Chloë Sevigny e Hit & Miss: O êxito que fracassou

Chloë Sevigny quase sempre escolheu papéis arriscados. Foi o caso de Hit & Miss, uma minissérie da BBC que, apesar da sua qualidade, seria cancelada ao fim de seis episódios. Para tal, foi decisivo o facto de a atriz interpretar um assassino contratado.

‘Mia’ é uma transsexual na fase antes da operação, e que trabalha como assassina. A sua vida altera-se quando descobre que foi pai de uma criança nascida da relação com a ex-namorada, recentemente falecida. ‘Mia’ é nomeada tutora do rapaz e dos seus meios-irmãos que vivem no campo no Yorkshire. Sem deixar de trabalhar como assassina, ‘Mia’ tem agora de aprender a viver com esta nova realidade.

Chloë Sevigny construiu uma carreira sólida (mas desigual), sendo nomeada para o Óscar de Melhor Atriz Secundária por Os Rapazes Não Choram (Boys Don’t Cry) em 1999, filme que também envolvia questões de mudança de sexo. A Academia deu o Óscar a Hilary Swank para se fingir de tolerante, ainda que o tema não fosse propriamente mainstream. Em 2003, para muitos, Sevigny arriscou a própria carreira em The Brown Bunny realizado pelo ex-namorado Vincent Gallo. Aqui, protagonizou com ele uma cena de sexo oral explícito que chocou praticamente toda a gente. Disse-se que seria proscrita de Hollywood. 10 anos depois, a atriz continua a trabalhar e a escolher projetos arrojados.

Seria fácil dizer que Chloë Sevigny usa a controvérsia a seu favor, se não fosse boa atriz. Aceitou o papel em 2011, apesar de se confessar preocupada com a reação da comunidade transsexual: 

“Nunca tinha lido nada assim, especialmente para a TV. Era tão fértil, há seis episódios e tanto a explorar com o personagem e é tão físico. Achei que seria exigente, de modo positivo, e podia também dar-me a oportunidade de trabalhar em Inglaterra, de estar no norte, de filmar nos locais. Ao vivermos e trabalharmos nos sítios onde filmamos, podemos experimentar um lugar de uma forma que normalmente não aconteceria numa simples visita.”

HABITUADA A CONTROVÉRSIAS

O papel de ‘Mia’ em Hit & Miss é um que surge “uma vez na vida”, brincou a atriz. “Ela está em fase de transição no início da série; o processo começou há cerca de seis meses. Está na fase hormonal mas ainda não fez a cirurgia, está ainda a adiar isso…” Apesar do seu passado cinematográfico algo controverso, a atriz ficou “assustada” quando surgiu a proposta.

chloe sevigny

Hit & Miss contém bastante nudez, o que também nunca foi problema para Chloë Sevigny mas, neste caso concreto, tiveram de ser adotadas certas medidas para mostrar ao público em que processo se encontra ‘Mia’ na sua mudança de sexo. A atriz achou isto “obviamente provocante” e custou-lhe filmar algumas cenas. “Paul Abbott [o criador da série] é um escritor e criador provocatório. Julgo que era uma forma de lembrar aos espectadores em que fase de transição a personagem estava.”

Hit and Miss chloe sevigny 2

A atriz não achou que a parte da narrativa que envolve o/a assassino contratado fosse absolutamente necessária. “Acho que é mais sobre donde ela provém, que é de uma família muito violenta, e é aqui [nesta nova família] que ela encontra conforto. Foi interessante trazer a dinâmica dela para uma jovem família com crianças – ela traz violência para casa sem piscar os olhos, por achar isso completamente normal, o que a torna uma espécie de… pessoa má. Às vezes, é interessante desempenhar uma personagem com tantos defeitos.”

Chloe Sevigny cannesCONTRA A CORRENTE

Loura e bonita, chamaram-lhe a rainha da androginia e também musa do cinema alternativo. Em Hit & Miss, Sevigny consegue ser andrógina. É inegável que foi sempre a antítese das atrizes loirinhas que fazem as delícias de uma plateia mais pueril e “deseducada”. Tantas vezes foi contra a corrente, mas não é algo que encare como uma desvantagem. “Nunca pensei na minha carreira como um todo, simplesmente vou de projeto em projeto, nunca planeei de antemão ou ponderei se isto ou aquilo me iria prejudicar. Foram tudo coisas que me interessaram no momento. Até agora, correu bem, e já lá vão quase 19 anos!”

O agente de Sevigny mostrou-se preocupado com a aceitação de um destes papéis por parte da atriz, achando que lhe custaria a carreira, mas Chloë desdramatiza: “Não fui propriamente desaconselhada… acho que os meus agentes já me conhecem e sabem que decido por mim, e que o caminho que escolhi não foi o estreito e o direto. Portanto, acho que por esta altura já o aceitaram…”

Sevigny adquiriu estatuto no cinema independente, sendo considerada hoje uma das suas figuras mais proeminentes. Não é de estranhar que tenha começado a carreira com Kids (Miúdos) em 1995, filme comprado por Harvey Weinstein e distribuído pela Miramax, que se tornou um grande e inesperado sucesso. Também não espanta que o filme que mais marcou Chloë Sevigny tenha sido A Woman Under the Influence de John Cassavetes:

“Quando vi Gena Rowlands naquele papel achei que ela transcendia a representação, era qualquer coisa de mágico no ecrã, ela era simplesmente aquela pessoa. Sou fã do realismo, do estilo Cassavetes. Acho essa forma de representar tão pura, não há glamour. Obviamente, ela é uma mulher muito bonita mas… foi uma enorme inspiração para mim ver alguém a representar daquela forma. É uma coisa a que ainda aspiro… mas só somos bons de acordo com o material que nos dão… ou pelo menos, uso isso como desculpa! [risos]”

A indústria do cinema “pode complicar a cabeça” aos atores, admite Sevigny, que começou com 17, 18 anos a enfrentar as dificuldades de ser criticada, e “os juízos que fazem de nós”. “É necessária muita autoconfiança, sabermos o que queremos, e rodearmo-nos de pessoas que nos apoiem.”

Respondendo aos rumores de um cancelamento da série, a Sky Atlantic informou que a continuação nunca foi uma hipótese e que a narrativa continha elementos autossuficientes. Isto não convence: O enredo de Hit & Miss ficou “pendurado”; não houve desfecho para as pontas soltas da história que, se fosse mais convencional, teria com certeza prosseguido.

Hit and Miss chloe sevigny 1

Aquando do final da série, as declarações de Sevigny e do argumentista Sean Conway destoaram: Ambos estavam interessados em dar continuidade ao projeto, e a atriz afirmou-se curiosa com os possíveis desenvolvimentos do guião. A série, que foi bem recebida pelo público que prefere a originalidade à reciclagem, e obteve excelentes críticas nos EUA e Reino Unido, muitas delas concentradas no desempenho de Sevigny, ficou pelos seis episódios. E foi mais uma vítima, não de um assassínio por contrato mas das mentalidades puritanas, retrógradas e perigosas que por aí andam de boa saúde.

David Furtado

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