Dead Man Walking de Tim Robbins: A vida real exige mais da imaginação

Susan Sarandon sempre foi uma atriz dedicada a causas e uma ativista, alguém que nunca teve uma relação fácil com Hollywood. Por Dead Man Walking (A Última Caminhada), recebeu o Óscar, a sua quinta nomeação após 25 anos de carreira. Os agentes, produtores, realizadores e estúdios eram a eterna pedra no sapato. Desde que começou a carreira com Joe em 1970, Sarandon andou com frequência de candeias às avessas com o negócio; rejeitou papéis que deram grande notoriedade a outras atrizes. Foi banida pela Academia e, por ironia, três anos depois disto, em 1996, foi chamada ao palco para receber a estatueta, numa altura em que já achava mais importantes as nomeações do que as vitórias.

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Em 1994, Susan Sarandon filmava The Client (O Cliente) em New Orleans, no qual desempenha o papel da advogada ‘Reggie Love’, quando leu críticas elogiosas ao livro Dead Man Walking da Irmã Helen Prejean. Era o relato verídico de uma freira que se opunha à pena de morte e se tornara conselheira espiritual de um prisioneiro no corredor da morte, tendo simultaneamente de lidar com a dor dos que perderam os filhos às mãos do assassino.

Sarandon comprou o livro, leu-o rapidamente e apreciou o poder e integridade da narrativa. Ela própria se opunha à pena capital. Por outro lado, com a sua visão cética do catolicismo (tivera uma educação católica) sentiu-se comovida pelos atos de Helen Prejean, pessoa que combateu a rigidez e preconceitos dos dogmas católicos e os superou. Ficou tão impressionada que achou que tinha de conhecer a Irmã Prejean. Por isso, telefonou-lhe: “Olá, Fala Susan Sarandon. Estou em New Orleans a filmar The Client… estou a ler o seu livro e gostava de a conhecer.”

A abordagem pouco comum foi recordada por Helen Prejean durante um discurso no Charlottesville Performing Arts Center. “Eu ouvira falar dela através da Amnistia Internacional”, afirmou Prejean. “Tinham-me dito que era uma grande defensora dos direitos humanos, por isso respondi que seria ótimo.”

Sarandon, a Irmã Helen Prejean e Tim Robbins.
Sarandon, a Irmã Helen Prejean e Tim Robbins.

Prejean encarava Hollywood com cautela e nervosismo. Já se falara sobre adaptar o seu livro ao cinema. Como era um meio sobre o qual nada sabia, a Irmã aconselhou-se e disseram-lhe que, mal assinasse o contrato, podiam tornar a sua história numa comédia musical, sem que o conseguisse impedir. Helen Prejean ouvira falar de Sarandon, mas não sabia quem ela era. Assistiu a Thelma & Louise e confundiu as atrizes – achou que se ia encontrar com Geena Davis (‘Thelma’), o que a deixou inquieta, pois simpatizou mais com a personagem de Sarandon, (‘Louise’). Prejean relata que foi para o encontro a pensar, “eu gosto de ‘Louise’”, como “uma prece de Ação de Graças” e assim aconteceu. Quem apareceu foi mesmo a ‘Louise’ do filme.

Durante o jantar, Susan Sarandon falou-lhe do trabalho do companheiro, Tim Robbins, bem como do discurso que proferira na entrega dos Óscares. Foi sincera com Helen Prejean. A atriz frequentara um colégio de freiras e sentia-se apreensiva acerca de conhecer a Irmã, mas esta provou ser uma freira totalmente diferente das que Sarandon conhecera – era inteligente e inquisitiva, sabia como funcionava o mundo real. Também ela impressionou Sarandon. Entusiástica, a atriz disse-lhe que o seu livro era extraordinário e daria um excelente filme.

“REALIZAR UM FILME NÃO É GRANDE AFRODISÍACO”

Quando terminou a rodagem de The Client, Sarandon regressou a Nova Iorque. Tim Robbins terminara o argumento de The Cradle Will Rock, o qual queria realizar, debatendo-se com o financiamento. A companheira convenceu-o a largar tudo e concentrar-se em Dead Man Walking. Sarandon não estava obcecada com a questão da pena de morte, mas achava que não fazia sentido. Era sobretudo um filme que queria fazer.

Perante a insistência, Robbins leu o livro e achou-o política e socialmente poderoso. É certo que vivia com Sarandon há oito anos, mas distanciou as coisas: “Susan era a única atriz para o papel. Ela compreende como se chega ao íntimo de uma personagem sem recorrer à representação espalhafatosa.”

Sarandon, Sean Penn e o realizador Tim Robbins.
Sarandon, Sean Penn e o realizador Tim Robbins.

Na altura em que a Irmã Helen Prejean foi a Nova Iorque encontrar-se com Sarandon e Robbins, ainda se considerava ingénua relativamente aos processos de Hollywood. Sentiu, contudo, que podia confiar em Sarandon e concordou em ceder os direitos de adaptação do livro.

Mais difícil foi o consenso entre a dupla atriz/realizador. Estes não sabiam qual o impacto de trabalharem em semelhante proximidade. Sarandon tinha consciência de que era fácil entrar em antagonismo com um realizador, visto que já vivera com Louis Malle. Não seria fácil levar os problemas para casa ao fim do dia. Após grande debate, ambos concordaram que poderiam “sobreviver à experiência”. “Sabíamos que realizar um filme não é grande afrodisíaco”, comentou Tim Robbins.

Robbins aplicou-se com frenesim no argumento de Dead Man Walking. Duas semanas depois, mostrou um primeiro rascunho à companheira. Susan apercebeu-se de imediato (e já era veterana) que desempenhar a Irmã Helen Prejean ia ser um dos maiores desafios da sua carreira, exigente a todos os níveis. No outono de 1994, Prejean recebeu o argumento. Nunca lera um. Acrescentou algumas cenas, tentando incutir realismo e humor à história.

A partir do momento em que Sean Penn aceitou desempenhar o condenado à morte, o projeto adquiriu “star power”. Os grandes estúdios de Hollywood criaram os obstáculos habituais. A pena de morte era controversa… estava na ordem do dia… ronhonhó… O chefe de um estúdio sugeriu que tornassem o final mais feliz, inserindo a “revelação” de que o assassino era inocente, o que o tornaria mais simpático aos olhos do público. Robbins e Sarandon rejeitaram tais parvoíces e distorções.

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O financiamento reduzido veio da Polygram Films. Tim Robbins viu-se obrigado a aceitar um grande corte no salário, bem como os restantes atores. Sarandon debatia-se com outras preocupações: Como desempenhar a Irmã Helen? Teve de ganhar peso, não usaria maquilhagem e o glamour da personagem tinha de ser apagado por completo. Pensou duas vezes: “Quase não o fiz porque não estava certa de que pudéssemos trabalhar juntos sem nos matarmos um ao outro.”

A data de início da rodagem coincidiu com o anúncio da quarta nomeação de Sarandon para um Óscar por The Client. Robbins e Sarandon estavam absortos por outras matérias: Os problemas logísticos que mais os preocupavam relacionavam-se com os filhos que não gostaram de ser tirados do seu ambiente. Eva andava na escola. Os dois mais novos tiveram de ser sossegados pela mãe, que recorreu à imaginação: Comprou uns patos e pô-los na banheira do quarto de hotel.

EQUILÍBRIOS DIFÍCEIS

As filmagens complicadas tiveram início na Prisão Estadual de Angola (Louisiana) e posteriormente em Nova Iorque. A equipa passava 18 horas diárias dentro do presídio. As verbas reduzidas originaram problemas com o equipamento. Sean Penn abordou o seu personagem de modo rude e violento, o que passou para a vida real. Não era grande companhia e evitavam-no no set.

As cenas filmadas com Sean Penn foram complexas para Sarandon pois, na maioria delas, estão em salas diferentes, separadas por um vidro. A atriz não podia integrar adereços na sua atuação ou tocar no outro ator.

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Durante o tempo que passaram na Angola State Prison, um condenado foi executado. Sarandon e Robbins assistiram. O casal já o previra: Gerou-se um clima de tensão permanente e deixaram de viver juntos durante a filmagem. “Eu estava ali a trabalhar sem batom ou maquilhagem, por isso, houve momentos em que me faltou o tato para saber que diabo estava a fazer”, admitiu Sarandon. Robbins ainda falou menos, disse só que foi um “pesadelo”. A relação de oito anos ficou em risco.

dead man walking (8)A atriz não assistiu às visualizações diárias por se sentir “despida” sem os adornos habituais de uma atriz. Ficou mesmo arrasada quando assistiu ao filme completo. “Para a próxima, tenho de pôr maquilhagem.”

Os problemas íntimos e profissionais do casal não afetaram os outros atores. Raymond J. Barry, que achara horrorosa a filmagem de Born on the Fourth of July (Nascido a 4 de Julho) de Oliver Stone, comentou que Dead Man Walking não foi “a merda do costume devido a Tim e Susan”. A obra foi também o filme de estreia de Peter Sarsgaard, que desempenha uma das vítimas.

Durante a promoção, a imprensa estava interessada na relação entre Robbins e Sarandon, e estes não esconderam o evidente mal-estar, até porque achavam tais matérias pouco passíveis de serem discutidas em jornais e revistas, considerando que faziam parte do processo de conceção de um filme. Susan desabafou, e arrependeu-se mais tarde, que houve uma semana em que os dois não se suportaram. Os ávidos jornalistas retiraram o comentário do contexto e, a partir de então, Sarandon recusou-se a falar do relacionamento com Robbins, “exceto de modo genérico e filosófico”.

Menos filosófico é o tema-título composto por Bruce Springsteen, que destoa, de tão simplório. O Boss compusera a canção «Streets of Philadelphia», galardoada com um Óscar dois anos antes, e encontrava-se na crista da onda. O tema foi nomeado para Melhor Canção Original. Foi pena, pois a banda sonora é superior, especialmente a colaboração entre Nusrat Fateh Ali Khan e Eddie Vedder, assim como a prestação de Ry Cooder e a inclusão de um tema de Johnny Cash. Uma canção não incluída no filme, mas que consta na edição em CD da banda sonora, é «Woman On The Tier (I’ll See You Through)» de Suzanne Vega.

“NÃO ESTOU HABITUADA A VENCER”

dead man walking (7)Quando foi lançado, achava-se que Dead Man Walking, cujo tema era aparentemente negativista ou sombrio, seria um fracasso total. Tinha sido concebido ao estilo de um filme independente. As críticas, contudo, foram unânimes e elogiosas. Os resultados de bilheteira superaram as expectativas e as receitas ultrapassaram os 100 milhões de dólares. A “consciência social” do filme foi um aspeto que os críticos apontaram, chamando-lhe um “triunfo cinematográfico”. Ninguém podia negar o sucesso artístico.

É verdade que o filme levanta questões complexas – a vida, a morte, o direito de a tirar, o que é impossível de repor, o castigo, a salvação da alma –, mas não é tendencioso ou moralista. Ou seja, muitos advogam tal castigo para criminosos que nem humanos são e roubam vidas sem motivo, logo merecem o mesmo. É um erro descontextualizar Dead Man Walking. Aqui, a Irmã Prejean desperta o que (ainda) existe de humano no criminoso. Nem sempre é assim, obviamente. E mais, procura conciliar-se com os pais dos adolescentes mortos, tendo consciência de que ninguém lhes poderá devolver o que os assassinos tiraram para sempre. O assassino deixa de ser um morto ambulante, como o título sugere, ao reconhecer o mal que fez, enfrentando o destino que impôs a inocentes.

Dead Man Walking acabou inesperadamente nomeado para os Óscares; além de Susan Sarandon, Sean Penn foi nomeado para Melhor Ator e Tim Robbins para Melhor Realizador. O público ainda não esquecera o conflito da atriz e de Robbins com a Academia e aguardava mais um confronto. Sarandon já não levava a sério a perspetiva de vencer e Robbins achava o mesmo: “A representação dela é demasiado subtil, e nós empenhamo-nos demasiado em causas políticas para que ela tenha o que merece.” “Sou muito boa a perder”, gracejou Sarandon. “Se há coisa a que não estou habituada é a vencer. Para mim, o medo reside em ter de me levantar do lugar.”

Três anos antes, a plateia do auditório virara-lhe as costas devido aos seus comentários sobre a detenção de refugiados haitianos na base americana de Guantánamo. Os convivas ostentavam as faixas vermelhas de solidariedade para com os pacientes que sofriam de SIDA, mas o Governo americano retinha os haitianos por terem VIH. Ou seja, Hollywood no seu melhor: Hipocrisia a rodos.

Os media esperavam nova diatribe de Susan Sarandon. Não foi isso que aconteceu. A atitude da atriz ao vencer o Óscar foi de gratidão. Sarandon deu também uma lição a uma indústria em que poucas atrizes que passam a barreira dos 40 anos continuam a obter grandes papéis.

A notoriedade ainda maior conquistada por Sarandon em Dead Man Walking, aliada ao seu estatuto de sex-symbol que se mantinha inabalável, lançaram-na para um patamar superior; começou a receber argumentos de qualidade em catadupa, os papéis de relevo que eram reservados para as estrelas femininas. Rejeitou todos por retratarem mulheres estereotipadas, vitimizadas ou demasiado parecidas com a Irmã Helen Prejean.

Em vez de lucrar quando estava no topo, o que fez Sarandon… foi entrevistada para o documentário The Celluloid Closet, sobre o modo como Hollywood retratara os homossexuais, narrou um outro documentário acerca do jornalismo americano e narrou um terceiro que denunciava a forma encapotada como o Governo americano subverte a democracia nos países da América Central. Para agradar aos filhos, aceitou fazer a voz de uma personagem da série Os Simpsons.

Em 2011, mostrou que continuava igual a si mesma. Numa entrevista, falava de Dead Man Walking, dizendo que enviara uma cópia do livro ao Papa. “Ao último [João Paulo II], não ao nazi que temos agora [Bento XVI].” O entrevistador gaguejou, mas a atriz repetiu o comentário.

Era lógico que a imprensa se interessasse pelo modo como abordava a profissão. Os críticos citavam-na frequentemente como o exemplo de alguém que encrava a carreira agindo com independência, pondo automaticamente em risco a evolução na vertente artística. A resposta de Susan Sarandon foi uma espécie de “não quero saber” irónico:

“Penso que a vida abrange muito mais do que a minha profissão, e assim prefiro investir o meu génio na minha vida. Ela tem muito mais desafios e surpresas. E pode até exigir mais da imaginação.”

David Furtado

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