Cavaco Silva: O Presidente da Vergonha

Não é meu hábito expressar aqui opiniões de teor político. Nem tenho uma agenda nesse sentido. Mas sinto que é meu dever expressar a indignação e a vergonha que me provoca a recente notícia da condecoração de um futebolista de nome Cristiano Ronaldo por parte do Presidente da República Cavaco Silva.

salgueiro-maia-capa

Portugal, de há alguns anos para cá, é a nação onde se ultrapassam todos os limites com impunidade. Pisa-se a dignidade neste país da amnésia. No ano em que se celebram 40 anos do 25 de Abril, Cavaco Silva voltou a mostrar do que é feito.

Em 1988, o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusou uma pensão destinada a contemplar os chamados ‘serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país’ a Salgueiro Maia, a qual foi requerida pelo militar.

Segundo noticiou o Expresso a 9 de Junho de 2009, “a atribuição daquela pensão dependia obrigatoriamente de um parecer favorável do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República. O parecer, votado por unanimidade, sublinhava que ‘o êxito da Revolução muito ficou a dever ao comportamento valoroso e denodado daquele que foi apodado de Grande Operacional do 25 de Abril’. Enviado ao primeiro-ministro e ao ministro das Finanças, o parecer nunca foi homologado”.

Passam três anos e o executivo de Cavaco Silva concede essa mesma pensão a dois inspectores da extinta PIDE/DGS, António Augusto Bernardo e Óscar Cardoso. Sublinhe-se que Cardoso foi “um dos pides que se entrincheiraram na sede da rua António Maria Cardoso e que fizeram fogo sobre uma pequena multidão, tendo causado os únicos quatro mortos da revolução”, ainda citando a mesma edição do Expresso.

A 10 de Junho de 2009, enquanto Presidente, Cavaco Silva vai a Santarém e deposita uma coroa de flores na estátua de Salgueiro Maia. Agora condecora um futebolista por “inspirar a tenacidade” das gerações vindouras e “representar Portugal”.

Isto não tem comentário – esta tentativa desastrada e ignóbil de desviar as atenções daquela que tem sido a pior presidência da História de Portugal, personificada por um fantasma. A sorte de Cavaco Silva é não lhe aparecer pela frente um homem do calibre de Salgueiro Maia. São situações destas que me fazem sentir vergonha de ser português. Nenhum português poderá sentir-se honrado por condecorações entregues pelas mãos deste indivíduo.

Como sentir orgulho se o Presidente personifica a ignomínia? Deu benefícios a gente que disparou sobre a população?… recusou uma distinção a quem foi instrumental em instaurar a liberdade e agora, entre tanto mal que causou a um povo, condecora um futebolista para ser aplaudido pela turba. Que eu saiba, esse futebolista nunca teve um canhão apontado para ele e nunca arriscou a vida. Nem este político de carreira que lhe atribui a honraria.

Depois dos aplausos, se os houver, virá o silêncio. Cavaco Silva não será recordado.

David Furtado

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