Lou Reed: O primeiro álbum e o início da carreira a solo

Entre Agosto de 1970 e Janeiro de 1972, Lou Reed retirou-se do meio musical sem que ninguém se importasse ou reparasse. Nos EUA, só a revista Creem referia o seu nome e, no Reino Unido, David Bowie era o único que o mencionava ao longo de 1971. Durante o período dos Velvet Underground, a segunda metade da década de 60, a indústria também mudara: Não só graças aos VU, também a Bob Dylan e aos Beatles. Viviam-se tempos mais experimentais e as técnicas de gravação tinham evoluído.

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A desilusão dos ideais dos anos 60, o vulgarizar do uso de drogas e os protestos anti-Vietname marcaram estes anos. Muitas estrelas desapareceram: Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison. Dylan retirou-se. Elvis Presley fez a primeira digressão desde 1958. Surgiam cantores/compositores mais intimistas como Neil Young, James Taylor ou Joni Mitchell, e o glam rock em Inglaterra, com o seu principal arauto, David Bowie, a conjugar o rock exibicionista com canções inspiradas.

lou reed 1st album (16)No outono de 1970, muitos especulavam sobre o paradeiro de Reed. Dizia-se que sofrera qualquer tipo de esgotamento nervoso e não consumia drogas (de acordo com Maureen Tucker). Regressou à casa dos pais em Freeport, Long Island, desgastado pelo fracasso comercial dos VU, sem dinheiro e em crise de identidade. Recomeçou a consultar um psicanalista e, durante vários meses, em 1971, teve um emprego das 9 às 5 como datilógrafo na firma familiar de direito fiscal, recebendo 40 dólares por semana, algo que sempre ridicularizara desde os dias da faculdade em Syracuse.

Reed estava furioso com a atitude do empresário Steve Sesnick, que retalhara o último álbum dos VU, Loaded. Alegou que os créditos não estavam devidamente atribuídos e a ordem das canções foi alterada. Os VU receberam boas críticas por Loaded e fizeram uma digressão, na qual poucos notaram a ausência de Lou, agora “substituído” a tempo inteiro por Doug Yule.

Os velhos amigos de Nova Iorque achavam-no num estado confuso, frágil e sem autoconfiança. Lou Reed explicou que o afastamento se deveu ao mau relacionamento com o grupo e o manager, o público; à crónica falta de dinheiro, digressões insuportáveis, e a uma quase total falta de aceitação. O uso de estupefacientes só piorou tudo. “Tenho de me redefinir, pois a identidade que eu queria foi ocupada por outro corpo”, afirmou o deprimido Lou.

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BETTYE

O sinal mais óbvio desta viragem de 180 graus e rutura com o passado foi o início de uma relação com Bettye Kronstadt, uma aspirante a atriz de 20 e poucos anos que trabalhava como empregada de mesa e conheceu o músico, agora com cerca de 30 anos, num supermercado. ‘Krista’ (como se auto-denominava) era conhecida por todos como uma pessoa equilibrada e de bom senso. Também crescera em Long Island, era judia e de classe média. Loura, bonita e elegante, era o tipo de mulher com quem os pais de Lou gostariam que o filho casasse – a antítese dos frequentadores assíduos da Factory de Andy Warhol e não podia estar mais distante dos mundos violentos que Reed retratava na sua música.

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Bettye Kronstadt e Lou Reed.

Bettye ajudou-o a recompor-se. O músico processou Sesnick para adquirir os direitos de autor de único compositor nos álbuns The Velvet Underground e Loaded. O ex-Velvet Sterling Morrison comentou 10 anos depois: “Lou queria realmente muito crédito pelas canções, portanto, demo-lo, em quase todos os álbuns. Isso deixou-o feliz. Obteve os direitos de todos os temas de Loaded, pelo que agora é tido como o absoluto e único génio dos VU, o que não é verdade.”

Reed escreveu poemas a Krista, confessando o seu amor e chamando-lhe “princesa”, entre outros trabalhos que retratavam situações familiares pouco ortodoxas. Num destes textos, Lou relatava uma ocasião em que experimentou perucas numa loja perante o horror da irmã: “Não admito ver o meu irmão a fazer-se de travesti.” Outros poemas eram divagações sobre a natureza da arte e da auto-descoberta. Notava-se neles uma incerteza quanto a viver uma vida convencional.

Ainda inseguro quanto ao destino, Lou procurou redescobrir Nova Iorque com Bettye; disse que nunca mais cantaria em público e dedicou-se à poesia, surgindo em leituras e acumulando material que surgiria parcialmente nos anos seguintes publicado em revistas. Alguns dos antigos amigos viraram-lhe as costas.

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O relacionamento com Bettye começou rapidamente a denotar sinais preocupantes. Em casa de amigos, Lou começou a agredi-la. Estas agressões continuaram, com olhos negros escondidos atrás de óculos escuros e Reed a atormentar Bettye dizendo-lhe as saudades que tinha do seu passado homossexual (isto de acordo com o escritor Richard Meltzer).

UM REED DIFERENTE

lou reed 1st album (19)Na primavera de 1971, Reed conversava com o produtor musical da RCA Richard Robinson e a mulher, Lisa, num bar do Village. Robinson, que ambicionava subir de estatuto na empresa, encorajou-o a seguir uma carreira a solo. Em setembro desse ano, David Bowie visita Nova Iorque e conhece Lou Reed. O inglês sentia que o legado dos Velvet e a escrita de Reed o auxiliaram a adotar uma persona sexualmente ambígua, uma estrela rock capaz de atrair ambos os sexos com mais do que uma pose.

Reed ganhara peso, devido a uma vida doméstica convencional e comida caseira; não era por esta altura a imagem do roqueiro magro e agressivo de anos recentes. Convencido de que podia regressar à vida musical ativa, preparou-se para as sessões de gravação de um álbum. Isto depois de os Robinson terem contactado o vice-presidente de A&R da RCA, Dennis Katz, que contratara Bowie em Inglaterra. Lou seguir-lhe-ia os passos, proclamou Katz aos executivos da discográfica.

No final de 71, Lou Reed toca a Richard e Lisa, numa guitarra acústica, algumas canções em que trabalhara. A maioria eram sobras ou reciclagens dos VU e Loaded. «She’s My Best Friend» tornara-se em «Lisa Says» (como um agradecimento a Lisa, supõe-se), outras como «Walk and Talk It» já tinham sido compostas há mais de um ano. Entre os temas inacabados, constavam «New York Telephone Conversation», «Hangin’ Round» e «Walk on the Wild Side». Esta última fora composta após uma proposta de adaptação do livro homónimo de Nelson Algren para a Broadway que nunca se concretizou.

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«The Kids», que surgiria no álbum Berlin estava quase terminada, assim como «Wild Child» que descrevia cenas do Village e mencionava Bettye após uma das suas audições. «I Love You» era uma declaração inocente sobre o amor que encontrara com a companheira.    

O músico almejava uma “simplicidade” que não passava só pelo estilo de vida. Musicalmente, seguia agora a mesma orientação. Como declarou em 1972: “Vou deixar de fazer coisas tão complicadas porque percebi que as pessoas realmente não as assimilam, por isso, não é ideia que me entusiasme muito agora.”

Em Inglaterra, David Bowie tornara-se um fenómeno e declarava publicamente e em disco que um dos seus heróis era Lou Reed. Foi em parte por causa desta notoridade que o produtor Richard Robinson agendou as sessões de gravação para Londres, em Janeiro de 1972.

MARASMO CRIATIVO

lou reed 1st album (7)A 28 de dezembro de 1971, Reed chega ao aeroporto de Heathrow. Não teve dificuldades em passar na alfândega já que não parecia uma estrela rock. O músico escolheu os Morgan Studios em Willesden por saber que Rod Stewart aí gravara Every Picture Tells a Story, o que é, estranho. Inundara a sua vida de aspetos convencionais. Sempre idealizara que o rock poderia incorporar o mesmo poder de um romance ou um filme. Confessou que talvez estivesse errado. A escolha de gravar em Inglaterra relacionava-se também com a perspetiva de não ter os executivos da RCA a importunarem-no.

A escolha dos músicos também refletiu uma tendência pouco arrojada. Rick Wakeman e Tony Kaye provinham da banda de rock progressivo Yes, o baterista Clem Cattini e Caleb Quaye (da banda de Elton John) eram experientes músicos de estúdio. Duas cantoras davam o toque de soul em voga. As condições de gravação era ótimas, mas faltava o espírito de colaboração e empatia. Reed rodeou-se de pessoas que lhe diziam “sim” a tudo. Era um grupo de instrumentistas contratados. Steve Howe e Paul Keough eram os guitarristas. Como resultado, Lou não tocou guitarra no disco.

O cantor e compositor disse que era “tudo canções de amor”. A complexidade dos Velvet desaparecera nestes temas. Um delas era bastante direto, «I Love You»: “Achei que, se conseguisse pegar numa frase como essa e transformá-la nalguma coisa, seria uma proeza.” O álbum é, de facto, acessível. Demasiado, até. Demonstra a facilidade com que Reed se movia no idioma do rock em «Love Makes You Feel» ou «Wild Child». Já «Going Down» era uma meditação mais ambígua acerca da opção por um estilo de vida heterossexual, uma tentativa de racionalizar a recusa do fio da navalha.

Reed com Mick Jagger e David Bowie.
Reed com Mick Jagger e David Bowie.

«Berlin» aludia a uma certa decadência romântica, «Ocean» é um dos pontos altos, com Reed a declarar que não compusera nada tão bom desde 1968. Pelo menos, há alguma da curiosa mistura de poesia, drama e mistério que conseguia incorporar no seu  melhor trabalho. Porém, a versão descartada do álbum dos VU Loaded é superior.

A inexperiência de Richard Robinson como produtor e o seu desconhecimento da tecnologia britânica de gravação não ajudaram. E Lisa Robinson assegurava a Lou que tudo soava fantástico.

lou reed 1st album (14)Durante as sessões de gravação, Lou foi até Paris, a 29 de Janeiro, tocar com John Cale e Nico no famoso Bataclan, a primeira aparição pública do músico em três anos. Apreciou a experiência com os antigos colegas e sugeriu que se voltassem a juntar, tal como já dissera a Sterling Morrison, algum tempo antes. Cale e Nico também recusaram pois já tinham projetos próprios bem encaminhados.

Na altura, Reed declarou:

“Estou sempre a estudar pessoas que conheço e, quando acho que as percebi, vou escrever uma canção sobre elas. Quando canto essa canção, torno-me nelas. É por isso que me sinto um pouco vazio quando não estou a fazer nada. Não tenho personalidade própria. Aproveito-me de outras.”         

UMA DESILUSÃO

lou reed 1st album (18)Lou Reed fora concebido para vender e capitalizar o nome de Reed. Após o regresso aos EUA, Dennis Katz ouviu o resultado, em Nova Iorque, e achou-o um desastre. Os executivos reagiram tão mal que a carreira a solo de Lou ficou em risco. O músico assinara contrato para um segundo álbum, o que foi reavaliado. Em parte, o problema de Lou Reed foi técnico: O disco fora gravado, não em Dolby, mas em Dolby decoded, o que deu ao som uma qualidade abafada, prejudicando as frequências agudas. Reed só o descobriria 20 anos depois, ao compilar a caixa Between Thought and Expression. (A possibilidade de uma edição remasterizada a preceito ainda hoje é debatida.)

Para a capa, Lou escolheu uma ilustração do talentoso Tom Adams, artista que desenhava as excelentes capas dos livros de, entre outros, Agatha Christie e Raymond Chandler, grande influência literária de Lou. A editora também não gostou. “Foi bom conhecer Lou Reed e falar sobre a sua brilhante música e letras poéticas. Não sei se lhes fiz justiça, mas foi ótimo estar envolvido no primeiro álbum que gravou em Inglaterra”, disse Adams.  

Refira-se que, neste regresso, Bettye já mostrava sinais de desgaste psicológico e abusava do álcool à semelhança do companheiro.

Reed escolheu uma banda de suporte, os anónimos The Tots, que tocavam em bares. A formação estreou-se na Universidade de Buffalo, interpretando temas dos Velvet e do novo disco. Reed quase nunca tocava guitarra, optando agora por gesticular numa espécie de imitação estranha de Mick Jagger e Jerry Lewis, apresentando os temas com polidez.

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O disco vendeu mal, 7 mil cópias numa altura em que o padrão considerado razoável era entre 50 a 100 mil. A crítica não reagiu bem, chamaram-lhe a desilusão do ano, e as vozes mais ferozes foram as dos fãs incondicionais dos Velvet que acharam o material demasiado polido e tocado com “segurança”. Disseram que Lou fora substituído por qualquer duplo, o que, ironicamente, aconteceu: Reed deixou o seu road manager Ernie Thormahlen dar entrevistas por ele sem que ninguém se apercebesse!

Igualmente desiludidos ficaram Sterling Morrison e John Cale. O próprio Reed lamentou os resultados e surgiram as inevitáveis comparações com o trabalho pioneiro dos Velvet.

Tristezas não pagam dívidas, e a RCA precisava de promover o trabalho, pedindo a Lou que redigisse uma biografia. Este obedeceu, acentuando as facetas mitológicas do “artista rejeitado”, a assinalada “instabilidade mental”, a rejeição do exército, excluindo o ambiente familiar confortável em que crescera, a passagem pela faculdade e a sua faceta intelectual.

lou reed 1st album (11)Reed regressaria a Inglaterra em junho de 1972. Aí foi aceite por um público mais tolerante que o americano, que o respeitava mais do que nos EUA, e também foi acolhido pela entourage de David Bowie. A digressão prosseguiu com Lou e os The Tots a atuarem no Kings Cross Sound. Vestido de cabedal, Reed simbolizava o underground nova-iorquino, e data desta fase a sua opção de usar maquilhagem e assumir um ar parecido com o de Bowie, a adotar parte da sua persona. Lá se ia o convencionalismo…

David Bowie ofereceu-se para produzir o seu álbum seguinte e Reed aceitou. Participou num concerto de Bowie no Royal Festival Hall, no qual foi quase adulado. A mulher de Bowie, Angie, viria refletir que David foi muito inteligente: “Avaliou o mercado, o lugar do seu trabalho nele, calculando os seus passos e concluindo que os seus competidores eram Lou Reed e, talvez, Iggy Pop. Por isso, integrou-os no seu círculo.” Seguir-se-ia outra transformação.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. O primeiro LP de Lou Reed foi lançado no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil. As vendas foram bem insignificantes. A maioria das faixas, sobras de estudio do album Loaded – 1970. Maureen Moe Tucker não chegou a participar de todos os takes, foram adicinados três musicos pra percussão: Tommy Castanaro, Adrian Barber (Vanilla Fudge) e o irmão de Doug Yule (Bill Yule) (Rock & Roll), o Lp de 1970 teve cortes em três faixas: Sweet Jane, a mencionada acima e New Age. Na compilação de sobras de estudio “Another Wiew”, nesta musica a bateria e tocada por ela (1969); lançada em 1986, depois de VU (1985)!

    1. Olá, Márcio. Não admira; a carreira de Reed a solo não começou muito bem. Pessoalmente, gosto deste disco, embora o som (porque alguém [o produtor] se esqueceu de ligar os dolbys no estúdio!) não seja bom. É meio abafado. Obrigado pelo que adiciona aqui. Ele usou várias vezes sobras dos Velvet, nos anos 70. Até reciclou o tema Berlin. Se não estou em erro, será lançado em outubro uma caixa com este álbum, finalmente com o som adequado. A última coisa que Reed fez foi trabalhar na remasterização do seu catálogo inteiro. Mas, mesmo assim, há uma edição japonesa com 4 faixas deste álbum com um som bem melhor. Obrigado.

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