Johnny Staccato: Pianista à noite e detetive nas horas vagas

“Por que saí do Village naquela noite? Porque tinha posto o meu cartão do sindicato dos músicos em naftalina há cinco anos, quando me apercebi que o meu talento andava uma oitava abaixo da minha ambição. Portanto, embora o meu coração ainda esteja no palco, pago as mercearias longe do piano. E quando me chamam em trabalho, nos dias que correm, ainda que seja às duas da manhã, respondo.”

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Assim começava a voz off de «The Naked Truth», o primeiro episódio de Johnny Staccato, série policial hoje considerada um clássico da TV. Teve início com um telefonema (em dois sentidos). No início de 1959, John Cassavetes recebeu uma chamada de um produtor da Universal, convidando-o para protagonizar uma série televisiva.

Cassavetes filmava Shadows, procurando dar forma ao projeto. A sua esposa Gena Rowlands acabara de filmar The High Cost of Loving, e estava grávida, tendo por isso pedido à MGM a cessação do contrato. Na época, o casal vivia em Nova Iorque. Cassavetes também se encontrava à procura de trabalho, embora tivesse já feito vários filmes em Hollywood e fosse um rosto conhecido. Descontente com Shadows, pretendia filmar novas cenas e remontar o filme.

A 14 de janeiro de 1958, em Nova Iorque. Curiosamente, Rowlands sabia tocar piano e Cassavetes não tinha ouvido musical.
A 14 de janeiro de 1958, em Nova Iorque. Curiosamente, Rowlands sabia tocar piano e Cassavetes não tinha ouvido musical.

Na televisão, John era um jovem veterano – já trabalhara em quase 100 transmissões. Fora ator convidado em várias séries, mas não se imaginava ator principal de uma, achando que comprometia a sua integridade artística.

Os investidores de Shadows tinham recuado, deixando o realizador responsável por todas as despesas. Com um filho a caminho, a oferta veio em boa altura. Era também conveniente no contexto televisivo de finais dos anos 50. A NBC acabara de ter um sucesso com Peter Gunn – série com um detetive privado e ambiente de jazz. A NBC queria repetir o êxito com Johnny Staccato, sobre um pianista de jazz de Greenwich Village, ex-polícia, que ajudava pessoas em apuros e resolvia crimes.

Quando recebeu o telefonema, John Cassavetes desligou com rudeza. “Bullshit!” “O tipo disse-me que era sobre um pianista de um clube noturno que apanhava bandidos.”

johnny staccato cassavetes (4)O que o fez mudar de ideias foi a atitude de Rowlands que o encarou com fúria contida e lhe disse, terminada a chamada: “Tens toda a razão, John, não podes fazer essas coisas.” Cassavetes ligou ao produtor e desculpou-se, dizendo que julgava tratar-se de uma brincadeira de um amigo.

Nesses tempos, o trabalho em televisão era muito bem pago; e, ainda que a série só durasse uma temporada, poderia pagar as despesas de Shadows e proporcionar segurança financeira ao casal. O ator contraíra dívidas na ordem dos 20 mil dólares.

Nesta altura – supõe-se –, Cassavetes terá ido a uma reunião em Nova Iorque para falar do programa. A 23 de maio de 1959, Gena deu à luz o primeiro filho do casal, Nicholas David Rowlands Cassavetes. O pai andava tão despassarado com a finalização de Shadows e o início de Johnny Staccato que, já depois do filho nascer, passaram duas semanas antes de se reencontrar com Gena. “É bom ver-te”, disse à esposa. “Não perguntas pelo bebé?” “Qual bebé?”

johnny staccato cassavetes (5)Durante conversas com o amigo Sam Shaw, Cassavetes apercebeu-se que a série era uma ótima oportunidade para aprender um pouco mais sobre realização. Nesses tempos, Hollywood parecia o único destino possível, e Cassavetes possuía ideias pré-concebidas sobre o negócio: Achava que conseguiria grandes colaborações e que poderia dar largas à criatividade.

O ator queria obter alguma liberdade criativa e ter alguém de confiança no meio burocrático. Chamou Everett Chambers, um agente de casting que conhecia dos tempos em que era desconhecido. John convidou então o executivo-chefe da Universal, Jennings Lang, para uma reunião no seu apartamento, apresentando-lhe Chambers que, diga-se, era inexperiente como produtor.

Era uma proposta inconcebível nesses tempos; Lang disse que já escolhera um produtor e recusou. Cassavetes rasgou o contrato e pôs o homem da Universal fora do apartamento, piscando o olho ao amigo. Dois dias depois, Lang cedeu, telefonando a John e dizendo que Chambers podia ser o produtor, o que levaria à ascensão futura deste. (Recorde-se que produziria Columbo durante um longo período, já nos anos 70.) Apesar disto, um executivo da NBC avisou Cassavetes para não ter ideias grandiosas: “Isto é só um programa de 24 minutos e meio para preencher tempo entre a publicidade.”

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TENHAM PACIÊNCIA

Rowlands e Cassavetes andavam há bastante tempo de um lado para o outro entre LA e Nova Iorque. Com a rodagem de Staccato a desenrolar-se em LA, e a esposa a querer assentar, acabaram por se decidir pela compra de uma casa em Woodrow Wilson Drive, perto de Laurel Canyon – o lar dos Cassavetes que surgiria em vários filmes do realizador.

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As declarações públicas do protagonista divergiam do habitual. Ao invés de dizer que o trabalho era interessantíssimo e que o público ia delirar – como todos os atores fazem hoje, basta ligar a TV –, Cassavetes declarou que estava insatisfeito com os aspetos criativos de Staccato e pediu ao público alguma paciência:

“Estou a lutar por tornar esta série boa, todos os episódios serão diferentes. Não nos julguem pelos primeiros guiões, haverá melhores. Precisamos de tempo para encontrar bons argumentistas e realizadores. Se nos dedicamos a 100 por cento a qualquer coisa, ela funciona. Não acho isso apenas. Sei isso.”

OS SARILHOS NÃO SÃO A MINHA PROFISSÃO

A adaptação para livro.
A adaptação para livro.

Assim, numa quinta-feira, 10 de setembro de 1959, às 20h30, era emitido o primeiro episódio, «The Naked Truth». Johnny Staccato foi logo considerada a série sensação da época televisiva e rotulada de “policial”. Cassavetes apressou-se a esclarecer: “Primeiro, não desempenho um detetive particular, sou um pianista. A diferença é grande, amigo. É verdade que me meto nuns sarilhos, mas é uma espécie de atividade à parte.”

É verdade, a série pode ser definida assim. Junte-se uma forte atmosfera de film noir, jazz, corrupção e beatniks, com o pianista/detetive de fato, metido em sarilhos e a responder torto à polícia, com o magnetismo e o frenesim típicos de John Cassavetes.

O ator procurou melhorar o conteúdo de Johnny Staccato, incluindo bons atores e tentando que cada episódio focasse uma personalidade, não um rotineiro mistério.

A combinação era interessante mas não convenceu. A crítica achou o teor demasiado parecido com Peter Gunn, e a reação do público, no primeiro mês, não foi animadora. Em novembro de 59, Cassavetes foi a Nova Iorque filmar várias cenas que o mostram a passear pela Big Apple, os chamados “inserts”, colocados estrategicamente nas sequências de exteriores, já que a série era filmada em Hollywood.

Estes “inserts” eram filmados de seis em seis semanas. Foram captadas cenas na zona desertificada dos estádios de Polo Grounds, em bairros do Harlem, no Lower East Side, na Bowery e imagens de Cassavetes a correr no trânsito da Quinta Avenida. Estas sequências conferem realismo e criam a ilusão de que Johnny Staccato se desenrola mesmo em Nova Iorque. «Murder for Credit», por exemplo, contém alguns planos do exterior do Variety Arts Studio, onde Shadows foi filmado.

Os 27 episódios foram escritos por uma equipa de argumentistas do estúdio, são narrativas condensadas, sintéticas como contos, “segmentos” televisivos de film noir muito eficazes, até brilhantes, por vezes. Cassavetes escreveu dois em pareceria com Chambers, e quase todos os guiões foram revistos pela dupla.

No episódio «Evil».
No episódio «Evil», que o ator também realizou.

Everett Chambers esclareceu o processo de trabalho: “Filmávamos três dias e ensaiávamos e reescrevíamos outros dois.” Um crítico de cinema, Hollis Alpert, foi coargumentista num dos episódios, «The Poet’s Touch». Quando assistiu, apercebeu-se que Cassavetes tinha alterado substancialmente a história. “Pagaram-me. E, infelizmente, também me deram o crédito.”

O próprio John acabou por realizar cinco episódios, tentando “fazer todos de modo diferente, procurando desenvolver qualquer espécie de estilo e técnica”. Um deles é quase uma peça teatral, com apenas três personagens, e, por sinal, um dos mais interessantes. Os episódios realizados por Cassavetes foram «Murder for Credit», «Evil», «A Piece of Paradise», «Night of Jeopardy» e «Solomon».

O estudioso da obra de Cassavetes, Ray Carney, elogiou o teor de Johnny Staccato, apontando “uma rica paleta estilística” inspirada por realizadores como Hitchcock e Orson Welles, mas criticando os enredos repetitivos. Tendo em conta que era transmitida às quintas, não se percebe o que Carney esperava – um Citizen Kane semanal?

A banda sonora de Elmer Bernstein.
A banda sonora de Elmer Bernstein.

John não se queria envolver em Johnny Stacatto, mas, quando o fez, dedicou-se o mais que pôde, dentro das restrições do formato televisivo. E, descaradamente, contratou toda a gente que conhecia para participar: Gena Rowlands, Seymour Cassel, Rupert Crosse, Maurice McEndree, John Finnegan, Lelia Goldoni, Harry Guardino, Val Avery e Martin Landau, entre outros como Dean Stockwell. Esta tendência para dar papéis a amigos seria igualada por Peter Falk em Columbo.

A excelente edição em DVD, que infelizmente não possui quaisquer legendas nem extras.
A excelente edição em DVD, que infelizmente não possui quaisquer legendas nem extras.

Outro fator interessante foi a contratação de verdadeiros músicos de jazz que surgem a tocar no Waldo’s, o poiso noturno habitual de Johnny Staccato. O dono, Waldo, é um italiano de sangue na guelra, amigo do pianista, um ótimo desempenho de Eduardo Ciannelli.

Infelizmente, Johnny Staccato começou a dar problemas devido aos fatores que geralmente não interessam ao público mais adepto de meros tiroteios e cenas de pugilato. A cadeia televisiva não ficou satisfeita e os patrocinadores também não, devido às audiências, que não foram tão fracas como isso mas também não foram estrondosas. Staccato competia com a comédia The Real McCoys. E a ideia que Cassavetes tinha da série não coincidia com o conceito da cadeia televisiva.

O personagem tanto pode ajudar os amigos como perseguir gangsters. Ou seja, a fórmula fugia às normas convencionais da ficção policial. Desde o começo, a produção ficou marcada por batalhas incessantes. Segundo Chambers, “eles queriam um Peter Gunn aprimorado, coisa de polícias, e esta série era um pouco esotérica. Por isso, John tinha uma relação dura com a cadeia de TV”.

Os diferendos abrangeram quase tudo, a começar pelo título do programa (Cassavetes preferia apenas Staccato, ao passo que os homens de fato e os publicitários insistiam em Johnny Staccato). Por este motivo, a primeira denominação só surge nos primeiros 10 episódios. Os temas abordados foram outro problema. O ator queria focar situações como o pacifismo ou o vício da heroína, situações quotidianas, mas de que as “pessoas de bem” e os puritanos executivos não queriam sequer ouvir falar.

O estúdio avisou-o também de que já tinham recebido cartas de protesto de espectadores devido ao conteúdo de vários episódios, que faziam referência a religião e sexo. O ator achava que alguns dos melhores guiões tinham sido rejeitados por serem considerados “demasiado controversos”.

John insistiu e filmaram «The Wild Reed», com Harry Guardino a desempenhar um saxofonista de jazz heroinómano. Por muito de raspão que o tema fosse abordado, era excessivo para 1959. O episódio, filmado em novembro e programado para o Dia de Ação de Graças, só foi exibido no fim da temporada, sendo substituído por outro, de tema natalício…

Cassavetes, claro, protestou com o seu habitual humor cáustico: “É praticamente impossível obter a aprovação de um argumento com substância, ainda mais com este surto de escândalos televisivos. Não há limites para a violência; podemos ver aprovada uma história em que uma mulher morre violentamente, mas uma história honesta sobre um viciado em droga é rejeitada porque seria injuriosa para o produto do patrocinador. Neste caso, o produto é um desodorizante para aplicar nos sovacos!”

“Estou farto de infantilidades, estou saturado de ouvir a minha própria equipa dizer, ‘isto é terrível’ O que posso fazer? Lutar, acho eu.” De pouco serviu a luta com a produtora, a Revue Productions, apesar das declarações públicas do ator.

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DESODORIZANTES PARA ESTÁTUAS

Saturado dos diferendos criativos, John Cassavetes apanhou um avião, no início de 1960, que o levaria a Nova Iorque para um encontro com os patrocinadores. Estes julgavam que o ator vinha renegociar a participação numa segunda temporada. Pelo contrário, John vinha com a ideia de criar o maior sarilho que pudesse. Já pagara as dívidas e queria terminar Shadows.

Começou por se queixar daquilo que apelidou de “censura”. Depois, insultou o patrocinador, fazendo piadas. “Disse-lhes que a publicidade deles era de mau gosto. Um dos patrocinadores era uma companhia de desodorizantes, e um dos filmes publicitários mostrava o produto aos pés de uma estátua grega. ‘O desodorizante para o homem maduro’, apregoavam. Disse-lhes que era ofensivo para mim, enquanto grego, pôr uma mistela para sovacos debaixo de uma obra-prima da arte grega. Mas só quando os comecei a criticar publicamente é que me deixaram ir embora; consigo ser uma pessoa desprezível.” John não entendia com que autoridade lhe diziam o que era ou não admissível em TV…

Uma das primeiras vezes que esta frase surgiu no ecrã.
Uma das primeiras vezes que esta frase surgiu no ecrã.

E assim acabou a série. E começava uma nova aventura, a de realizador, com a finalização de Shadows. Durante o resto da sua carreira, John Cassavetes nunca esqueceu a experiência de Johnny Staccato. Trabalhou em TV, sim, mas achava que não conseguia fazer nada de criativo nesse meio. Tal como o personagem, foi mais um modo de pagar as mercearias.

“A televisão chegou a um ponto em que já faz muito dinheiro e as pessoas que o ganham estão muito felizes com isso, pelo que deviam dar alguma independência ao artista. Contratam produtores e argumentistas, pagam-lhes um balúrdio e deixam-nos agir como robôs! Sabem, pressionam o botão, e eles obedecem à ordem. Trabalhar em TV ensinou-me a nunca confundir fazer dinheiro com o que queremos realmente fazer.”

Se ignorarmos tudo isto e assistirmos a Johnny Staccato – série viciante – vemos que Cassavetes fez um esfoço por humanizar o detetive. Muitas vezes, improvisa, ri-se, diz piadas quando é preso.

“Acho que fizemos alguns episódios realmente bons. Os produtores devem ficar embaraçados com a qualidade! A maioria deles só nos diz: ‘Se vocês querem literatura, vão ler um livro.’”

“Sinto-me um privilegiado por trabalhar num negócio onde me pagam para comunicar e certamente penso que o público que nos vê, e nos paga o salário, essencialmente, merece o melhor que lhe pudermos dar. E não a frase que muitas vezes ouvi em estúdios, ‘o que importa isso? É televisão’.”

“Eles achavam que devia ser uma série policial, estrita e absolutamente com um herói. Eu achava que o meu estilo é um estilo humano. Sou um ser humano e quero fazer erros bem como solucionar os crimes. Sabem, torna-se um pouco aborrecido quando um homem comete um crime, outro homem vai atrás desse homem, homem resolve crime e dá uns beijos a umas miúdas pelo caminho…”

David Furtado

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