One-Eyed Jacks de Marlon Brando: As duas faces da vingança

One-Eyed Jacks era um dos filmes favoritos de Marlon Brando e o único que realizou. A ideia surgiu quando o ator ouviu falar de um livro de Charles Neider chamado The Authentic Death of Hendry Jones. Originalmente, Stanley Kubrick ia realizar, mas os diferendos com Brando afastaram-no. Ou melhor, o ator queria realizá-lo desde o início. Estreado em 1961, é a única prova que o tempo nos deixou do talento de Brando atrás da câmara.

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O argumento era pessoal para o ator, já que inclui dois dos seus temas prediletos – a ambiguidade da natureza humana e os custos terríveis da lealdade e da vingança. Há várias referências autobiográficas, como a relação de amor/ódio que tinha com o pai.

O produtor Frank Rosenberg comprou os direitos de adaptação de The Authentic Death of Hendry Jones, e terá sido este um dos “atrativos” que utilizou para interessar Brando num western baseado na relação conflituosa entre ‘Rio’, o pistoleiro mais jovem, que é traído por ‘Dad Longworth’ (Karl Malden), figura paternal e ex-colega do crime. Abandonado à mercê das autoridades mexicanas depois de um assalto malfadado a um banco, ‘Rio’ passa cinco anos na prisão com uma única ideia em mente: Vingar-se de ‘Dad’.

Karl Malden e Marlon Brando.
Karl Malden e Marlon Brando.

‘Rio’ foge e descobre o paradeiro de ‘Dad’, que passou para o outro lado da lei. ‘Rio’ e o seu novo bando pretendem assaltar o banco de uma cidade costeira da Califórnia, onde ‘Dad’ é agora xerife, homem “respeitável”, casado e com uma enteada, ‘Louisa’. ‘Rio’ seduz ‘Louisa’ com instintos vingativos, mas os dois acabam por se apaixonar.

Traduzido à letra, o título significa “valetes com um só olho, uma referência antiga às cartas em que a figura é mostrada de perfil, como o valete de espadas, de copas e o rei de ouros, como geralmente aparecem nos baralhos convencionais. Um “jack” ou “valete” é geralmente sinónimo de alguém engenhoso. “One-eyed” alude a “determinação cega”. É um termo do póquer e um trocadilho que funciona no filme a vários níveis para os dois protagonistas em confronto: Um com duas caras e o outro incapaz de nada ver exceto a vingança.

A CONTRATAÇÃO DE KUBRICK

Stanley Kubrick atraiu as atenções de Marlon Brando com o filme Paths of Glory (Horizontes de Glória). Por sugestão do produtor Rosenberg, o ator assistiu a The Killing (Um Roubo No Hipódromo). Impressionado, Brando comentou, acerca deste último, que Kubrick projetava “um estilo completamente distinto com tão pouca experiência no cinema. Era uma história tipicamente detectivesca e episódica, sem nada de extraordinário na trama, mas Stanley fez diversas escolhas bizarras e interessantes que a tornaram empolgante.”

Kubrick e o seu coprodutor James B. Harris mostraram-se interessados em encontrar-se com Brando e discutir possíveis colaborações, pretendendo fortalecer as suas reputações. Os três queriam, de início, fazer um filme sobre boxe, mas não chegaram a nenhuma conclusão. Marlon falou então do western que tinha em mãos, baseado num romance de 1956, The Authentic Death of Hendry Jones. O livro era vagamente inspirado por The Authentic Life of Billy the Kid de Pat Garrett. O argumento era de Sam Peckinpah.

Contratado para realizar, Kubrick trabalhou com Brando durante a pré-produção. Não se deram bem, e os desacordos foram-se acumulando. Stanley Kubrick não era pessoa para desistir facilmente dos seus objetivos conceptuais, assim como Brando. Os motivos que levaram ao despedimento do realizador nunca foram determinados ao certo e existem várias versões. É aqui que começam a diferir.

Kubrick achou que Brando queria realizar o filme desde o início e só arranjou desculpas para o excluir.
Kubrick achou que Brando queria realizar o filme desde o início e só arranjou desculpas para o excluir.

Um dos biógrafos de Marlon Brando, Charles Higham, afirma que Brando insistiu junto de Rosenberg para que se livrasse de Kubrick. O produtor terá obedecido sem delicadezas.

Em 1999, Frederic Raphael contou uma história diferente em Eyes Wide Open: A Memoir of Stanley Kubrick, que lhe terá sido relatada pelo próprio cineasta numa conversa telefónica. “Marlon ia protagonizar e produzir… não se decidia sobre nada e não deixava que ninguém o fizesse. Nunca acertámos a história. Nunca acertámos nada. Passam dois anos, e Marlon decide subitamente tomar decisões. Chamou todos e tivemos de nos sentar a uma mesa, onde colocou um cronómetro. Ia dar três minutos a cada um para lhe relatar os seus problemas. E a decisão seria nossa.”

marlon brando one-eyed jacks (10)Kubrick prossegue: “Três minutos depois, aquilo tocava e o tempo acabava, não importava se tinham terminado. Até que Marlon olhou para mim e perguntou, ‘Stanley, quais são os teus problemas? Tens três minutos’. E pressionou o botão. Eu disse, ‘então, Marlon, é estúpido fazer as coisas assim’. E ele diz-me, ‘já só tens dois minutos e 50 segundos’. Portanto, disse-lhe o que devia ser feito na primeira página e na segunda, e talvez já fosse na quinta quando ele disse, ‘acabou, já tiveste os teus três minutos’. E foi então que eu lhe disse, ‘Olha, Marlon, por que não te vais foder?’ Ele foi para o quarto, bateu com a porta e não saiu. Ficámos ali especados até irmos todos para casa.”

“Pensei que ele me ligasse, mas nunca o fez. A verdade é que foi tudo um esquema. Ele queria realizar o filme e, eventualmente, acabou por fazê-lo. Queria-me fora dali, mas não arranjou outra forma. O Marlon era assim.”

O DESPEDIMENTO DE KUBRICK…

marlon brando one-eyed jacks (11)Um biógrafo de Kubrick, Vincent Lobrutto, contradiz parte da versão: O realizador foi contratado em maio de 1958 e dispensado em novembro, logo não pode ter passado dois anos no projeto. Por outro lado, a família, amigos e colaboradores de Kubrick não dão crédito ao livro de Raphael. Isso não significa necessariamente que o episódio não tenha sucedido.

Marlon Brando ansiava fazer um western desde meados dos anos 50. Na primavera de 1958, decidiu convidar Kubrick para o realizar, entregando-lhe o argumento de Sam Peckinpah. Kubrick concordou, na condição de alterar substancialmente o guião. A 12 de maio de 1958, Kubrick é contratado e Calder Willingham é convidado para rever o argumento com o realizador.

Quando leu esta versão, Brando não gostou. De início, Marlon e Stanley deram-se bem. O ator disse a uma jornalista, Joan Stang, que o cineasta “trazia a um novo projeto um ponto de vista original”. Com o passar das semanas, o ator começou a ter dificuldades em lidar com Kubrick, achando-o difícil, e pensou duas vezes se devia permitir que o realizasse. O realizador, por seu lado, estava cada vez mais aborrecido com as intermináveis conferências acerca do argumento, que se prolongaram durante o verão.

Em agosto, Kubrick já estava mais interessado na proposta de adaptação cinematográfica de Lolita. Nesta altura, o projeto for intitulado One-Eyed Jacks. Kubrick ainda achava o guião inaceitável. A Paramount começou a ficar impaciente, e o chefe de produção Y. Frank Freeman pressionou Brando para que acabasse com os atrasos e começasse a filmagem.

Outro motivo de discórdia eram as escolhas de Marlon para o elenco. A protagonista feminina não foi fácil de decidir. O filme desenrola-se em Monterey, na década de 1880. Nessa época, a região tinha uma considerável população asiática, e Brando achava mais consistente que o seu interesse amoroso fosse uma rapariga chinesa. Kubrick perguntou-lhe quem sugeria para o papel, e o ator indicou a sua amante na altura, France Nuyen, decisão que Kubrick rejeitou, dizendo que Nuyen não sabia representar.

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Apesar dos diferendos, Kubrick mostrou-se disposto a fazer certas concessões. Durante seis meses, ambos trabalharam em diversas versões do argumento sem conseguirem chegar a acordo.

É então que o ator começa a dominar as reuniões sobre o argumento, ao aperceber-se que Kubrick não podia ser manipulado a seu gosto. Marlon tinha um gongo oriental a seu lado e, quando a discussão não seguia o rumo que lhe agradava, tocava-o. E tinha sempre presente um “yes man”, para concordar com ele. Quando Brando despediu Willingham, o único aliado de Kubrick, este suspeitou que não podia vencer a contenda.

Malden: Contratado à força.
Malden: Contratado à força.

O início das filmagens foi marcado para dezembro. A meio de novembro, houve um confronto entre Kubrick e Brando em casa deste, especificamente devido à sua insistência em contratar Karl Malden, que era seu amigo desde A Streetcar Named Desire (1951). Kubrick queria Spencer Tracy, e Brando afirmou que já contratara Malden sem dizer nada a Kubrick.

“Marlon, não consigo entender sobre que é o filme”, disse finalmente Kubrick. O ator respondeu: “Este filme é sobre eu ter de pagar 250.000 dólares por semana a Karl Malden”, respondeu Brando, que, com cada semana de atraso, perdia mais 250.000. “Bom, se é esse o assunto”, respondeu Kubrick, “acho que estou a fazer o filme errado”.

Foi a gota de água. Um dos assessores de Marlon chamou Kubrick à parte e abordou a hipótese de que Kubrick podia ser despedido. “Acho que sobrevivo. Sempre sobrevivi”, disse o realizador. A 21 de novembro, Walter Seltzer, o produtor executivo, disse a Kubrick: “Isto não está a resultar, Stanley.” Comunicava-lhe que estava efetivamente despedido. Kubrick recebeu 100.000 dólares, salário que teria ganho por realizar.

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Nessa ocasião, Seltzer deu a entender que Brando sempre quisera realizar e contratara temporariamente Stanley para agradar aos chefes do estúdio, desconfiados com a perspetiva de uma estrela inexperiente se encarregar da realização. Depois de se livrar de Kubrick, Brando disse à Paramount que se via obrigado a assumir a realização, por não haver tempo de encontrar quem o fizesse antes do iminente início da produção. E também porque nenhum realizador que abordara queria o trabalho, (talvez por terem ouvido o que se passara com Kubrick).

De facto, Brando admitiu ter enviado o argumento a Sidney Lumet e Elia Kazan e a “mais dois ou três realizadores. Ninguém o queria, por isso, tive de o fazer eu. Filmámos a maioria em Big Sur e na península de Monterey, onde dormi com muitas mulheres bonitas e me diverti à brava”.

O contrato de Stanley Kubrick estipulava que, caso abandonasse o projeto, não podia discutir os motivos. O cineasta apenas emitiu um comunicado dizendo que se demitia “com profunda consternação”, citando a sua admiração por Brando e chamando-lhe “um dos maiores artistas do mundo”. “O Sr. Brando e os seus assistentes foram muito compreensivos e entenderam o meu desejo de começar a trabalhar em Lolita.”

Na verdade, Kubrick ficou aliviado ao saber que fora Marlon Brando a substituí-lo. Livrou-se de uma produção que parecia destinada ao fracasso. Achou que, se Marlon tivesse contratado outro realizador, podia dar a impressão que ele próprio não tinha talento. “Se for o Marlon a realizar, saio disto de cabeça erguida.”

Em 1959, Colin Young escreveu, num artigo sobre jovens realizadores, que Kubrick abandonara One-Eyed Jacks, a “produção independente” de Marlon Brando, para se concentrar em Lolita. Os factos provaram que não era verdade: Kubrick não tinha, por essa altura, um argumento viável para avançar com a produção de Lolita. Por esse motivo, quando Kirk Douglas lhe pediu para substituir Anthony Mann na realização de Spartacus, aceitou.

Só 10 anos depois, Stanley Kubrick abordaria publicamente o sucedido: “A nossa relação terminou amigavelmente, poucas semanas antes de Marlon começar a realizar.” Com “amigável”, Kubrick referia-se ao facto de ter sido pago por um trabalho que não fez.

FILMAGEM

Pina Pellicer e Brando.
Pina Pellicer e Brando.

O ator envolveu-se em todos os aspetos de One-Eyed Jacks, desde o guarda-roupa aos cenários e iluminação. Ordenou até que dúzias de cavalos fossem transportados até sua casa, em Mulholland Drive para que lhes pudesse fazer “audições”.

Escolheu locais atrativos no Death Valley, onde costumava passear de moto e também na costa de Monterey, fotografados por Charles Lang, que seria nomeado para um Óscar pelo seu trabalho. Antes de começar a rodagem, Marlon foi para a sua quinta em Mundelein, onde praticou com uma câmara, tentando apreender as dinâmicas de composição.

Em dezembro de 1958, começou a rodagem, à qual assistiram vários repórteres. Marlon ordenou que captassem várias imagens do Oceano Pacífico, o que levou os jornalistas a escreverem que “o perfecionista aguardava a onda perfeita como um surfista”. O realizador não gostou das insinuações: “Já sei que é inútil tentar suprimir histórias dessas. Nem me dou ao trabalho de as negar. As pessoas podem acreditar no que quiserem.”

Segundo diversos relatos, Brando esperava horas pela luminosidade perfeita ou pela formação de nuvens certa sobre o oceano. Depois do afastamento de Kubrick, Sam Peckinpah e Calder Willingham, foi Guy Trosper que ficou, improvisando e reescrevendo constantemente o guião com Brando, entre os takes e a preparação das cenas.

“Por vezes, isto passava-se hora a hora, outras, minuto a minuto. Algumas cenas, filmei-as repetidamente sob diferentes ângulos e com diferentes diálogos e atos, pois não sabia o que estava a fazer. Inventava coisas no momento, sem saber para onde ia a história. Também empatei para ganhar tempo, tentando entender a história dentro da cabeça, enquanto esperava que o elenco pensasse que eu sabia o que estava a fazer.”

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A história, que contém excelentes desempenhos, não só de Brando como do restante elenco, desenrola-se num contexto western, mas pode ser encarada como um drama psicológico. Até como western é estranha, pois nunca se viu um filme de cowboys passado quase todo à beira-mar.

Muitos anos depois, o ator falou sobre One-Eyed Jacks de forma descontraída. Na época, foi mais enigmático: “Com este filme, pretendo demolir a cidadela dos clichés.” Guardou para si próprio os planos para o projeto. Sabia-se que pretendia fugir aos arquétipos do género – os cavaleiros errantes, os vilões de chapéu negro e as mulheres unidimensionais e virtuosas.

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Sem Kubrick no caminho, escolheu os atores segundo o seu critério: Miriam Colon do Actors Studio e diversos veteranos como Elisha Cook Jr., Slim Pickens e John Dierkes. Pina Pellicer foi escolhida pela sensibilidade invulgar, Katy Jurado era a atriz mexicana de High Noon (O Comboio Apitou Três Vezes); Ben Johnson, que participara em westerns de John Ford, tinha sido cowboy na vida real, duplo, rancheiro e vencera diversos rodeos antes de enveredar pelo cinema.

Com o seu sotaque do Oklahoma e maneirismos descontraídos, Johnson foi uma das inspirações de Brando, que o observou atentamente. Durante a rodagem, os dois conversaram sobre a ideia de, um dia, colaborarem num projeto acerca dos índios verdadeiros, não os dos filmes; como falavam, como se sentiam e como sofriam. Johnson, que, à primeira vista, parece o protótipo do americano do oeste, tinha raízes Cheyenne e conhecia bem a História americana.

“Talvez tenha gostado tanto do filme porque me deixou tantas memórias agradáveis das pessoas que nele entraram”, recordou Brando. “Ben Johnson, Slim Pickens e, em especial, Karl Malden que interpretou ‘Dad’. Não quero repetir a experiência – um realizador tem de se levantar muito cedo –, mas foi divertido tentar criar a realidade, tornar uma história interessante e trabalhar com atores.”

A inexperiência originou algumas situações caricatas. “No primeiro dia de filmagens, eu não sabia o que fazer, por isso, o operador de câmara deu-me um daqueles visores óticos que os realizadores usam para compor uma cena. Espreitei por ele, abanei a cabeça e disse, ‘não sei… é difícil dizer como vai ficar esta cena, porque estamos muito longe…’ O cameraman aproximou-se e, delicadamente, virou-o ao contrário. Eu estava a espreitar pelo extremo errado.” “Se achas isto mau, espera até chegarmos à quinta semana”, disse o ator, rindo-se.

Esta é a versão do próprio. Outra é de um executivo que apareceu certo dia, para ver Marlon Brando realizar e lhe disse que espreitava pelo lado errado do aparelho. “Merda! Talvez seja por isto que o filme está tão atrasado!” Ao tentar ensinar Karl Malden a manejar um chicote, na cena em que é chicoteado, Brando deslocou um ombro. Mais um atraso.

O coprotagonista insistiu: “Achei que Marlon era um realizador fantástico. Eu confiava nos olhos dele. Mal começámos, ele disse-me, ‘quero que o maquilhador trabalhe contigo, quero-te ver com uma juba de leão’”. A peruca que Malden usa no filme agradou ao ator: “Achei isso brilhante. E ele sabia exatamente como enquadrar um plano. Estava sempre a surpreender-nos. E improvisava com todos, até com os figurantes. Costumava dizer ao elenco, ‘esqueçam o guião; era o que eles faziam nos filmes mudos. Para começar, façam o que quiserem. Serão mais livres se improvisarem, há menos restrições’.”

John Baxter, biógrafo de Kubrick, alega que os atrasos se deveram a estas insistências de Brando com as improvisações. Durante a cena em que é “chicoteado”, o ator ofereceu recompensas de 300 dólares, do seu bolso, aos figurantes que tivessem as reações mais eficazes. Stanley Kubrick, disciplinado como era, nunca poderia ter funcionado nestas condições. No final, as perdas financeiras do filme viriam a terminar as ambições de Brando enquanto realizador.

O realizador Jacques Tati visita Brando durante as filmagens.
O realizador Jacques Tati visita Brando durante as filmagens.

O ator disse que não se sentiu embaraçado, mesmo quando ouviu risos à socapa atrás de si. “Na quinta semana, e até no quinto mês, eu ainda tentava aprender. Achei que demoraria três meses a fazer o filme, mas isso esticou até seis, e os custos duplicaram, atingindo o montante de mais de seis milhões. Naturalmente, isto não agradou à Paramount, que o estava a pagar.”

Os executivos da Paramount enviavam emissários ao set, visto que o filme lhes estava a custar 50.000 dólares por dia e ainda teriam de assegurar a distribuição. Marlon respondeu que estava a fazer um filme, não um orçamento. Quando a Paramount o pressionou para cortar duas cenas cruciais que, segundo Malden, “tiravam a força à história”, o elenco fez greve. De nada serviu.

Teimoso, o realizador ignorou alguns reparos da equipa: Numa sequência, ‘Rio’ devia arrancar uma rosa de um arbusto e fantasiar sobre ‘Louisa’ diante de Ben Johnson. A filmagem durou tanto que um assistente gritou, “Sr. Brando, não acha que devíamos terminar o plano?” O ator virou-se para Johnson e disse, com sotaque do oeste, “Ben, vai para onde quiseres durante três ou quatro dias, porque eu vou ficar aqui sentado nesta rocha.”

Pina Pellicer e Brando no aniversário do ator. Pellicer, atriz de grande talento (e este filme é disso prova) faleceu muito jovem.
Pina Pellicer e Brando no aniversário do ator. Pellicer, atriz de grande talento (e este filme é disso prova) faleceu muito jovem.

Nas fotos da rodagem de One-Eyed Jacks, Marlon surge prestes a atacar o bolo que lhe foi oferecido pela equipa pelo seu 35º aniversário, celebrado durante a rodagem. A data foi partilhada com a sua coprotagonista Pina Pellicer e, na mesa, pode-se ler o dístico, “não alimentem o realizador”.

Às vezes, Marlon Brando pregava partidas aos atores. “Numa cena, Ben Johnson discute com um dos seus compatriotas e mata-o. Não gostei da expressão no rosto do outro homem antes de ser alvejado, por não demonstrar medo da morte. Queria que exprimisse choque e terror, portanto disse, ‘vamos ensaiar outra vez’. Coloquei-o numa sela pousada em cima de uma estaca de madeira e, sem o informar, mantive a câmara a filmar. Aproximei-me e disse, ‘Larry, nesta cena quero que tu…’ Então, dei-lhe um grande estalo e fugi. Ele ficou com uma expressão maravilhosa, tal como eu queria, mas batera-lhe com tanta força que lhe arrancara o bigode postiço e não pude usar a cena.”

O próprio Brando usou métodos invulgares. “Numa cena, era suposto eu embebedar-me, fugir da chuva e violar uma rapariga chinesa. Não se consegue simular embriaguez num filme. Numa peça de teatro, sim, mas não num plano aproximado, por isso, achei que a cena resultaria melhor se me embebedasse. Comecei a beber cerca das 16:15 desse dia, depois de dizer aos outros atores o que queria que eles fizessem. Nunca foi preciso muito álcool para me deixar afetado, por isso, pouco depois, já andava a cambalear e a agarrar a rapariga. Infelizmente, estava demasiado bêbedo para terminar a cena e, uns dias depois, voltei a embebedar-me e filmei-a novamente. Ainda não estava bem, e tive de o fazer várias tardes até ficar tudo correto.”

A filmagem progrediu com tanta lentidão e meticulosidade que a Paramount aumentou a pressão, à medida que os custos aumentavam. Com idealismo (e sarcasmo), Brando recordou aos executivos que se vivia uma Era de expansão, havia um baby-boom a caminho; o Alasca era um novo Estado, o Havai sê-lo-ia em breve, havia novas vacinas, o presidente americano Eisenhower recordava que as coisas nunca tinham sido tão boas, havia satélites americanos no espaço… a Paramount devia apostar em grandes filmes e não ser avarenta com uma obra-prima… O estúdio recuou.

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Malden é ótimo como o traiçoeiro e velhaco ‘Dad’. No entanto, a atriz que sobressai é Pina Pellicer, a jovem ‘Louisa’, que demonstra um talento e uma sensibilidade raramente vistos no cinema, na época e até num western e… como se não bastasse, no seu primeiro filme. Tragicamente, Josefina Yolanda Pellicer Lopez Llergo, que chegou a ser uma das mais amadas atrizes mexicanas, suicidou-se em 1964, com apenas 30 anos, ao que se sabe, devido a depressão.

FILME MALDITO OU MALDITO FILME?

A maratona de meio ano a filmar terminou a 2 de junho de 1959. Seguiu-se a montagem.

“Quando voltámos a Hollywood, alguém disse que tínhamos suficiente material para um filme de seis ou oito horas. Comecei a tratar da montagem, mas depressa me fartei e entreguei o trabalho a outra pessoa. Quando terminámos, a Paramount disse que não gostava da minha versão da história; eu tornara-os a todos nuns mentirosos, excetuando a personagem de Karl Malden. O estúdio cortou o filme aos bocados e transformou-o num mentiroso também. Por essa altura, todo o projeto me aborrecia, por isso, abandonei-o.”

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Também como editor, Brando era inexperiente e perdia a concentração com facilidade. Sublinhe-se que não foi uma fase boa, a nível pessoal. O seu psicanalista Bela Mittleman faleceu. A meio da filmagem, a esposa de Brando, Anna Kashfi, pôs fim ao casamento e preparava-se agora para se divorciar devido às inúmeras infidelidades do marido (que não o contestou).

Brando e Kashfi envolveram-se mesmo numa quezília que descambou em violência física à saída de um escritório de advogados; o ator perdeu a custódia do filho, Christian, do qual tinha saudades quando filmava, e o relacionamento entre Marlon e o pai piorou. Quem mais sofreu, diz-se, foi Christian, que passou o tempo entre o pai e a mãe, com baby-sitters, tornando-se confuso e desorientado.

Brando trabalha então em The Fugitive Kind, de Sidney Lumet, que estreou em 1959, sendo mal recebido pela crítica. Ainda tentou fazer a montagem de One-Eyed Jacks enquanto filmava com Lumet, o que se revelou impossível. A única opção que restava a Brando era entregar o destino do filme à Paramount.

O célebre fotógrafo de cinema Sam Shaw foi dos poucos a assistir ao material em bruto, afirmando que era “uma obra-prima, um western verdadeiramente romântico”. Os executivos acharam-no uma confusão total, reduzindo seis horas de material a duas horas e 22 minutos. Alguns diálogos e reações dos personagens ficaram desfasados e descontextualizados. A obra só foi lançada mais de um ano depois, a 30 de março de 1961, sendo mal recebida. A The New Yorker chamou-lhe um “mau filme com muitos rasgos de perspicácia”.

Karl Malden não gostou: “Se o tivéssemos feito da maneira que Marlon queria, como uma tragédia grega, podia ter sido um western inovador. Um clássico.” Quanto a Brando, suspirou depois de assistir à versão final. “Qualquer pretensão que alguma vez tive de ser artístico não passa agora de uma esperança distante e gélida.”

O ator ficou amargo e desiludido consigo mesmo e com Hollywood, especialmente quando os estúdios decidiram anexar um final feliz a One-Eyed Jacks. Foi um dos fatores que motivaram o crescente antagonismo entre o ator e a indústria. Enquanto realizador, Brando foi nomeado pela Directors Guild of America. E foi premiado, juntamente com Pina Pellicer, no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.

A história conturbada da produção de One-Eyed Jacks ajuda a explicar a quantidade de edições em DVD. Desde 1998, foram lançadas cerca de 20, a maioria delas baseadas num Laserdisc da Paramount, por editoras em domínio público, com capas diferentes – embora o conteúdo seja idêntico –, muitas em formato pan & scan, com problemas de cor e em versões truncadas.

A desaparecida Front Row Features editou a melhor versão, a nível de imagem, semelhante à da Brentwood. A da Digiview é de evitar. Em 2011, a edição em Blu-ray, que apregoava maravilhas, foi uma desilusão – a imagem ainda é pior que em DVD. O historial problemático deve-se alegadamente a problemas técnicos na transferência do formato VistaVision para alta-definição, conjugado com burocracias da Paramount.

O estúdio lançou o filme em DVD em França com o título La vengeance aux deux visages. Foi esta a versão que vi e, apesar das cores deslavadas e créditos iniciais em francês, é bastante razoável. E o preço é baixo. Mas já esgotou… Em Portugal, o filme nunca estreou e recebeu a ridícula denominação de Cinco Anos Depois.

O tempo passou, mais do que os cinco anos em que ‘Rio’ aguarda pela vingança, ajuste de contas que não corre previsivelmente. E também não era previsível o destino da obra. One-Eyed Jacks transformou-se num filme de culto, admirado pelos mesmos espectadores que apreciam grandes westerns como Red River ou The Searchers. Acabou por vingar.

David Furtado

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