O Anti-herói – Espelho da sociedade

Em vários aspetos, o anti-herói é mais interessante do que o herói formal do cinema. É o fugitivo da Justiça perseguido por agentes corruptos, o indivíduo que só quer salvar a pele mas não abdica da ética pessoal, a figura que conquista a simpatia do público. Inserido numa civilização em que os poderes estabelecidos tentam esmagar a individualidade e ocultar a corrupção dos sistemas, o anti-herói é um homem ou uma mulher comum que escreve direito por linhas tortas e, talvez por isso, o público o aplauda.

The Brave One.
The Brave One (2007).

Alguns exemplos. O anti-herói por excelência é Don Corleone (Marlon Brando) em O Padrinho: Um mafioso, sim, mas um homem com valores de família que não quer para o filho o mesmo destino que teve. Encara a vida com sabedoria e pragmatismo, perante a corrupção de políticos e forças da autoridade. Adorado por várias gerações, o personagem será adorado por outras tantas.

10 anos antes, Burt Lancaster encarnou O Prisioneiro de Alcatraz, um assassino condenado que, na cadeia, se torna perito em aves, chegando a escrever quase um tratado de anatomia. Os anos passam, o seu desespero aumenta e a sua humanidade vem ao de cima.

Burt Lancaster em Birdman of Alcatraz (1962).
Burt Lancaster em Birdman of Alcatraz (1962).

Alguns atores já eram, na vida real, anti-heróis; no caso de Steve McQueen, por ter sido abandonado pelo pai e negligenciado pela mãe. Em Tiro de Escape, protagonizou um ex-presidiário com sentimentos, embora brutal perante a autoridade.

Quase 40 anos depois, surge Drive – Risco Duplo, em que Ryan Gosling, um dos atores mais talentosos da atualidade, personifica um mecânico e duplo de cinema, motorista de fuga em assaltos. O personagem de Gosling é atormentado por dilemas morais – a atração por Carey Mulligan não o impede de auxiliar outro criminoso, o marido dela, num roubo que poderá ajudar o casal a livrar-se dos agiotas. Não corre bem. Ao motorista, resta-lhe o código ético.

Carey Mulligan e Ryan Gosling em Drive.
Carey Mulligan e Ryan Gosling em Drive.

Em 2007, Jodie Foster, confessa admiradora do anti-herói (vejam como os olhos dela brilham ao falar do cinema dos anos 70 e do anti-herói no documentário de Taxi Driver), interpretou Erica, uma mulher brutalmente violada, cujo namorado é assassinado. Não só devido ao trauma, mas também à necessidade de se proteger, Erica vê-se de arma na mão e faz a justiça que a polícia não pôde. O filme é demasiado longo e algo pesado – salvo pelo talento de Foster – além de ser uma atualização da série Death Wish. Quantos de nós não pensámos na solução “olho por olho, dente por dente” perante crimes brutais? Podemos, em consciência, não advogar tais soluções justiceiras a corta-mato que descambariam na anarquia, mas não evitamos ficar do lado de Erica durante A Estranha em Mim.

Foster participou em Taxi Driver, que nos mostra outro exemplo: Neste caso, um homem solitário e martirizado pela podridão urbana que o cerca. Travis Bickle (Robert De Niro) põe as fantasias em prática. Salva uma prostituta menor e abate quem a explora. Travis enquadra-se na definição de psicopata, mas o filme de Scorsese é mais complexo, socialmente importante e atual.

Beco sem Saída é a história de um ex-presidiário que não se adapta. Dustin Hoffman é excelente como Max Dembo, numa obra que denuncia a reabilitação social como uma armadilha com intenções opostas. Max tenta regenerar-se, mas o sistema impede a reentrada na sociedade. Solução: Voltar ao crime. A bela atriz Theresa Russell serve de contraponto dócil ao violento e antissocial Max.

Mel Gibson em Mad Max 2: The Road Warrior.
Mel Gibson em Mad Max 2: The Road Warrior.

Por falar em Max: Mad Max, o estandarte do género post-nuke, muito copiado. A trilogia é desigual. O primeiro é terror gótico, o segundo, brutal, o terceiro desprovido do que fez funcionar a fórmula e orientado para outros públicos. O quarto? Desnecessário. Max Rockatansky não pode ser outro senão Mel Gibson.  

Para terminar, Lee Marvin, o insubordinado Major Reisman de Doze Indomáveis Patifes. Marvin poucas vezes foi o “herói” no sentido pleno do termo. A sua experiência pessoal na guerra, aliada ao carisma, tornaram-no numa figura que aplaudimos, mesmo estando do lado errado da lei.

Filmes citados:

O Prisioneiro de Alcatraz (Birdman of Alcatraz) de John Frankenheimer, 1962.
Doze Indomáveis Patifes (The Dirty Dozen) de Robert Aldrich, 1968.
O Padrinho (The Godfather) de Francis Ford Coppola, 1972.
Tiro de Escape (The Getaway) de Sam Peckinpah, 1972.
Taxi Driver de Martin Scorsese, 1976.
Beco sem Saída (Straight Time) de Ulu Grosbard, 1978.
As Motos da Morte (Mad Max) de George Miller, 1979.
A Estranha em Mim (The Brave One) de Neil Jordan, 2007.
Drive – Risco Duplo (Drive) de Nicolas Winding Refn, 2011.

David Furtado

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