After Hours de Martin Scorsese: Esta noite podia durar para sempre

Nova Iorque Fora de Horas é um dos filmes menos usuais de Martin Scorsese. Não foi grande sucesso comercial. Isso não impediu que Roger Ebert o considerasse uma das melhores obras do realizador. É hilariante o modo como mostra os neuróticos que vivem na noite de Nova Iorque. Afinal, não são tão diferentes dos que vivem à luz do dia noutras cidades.

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Sempre achei After Hours uma desilusão porque o vi num “intervalo” entre Mean Streets e Taxi Driver ou Raging Bull. Comparado com esses, continua a desapontar. Felizmente, há muitos toques pessoais do realizador.    

after hours scorsese (3)Magoado pelo fracasso de The King of Comedy, Martin Scorsese não desistiu de procurar um trabalho que lhe dissesse algo de pessoal e concentrou-se em The Last Temptation of Christ, o livro de Nikos Kazantzakis. Assegurara os direitos de adaptação e já dera a obra a Paul Schrader em 1977, pedindo-lhe o argumento, que este finalizou em 1981.

Convencido de que poderia realizá-lo no início de 1983, Scorsese levou o projeto à Paramount, obtendo também a concordância do produtor Irwin Winkler. Encontrou-se com a viúva do autor, Eleni Kazantzakis. Quando tudo estava alinhavado, faltou o financiamento, a Paramount cancelou o projeto um mês antes de começar a rodagem, e o realizador viu-se numa situação complicada: Ou ficava parado ou realizava um filme para sobreviver.

Os executivos da Paramount mostraram-lhe outros argumentos que poderia desenvolver. Um foi Beverly Hills Cop que, na época, era um veículo para Sylvester Stallone. Vivia-se a fase da “comédia espetacular anos 80”, excessiva e patética. Scorsese teve alguma dificuldade em entender que sentido fazia aquilo. Era o que havia ao dispor. Preferiu regressar a Nova Iorque sem se envolver em semelhante patetice.

Quando chegou, o seu advogado, Jay Julien, tinha um argumento à espera: A história de um yuppie que entra na vida noturna do SoHo e fica lá preso durante uma noite de pesadelo em que tudo lhe acontece. O trabalho era da autoria de Joseph Minion, estudante da Columbia Film School, onde estudou com o realizador jugoslavo Dusan Makavejev. Minion obteve um A pelo argumento, a sua tese de fim de curso.  

Martin Scorsese recordou esses tempos, numa conversa com a sua amiga Mary Pat Kelly: “A minha ideia era retrair-me e não perder as estribeiras e tentar matar pessoas. O truque foi fazer alguma coisa. Rejeitei montes de argumentos.”

Os direitos do argumento de Joseph Minion eram propriedade dos atores Griffin Dunne e Amy Robinson, que desempenhara ‘Teresa’ em Mean Streets. Ambos tinham formado a Triple Play Productions com o objetivo de produzir uma adaptação de Chilly Scenes of Winter de Ann Beattie, (Head over Heels), comédia romântica de 1979 com John Heard e Mary Beth Hurt, realizada pela cineasta independente Joan Micklin Silver.

Griffin Dunne e Rosanna Arquette.
Griffin Dunne e Rosanna Arquette.

Dunne e Robinson dão novo nome à companhia, Double Play Productions, e lançam Baby It’s You (1983) do aclamado realizador independente John Sayles, uma obra protagonizada por Rosanna Arquette. Martin Scorsese achou que After Hours era, portanto, um regresso às raízes e às ruas de Nova Iorque, ao cinema independente e pessoal, além de uma rejeição artística dos blockbusters que Hollywood debitava na altura. (Se pensava que era mau, provavelmente não imaginava que se veria envolvido no mesmo jogo numa época como a de hoje.) Mas tem sido uma constante ao longo da carreira do cineasta. Muitas vezes, foi realizador contratado: The Color of Money, New York Stories, The Aviator, The Departed. After Hours, Cape Fear e Bringing Out the Dead foram escapatórias concebidas para o manter ativo.

Originalmente, After Hours chamava-se A Night in Soho. As condições da Fox Classics eram claras: 3,5 milhões de dólares, 40 dias de rodagem e pós-produção de quatro meses. Griffin Dunne e Amy Robinson conseguiram um empréstimo bancário depois do estúdio se comprometer com o projeto. Criativamente, Scorsese procurava, nesta comédia repleta de humor negro, uma oportunidade de se exprimir após a derrota artística de The Last Temptation of Christ, filme que não pôde fazer, transpondo as frustrações para o personagem principal. After Hours continha também referências aos excessos dos anos 70 que quase o mataram. (Como já aqui descrevi numa retrospetiva sobre Scorsese.)

O realizador com Griffin Dunne.
O realizador com Griffin Dunne.

FILMANDO-SE A SI MESMO

O nova-iorquino Paul Hackett (Griffin Dunne) é programador de computadores, “processador de texto”, é-nos dito. Com a sua vida aborrecida e solitária, é natural que sinta necessidade de fugir ao marasmo e procurar uma aventura romântica. Uma boa forma de a iniciar é, sem dúvida, ir para um café a altas horas ler Trópico de Câncer de Henry Miller… o esquema parece resultar, pois atrai as atenções de uma misteriosa a atraente mulher, ‘Marcy’ (Rosanna Arquette). Começa então a jornada surrealista de ‘Paul’, aprisionado numa Nova Iorque fora de horas, povoada de gente completamente tresloucada mas de aparência… “quase” normal.

‘Paul’ vai ter com ‘Marcy’ ao apartamento de uma amiga desta, ‘Kiki’ (Linda Fiorentino) uma artista que esculpe estátuas bizarras e é kinky nos gostos sexuais – note-se o trocadilho do nome. A partir daí, surgem estranhos personagens no caminho de ‘Paul’, os preços do Metro sobem; uma jovem suicida-se, quase rapam a cabeça ao herói num clube punk, é perseguido por uma milícia popular que o confunde com um assaltante… entre outras peripécias de uma noite normalíssima.

Linda Fiorentino e Griffin Dunne.
Linda Fiorentino e Griffin Dunne.

A obra escapa ao rótulo dos blockbusters orientados para o público a que Scorsese se aplicou em anos recentes porque está enraizada na sua vida em Little Italy, pequena comunidade na metrópole. Sob um ponto de vista autobiográfico, After Hours retrata também, dissimuladamente, as experiências que Martin Scorsese tivera com o sexo feminino; relacionamentos que o tinham deixado confundido.

O filme é também cómico no modo como mostra a paranoia americana (e das cidades). Por momentos, pensei identificar algumas pessoas que conheço. Até me faz lembrar a mim mesmo, na verdade, e o risco que se corre quando se quer ser levado demasiado a sério. Muitas vezes, cai-se no ridículo. E o cinema mostra-nos isso, se estivermos atentos.

Ironicamente, durante a produção de After Hours, Scorsese conheceu Barbara De Fina, que se tornaria a sua quarta esposa em fevereiro de 1985. O cineasta divorciara-se de Isabella Rosselini dois anos antes. De Fina, natural de New Jersey, era uma produtora que se movia no mundo do cinema de baixo orçamento. Nela, Scorsese encontrou uma companheira com quem também conseguiu estabelecer um laço profissional extraordinário.

Martin Scorsese, Barbara De Fina, e os pais do realizador, Catherine e Charles Scorsese.
Martin Scorsese, Barbara De Fina e os pais do realizador, Charles e Catherine Scorsese.

De Fina seria a produtora executiva de A Cor do Dinheiro (The Color of Money), A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ), Goodfellas e, mesmo depois de se divorciar de Scorsese, em 1991, foi produtora de O Cabo do Medo, A Idade da Inocência, Casino, Kundun, e produtora executiva de A Invenção de Hugo, além de uma curta-metragem, dois documentários e outros projetos.

Por ter crescido em Little Italy, quase ao lado de Greenwich Village, Scorsese adquiriu uma certa desconfiança, sentindo-se desconfortável perante os personagens exóticos e boémios do Village, os artistas excêntricos e doidivanas. A educação católica e o ambiente italo-americano não eram compatíveis com a cultura avant-garde estereotipada; os artistas que fazem pisa-papéis em formato de pãozinho ou esculturas em papier-mâché, como é mostrado no filme. Assim, foi uma maneira de Scorsese se observar a si mesmo pela lente.

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O título deste artigo foi retirado de uma canção dos Velvet Underground, «After Hours», de 1969, composta por Lou Reed. Contém os seguintes versos, que parecem personificar a desgraça tragicómica de ‘Paul’:

If you close the door
the night could last forever
(…)
All the people are dancing
and they’re having such fun
I wish it could happen to me…

O realizador divertiu-se com o exercício. Griffin Dunne recordou o entusiasmo frenético de Scorsese, tentando suprimir as gargalhadas, ao filmar a desgraça de ‘Paul’ na noite nova-iorquina. O cineasta trabalhou com o argumentista para recriar a sensação opressiva de Franz Kafka, um caminho que tem fracassado no cinema por cair em pontificações austeras. Realizadores “sérios” como Soderbergh ou Woody Allen já o fizeram e fracassaram. Scorsese consegue devido ao sentido de humor quase perverso e sarcástico com que aborda situações kafkianas. O personagem de ‘Paul Hackett’ é um estereótipo, um homem com tarefas mundanas no mundo laboral, enfastiado pela burocracia e com as ambições restringidas pela sociedade.

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DEPRESSA, BEM E FRENETICAMENTE

As exigências de filmar rapidamente motivaram Griffin Dunne e Amy Robinson a apresentar o realizador ao diretor de fotografia Michael Ballhaus, com quem tinham trabalhado em Baby It’s You. Ballhaus nascera na Alemanha em 1935 e dava os primeiros passos no cinema americano. Era admirador de Martin Scorsese e até acalentava o sonho de, um dia, trabalhar com ele. Com mais de 30 filmes no currículo, Ballhaus era respeitado pelo trabalho com cineastas estrangeiros como Fassbinder, com quem colaborara em 11 obras. Depressa se deram bem. Ballhaus sabia o que era trabalhar com orçamentos reduzidos, de forma rápida, com realizadores apaixonados pelo que faziam.

After Hours foi totalmente filmado de noite, mesmo as cenas de interiores – Griffin Dunne viveu uma vida de vampiro durante esta fase, como admitiu. Várias vezes, os movimentos da câmara foram improvisados. Há uma cena famosa em que ‘Paul Hackett’ toca à campainha de ‘Kiki’ e esta lhe atira as chaves. Scorsese utilizou o plano das chaves a caírem em estilo POV (do ponto de vista das chaves). Como não se vivia a era digital, a câmara foi amarrada a uma tábua e atirada sobre o ator Griffin Dunne, que correu perigo de vida – a geringonça podia-lhe ter caído em cima. O plano ficou desfocado, pelo que Ballhaus concebeu um movimento de grua rapidíssimo e mais seguro.

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Com o seu estilo frenético, Scorsese fez pequenos desenhos nas margens do guião, detalhando cerca de 500 planos que visualizava para After Hours. O horário era rígido, requerendo 16 setups de câmara por dia. A equipa técnica responsável por isto não era numerosa. Ballhaus auxiliou Scorsese a conseguir os planos desejados, rápida e eficazmente. Se conhecermos o cinema do realizador, sabemos de antemão que, embora já tenha caído no popularista, não é presa do facilitismo.

Houve planos declaradamente inspirados por Hitchcock, um “fetichismo”, como Scorsese disse, relativamente a objetos como interruptores de luz, fechaduras, chaves e rostos. “Pensei que seria interessante ver se conseguia voltar atrás e trabalhar numa coisa muito rapidamente. Tudo assente em estilo. Um exercício puramente estilístico. E mostrar-lhes que não me tinham quebrado o ânimo.”

Trabalhar nas ruas de Nova Iorque foi uma experiência que o cineasta adorou, foi como um regresso a casa – filmes sobre as ruas, passados nas ruas. Recuperou o sentido de humor e começou a olhar para o futuro com mais otimismo. Sublinhe-se que os anos 80 foram um solavanco para muitos cineastas do talento de Scorsese; as liberdades dos anos 70 foram quase engolidas pelos yuppies, Wall Street e um método (ainda) mais mecanizado de trabalho na indústria cinematográfica. O Reaganismo e o corporativismo eram agora o american way of life. Alguns realizadores escaparam, outros fizeram o que puderam, muitos espalharam-se ao comprido.

O fracasso comercial de After Hours, em que Martin Scorsese já tinha concordado com um corte substancial no salário, não melhorou a situação. Quando lhe propuseram The Color of Money, o cineasta chamou novamente o diretor de fotografia Michael Ballhaus para que o ajudasse com os aspetos técnicos doutra rodagem exigente.

O PROBLEMA DO PLÁGIO

after hours scorsese (4)Esta questão não se encontra muito divulgada, mas foi quase um escândalo em Hollywood. O jornalista Andrew Hearst referiu-o no seu blog. Sem menosprezar a qualidade do filme de Scorsese, o qual classifica de “excelente”, Hearst explica que “uma parte significativa dos primeiros 30 minutos do filme foi descaradamente retirada” de «Lies», um monólogo na NPR Playhouse (National Public Radio), da autoria de Joe Frank, emitido em 1982. O autor nunca foi oficialmente creditado pela sua contribuição. O encontro entre ‘Paul’ e ‘Marcy’ no café, os pisa-papéis, a chamada de ‘Paul’ para comprar os ditos, ‘Paul’ a perder o dinheiro no táxi quando este voa pela janela, vários detalhes. Frank processou os produtores do filme, que lhe pagaram uma boa maquia para se calar.

O caso não está divulgado no Google, em que muitos utilizadores veem uma espécie de bola de cristal. Hearst encontrou apenas, segundo diz, uma referência no website Salon, datada de março de 2000, em que Joe Frank admite que foi bem pago pelos produtores de um filme de Hollywood que plagiaram o seu diálogo, mas não refere o filme. Há referências na Wikipedia e na IMDb.

Andrew Hearst sugere que a carreira do argumentista Joseph Minion ficou seriamente comprometida devido ao incidente. E chama a atenção para outro facto: Larry Block, que desempenha o taxista no filme, surgiu em muitos dos programas de Joe Frank. Isto é, se for o mesmo Larry Block. Como era amigo de Joe Frank – e isto é especulação de Hearst –, ter-se-á tratado de um modo de compensar Frank pelo plágio de que foi alvo.

O ESTADO DE ESPÍRITO MANHATTAN

Sem ser uma das obras monumentais de Martin Scorsese, After Hours merece, sem dúvida, uma reavaliação como defendeu Roger Ebert, que o considerava um dos seus melhores filmes, ao contrário da maioria da crítica. A 11 de outubro de 1985, escreveu: “After Hours é mais um capítulo do exame contínuo de Scorsese a Manhattan enquanto estado de espírito. Está no topo, juntamente com os seus grandes filmes, Mean Streets, Taxi Driver e Raging Bull.”

“Para os nova-iorquinos”, referiu Ebert, “partes do filme parecerão, sem dúvida, um documentário. Haverá outra cidade em que a vida diária seja um desafio ininterrupto? É um filme brilhante, um dos melhores do ano. E é também muito curioso. Surge depois de The King of Comedy, filme que achei fascinante mas mal sucedido, e prossegue a tentativa de combinar comédia e sátira com uma pressão sem freios e um sentimento de paranoia dominante. Desta vez, Scorsese teve êxito. O estilo da obra desperta em nós a mesma sensação que os acontecimentos do filme despertam no herói. Interessante.”

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Correndo o risco de revelar parte do final a quem não viu ou não se recorda – como foi o meu caso –, refiro apenas que Scorsese queria concluir a odisseia de ‘Paul’ com o desgraçado preso dentro da estátua. Mostrou a versão ao pai, que lhe terá dito: “Não o podes deixar morrer!” Foi esta a opinião do cineasta britânico Michael Powell, consultor no filme e que ia casar em breve com outra colaboradora de longa data de Scorsese, Thelma Schoonmaker. Por este motivo, Scorsese alterou o final. Nos pré-visionamentos para o público, este também não apreciou o destino de ‘Paul’.

Ebert achava que After Hours era uma “versão satânica da fórmula Hitchcock, do homem inocente injustamente acusado”. Terminando com um pouco de sarcasmo e voltando à canção dos Velvet Underground: “Oh, but people look well in the dark…”

David Furtado

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