Os melhores filmes de 2013: Agulhas no palheiro

Se as ideias contidas num filme podem caber na cabeça de um alfinete, como disse Orson Welles, tentarei resumir 20, os melhores que vi em 2013. É uma lista subjetiva, não inclui grandes considerações cinéfilas ou sinopses, apenas opiniões sobre algumas obras que vi ou revi. Há diversidade de géneros e abrange quase 40 anos (1957 – 1994). Houve muitos outros de que gostei, mas reduzi a lista a 20.

Linda Fiorentino em A Última Sedução (1994).
Linda Fiorentino em A Última Sedução (1994).

os melhores filmes de 2013 (1)The Strange One (1957)

O filme de estreia de Ben Gazzara desenrola-se quase todo numa academia militar, em que o cadete Jocko De Paris é um bully. A obra de Jack Garfein é exemplar, especialmente a nível da representação e inclui um dos aspetos que mais me agradam – o estilo das performances não ficou datado. O destaque vai para o elegante e refinado pulha Jocko, um trabalho ao nível de Brando ou Pacino.

Johnny Staccato (1959)

Uma pérola semiesquecida. Reparo que quase todos os espectadores que a viram, gostaram ou adoraram. Infelizmente, a edição DVD não tem quaisquer legendas. O tipo de série tão viciante que se vê quatro episódios de seguida para depois se assistir a um e poupar os que ainda faltam.

The Heart Is a Lonely Hunter (1968)

1968 the heart is a lonely hunter

Não gostei do livro, talvez devido a uma horrenda tradução, mas não foi o caso do filme, que revi, até porque a edição em DVD é relativamente recente. Há muito a recomendar na obra – os desempenhos fulgurantes de Alan Arkin (que não diz uma palavra o filme todo) e, claro, Sondra Locke, numa das estreias mais surpreendentes de que há memória.

Husbands (1970)

Obra especial a vários níveis. Juntou três atores que mal se conheciam e ficaram amigos para a vida. Gazzara sentiu-se deprimido por achar que não conseguiria fazer melhor. Falk descobriu o que era gostar realmente de ser ator. Como geralmente é o caso de Cassavetes, o filme aborda as coisas com que todos nos debatemos mas raramente discutimos. O enfado que o casamento provoca, o que acontece quando os homens se fartam das esposas e vice-versa. Por estranho que pareça, a obra apela a ambos os sexos. O cinema de Cassavetes possui também uma característica em que (o mais popular) Woody Allen fracassa: Não é pretensioso.

Joe (1970)

O ator principal é um excelente Peter Boyle. O filme ficaria na História só por ter sido a estreia de Susan Sarandon (e foi por isso que o vi). Demonstra bem o desfasamento entre os conservadores e a geração de 60, cada qual com o seu conjunto de preconceitos e visões distorcidas da humanidade. Um dos filmes socialmente mais importantes a abrir a criativa década de 70.

os melhores filmes de 2013 (5)The Doberman Gang (1972)

A única versão em DVD existente é originária de VHS, por isso, não se espere qualidade HD. É um mau filme, em que um bando de assaltantes de bancos treina dobermans para fazerem o assalto por eles. Bastante divertido, como estes criminosos caninos cumprem a sua missão com eficiência. Aliás, os cães são os melhores atores do filme…

Dillinger (1973)

Ao estilo típico de John Milius, são disparadas umas 1630 balas em 5 minutos. Ótimas representações do elenco, com destaque para Ben Johnson. Um retrato da guerra furiosa aos gangsters dos anos 30 (que foi selvática), repleto de humor negro, ação e fatores educacionais/históricos. Definitivamente, já não se fazem filmes de ação deste calibre.

os melhores filmes de 2013 (7)The Day of the Jackal (1973)

Citando Roger Ebert, o filme tem duas horas e meia e parece durar 15 minutos. Uma reconstituição da tentativa de assassínio de De Gaulle, por parte de um assassino de nome “Chacal”. É quase um documentário, baseado em factos, filmado nos locais, com uma atenção invulgar ao detalhe. Conjuga bom cinema, autenticidade artística e entretenimento como raras obras conseguem.

Bring Me the Head of Alfredo Garcia (1974)

Um dos melhores de Peckinpah. Cheio de humor negro. É curiosa a história de que o realizador só o fez porque todos diziam ser impossível fazer um filme com um título destes. Nem parece do mesmo autor do enfadonho e tosco Pat Garrett & Billy the Kid (obra enfraquecida por vários problemas de produção).

Columbo (1974, 1975)

Há muito a dizer sobre a qualidade constante de Columbo. Já relatei parte disso em três artigos. Apesar da natureza episódica, os “Columbos” são obras de mérito individual e funcionam bem em separado. É difícil selecionar favoritos. Realço dois: «By Dawn’s Early Light» de 1974, de Harvey Hart, com Patrick McGoohan a interpretar o criminoso, num dos quatro episódios em que entrou e o único que não realizou. E venceu um Emmy por ele, um dos dois que venceria em toda a (ilustre) carreira. O segundo veio em 1990, também num episódio de Columbo. Destaco igualmente o episódio de 1975 «Troubled Waters», realizado por Ben Gazzara.

The Killing of a Chinese Bookie (1976)

A versão de 1978 complementa esta. Ao contrário de outras “versões do realizador”, aqui há diferença no ordenamento das cenas e na sua duração. Cosmo Vitelli é das minhas personagens favoritas do cinema devido ao que simboliza e ao extraordinário desempenho de Gazzara.

Death on the Nile (1978)

Consegue a proeza de reunir um elenco fora de série, com todos em excelente forma: Bette Davis, Jane Birkin, Mia Farrow, David Niven, Angela Lansbury, Jack Warden… contudo, o ator a sobressair é Peter Ustinov, que captou com genialidade o personagem de Agatha Christie. O tempo tem maneiras de atirar certas interpretações para o esquecimento e recordar outras. O genial Ustinov lembra que Poirot não é David Suchet apenas, nesta excelente adaptação à qual se seguiram outras com Ustinov no papel do detetive franc… belga.

os melhores filmes de 2013 (12)Looker (1981)

Tenho a teoria de que muitas pessoas não apreciam este filme por ser profético e refletir o mundo de hoje: A obsessão pela imagem, atores criados por computador… um mundo de falsidades eletrónico/futuristas que muitos encaram como benefícios por ser mais fácil ir na corrente sem nada questionar. Albert Finney é ótimo no papel de um cirurgião plástico que procura resolver assassínios de modelos que operou, acompanhado por uma delas, Susan Dey, igualmente impecável. Escrito e realizado por Michael Crichton, Looker tem um final hilariante, mostrando-nos como a publicidade televisiva e os mundos virtuais têm muito de absurdo.

Sphinx (1981)

Quando estreou, foi um desastre, pondo praticamente fim à carreira de Franklin J. Schaffner (Patton, Papillon, Planet of the Apes). Filmado quase todo no Egito, no túmulo de Tutancámon, em Luxor, nas Grandes Pirâmides, é um filme conseguido e um mistério bem arquitetado. Baseado num best-seller de Robin Cook, é tudo o que Código Da Vinci não é. Lesley-Anne Down, atriz mediana, é excelente como a egiptóloga que procura desvendar um enigma do antigo Egipto.

Raising Arizona (1987)

Agora que vem aí o bombardeamento televisivo do ET, do Home Alone e da Vida de Cristo parte 1, 2 e 3, etc., um bom filme natalício que não passará será este, dos Irmãos Coen, um dos mais cómicos que (re)vi este ano. Os realizadores são pródigos em conceber obras que podem ser vistas por vários públicos e encaradas de várias formas. Hilariante do princípio ao fim.

os melhores filmes de 2013 bullBull Durham (1988)

O filme que tornou Susan Sarandon numa superestrela e ícone sexual já depois dos 40. A atriz gostou tanto do argumento que foi (ao contrário do que é seu apanágio) “dar graxa e apertar mãos” só para obter o papel, segundo afirmou. Ainda bem que o fez. O filme continua divertido e sincero. Embora o contexto seja o basebol, contém umas verdades sobre outros desportos, patentes na cena em que o veterano ensina o jogador inexperiente a dar entrevistas:

“Tens de aprender os teus clichés. Deves estudá-los. Deves sabê-los. Eles são teus amigos. Escreve isto. ‘Temos de jogar um dia de cada vez.’” “É muito chato…” “Claro que é, tem de ser. Escreve. ‘Estou muito feliz por estar aqui. Espero poder ajudar a equipa. Quero dar o melhor de mim… e se Deus quiser, vai correr tudo bem.” Qualquer semelhança com o mundo futebolístico é pura coincidência… mas o filme não ridiculariza o desporto e os adeptos, pelo contrário.

Impulse (1990)

Durante anos, muitos aguardaram a edição em DVD que finalmente chegou. Também já o analisei, pelo que serei breve: Aos 15, desconhecia o género film noir, passados mais de 20 anos, encontro novas implicações neste thriller; pode ser encarado como um filme policial ou um estudo de caráter.

os melhores filmes de 2013 (17)The Double Life of Véronique (1991)

Krzysztof Kieslowski foi uma das descobertas mais interessantes que fiz este ano. Irène Jacob é esplêndida, mas o que mais me impressionou foi a coesão desta obra – da iluminação, que é mais como pintar numa tela do que apontar focos, ao argumento, ao simbolismo… uma obra de arte.

Love Field (1992)

Estes últimos quatro filmes são liderados de uma forma ou doutra por fortes personagens femininas. Em Love Field, encontramos um dos melhores papéis de Michelle Pfeiffer e um dos mais subestimados pelo grande público. É uma história de amor inter-racial que traz ao de cima as esperanças e o desalento da época em que Kennedy foi assassinado. Pfeiffer, que lutou pela concretização deste projeto politicamente incorreto, acabou nomeada para o Óscar.

os melhores filmes de 2013 (20)The Last Seduction (1994)

Para terminar, Linda Fiorentino, discutivelmente a maior bitch do cinema das duas últimas décadas. Interpretou tão bem o papel que foi vítima do typecasting. Foi um dos melhores revivalismos do film noir, com as liberdades a nível de linguagem e sexualidade que o tempo permitiu. Fiorentino não “representa”, “é” esta mulher perversa que se torna adorável… o papel causou dissabores à atriz na sua vida pessoal porque, segundo se queixou, os homens com quem saía esperavam Bridget e não Linda, que, de acordo com Fiorentino, era uma pessoa totalmente díspar. Ao passo que Sharon Stone se socorreu do star power e da beleza mais convencional, Fiorentino baseou-se no talento e num magnetismo animal que a tornam totalmente credível. Uma atriz de quem se devia ter ouvido falar muito mais após esta última sedução.

David Furtado

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