Ben Gazzara – Profissão: Ator

“Ao criar um personagem, encontrar o oposto é fundamental”, disse Ben Gazzara. “Encontrar calmaria onde há tormento, bondade onde há crueldade, doçura onde há amargura, humor onde há dor.” Algumas vezes, confunde-se o termo “Wand’rin’ Star” com “Caminho das Estrelas” ou “Mapa das Estrelas”. Está enraizado na consciência da maioria que idolatrar é positivo e apreciar o talento de alguém é negativo, pois só se pode encarar o primeiro com legitimidade e o segundo com inveja cega. No meu caso, é ao contrário. Invejo os idólatras, pois é fácil viver de olhos fechados. Aprecio talentos, não imagens construídas. Profissão: Duro (Road House, 1989) é o filme de Ben Gazzara mais repetido na TV. Para a generalidade do público, é essa a imagem de um homem para quem representar sempre foi mais do que uma profissão. Gazzara faleceu o ano passado. Não teve, quanto a mim, tributos suficientes.

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The Killing of a Chinese Bookie (1976).

Quando a cortina subia, um ator surgia em palco e começava a dizer coisas diferentes de tudo o que eu ouvira. As palavras soavam como a poesia que eu, às vezes, tentava ler mas que me era muito difícil de entender. No entanto, ali eu percebia tudo o que os atores diziam.

“O telefone tocou. Era a minha filha, Liz.
– Pai, vou casar.
– Ótimo. Quando?
– Lá para outubro. Tens de vir.
– Quem é o tipo?
– Chama-se Tomàs. É médico.
– Um médico. O sonho de todas as mães judias.
Percebi que ela tinha outra coisa qualquer em mente e ia perceber quanto tempo lhe demoraria a abordar o assunto. Não tive de esperar muito.
– Acho que terá de haver uma festa qualquer.
– E o pai da noiva tem de pagar. É o seu dever – respondeu Gazzara.
– Acho que sim.
– Quantos convidados?
– 75 ou assim. Mas não temos de servir champanhe.
– Queres que eu fique mal visto? Haverá champanhe e muito.
– Obrigada, pai.
– Onde queres fazer esta festa de casamento?
– Tenho umas ideias. Depois digo-te.
– OK, mantém-me informado.
– Adoro-te, pai.
– Também te adoro.
– Diz olá à Elke.
– Está bem.”

Este tipo de diálogos vão pontuando a autobiografia de Ben Gazzara. Nunca são livros imparciais. Nem os romances são. Que o diga Charles Bukowski, que Gazzara representou no cinema em Storie di ordinaria follia (Contos da Loucura Normal). A IMDb refere que um dos seus traços peculiares era a polidez, um verniz exterior, ocultando tormento e angústia. É verdade – o contraste chega a ser hilariante. A maioria das vezes é intenso.

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Gazzara e Ornella Muti em Tales of Ordinary Madness (1981).

Gazzara era uma pessoa inteligente e, como tal, presa fácil da depressão que sofreu no fim dos anos 80. “Para eles, a depressão não era uma coisa tangível. Não era cancro, afinal. Mas acho que a depressão é cancro. Um cancro da alma.” Um especialista foi a sua casa e comentou: “Sabe, Sr. Gazzara, Dante Alighieri disse que não fica mais escuro que à meia-noite. O senhor vai sair disto.”

“O problema era que a minha meia-noite era do género 24 horas e eu não via luz no futuro. Sabia o que a tinha começado: A morte de John Cassavetes. Ele desaparecera. O trabalho que fizéramos juntos assentava nalgumas das melhores partes de mim e isso desaparecera. Convenci-me de que também não me restava tempo algum. O superestrelato iludira-me; e isso não tinha sido fácil de aceitar. Nos anos 50, eu, de certa forma, liderara o caminho para atores pouco convencionais e difíceis de rotular. Muitos tipos que vieram depois de mim foram muito mais além em notoriedade e fama e, pura e simplesmente, tinham mais trabalhos. Defendi a minha mágoa com humor, bebida e mulheres, mas acho que a dor deixou consequências.”

ben gazzara young 2“UM FILME SÓ PARA MIM”

A mãe de Biagio Anthony Gazzara chegou aos EUA em 1902. Angela Cusumano tinha 17 anos e era imigrante italiana, tal como Antonio Gazzara, que chegou seis anos depois. O filho dizia ter tido sorte, pois herdou os olhos da mãe e o sorriso do pai. Este nascera na Sicília e queria juntar o dinheiro suficiente para regressar, o que nunca aconteceu. “Eu sabia que ele tinha qualquer tristeza, por isso gostava de o fazer sorrir”, recorda o ator que nasceu a 28 de agosto de 1930 em Nova Iorque.

Cresceu no Lower East Side, uma zona difícil, com os invernos e verões rigorosos da Capital da Costa Leste. No verão, dormia na escada de incêndio. “Às vezes, uma brisa fresca soprava do East River e era mais fácil adormecer.” Numa cena típica de Nova Iorque, era acordado pelos gritos de mulheres, provenientes do Hospital de Bellevue. “Eu ficava ali estendido a pensar nelas. Estariam sozinhas na vida? Ninguém as amava? Se assim era, por que não vinham essas pessoas tirá-las dali?”

Na infância, Gazzara foi acólito, “carreira” terminada quando ele e um amigo descobriram onde os padres guardavam o vinho. “Eu não era muito bom a latim e, nesse dia, ainda fui pior.” A verdadeira vocação, descobriu-a ao assistir a uma peça no bairro. Achou que podia fazer o mesmo ou melhor. Foi lá e conheceu o encarregado do teatro, que lhe perguntou o nome: “Ben, senhor, mas chamam-me Benny, o meu nome é Ben Gazzara.”

Depois da primeira audição, sentiu que pertencia ao teatro. Na primeira noite de estreia:

ben gazzara young“O meu coração batia com tanta força que parecia que ia saltar do peito. Nunca me sentira tão vivo. Finalmente, tinha um objetivo, um sonho. Talvez a representação me tirasse do canto, de um sítio muito solitário. Mesmo que tivesse cinco tipos à minha volta, sempre me sentira só. Ninguém falava dos sentimentos, dos sonhos, e agora que tinha um, guardei-o para mim. Tinha a certeza de que não me respeitariam; talvez até se rissem de mim. Mas eu sabia para onde queria ir.”

Não tardou até que fosse o aclamado protagonista do teatro do bairro. Ben não provinha de uma família infeliz, pelo contrário, mas sentia-se inadaptado. A escola nada lhe dizia; “aqueles tipos que transpiravam otimismo e ambição, apaixonados pelas ciências e a matemática. O que estava eu a fazer ali? O que me dizia a química? O meu sonho era tornar-me ator. Para que precisava daquela tralha?”

Esta desmotivação foi compensada pela atração pelo cinema, onde passava horas a fio. “Quando havia poucos espectadores na sala e as luzes se apagavam, achava que o filme era passado só para mim.”

“VAI ONDE O TALENTO TE LEVA”

Nem só de Sétima Arte se fazia a vida do rapaz. “A Margie era irlandesa e, para nós, os rapazes italianos, isso era estrangeiro, até exótico. Ela dava comigo em doido. Deixava que me encostasse a ela e a apalpasse, mas era só. Chegávamos ao limite, mas sem resultados práticos. Muitas vezes, eu ia para casa com uma dor mesmo má na zona dos rins. Chamávamos-lhe ‘tomates melancólicos’ – melancólicos de nostalgia e desilusão. Mas eu gostava muito dela, apesar de tudo.”

Gazzara continuou a frequentar o teatro e foi lá que viu Laurette Taylor, num estilo de representação que o deixou espantado. Perguntou ao professor, “o que foi aquilo? Ela não fez nada”. “É verdade, Ben, ela não fez nada, mas fez tudo.”

“Indaguei-me sobre quanto teria uma pessoa de sofrer para representar assim. Pela primeira vez, vira uma atriz que tirara uma personagem da página escrita e lhe dera a carne, o sangue, o coração e a alma de um ser humano. As minhas noções sobre representação modificaram-se para sempre.”

A infância de Ben ficou marcada pela morte do pai. No mesmo mês, Mr. Sinclair, o professor, abandonou o teatro. Ao despedir-se, disse-lhe: “Tens talento, Ben. Trata bem dele e não se sabe onde te poderá levar.”

“Será que alguém chamado Ben Gazzara podia encontrar espaço no mundo dos Clark Gables, dos Cary Grants, dos James Stewarts? Mas qual era a alternativa? Um emprego terrível que apenas exigiria a minha presença? Sabia que seria difícil, mas tinha de tentar.”

SUCESSO METEÓRICO NOS PALCOS

O rapaz ouvira falar de um sítio chamado Dramatic Workshop, em Manhattan, liderado por Erwin Piscator, professor de prestígio. Foi admitido e exerceu várias tarefas, que muito lhe agradavam. Apareceu a “loira inacessível”, uma colega atriz, um “objeto de fantasia”. Seria Louise, a primeira esposa do ator.

Ben Gazarra 60s“As loiras que eu via nos filmes tinham vivendas ou andavam a cavalo. Nas mesas, ao pequeno-almoço, tinham jarros de sumo de laranja ao lado de 18 ovos e montes de salsichas, tostas e bacon, mas as pessoas nunca comiam nada. Eu costumava ficar com fome só de ver toda aquela comida no ecrã e dizia para mim mesmo, ‘come qualquer coisa, come qualquer coisa!’ Aquelas pessoas só falavam, com tanta comida maravilhosa diante delas. E eu dizia, ‘come o raio dos ovos, por favor!’”

Em 1951, Gazzara pede a uma colega, Loretta, para o auxiliar numa audição no Actors Studio. Lee Strasberg olhou-o com cautela, mas Elia Kazan ficou mais convencido. “Loretta também foi aceite e nem sequer estava lá para uma audição!”

No ano seguinte, o ator casa com Louise, união que se revela infeliz e o faz passar mais tempo no Actors Studio do que em casa, pois era “o sítio perfeito para esquecer os problemas”. Gazzara ambicionava ser o melhor ator que pudesse, e rapidamente repararam no seu talento – Sidney Lumet convidou-o para participar num programa televisivo, a peça teatral, Danger com Martin Ritt, que mais tarde se tornaria realizador. O trabalho tornou-o numa estrela para quem mais contava, a mãe e o irmão, que, orgulhosos, o encorajaram a continuar.

Seguiram-se outros papéis e a oportunidade de trabalhar com talentos que admirava. Claude Rains, que Gazzara vira em O Homem Invisível, O Fantasma da Ópera e Casablanca, foi o primeiro. Enquanto ganhava experiência, apercebia-se dos truques e exageros teatrais:

“Os jovens atores estão sempre ansiosos por mostrar dor, cólera, por gritar, berrar ou chorar. Às vezes, é mais difícil dizer, ‘bom dia’ com credibilidade. O que sempre me incomodara no pouco teatro profissional que vira, era aquilo a que chamam ‘projeção’. Muitas vezes, os atores pareciam levantar a voz e projetá-la por cima das cabeças uns dos outros.”

Numa destas peças, cruzou-se com um desconhecido, James Dean, “que não tinha falas, mas transmitia a rigidez do seu personagem. Jimmy estava mesmo a pensar, até num papel tão pequeno. Alguns atores têm olhos que, por si só, contam uma história”. Com esta peça, End as a Man, Gazzara, de apenas 23 anos, conquista o primeiro sucesso nos palcos de Nova Iorque. Na derradeira apresentação, recebe a visita do seu primeiro professor, que, de lágrimas nos olhos, confessa orgulho. “Nenhuma crítica alguma vez significou tanto como aquelas palavras.”

Ben Gazzara é contratado para representar ‘Brick’ em Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Telhado de Zinco Quente) a peça de Tennessee Williams encenada por Elia Kazan, que entretanto tivera graves problemas com a Caça às Bruxas que varreu Hollywood. No primeiro dia, chegou atrasado, pois nem conseguia acreditar na oportunidade de contracenar com Barbara Bel Geddes, Burl Ives e Pat Hingle numa obra de semelhante notoriedade. Esqueceu-se de sair na paragem certa do Metro.

Com a aprovação de Kazan, Ben faz várias alterações ao personagem. A peça foi uma sensação. Na plateia, estavam Marilyn Monroe, William Faulkner, Carson McCullers e John Steinbeck. Gazzara sentiu-se “deslocado” quando Kazan o convidou para se sentar à mesa deles. “Foram agradáveis e elogiosos acerca do meu trabalho. Falavam sobre caça, pesca e bons restaurantes, nem uma palavra sobre literatura.” Quando a peça estreou em Nova Iorque foi um enorme sucesso.

Segue-se A Hatful of Rain, êxito estrondoso na Broadway, com o ator a ser nomeado para o seu primeiro Tony. “Quando estava no palco, a receber todos aqueles aplausos, olhei para o público e vi quem procurava. A minha mãe. Olhou-me com um amor e um orgulho que nunca esquecerei.” Depois de Cat, Era a segunda peça originada no Actors Studio a receber críticas altamente elogiosas em Nova Iorque, e Gazzara entrara em ambas. As portas de Hollywood estavam abertas.

“O PODER DAS IMAGENS SOBRE AS PALAVRAS”

A sua agente começou a trazer pessoas influentes do cinema aos bastidores, todas elas impressionadas com o talento de Gazzara. “Recebi muitas propostas para filmes mas recusei-as todas. Até então, o meu trabalho mais importante tinha sido realizado no teatro, com pessoas que eu conhecia e respeitava e com quem me sentia seguro. Eram como família. Comparado a isso, o cinema parecia demasiado frugal e simples. Não estava preparado para o encarar com objetividade. Ainda não me apercebera do poder das imagens sobre as palavras.”

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O primeiro papel no cinema, The Strange One, em 1957.

O produtor de Há Lodo no Cais e A Ponte do Rio Kwai, Sam Spiegel, decide tornar a peça End as a Man num filme, intitulando-o The Strange One. James Dean, que agora era um sucesso devido a Rebelde sem Causa e A Leste do Paraíso agiu nas costas de Gazzara, tentando roubar-lhe o papel. Quando Ben soube, afirmou, “que diabo, pensei que ele fosse meu amigo”. “Não é amigo nenhum”, disse-lhe o realizador Jack Garfein, que não foi na conversa de Dean e entrou em conflito com o produtor. O filme foi um sucesso artístico, mas Spiegel prejudicou seriamente a carreira de Garfein e boicotou a promoção da obra.

ben gazzara as bukowskiAlheio aos conflitos, mas desiludido, Gazzara refugiou-se no álcool. “Às vezes, era social ou festivo, mas também havia o ‘beber para esquecer’ e, pior que tudo, o ‘beber irritado’. Consumia demasiado o meu tempo e começara a causar estragos em mim. Era um ‘amigo’ demasiado próximo. Eu não achava que podia ser um artista se não vivesse no fio da navalha, bebesse muito e não dormisse, andasse por aí a foder e até a meter-me em zaragatas. Talvez tivesse lido demasiado Hemingway.”

O álcool seria quase permanente na vida de Ben Gazzara. Felizmente, a dedicação à arte também. Continuava a passar bastante tempo no Actors Studio e, um dia, estava sentado ao lado de Marilyn Monroe: “Mesmo sem maquilhagem, ela era deslumbrante. E toda a gente parecia gostar dela também, incluindo eu. Acho que todos respeitávamos o facto de a mulher mais conhecida da América querer aprender mais sobre a sua arte.”

Monroe perguntou a Gazzara se queria ensaiar com ela uma cena de «The Cat», um conto de Colette. Era uma cena de cama. “Por excitante que parecesse, não achei grande ideia, e disse-lhe que não estava a colaborar com o Studio nessa altura. Ela olhou-me austeramente e disse: ‘O que foi, não queres crescer?’ Mas que frase perfeita! Não me ocorreu grande resposta…”

Surge a perspetiva de tornar Cat on a Hot Tin Roof num filme, com Gazzara a protagonizar, tal como no palco. Os patrões da MGM queriam que Ben repetisse a grande atuação, no entanto, um deles, Eddie Mannix, deu uma no cravo e outra na ferradura – entusiasmado com Gazzara acabou por impor alguém já sob contrato, Paul Newman. Ben Gazzara ficou arrasado, pois perdera um papel que criara e viu-o agarrado por Newman, uma hipótese única.

SANGUE E NOME

Continuando a dedicar-se ao teatro, o ator conhece Janice Rule na peça Night Circus em 1958. Os beijos no palco depressa se tornaram realistas e os dois envolvem-se. Estavam ambos casados e insatisfeitos. Gazzara ficou com problemas de consciência, até porque conhecia o marido; quis terminar o caso, mas não tinha forças para isso. Foi convidado por Otto Preminger para Anatomia de um Crime e contracenou com três lendas: Lee Remick, James Stewart e George C. Scott numa obra excecional, nomeada para sete Óscares.

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Em Anatomia de um Crime, com James Stewart.

Durante as filmagens, Gazzara foi informado por Janice de que iria ser pai. Com as emoções à flor da pele, encontrou algum sossego na companhia de James Stewart, que lhe perguntou por que quisera ser ator, estabelecendo uma relação calorosa com o colega mais novo. “Por causa dos filmes, Jimmy, foi quando comecei a sonhar.” Stewart confessou-lhe que nunca quisera ser ator, ficara, sim, viciado nos aplausos. “Foi como eu”, admitiu Gazzara. “Não há nada como ser aplaudido por um público.”

No plano pessoal, tudo se complicava: Janice decidiu manter-se casada e dar à luz a criança. Ben queria assumir a paternidade, mas, em tais circunstâncias, sentia-se perdido. Quando Elizabeth nasceu, Gazzara foi um dos convidados para a festa, na qual viu pela primeira vez a filha. Entre os instintos próprios de um pai (de querer pegar na criança) e sob os olhares dos convidados, não soube o que fazer. Robert Loggia, um colega, era dos poucos que sabia de tal sarilho, e fitou-o com um ar melancólico. Ben tinha consciência da dor que provocaria se a verdade fosse revelada.

ben gazzara lawSeguiu-se The Young Doctors, em 1961. Gazzara ainda se sentia intimidado pela câmara, aprendendo com Fredric March: “Observei a sua atuação com tanto interesse que quase me esqueci do que estava a fazer.”

Quando foi pela primeira vez a Roma, sentiu-se em casa. Janice acompanhou-o. Ficou maravilhado com a Capela Sistina: “Como é que uma única pessoa podia ter pintado tal obra-prima?” As esculturas de Bernini “pareciam mover-se e até respirar”.

Depois do regresso aos EUA, Janice revela o segredo ao marido. “Foi o pesadelo dele e um sonho mau para mim. No meu velho bairro, ter-me-iam chamado de cabrão. Mas agora eu podia ter a minha filha comigo, erguê-la nos meus braços, levá-la a passear. Queria que ela se orgulhasse de mim. Conseguimos que, na certidão de nascimento, constasse o meu apelido. Tinha o meu sangue e também teria o meu nome.”

100 POR CENTO A UMA CAUSA PERDIDA

Enquanto ator, Gazzara tornara-se respeitado e escolhia os projetos com cautela. Não gostou de protagonizar Convicts Four (1962). Aumentava o desagrado com o negócio e a representação em cinema, que roubava a espontaneidade: “Se pegávamos num cigarro, tinha de ser sempre no mesmo instante, take após take. Se nos ríamos, tinha de ser sempre no mesmo ponto. Desse modo, o editor podia montar o filme com facilidade. Foi muito difícil trabalhar nestas condições e, correndo o risco de ser um chato infernal, resisti o mais que pude. Esforço fútil. No fim, o filme não tinha vida real. Não é fácil dar 100 por cento a uma causa perdida, mas fiz o que pude. A maioria dos atores faz isso.”

Na peça Traveller Without Luggage, Gazzara enfrentou problemas semelhantes:

“Era tudo demasiado estilizado. Não conseguia manter a representação assente na realidade. Estava a ‘representar’. Foi a prova de que, se não somos capazes de ter pensamentos genuínos no palco, se é apenas mímica de sentimentos e emoções, apenas apresentamos o personagem, não o revelamos.”

Hollywood também lhe dizia pouco, começou a ter problemas com agentes e produtores, que o consideravam um purista. Havia momentos interessantes, apesar disso: “Recordo-me de Jane Fonda, o produto de escolas privadas e de um background privilegiado, sentada no chão, aos pés da minha mãe, de olhar erguido, a falar com ela durante a festa quase toda. O meu passado misturava-se com o meu presente. Tive vontade de abraçar Jane ali mesmo. Ela divertia-se imenso com a minha mãe, uma mulher com apenas quatro anos de escolaridade e que chegara à América num navio, em terceira classe.”

O casamento com Janice tornou-se infernal quando Gazzara descobriu que a esposa o traía, apanhando-a em flagrante. A sua reação foi dizer-lhes boa noite e que continuassem. “Fechei-me no quarto de hóspedes. Pouco depois, alguém bateu à porta. Não respondi. Não podia. Estava a chorar.”

Gazzara protagonizava agora Run for Your Life na TV, realizando alguns episódios e apreciando a experiência de trazer ao de cima o talento de atores como Robert Duvall e Tom Skerritt. “Temos de fazer ver a um ator que não esperamos que seja melhor do que é, apenas e só, tão bom como é.” Gazzara tornou-se também amigo de um jovem arquiteto, Frank Gehry, por intermédio do qual conheceu Robert Rauschenberg. “Se ele estava com Frank, devia ser talentoso.”

“Frank era praticamente desconhecido na época, e tinha dificuldade em arranjar trabalho, mas nunca parecia derrotado. Era apaixonado pelo trabalho e, em especial, por apoiar outros artistas, encorajando-os quando estavam em baixo e mostrando-se orgulhoso e feliz quando tinham sucesso. Frank tornou os meus anos em L.A. mais suportáveis ao trazer artistas a minha casa.”

“Sempre invejei o pintor, o escritor, o compositor: Só precisam de si mesmos. Os atores dependem de demasiadas pessoas antes de conseguirem mostrar o seu talento. Esperam o telefonema de um agente. Uma boa proposta. Um bom papel. Um bom realizador. Isto esgota-nos a energia. Muitas vezes, pensei como seria bom acordar, tomar um café, caminhar até ao outro lado da sala e começar a pintar. Sem limites, a não ser o talento e a imaginação.”

CRIATIVIDADE E TRAGÉDIA

No dia em que filmou o último episódio de Run for Your Life, Ben Gazzara deu de caras com John Cassavetes nos estúdios da Universal. Este disse-lhe que iam trabalhar juntos, que esperasse um telefonema.

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John Cassavetes, Peter Falk, Gena Rowlands e Ben Gazzara em Janeiro de 1969.

“Acenámos um ao outro. Esqueci-me logo do comentário. Os atores dizem sempre esse tipo de coisa uns aos outros e não dá em nada. Conhecia John muito mal, dos dias em Nova Iorque, quando éramos atores e lutávamos por chegar a algum lado. Tive sorte no teatro e, algum tempo depois, ele fizera Shadows com muito pouco dinheiro. Que impacto esse filme teve na New Wave francesa e, por conseguinte, em jovens realizadores por toda a parte. Apenas uma semana antes deste encontro na Universal, ele convidara-me para uma projeção de Faces. Nunca tinha visto o seu trabalho, portanto estava curioso.”

Não demorou muito até que Gazzara se apercebesse que estava perante “uma obra fenomenal”. “Comecei a ficar invejoso. Como é que Cassavetes tinha um talento assim? Donde vinha aquilo? ‘Tenho de trabalhar com este tipo’, pensei.”

E assim surgiu Husbands (abordado neste artigo). Uma entrevista foi abordada neste. Faces foi abordado aqui e Shadows aqui. The Killing of a Chinese Bookie (protagonizado por Gazzara e realizado por Cassavetes) foi abordado neste. Prossigamos.

Quando terminou a produção de Husbands, Ben Gazzara sentiu “uma espécie de depressão pós-parto”. “Sentia-me vazio. Envolvera-me na conceção de um filme do começo ao fim. A experiência originou amizades para toda a vida. Como é que isto podia repetir-se?”

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Cassavetes e Gazzara em Husbands.

Para “contrabalançar” a euforia, veio uma notícia trágica: O ex-marido de Janice suicidara-se. Gazzara indagou-se se fora ele a “infligir ao homem uma das feridas que o levou a matar-se”. Ainda por cima, Elizabeth, que mantinha grande proximidade com o ex-marido da mãe, ficou arrasada. Foi o último golpe no casamento de Janice e Ben. A relação com a filha não saiu afetada, mas a enteada de Gazzara não o aceitava. O ator compreendeu: “Já pouca relação havia, e o funeral dele foi o princípio do fim.”

O PEQUENO (GRANDE) ALMOÇO DE ORSON

Em meados dos anos 70, Gazzara, que também travara amizade com Peter Falk, realiza dois dos melhores episódios de Columbo, «A Friend in Deed» (1974) e «Troubled Waters» (1975). Continuou a surgir assiduamente como ator em projetos de prestígio como a premiada minissérie QB VII, galardoada com seis Emmies. Teve também um caso, entre muitos outros:

“Foi o clássico romance de filmagens. Tudo o que dissemos um ao outro foi tremendamente interessante e divertido. A nossa paixão e entrega, típica de fantasias. Tivemos um belo começo, livre e sem fardos, e um terno final, mas, como na maioria destes envolvimentos no set, faltou a parte do meio. E isso nem sempre é mau, porque muitas vezes é a parte do meio que dá cabo de nós.”

Em 1975, teve a oportunidade de contracenar com um dos seus heróis, Orson Welles, em Voyage of the Damned, no qual ajudou o veterano ator. Gazzara, perspicaz como era, reparou que Welles tinha dificuldade em decorar as falas, mas não lho podia dizer. Foi ter com ele ao hotel nessa noite:

– Orson, chamo-me Ben Gazzara.
– Sim, Ben, claro que sei quem és.
– Tenho um problema a decorar as falas. Não sei o que se passa.
– A sério? Por que não ensaiamos? Vem ter à minha suite, amanhã, às 07:00. Vamos ser chamados cedo, sabes, e é uma longa cena. Mas não te preocupes. Ensaiamos sem parar.
– Caramba, fico mesmo agradecido, Orson.

No dia seguinte, lá estavam os dois, mas Gazzara teve de esperar que Welles tomasse o pequeno-almoço, o que durou meia hora a devorar: Um jarro de laranjada, seis croissants, quatro ovos estrelados, bacon, iogurte, pão e frango.

– Queres um pouco, Ben?
– Não, não. Já tomei o pequeno-almoço.
– Deixa-me então petiscar…

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Welles e Gazzara em Voyage of the Damned.

A cena correu maravilhosamente e foi gravada num só take. Gazzara considerava o episódio um dos seus grandes motivos de orgulho. O temperamental Welles confidenciou-lhe como se sentia ofendido com os grandes estúdios de Hollywood e os obstáculos que lhe criavam.

Em casa, já não havia casamento. Era um adultério consentido de ambas as partes. A esposa, atriz com a carreira estagnada, convidava psicanalistas para socializar, o que aborrecia Gazzara. “Eu entendia o motivo e respeitava-o, mas a conversa era demasiado séria. Aqueles analistas obtinham satisfação ao estudar emoções; eu tornara-me ator para as expressar.”

O “SANTO” GAZZARA

Em 1978, o casal separa-se. Gazzara é convidado para colaborar novamente com John Cassavetes em Opening Night, um filme passado no meio teatral, no qual Gazzara desempenha o encenador.

“Mais uma vez, John teve de financiar o filme. Ele sabia que o seu trabalho fora marginalizado pelos poderes instalados da época. Nem se deu ao trabalho de mostrar o argumento de Opening Night a um dos grandes distribuidores; sabia que não o entenderiam. Nem a maioria do público americano, já agora. Na França, Alemanha, Espanha e Itália, era altamente respeitado e considerado um artista que revolucionara o cinema e, talvez mais do que qualquer outro realizador americano, dera a realizadores, por todo o mundo, a hipótese de sonharem fazer os seus próprios filmes, mas, em casa, as pessoas não tinham ‘captado’. Ainda demoraria algum tempo.”

Durante a rodagem, Gazzara conversou com Peter Bogdanovich, que o convidou para protagonizar Saint Jack, obra rodada em Singapura. Três dias depois de terminar Opening Night, Gazzara já estava no avião. Ator e realizador ficaram amigos. A filha de Gazzara pediu ao pai um trabalho no filme e este arranjou-lhe um lugar no departamento artístico, visto que Elizabeth estudava arte em Florença. O pai, tentando cumprir o seu dever, disse-lhe para prometer nunca se tornar atriz.

– O que tens contra isso?
– É demasiado difícil, a não ser que sejas talentosa e tenhas muita sorte.
– Não te preocupes, não é o meu tipo de coisa.

Quando chegou ao set, Elizabeth reparou no ar cansado do pai, que passara a noite anterior “aplicado” num romance…

– Pai, pareces arrasado. O que andaste a fazer a noite passada?
– A escrever e a pensar, Liz. A escrever e a pensar.

Peter Bogdanovich quase caiu da cadeira tentando conter o riso, e a frase “escrever e pensar” tornou-se o slogan para os pecadilhos da equipa.

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‘Cosmo Vitelli’ em The Killing of a Chinese Bookie.

Ben Gazzara continuava emocionalmente insatisfeito mas esquivo a paixões. Convidaram-no para um dos papéis principais no thriller Bloodline com Audrey Hepburn. Era uma atriz que admirava imenso, por isso disse-lhe, “Audrey, iluminas uma sala da mesma forma que iluminas um ecrã”, o que fez Hepburn corar. A atração entre os dois era óbvia, e Gazzara, agora mais velho, não perdera o charme. A sua relutância em envolver-se com Hepburn foi notada por Omar Sharif, um dos grandes sedutores do cinema. Este sussurrou a Ben com toda a seriedade: “Deves.”

À SUA MANEIRA

Em 1979, Gazzara parte para Seul para participar num filme sobre a Guerra da Coreia, Inchon, com Laurence Olivier, Jacqueline Bisset, David Janssen, Rex Reed e Toshirô Mifune. Mas quem lhe provocou a impressão mais forte foi a responsável pela rodagem do making of do filme, Elke Stuckmann, com quem casaria em 1982. A união durou até à morte do ator.

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Gazzara e o escritor Charles Bukowski.

Na época, a situação com Hepburn e Stuckmann pôs em risco o filme seguinte de Gazzara, They All Laughed. “Audrey demonstrou muita coragem. Ninguém adivinharia que tínhamos sido íntimos outrora. Deve ter sido muito mais difícil para ela do que para mim. Eu tinha as ideias noutro lado.” Foram os dois últimos filmes da atriz belga, curiosamente.

Apesar de ter encontrado Elke, Gazzara sentia-se deprimido devido ao divórcio. Ao filmar Inchon na Cinecittà, o ator apreciava os lendários estúdios quando ouviu uma voz chamando o seu nome. Era Marcello Mastroianni, que lhe disse admirar The Killing of a Chinese Bookie e o apresentou a Federico Fellini. O realizador pôs as mãos no rosto do ator e exclamou “che bella faccia”. Gazzara respondeu, “grazie, Maestro”.

Em Nova Iorque, Frank Sinatra convidou-o para jantar, mas, para Gazzara, tanto fazia. “Podiam ter convidado o Sumo Pontífice, nem isso me empolgaria.”

– Hei, ator. Tu e eu já partilhámos uma capa da revista Life.
– Foi em 1956, Frank.
– Tu ficaste no topo e eu em baixo.
– Desculpa lá isso, Frank.

O cantor procurou animá-lo, mas demorou algum tempo até que Ben Gazzara retomasse a estabilidade. O casamento deu um alento extraordinário à sua carreira. Começou a participar em filmes europeus, ao estilo de outros americanos expatriados, especialmente em Itália, como sucedeu em 1982 com Tales of Ordinary Madness de Marco Ferreri, em que desempenhou o escritor Charles Bukowski, ao lado de Ornella Muti. A obra não foi um êxito nos EUA, mas tornou-se um enorme sucesso na Europa, tal como Bukowski, que era também desprezado na América e admirado no Velho Continente. As ofertas para filmes começaram a surgir devido a este sucesso, e Gazzara decidiu estabelecer-se em Itália. “Vamos para onde somos amados”, comentou certa vez esta opção.

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Tales of Ordinary Madness.

Em Itália, Gazzara encontrou muitos admiradores do seu trabalho. Até uma sem-abrigo, que vivia, tal como o ator, perto da célebre escadaria da Praça de Espanha, e lhe disse: “Você é o Ben Gazzara. Já o vi muitas vezes. Lei è molto bravo.” Tornaram-se quase amigos, o que levou Gazzara a refletir:

“Raramente as pessoas são tudo o que aparentam. Não conheço ninguém que contratasse aquela mulher para um papel de sem-abrigo. A mim, parecia-me uma condessa sem sorte. Era outra prova de que, ao criar um personagem, encontrar o oposto é fundamental. Encontrar calmaria onde há tormento, bondade onde há crueldade, doçura onde há amargura, humor onde há dor.”

FECHA-SE A CORTINA

Nos anos 80, 90 e no novo milénio, Ben Gazzara entrou em filmes tão díspares como Dogville ou O Grande Lebowski. De Lars Von Trier aos Irmãos Coen, passando por Itália onde era aclamado, em filmes independentes ou de grandes estúdios, americanos e europeus, o seu nome era sinónimo de autenticidade e talento. Alguns foram “grandes cheques”, a maioria foram projetos tão bem escolhidos que o ator se arrependeria de ter sido tão criterioso nas opções.

Pelo caminho, cruzou-se com outras figuras do mundo do cinema, hipotéticas colaborações que nunca deram em nada: Um antipático Woody Allen, um displicente Al Pacino. Para ele, era mais curioso que, ao passear nas Ramblas de Barcelona, as pessoas lhe pedissem autógrafos, o que o deixou espantado. Também a arquitetura da cidade o deslumbrou, achava a Sagrada Família de Gaudí uma obra de tal magnitude que “Deus parecia ter posto as mãos no projeto”.

ben gazzara husbands

Restou-lhe muito tempo, ao contrário do que pensava. Ben Gazzara é hoje reconhecido como um ator inconfundível. É o imortal ‘Cosmo Vitelli’, o genial ‘Al Capone’, o vilão de Profissão: Duro. Se o seu objetivo era expressar emoções, foi mais bem-sucedido do que imaginava. Faleceu aos 81 anos, a 3 de fevereiro de 2012 em Nova Iorque, vitimado por cancro do pâncreas. Ironicamente, a mesma doença que matou Patrick Swayze, o herói de Profissão: Duro, falecido com 53, em 2009. Nesse ano, Gazzara falou sobre o filme em que ambos tinham colaborado, 20 anos antes:

“Diverti-me a fazê-lo. Patrick Swayze era simpático, um rapaz muito doce. Era um rapaz na altura, de facto. Bem, um homem novo. E saboreava os primeiros frutos do recém-encontrado estrelato. E recordo-me de ele encarar isso com grande nervosismo e apreensão. Preocupava-se e estava muito tenso pois queria fazer um bom trabalho. Por isso, falávamos e caminhávamos, e caminhávamos e falávamos. Gostei dele, gostámos um do outro.”

Com a arte de representar, Ben Gazzara achava ter descoberto mais sobre a vida: “Havia os vivos e os mortos. Eu pensava neles, tinha saudades deles, até dos que me desiludiram. Penso que a representação me ensinou mais do que qualquer livro que li. Tentei sempre encontrar o bom no mau, e o mau no bom.”

David Furtado

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