenso para o sucesso de Transformer.
Reed e David Bowie, que, obviamente, contribuiu imenso para o sucesso de Transformer.

Quem leu o texto anterior perceberá que, quando Reed, David Bowie e o seu guitarrista Mick Ronson se juntaram nos Trident Studios londrinos em Agosto de 1972, a perspetiva era diferente. Reed proclamou: “São tudo canções de ódio.” Era uma descrição pouco rigorosa. Foi muito mais conciso quando afirmou:

“Há muita ambiguidade sexual no álbum e duas canções gay explícitas – escritas de mim para eles, mas cuidadosamente escritas para que os hetero não entendam as implicações e as apreciem sem se ofenderem.”

A capa icónica de Transformer mostrava Lou enquanto “Fantasma do Rock” de maquilhagem espessa e casaco de lantejoulas. Na contracapa, duas figuras ambíguas (uma de cada sexo ou do mesmo) Eram ambas Ernie Thormahlen que colocou uma banana nas calças para dar um efeito mais… viril. Do lado esquerdo, era também ele, desta vez como mulher.

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As 11 canções do disco falavam bastante da Factory de Warhol, de sentimentos de culpas sexuais, de dias perfeitos que soavam tristes como a morte. De passeios pelo lado selvagem com tipos que não davam borlas e homens que tinham rapado as pernas… mais propenso a tornar-se numa anedota do que numa obra-prima.

INTEGRADOS OU REPRIMIDOS?

lou reed transformer (6)Lou ficou espantado com a máquina promocional que rodeava Bowie. Os dois passearam pelas zonas noturnas e mal afamadas de Londres. “Lou adorou o Soho, especialmente à noite”, disse David. “Achou-o antiquado e pitoresco comparado com Nova Iorque. Gostou porque se podia divertir e sentir-se seguro. Era só bêbedos, vagabundos, prostitutas, clubes de strip e bares que fechavam às tantas, mas ninguém nos assaltava ou batia. Era uma vida na penumbra.”

A observação de Bowie condiz com o que já se disse acerca de Reed e Transformer (embora Lou o aprofundasse futuramente): O cantor/compositor deu voz e rosto a pessoas consideradas um bando de marginais e depravados; gente do outro lado da barreira, quando vista pelos “integrados” moralistas, que frequentemente são os mais inadaptados e reprimidos. Esta é uma das razões por que Transformer se tornou tão popular.    

“As pessoas com quem eu me dava na época acharam que Bowie seria o produtor perfeito para um disco meu que vendesse. E foi totalmente verdade, não acham?”, questionou Reed em 1982. Felizmente, ao longo das décadas, o input de Bowie nunca foi esquecido. Reed aproveitou-se da personagem de Ziggy Stardust e criou outra, o Phantom of Rock, uma espécie de figura volátil e sarcástica que falava da vida das ruas com um à-vontade que tornou cool.

As letras de Transformer estão repletas deste humor cáustico: “Jeanie era uma miudinha mimada que julgava saber tudo. Fumava cigarros mentolados e fazia sexo no corredor. Mas não era do meu tipo, nem sequer do meu signo. O tipo de animal com quem eu me daria.” Havia uma mistura de violência (ou virulência) sórdida com divertimento: “Se te dá gozo brincar com o perigo, dá um pontapé na cabeça dessa e mete-lhe as ideias em ordem.”

lou reed transformer (5)A par deste humor negro havia a poesia de «Perfect Day»: “Fizeste-me esquecer de mim. Achei que era outra pessoa, uma pessoa boa.” David Bowie elogiou-o: “Lou nunca desperdiçava palavras, era sempre muito conciso.” “És tão maldoso, bates-me com uma flor” sugeriu Warhol a Reed, que expandiu a ideia em «Vicious».

«Walk on the Wild Side» não foi diretamente inspirada pelo romance homónimo de Nelson Algren, o compositor apenas aproveitou o título. Fala-nos também de várias personagens à margem – Holly Woodlawn, Candy Darling, “Little” Joe Dallesandro, Sugar Plum Fairy, um passador de nome verdadeiro Joseph Campbell. Incluindo a referência “giving head” que os DJ’s da época lendariamente não entenderam. Colocar pessoas a fazer broches em canções era um escândalo, se percebessem o calão.

Musicalmente «Wild Side» é genial. No DVD do making of do álbum, Herbie Flowers explicou como uniu um baixo e um contrabaixo para conseguir a famosa linha tão identificável. A guitarra acústica afinada um tom abaixo do normal e as Thunderthighs no coro tornaram a canção no maior sucesso comercial e improvável da carreira de Lou Reed.

Para um ouvinte moderadamente atento mas desconhecedor, «Make Up» soa a um homem que observa uma mulher arranjar-se, ritual sensual e atrativo. Não exatamente. Reed explicou: “O estilo de vida gay neste momento não é grande coisa. Quis escrever uma canção que o tornasse fantástico.” Temos assim, um travesti a arranjar-se, pondo perfume, batom e vestindo roupas com rendas…

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“Só por se ser gay, isso não envolve necessariamente andarmos por aí vestidos de mulher ou maquilhados”, prosseguiu o autor, um ano após a edição de Transformer. “Neste momento, é uma coisa de estilo. A homossexualidade não implica maquilhagem.” Eram tempos diferentes, e a canção refere o slogan gay da época: “Estamos a sair dos armários, vamos para as ruas.” David Bowie foi das primeiras estrelas rock a assumirem a sexualidade, mas havia também algumas tenistas que quase assumiram o lesbianismo! Portanto…

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OS DESASTRES AMBULANTES

Aquando da associação entre ambos, David Bowie disse com perspicácia à imprensa:

“Pessoas como Lou e eu estão provavelmente a prever o fim de uma Era, num sentido catastrófico. Qualquer sociedade que permite as liberdades que ambos tomamos, está praticamente perdida. Somos ambos indivíduos confusos e paranoicos, absolutos desastres ambulantes. Nem sei muito bem o que andamos a fazer. Se somos a vanguarda de algo, não somos necessariamente a vanguarda de algo positivo.”

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«New York Telephone Conversation» era um retrato da coscuvilhice telefónica da fauna da Factory. O riff era intrincado e foi um dueto vocal com Bowie. Mais uma vez, a influência de Warhol era nítida pois Reed criticava a trivialidade, egocentrismo e futilidade dos frequentadores da Factory, distanciando-se um pouco desse mundo, mas inadvertidamente assumindo que também lá estivera. É uma sátira exuberante.

lou reed transformer 60«Andy’s Chest» foi um tema dos Velvet Underground retrabalhado e é bastante ambíguo. Refere Valeria Solanas, a tresloucada radical feminista que alvejou Warhol no peito várias vezes. Reed consegue misturar jogos de palavras com poesia. Linhas como “cumes de montanhas de gelo a derreter para ti” ou “soldados cristãos do reino para ti” convivem lado a lado com uma piada sem pés nem cabeça sobre Daisy Mae e Biff:

“Essa parte do nariz dela chegar aos pés… nem eu sei o que tal significa”, admitiu Lou. “Só a pus lá para que as pessoas a ouvissem quando estivessem pedradas e se pudessem rir disso.”  

Mick Ronson (cujo papel foi importantíssimo no moldar destas canções) achou piada a Lou: “Ele era tão descontraído… entrava no estúdio e dizia ‘hei’. Sentava-se com uma guitarra acústica e começava a tocar. E aquilo estava tudo desafinado! Completamente. E eu tentava afinar a guitarra enquanto ele tocava, discretamente, e ele deitava-me um olhar maldoso. Mas depois encolhia os ombros. Tanto lhe fazia se estava afinada ou não, só queria era tocar!”

Com David Bowie, a relação foi mais próxima. Durante semanas, os dois foram inseparáveis, mas, terminada a gravação de Transformer, Reed regressou aos EUA e Bowie seguiu a sua carreira. Só se reencontrariam no final da década, quando Reed lhe pediu que produzisse o seu álbum seguinte. Bowie assentiu, na condição de que Reed controlasse o consumo de várias substâncias. Devido ao reparo, apanhou um soco ou estalada – varia consoante os relatos –; o certo é que houve uma cena muito desagradável. “Anda cá fora que eu bato-te”, esse tipo de situação.

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O sucesso de Transformer que tornou Lou Reed finalmente num artista a solo de mérito próprio, não foi inteiramente benéfico para o músico. Álcool misturado com Valium, drogas… não era boa altura para casar com Bettye Kronstadt, que o tentou afastar destes demónios. Não obteve grande sucesso. Os jornalistas reparavam que o seu consumo de álcool era assustador.

Num quarto de hotel, o músico virou-se para eles e disse mesmo: “Eu sei por que estão todos aqui. Só querem a vossa história de primeira página, ‘Lou Reed sofre uma overdose no Holiday Inn’, não é?” Admitindo que o álcool lhe “destruía o sistema nervoso”, disse também que se “fartara” dele por não haver nada “suficientemente forte”. O seu médico receitara-lhe anfetaminas, as quais injetava. “Na verdade, é uma mistura de metadrina e vitaminas. Não, não, é vitamina C…”

Desorientado, de mãos trémulas e à beira de um colapso, com Bettye a tentar protegê-lo, o “fantasma” que se transformara em rei do rock decadente, mostrava-se incapaz de lidar com o sucesso. Começou quase logo a trabalhar no álbum seguinte, o “disco mais deprimente de todos os tempos”: Berlin.

David Furtado

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