Por Favor, Não Matem o Dentista (The In-Laws): Serpenteie!

Rir parece ser das poucas coisas que não paga imposto nos tempos que correm, embora haja poucos motivos para rir. The In-Laws cura esta maleita durante algum tempo, se conseguirmos serpentear entre os problemas do dia-a-dia. “Se perguntarem a 4 pessoas, 7 incluiriam The In-Laws na lista refinada de filmes mais divertidos de todos os tempos. E em 7, 10 diriam que a cena mas divertida neste filme divertido é a cena do ‘serpenteie’.”

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Peter Falk tinha esta opinião acerca de Por Favor, Não Matem o Dentista, o título dado em português a The In-Laws, comédia ímpar realizada por Arthur Hiller, que o juntou a outro grande ator, Alan Arkin, compondo uma dupla fenomenal. O filme de 1979 foi reavivado num remake em 2003, filme tão mau que originou uma piada entre Falk e Arkin, de que já falarei.

“Hoje, quando caminho pelas ruas de uma cidade cheia de gente, é provável que, de quatro em quatro quarteirões, um taxista abrande, desça o vidro e grite, ‘serpenteie’, ponha os dois polegares para cima, acene, e vá embora a rir-se. Ou que quatro operários da construção civil a trabalharem três andares acima, num telhado inacabado, me vejam e gritem em uníssono, ‘serpenteie’, de braço apontado para o céu, rindo às gargalhadas. A cena obviamente atingiu qualquer ponto da sensibilidade humorística do ser humano.”

The In-Laws é a história de dois homens que se preparam para o casamento dos filhos: ‘Vince Ricardo’ (Falk) é o pai do noivo, um indivíduo semilouco que tem resposta para tudo e trabalha numa estranha consultadoria governamental repleta de segredos. O pai da noiva, ‘Sheldon Kornpett’ (Arkin) é dentista. O ‘Sr. Ricardo’ arrasta o ‘Sr. Kornpett’ para uma série de acontecimentos estranhos, de Manhattan à América Central.

MOSCAS COM BICOS

the in-laws 2Começa por ser estranho o jantar em que os compadres se conhecem, ocasião solene em que ‘Vince’ começa com uma conversa bizarra mas extremamente compenetrada e séria:

Mulher de Sheldon: Vince, quanto tempo viveu na Guatemala?
Vince: Estive na selva, no mato, chamávamos-lhe… cerca de nove meses.
Sheldon: Nove meses? Meu Deus, deve ter sido qualquer coisa!
Vince: Sheldon, foi inacreditável. Vi coisas… Eles têm moscas tsé-tsé do tamanho de águias. A sério. À noite, ficava à frente da minha cabana a ver com horror estas moscas gigantes a apanhar crianças do chão e levá-las.
Sheldon: Meu Deus.
Vince: Era uma visão incrível. Camponeses a gritar… perseguindo essas moscas na estrada, acenando com vassouras. Podem imaginar o aspeto patético disto. A acenar vassouras grosseiras àquelas enormes moscas, enquanto elas levavam os seus filhos para uma morte quase certa.
Sheldon: De certeza que está a falar de moscas?
Vince: Moscas. Os nativos tinham um nome para elas… José Grecos de Muertos. “Bailarinas Flamencas da Morte”.

‘Vince’ tinha uns slides das moscas, mas infelizmente…

Sheldon: Que pena. Teria gostado de ver os slides.
Vince: Sim, deixei-os num casaco lavado a seco. Fiquei destroçado. Esses slides tinham-me dado o Prémio Pulitzer. As enormes moscas batendo as asas lentamente rumo ao pôr-do-sol… Bebés castanhinhos presos aos bicos.
Sheldon: Bicos? Moscas com bicos?
Vince: Visão que nunca esquecerei. Fiquei atordoado. Estarrecido.
Mulher de Sheldon: O que fez?
Vince: O que fiz?
Mulher de Sheldon: Como consultor, o que fez quanto às moscas?
Vince: Infelizmente, há muito pouco que se possa fazer, devido à tremenda burocracia no mato.
Sheldon: Há burocracia no mato?
Vince: Burocracia enorme, Sheldon. Estas moscas, por exemplo. Estão protegidas contra roubo pelas disposições da Lei Guacamole de 1917.

A Lei Guacamole de 1917 é apenas uma das diretivas bizarras com que ‘Vince Ricardo’ está familiarizado, no âmbito dos seus vastos conhecimentos. Esta sabedoria não abrange a TV – ‘Vince’ nunca viu O Preço Certo. “O que é isto?” “O Preço Certo. Não me diga que nunca ouviu falar.” “Eles têm de adivinhar o preço daquelas porcarias todas? É esse o princípio?” “Sim.” “Há quanto tempo dá?” “Desde 1911, por aí.” Outra diretiva estranha é a que ‘Vince’ dá a ‘Sheldon’ numa cena que ficou famosa: “Serpenteie!”

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Quando a sequência foi filmada, os dois protagonistas aguardavam uns ajustes de última hora nas câmaras. Falk tinha uma dúvida e achou que era boa altura para a colocar a Alan Arkin:

– Alan, tenho uma pergunta.
– Sim?
– Achas esta cena engraçada?
– (Incrédulo.) Tu não achas?
– Não, acho-a palerma.
– És o ator mais burro da América.

Claro que, muitos anos depois, Peter ficou espantado por não ter percebido o humor da cena em que grita “serpentine”: “Na verdade, até gosto de mim mesmo por ser tão estúpido.” Mas quem gostou de a filmar foi Arkin: “Fiquei a vê-lo, muito divertido, a correr cinco passos para a esquerda e cinco para a direita, ele podia ter feito aquilo 100 vezes…” disse Falk. “Ainda o estaria a fazer hoje se a equipa não tivesse ido para casa. Deu-lhe tanta vontade de rir. E, ao olhar para ele, também eu me diverti.”

Alan Arkin divertiu-se realmente nas filmagens. Quando lhe perguntaram acerca de The In-Laws, numa entrevista recente, teve de fazer uma pausa por não conter o riso, recordando uma situação com Peter Falk. Segundo Alan Arkin, “praticamente não houve improvisos. Estava tudo escrito no guião. Talvez duas situações”.

O ENCONTRO ENTRE FALK E ARKIN

O agente de Falk ligou-lhe dizendo que a Columbia Pictures tencionava fazer um remake de Freebie and the Bean (Os Anjos da Guarda, 1974), filme de Richard Rush que juntara Alan Arkin e James Caan – uma comédia sobre dois polícias.

Peter Falk não sabia o que era Freebie and the Bean. The In-Laws é totalmente diferente, embora fosse esta a ideia original. Perguntaram-lhe se queria encontrar-se com Alan Arkin, que estava já ligado ao projeto. Falk respondeu com um sim incondicional, embora não tivesse visto Freebie and the Bean. Achou melhor nem o revelar.

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Os atores encontraram-se no quarto de hotel de Arkin, que lhe perguntou se queria fazer o tal remake. Falk ficou surpreendido pois achava que a ideia era justamente essa. Respondeu que, por ele, estava tudo bem e que gostaria de trabalhar com Alan. Falk apercebeu-se também que Arkin estava pouco interessado num remake de Freebie and the Bean. O que realmente pensava é que ambos dariam uma boa equipa.

Alan Arkin, Peter Falk e o realizador Arthur Hiller.
Alan Arkin, Peter Falk e o realizador Arthur Hiller.

Seria a Warner e não a Columbia a pegar no projeto e o que lhes interessava era um “buddy picture”, um filme sobre dois compinchas, nada mais. Arkin disse a Falk que não se importava, mas que devia ser “sobre dois tipos que não se conheciam, que não tinham um passado em comum e se tinham acabado de conhecer”.

Cerca de quatro meses depois, Alan Arkin telefonou a Peter Falk dizendo-lhe que já tinha o argumento, que o filme se chamava The In-Laws e que o melhor papel era o de Falk. O guião, da autoria de Andrew Bergman, continha “acontecimentos insanos que, de algum modo se tornavam, não só numa história coerente, mas também numa comédia inspirada e completamente brilhante”, achou Falk. O ator leu o guião, rindo-se às gargalhadas. E nunca chegou a perguntar a Arkin por que queria fazer um filme sobre duas pessoas que não se conheciam.

UM JANTAR NORMAL

Terminada a filmagem, os dois protagonistas perderam o contacto, pois Falk vivia na Costa Oeste, em Los Angeles, e Arkin em Nova Iorque. “Juntarmo-nos para tomar um café não era fácil”, disse Peter. Encontraram-se já nos anos 80, quando Arkin vivia em Scarborough, poucos quilómetros a norte de Nova Iorque. Era perto de Ossining, a terra natal de Peter Falk.

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O jantar pareceu uma cena saída de The In-Laws, ainda que Falk a achasse normal: “Alan não permitia que fumassem em casa dele, e eu ainda era fumador, na altura. Por isso, ao jantar, Alan e Barbara ficaram dentro de casa e eu cá fora, a pouca distância. Estávamos separados por uma porta de rede, mas excetuando isso, foi perfeitamente normal – três pessoas a jantar confortavelmente.”

Depois, Falk e Arkin foram dar um passeio de carro por Ossining, a pequena cidade que Peter Falk já não visitava há anos; uma ocasião que o deixou nostálgico por revisitar o velho bairro onde crescera. “Fiquei satisfeito por Alan estar comigo e partilhar aqueles momentos”, comentou.

“PARABÉNS?”

the in-lawsO mais engraçado que teve o remake de The In-Laws, lançado em 2003, foi uma conversa entre os protagonistas do filme original. Este remake surgiu já na onda de comédias disparatadas e irritantes como Meet the Parents (Um Sogro do Pior) ou pior ainda, There’s Something About Mary (Doidos por Mary), onde a piada grotesca e boçal é palavra de ordem e… o engraçadíssimo Ben Stiller recorre ao “transe” que supostamente deve ser hilariante. Hilariante é uma característica que falta a Michael Douglas, por muitos atributos que tenha. (Não sei quais são ao certo, mas encontram-se explícitos na Lei Guacamole de 1917, juntamente com os de George Clooney.) Provavelmente, o que o atraiu foi um cheque gordo da Warner, que teve a brilhante ideia de o juntar ao comediante Albert Brooks. O resultado foi Antes que a Morte os Separe!, quando mais valia nem se terem unido…

Nesta altura, Peter Falk encontrava-se em Vancouver, ocupado com um telefilme. Alan Arkin telefonou-lhe.

– Peter, é o Alan. Parabéns.
– Quem?
– O Alan, Alan Arkin.
– Oh, Alan… olá.
– Parabéns.
– Sim, acho que disseste isso.
– Pois disse – riu-se Arkin.
– Porquê?
– Pelas tuas críticas.
– Críticas??!
– Sim, são fantásticas.

Falk tentou lembrar-se de algo que tivesse feito e que tivesse estreado recentemente.

– A sério… Leste críticas?
– Adoraram-te.
– A sério…
– Pára de dizer isso. Pareces ocupado.
– Sim, estou cheio de merd…
– Então não as leste.
– Li o quê?
– As críticas, idiota.
– De que críticas falas?
The In-Laws – riu-se Arkin.
The In-Laws??!
– Sim.
– Mas isso foi há 10 anos – respondeu Peter, confundido.
– O remake, idiota.
– Oh, o remake. Estreou um?
– É uma desgraça, o filme todo, pela sanita abaixo.
– A sério? – respondeu Falk todo satisfeito…
– E nós os dois tivemos críticas sensacionais. Tivemos melhores críticas pelo remake do que pelo original.
– A sério. Melhores críticas do que pelo origin… – Falk não conseguiu acabar a frase. Estava-se a rir.

David Furtado

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