Blue de Joni Mitchell: Música sem defesas

Blue é considerado um dos álbuns mais importantes da história da música. Demonstrando a honestidade sem compromissos da cantora/compositora, é uma obra ambivalente que aprofunda como poucas a natureza complexa dos sentimentos e relações. Este quarto álbum foi também o maior sucesso da carreira de Mitchell. Em janeiro de 2000, o New York Times incluiu Blue numa lista dos 25 álbuns que representaram “pontos de viragem na música popular do século XX”. Além das opiniões de Joni Mitchell acerca do trabalho, também abordo as canções uma a uma, tal como em artigos anteriores.

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Com esta obra, Joni Mitchell inventou a sua própria terapia, uma forma de lidar com vários tipos de sofrimento. Como o título sugere, Blue explora estados de espírito melancólicos. Contudo, há um otimismo nalgumas letras e melodias que equilibra a balança, um modo de transformar situações emocionais tristes, e a energia destrutiva, em qualquer coisa de construtivo. Por estas razões, devido a esta “clarividência” e ao talento de Mitchell, o álbum tornar-se-ia um marco quase impossível de superar. No processo, Joni encontrou um modo de confortar outros, dando origem à curiosa frase: “Antes do Prozac, havia Joni Mitchell.”

joni mitchell blue (16)Mitchell nunca mais surgiria de forma tão aberta e reveladora. Os álbuns seguintes são mais irritados, sem deixarem de possuir muitas das mesmas características. Mas tanta vulnerabilidade, não. Como a própria disse ao New York Times: “Limpei a secção de psicologia e religião de várias livrarias, procurando uma explicação para o que me estava a acontecer.”

Em Blue, Joni Mitchell pôs em causa a celebridade para que a sua humanidade fosse tangível. Além disso, não achava que as suas canções, até então, fossem totalmente honestas. “Eu fazia música muito diferente daquela que adorava.”

“Raramente há uma nota de desonestidade nos vocais”, disse Joni a Cameron Crowe. “Nessa fase, eu não tinha defesas pessoais. Sentia-me como o celofane que envolve um maço de cigarros. Sentia que não tinha quaisquer segredos a esconder do mundo e que não conseguia fingir ser forte na minha vida. Ou feliz. Mas a vantagem disto, na música, é que também não houve lá defesas também.”

As batalhas com a depressão, entre as personalidades criativas, estão documentadas. Muitos artistas exploraram estas sensações em busca de catarse, mostrando as suas descobertas, uma forma de autodefesa ou autossobrevivência. Tal como Hemingway escreveu numa carta a F. Scott Fitzgerald, “usa essa maldita dor sem fazer batota”. Nos artistas, o processo criativo torna-se, por si só, um modo de demonstrar que se dominou, pelo menos em parte, o sofrimento e se conseguiu fazer das trevas luz. Foi esta a principal força motriz de Joni Mitchell em Blue, a julgar pelas declarações da autora:

joni mitchell blue (6)“Fiquei muito deprimida, a ponto de achar que já não era um fardo com o qual sobrecarregar os meus amigos. Precisava de falar com alguém que fosse muito indiferente. Já tinha pensado imenso de antemão acerca do que me atormentava, pelo que não havia grandes descobertas a fazer. Fui ter com ele… e comecei a falar sem parar, mal entrei – o que despoletou 40 minutos a falar sobre tudo o que eu achava que me preocupava, incluindo uma descrição de mim própria como uma pessoa que nunca falava, o que, naturalmente, ele achou difícil de entender! Mas é verdade que, na vida diária, eu andava praticamente catatónica.”

Mitchell achou uma situação irónica: Disse ao terapeuta que, por muito mal que se sentisse, tinha de fazer outro disco. O médico deu-lhe o seu cartão, dizendo para lhe ligar quando se sentisse suicida. Com sérias dúvidas de que esta “ajuda profissional” pudesse produzir resultados, procurou outra forma, o que não foi nada fácil:

“Eu estava no meu ponto mais indefeso quando fiz Blue. Bom, estar completamente indefeso neste mundo não é boa coisa. Pode dizer-se que tive um esgotamento mas continuei a trabalhar. Nesse processo, quando nos vamos abaixo, há outras forças que também surgem, a clarividência e… tudo se torna transparente. É uma espécie de situação que nos ultrapassa, em que mais informação entra, mais verdade do que aquela com que nos é possível lidar. E, no meio disto tudo, escrevi o disco.”

Joni Mitchell

“É provavelmente o disco mais puro que alguma vez farei”, ponderou Joni Mitchell. “Para sobreviver neste mundo, temos de ter defesas… mas elas são, na verdade, uma espécie de pretensão. E, nessa altura da minha vida, as minhas foram-se… de facto, foi uma grande oportunidade espiritual, mas ninguém à minha volta sabia o que se passava. Eu só sabia que tudo adquirira uma espécie de transparência. Eu via-me com tanta clareza. E via os outros com tanta clareza que não conseguia estar com pessoas. Notava todos os artifícios num tom de voz. Talvez fosse resultado de um esgotamento nervoso. Seja lá o que o provocou, era um estado de consciência diferente, não induzido por drogas.”

joni mitchell blue (22)“A minha pele era ‘fina’. Era só nervos expostos. Portanto, não havia capacidade para fingir. As coisas que as pessoas adoram, agora – a atitude, os artifícios e as poses –, eu não era capaz dessas coisas. Nunca mais ficarei assim e nunca mais farei um álbum assim.”

Mitchell evocou Charlie Parker, procurando explicar os motivos que a levaram a fazer Blue e o que aprendeu:

“É um álbum muito puro; tão puro como Charlie Parker. Não há muitas coisas puras na música. Charlie Parker tocava uma ópera pura da sua alma – especialmente quando se encontrava muito doente. Eu não tinha defesas. E, quando não as temos, a música torna-se ‘santificada’ e consegue comunicar. Tal como disse um grupo de raparigas que me abordou num bar, ‘antes do Prozac, existias tu!’ e, em especial, esse álbum. De alguma forma, tinha mais poder do que uma aspirina para o sofredor, e julgo que parte disso se deve ao facto de ser extraordinária e emocionalmente honesto…”

“VOCÊS NEM ME CONHECEM”

Original photography by Jack Robinson. www.robinsonarchive.comUm dos motivos por que admiro Joni Mitchell (para além do seu talento) é por raramente ter caído nas armadilhas do ego e da autopromoção desmesurada que integra o mundo do espetáculo desde que há memória. A promoção é inerente ao negócio, mas quando se torna exagerada, geralmente é porque não há grande conteúdo, como hoje acontece com as estrelas empacotadas do cinema e da música. Quando o público queria uma coisa, Joni não cedeu às pressões e deu-lhe outra. Foi mais ou menos isto que exprimiu ao longo da sua carreira, classificando o meio musical de “pocilga”. Já em 1969, a Rolling Stone divulgava que Mitchell se ia retirar. Segundo disse numa entrevista:

“Acima de tudo, a estrela pop é muito autopromocional. Sabes, coisas do género, ‘sou a maior amante, queridos!’ A natureza da besta consiste em apresentarmo-nos, durante os primeiros anos, como uma espécie de ídolo dos adolescentes. De início, escrevi aquelas canções extremamente pessoais como «Marcie» em jeito de resposta aos grandes rugidos do público. Eu ficava ali a receber aquela adulação e afeto em massa e pensava: ‘O que estão a fazer, todos vós, vocês nem me conhecem.’”

“O afeto não surge sem qualquer tipo de intimidade, como a que se adquire numa relação entre duas pessoas. Por isso, pensei, ‘é melhor que saibam a quem estão a sorrir, aqui em cima. E comecei a desencobrir cada vez mais os meus conflitos e sentimentos. Uns quatro anos depois… julgo que isto não é mais do que a natureza da imprensa, eles construíram-nos e acham que é tempo de nos demolirem. Portanto, comecei a receber muitas atenções desfavoráveis. Na mesma altura, começou a ser cada vez mais difícil cantar aquelas canções íntimas em festivais de rock. Quando mais público eu atraía, mais honesta queria ser”, riu-se Mitchell.

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A cantora sempre teve uma relação complicada com a fama e os fãs fervorosos que seguiam todos os seus passos. Estas pessoas confundiam a imagem de Joni com qualquer verdade absoluta. Houve um que acampou durante anos em frente a sua casa, por acreditar que Mitchell lhe enviara uma mensagem pessoal acerca da sua irmã falecida em «This Flight Tonight».

joni mitchell blue (4)Tais episódios de adulação afetaram profundamente Mitchell e, várias vezes, a compositora falou, nas suas canções, sobre a fama e o custo espiritual que implica. Tais perigos foram abordados em «For Free», por exemplo, na qual descreve um clarinetista que toca na rua, “de graça” e que “toca mesmo bem”, mas que é ignorado por não ser famoso. Mitchell contrasta esta imagem com a sua própria, uma estrela que vive em limusines porque apareceu na TV.

Esta atitude manteve-se constante ao longo das décadas, causando ausências prolongadas das atenções públicas. Em 1997, numa entrevista à Vanity Fair, Joni Mitchell voltou à carga: “Adoro fazer discos e detesto falar com a imprensa. Foi assim que Mao fez uma lavagem cerebral à China, é uma tortura oriental. Supõe-se que sejamos um ícone que tudo transcende.”

No álbum ao vivo Miles of Aisles (1974), Joni falou da situação: “Para mim, houve sempre uma coisa que distinguiu atuar de pintar, sabem? Um pintor pinta um quadro, e é isso. Mais nada, entendem? Sentiu a alegria de o criar e pendura-o numa parede qualquer, alguém o compra e volta a comprar, ou talvez ninguém o compre, e ele fica numa casa qualquer até à morte dele. Mas nunca ninguém lhe diz, tal como nunca ninguém disse a Van Gogh, ‘pinta outra vez uma Noite Estrelada, meu’. Entendem, ele pintou-a e assim ficou.”

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A frase da canção de Kris Kristofferson, «Me and Bobby McGee», popularizada por Janis Joplin, foi também citada por Mitchell. “A liberdade é enganadora… só mais uma palavra que significa não ter nada a perder. Implica muita solidão.”

Kristofferson foi um dos primeiros a comentar o álbum quando este estava terminado, ficando estupefacto: “Fui a casa de um amigo e pu-lo a tocar. E ele disse, ‘Joni, guarda alguma coisa para ti’. Foi-lhe difícil encará-lo. Havia um estranho sentimento de respeito.”

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GRAVAÇÃO E ORIGENS: A VIAGEM

O disco foi gravado praticamente em reclusão, devido ao estado emocional de Joni. “Se olhavam para mim, eu começava a chorar. Tivemos de trancar as portas para fazer esse disco. Não era permitida a entrada a ninguém. Socialmente, eu estava um desastre completo.” A compositora evocou Nietzsche e os poetas/penitentes de Assim Falou Zaratustra, que escreviam com o próprio sangue.

joni mitchell blue (9)A gravação terminou no início de março de 1971 e as fitas foram enviadas para processamento. Pouco depois, Mitchell avisou a editora que queria alterar duas faixas e a sequência dos temas. Dois foram excluídos: «Hunter» e «Urge for Going», que pré-datavam a conceção do álbum e só surgiriam mais tarde. Mitchell substituiu-os por «All I Want» no início e «The Last Time I Saw Richard» no fim.

A palavra “blue” surge em vários temas: “My old man, keeping away my lonesome blues”, “so you write him a letter and say ‘her eyes are blue’, “blue, songs are like tattoos”, “all the news of home you read, just give you the blues”, entre outros exemplos. Até a capa do disco é azul.

As origens de Blue remontam a finais dos anos 60, quando Joni Mitchell comprou uma propriedade na Columbia Britânica. Antes de começar a decorar a casa, a compositora decidiu tirar uma folga, passando quase todo o ano de 1970 a visitar lugares que achava serem mágicos. Acabara de vencer um Grammy por melhor performance folk por Clouds e um disco de ouro por Ladies of the Canyon. Cancelara também dois concertos de grande notoriedade, no Carnegie Hall nova-iorquino e no Constitution Hall de Washington.

Um dos destinos foi a Grécia. Matala, em Creta, era uma pequena vila que se tornara local de abrigo para a juventude perdida – vivia-se por pouco dinheiro. Acompanhada por uma amiga poetisa chamada (adequadamente) Penelope, Mitchell passou algum tempo em Matala, recordando a experiência em «Carey»: “Matala estava cheia de miúdos vindos de todo o mundo que procuravam o mesmo que eu, mas que não conseguiam fugir ao estilo de vida californiano.” Mitchell esperava fugir à celebridade, mas acabou por se envolver no mesmo estilo de vida da Califórnia, tal como os jovens.

Na mala, Mitchell levou um dulcimer, instrumento parecido com uma harpa e cuja denominação em português é “saltério”. Fora construído por uma luthier de Los Angeles, Joellen Lapidus, uma “rapariga dinamite”, como lhe chamou Mitchell no concerto dado na BBC. O dulcimer surge em vários temas de Blue.

É um lugar-comum dizer-se que a grande arte surge do sofrimento, e tal também se tornou um cliché quando se fala de Blue. A autora afirmou: “Tudo somado, prefiro o divertimento. Mas a luz sem as trevas – e mesmo as situações negativas – não é tão valiosa. E uma grande beleza pode surgir do que é negativo. Se atravessamos uma fase má na vida e somos capazes de a transformar em qualquer coisa, isso é um maravilhoso entusiasmo. Demos a volta no yin/yang de tudo, extraímos o melhor de uma situação negativa.”

TEMA A TEMA

joni mitchell blue (15)As análises “musicológicas” acabam por retirar a magia à arte, muitas vezes. Saber sobre quem é uma canção ou por que foi escrita outra, são questões que os próprios compositores nunca gostam de abordar diretamente, por acharem que retiram a quem ouve a hipótese de as integrarem nas suas vidas ou de com elas se identificarem. Concordo e compreendo. Bob Dylan disse uma vez, quando lhe perguntaram, “as suas canções são acerca de quê?” “Oh, algumas cerca de quatro minutos, outras cerca de cinco, e algumas, acreditem ou não, cerca de 11 ou 12.”

Todos os temas de Blue têm um background ou uma inspiração. Quando ouvi o disco pela primeira vez, desconhecia-os e ainda acho mais interessante apreciar o álbum dessa forma. Ainda hoje há debate, entre críticos e fãs, acerca do que fala, em concreto, ou sobre quem é esta ou aquela canção. Como disse Susan Sontag, “interpretar é empobrecer, esvaziar o mundo para estabelecer um outro mundo ensombrado de significados”. De qualquer modo, em Blue, os temas são tão universais que isso passa para segundo plano.

All I Want      

joni mitchell blue (14)A viagem à Grécia tornou-se terapêutica. Mitchell virou costas a uma situação previsível, tanto a nível profissional como pessoal. Graham Nash queria casar com ela, mas a compositora recusou por não se querer sentir “ancorada”. Quando regressou aos EUA, dedicou-se a gravar o disco que começa com a seguinte frase: “Estou numa estrada solitária e viajo, viajo, viajo, à procura de algo. O que poderá ser?”

Uma das coisas que terá aprendido, segundo revelaria, foi a importância do momento e de usufruir das experiências quando estas acontecem, já que o resto escapa ao nosso controlo. O destino pouco importa, até porque se pode revelar uma desilusão.

A canção lida com a ambivalência de um relacionamento amoroso, “odeio-te um pouco, amo-te um pouco, adoro-te quando te esqueces de mim”. Apesar disto, há um ponto de vista positivo: “Tudo o que quero que nosso amor faça é que traga ao de cima o melhor de ti e de mim.” Neste tema, James Taylor, que em breve seria o “ex” de Mitchell, toca guitarra.

My Old Man

Aqui, Joni Mitchell fala de um relacionamento feliz, sem dúvidas ou remorsos, afirmando que uma união verdadeira, ou casamento, não precisa de ser formalizada “por um pedaço de papel da câmara municipal”. Vocalmente, Mitchell está em topo de forma. A sua voz, célebre pela amplitude de duas oitavas e meia, soa, nesta faixa e em todo o álbum, como um instrumento à parte. Chega a ser inacreditável como se consegue ser tão boa cantora, compositora, letrista, instrumentista… e ainda por cima bonita. Como alguém disse, Joni era “the whole package”.

Little Green

Foi composta em 1967 e várias vezes reescrita antes de ser gravada. Descreve uma mãe a tentar reconciliar-se com o facto de ter entregado a filha para adoção, algo que sucedeu a Mitchell quando era muito jovem e situação com a qual nunca lidou bem. É uma canção triste mas estranhamente otimista, em que a narradora anseia por um final feliz. (Muitos anos depois, Joni Mitchell conheceria a filha, Kelly, quando esta já era adulta.) A canção é comovente pois Mitchell achou que não lhe podia proporcionar uma vida feliz. É também composta em discurso direto, como uma mensagem.

Joni Mitchell

Carey 

A inspiração de «Carey» foi Cary Raditz, um bon vivant americano que tivera vários empregos e era hippie em Matala. Era muito conhecido na vila porque vendia o haxixe de melhor qualidade. Este personagem foi rude para Mitchell e para a companheira. A cantora gostou da atitude pois estava farta de pessoas que lhe davam graxa.

“Ele tem uma espécie de personalidade flamejante e cabelo ruivo e um apetite igualmente flamejante por vinho tinto. Achava-se uma espécie de cozinheiro gourmet, e foi assim que se apresentou.” Cary trabalhava no restaurante Delphini, que explodiu, ocorrência que lhe queimou o cabelo, a barba, as pernas e o turbante. Mitchell olhava para o pôr-do-sol quando ouviu o estrondo: “Que grande entrada em cena…” Na canção, o local chama-se Mermaid Café.

Mitchell toca a canção numa afinação a que denominou “Matala tuning”. É acompanhada por Stephen Stills (baixo e guitarra) e Russ Kunkel (bateria).

Joni explorou cavernas, passeou pelas praias e conheceu outro personagem excêntrico, Yogi Joe, que viria a surgir no Festival da Ilha de Wight, provocando um célebre incidente em palco. (Mitchell confrontou o público, acusando-o de não respeitar os artistas.)

Blue   

O tema-título reflete a opinião de Mitchell, mais empolgada pelo impulso criativo (ou luz) do que a escuridão sufocante. A compositora afirmou que nunca foi seguidora da escola do rock “suicide chic” e que autodestruição nada tem de encantador. “Todos dizem que o inferno é a maneira de partir mais à moda. Mas não acho isso, portanto vou dar uma vista de olhos por aí.”

Especulou-se até à exaustão sobre quem seria esta música: James Taylor, David Blue, Graham Nash ou Leonard Cohen. Estas tentativas de formular teorias autobiográficas, regra geral erróneas, frustraram Joni Mitchell.

A canção é, em certa medida, um alerta para as diversões da geração, “ácido, copos e sexo, agulhas, armas e erva”.

Joni Mitchell

California

Um relato detalhado da viagem, «California» menciona novamente Cary Reditz e as saudades da Califórnia. Mitchell diz, “não dão uma hipótese à paz, isso foi só um sonho de alguns de nós”.

This Flight Tonight 

Esta canção é basicamente sobre alguém que abandona o amante e parte de avião, atormentado pelo desejo de querer regressar, sentimentos que ocorrem com frequência quando uma relação termina. Não há aqui grandes mistérios.

River  

joni mitchell blue (7)Os primeiros acordes de «River», com Mitchell ao piano, lembram «Jingle Bells», mas depressa o contraste se torna soturno. O tema explora um Natal na Califórnia, e a narradora ambiciona “ter um rio por onde pudesse patinar”. É também uma canção de autocensura: “Sou difícil de aturar, sou egoísta e triste, e agora perdi o melhor amor que já tive.” Ou seja, nada na época festiva consegue ser alegre, o que em linguagem corrente é descrito como “Christmas blues”.

O conceito original para a capa era o de fotografar a compositora a patinar por um rio congelado, desaparecendo no horizonte. O título Blue não foi a primeira escolha de Joni Mitchell, que tencionava intitulá-lo de River. “Era a imagem que eu tinha, devido a essa canção”, disse o seu amigo, o fotógrafo Joel Bernstein. “Mas, quando ela terminou o trabalho, o inverno também terminara. Ela achou que não seríamos capazes de fazer tal sessão de fotos. Elliot Roberts vasculhou uma gaveta onde ela guardava fotografias que lhe tinham enviado e escolheu uma de Tim Considine, que julgo ter sido tirada no Troubadour, em 1967 ou 1968.”

A Case of You

A canção tornou-se alvo de inúmeras versões e é uma das mais notáveis de Joni Mitchell. A compositora fala da insaciabilidade do romance de forma pouco comum. A imagem central do tema, ou metáfora, é o rito religioso da comunhão no catolicismo. A essência do amante é um vinho sagrado que corre pelas veias. Raramente, na música popular, se conseguiu atingir tamanha profundidade numa canção com pouco mais de quatro minutos.

The Last Time I Saw Richard

O tema contrasta com o anterior, é uma canção quase desapaixonada que parece aludir aos “dias sombrios dos cafés” em Detroit, nos anos 60, e ao casamento de Joni com Chuck Mitchell. O “Richard” da canção acusa a narradora de romantizar o amor, e a resposta é outra acusação, “estás a romantizar qualquer dor que tens metida na cabeça”…

O álbum acaba com um anticlímax, um poema em prosa, mais do que uma canção propriamente dita. Sem ser tão melódico como os temas anteriores, é um fim adequado.

O RESCALDO

MITCHELLA receção da crítica a Blue foi positiva, mas houve quem achasse que o estilo confessional do álbum era uma fraqueza. Na Rolling Stone, Timothy Crouse escreveu: “Mais do que nunca, Joni arrisca, empregando detalhes que podem ser tomados como triviais, com o objetivo de pintar um vívido autorretrato. Recusa-se a mascarar o seu verdadeiro rosto atrás de imagens como os seus colegas autobiógrafos James Taylor e Cat Stevens. Arrisca-se ao ridículo para construir o sublime.” Crouse exaltou também os ritmos alegres e o virtuosismo instrumental de Mitchell. Refira-se que hoje, na lista dos 500 melhores álbuns de sempre da Rolling Stone, Blue ocupa o 30º lugar.

Em Inglaterra, a Sounds, através de Billy Walker, achou que a compositora se expunha “sem se importar com quem o sabe”. “Este facto, por si só, alienou muitos que acham que essas mesmas emoções, por ela as expor com aparente franqueza, devem ser falsas. Mas, goste-se ou não, a sua mestria é inquestionável.”

Certos cantores como Sandy Denny, conhecida por ter integrado os Fairport Convention, não gostaram de tanta exposição: “A última coisa que eu queria é que soubessem a minha vida”, disse Denny.

Mais de quatro décadas depois, é espantoso constatar que Joni Mitchell tinha apenas 27 anos quando gravou Blue, e era ainda mais jovem quando compôs várias das canções. É um trabalho de semelhante maturidade que ainda hoje se equaciona a carreira de Mitchell com base no álbum. Há o antes e o depois. O público – a cantora adquiriu inúmeros novos fãs com este trabalho – achou que era um apogeu insuperável.

Após um ano a viajar e a gravação de Blue, Mitchell sentia-se exausta. Refugiou-se na costa oeste do Canadá, a norte de Vancouver, em Half Moon Bay, situada na Sunshine Coast, um local remoto. Foi aí que se “reconstruiu” e compôs o seu álbum seguinte, obra completamente diferente de Blue, For the Roses, disco que explora, em parte, a maneira como o mundo musical é oco. Vendeu a antiga casa na Califórnia e regressou ao Canadá, construindo a habitação com a ajuda de um amigo.

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“É quase como um mosteiro, com paredes de pedra e soalhos de madeira. Não tinha espelhos. Quando deixei a casa em Laurel Canyon, esta parecia-me demasiado suave, confortável, por isso, tornei aquele lugar realmente desconfortável, como um sapato de correção.”

Joni Mitchell só regressaria à vida pública em 1974, depois deste “retiro”. Foi então que declarou: “Um artista precisa de um certo tormento e confusão, e eu criei a partir disso, até de depressão severa. Mas tinha muitas questões acerca do modo como conduzia as minhas vidas… ou vida. A maior parte era uma confusão moral.”

O RISCO DE NÃO ESTAR NA MODA

Musicalmente inovadora, Joni Mitchell sempre usou diversas afinações estranhas na guitarra, aspeto que foi até alvo de estudo de académicos. O PhD James Bennighof discutiu-o tecnicamente em The Words and Music of Joni Mitchell:

“Uma afinação específica normalmente implica uma nota tónica específica. A tónica é essencialmente a base ou núcleo de um acorde, e a nota que queremos ouvir para sentir a resolução no fim de uma canção. As afinações de Mitchell têm tendência para resistir à tónica esperada e, por conseguinte, as suas canções soam-nos logo diferentes.”

De acordo com Bennighof, “o facto de Mitchell relocalizar frequentemente uma única posição dos dedos ao longo do braço da guitarra para criar diferentes acordes, dá muitas vezes origem a um ‘movimento paralelo’ – todas as notas se movem na mesma direção de um acorde para outro. Muitas destas posições deixam soar cordas soltas, o que resulta em acordes complexos que partilham diferentes tonalidades”. Vários destes acordes foram outrora considerados “música do diabo” por serem uma abordagem nada ortodoxa da escala ocidental.

Joni Mitchell

Este aspeto não é tão audível em Blue como no álbum seguinte, For the Roses. A própria Mitchell reconheceu que a escala natural é alterada e retorcida: “Há sempre a possibilidade de existirem emoções contraditórias num dos meus acordes.”

Com tanta afinação estranha, Joni dava cabo dos braços das guitarras, além de não ser prático atuar assim. Muitos anos depois, adaptaria o corpo de uma Fender Statocaster a um Roland VG-8, programando as afinações. Os músicos com quem tocava em estúdio discutiam as raízes do acorde.

Referindo-se a Taming the Tiger, Mitchell afirmou em 1998: Eu pedia-lhes para fazerem coisas rítmicas e harmónicas que eles achavam fora de moda. Eu… pedia às pessoas que fossem contra o que está em voga, só que elas não gostam de arriscar. Não há assim tantas pessoas que gostem de correr riscos. Têm medo de estar fora de moda, sabem. Para se correr o risco de liderar a moda seguinte, temos de estar dispostos a ficar fora de moda.”

Tudo o que está na moda, passa de moda, a determinada altura. Só os artistas que fazem discos “do seu próprio tempo” se tornam intemporais e superam tais limitações. Blue é um caso flagrante.

David Furtado

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