The Good, the Bad, and the Very Ugly de Sondra Locke: Mulher com Nome

Os atores não são escritores. É suposto representarem, não escreverem. Alguns fazem-no, a maioria, argumentos ou memórias. A autobiografia de Sondra Locke sobressai porque não se encaixa em rótulos. É uma “viagem por Hollywood”, mas lê-se como um romance. Conhecemos estes personagens. Clint Eastwood é um nome que nos ocorre – a atriz ainda é muito associada ao “Homem sem Nome”. O relacionamento de ambos durou 13 anos e fizeram seis filmes juntos. Mas esta é a história de Locke e, “no fim”, como diz a canção, “o amor que tiramos equivale ao amor que fazemos”.

Sondra Locke The Woman With a Name

Um gosto pela verdade a todo o custo é uma paixão que nada poupa. – Albert Camus

Um jornalista não pode tomar partidos, deve ser objetivo. Esse mito é comparável ao mito de Clint Eastwood ou a qualquer mito do grande ecrã. Na verdade, este livro é “mitológico”, no sentido em que parece uma espécie de relâmpago que nos traz de volta à realidade. Por vezes, não o conseguimos pousar devido a total incredulidade. Prende-nos, faz-nos parar e pensar, pois conhecemos, no passado ou presente, pessoas como estas, a maioria de nós sentiu o que é descrito. E, de facto, conhecemos ou ouvimos falar de muitos personagens da história. Não admira que Clint e a Warner Bros. não tenham gostado nada, como Locke disse ao Wand’rin’ Star:

“Tristemente, foi bem abafado por Clint e pela WB. Estou muito orgulhosa do livro porque o escrevi completamente por mim própria – sozinha no meu computador –, portanto fiquei triste por ele não ter recebido a atenção que acho que merecia.”

Achei o livro de Locke devastador; a atriz possui instintos de escritora. Por vezes, é divertido, outras é trágico e profundo, mas, em última análise, acaba por mostrar de que forma uma fábrica de mitos como Hollywood é um embuste, onde atores, atrizes, produtores e realizadores se comportam e são mais políticos do que “artistas”. Surpreendeu-me saber a opinião de Locke acerca do seu próprio trabalho, como relatou ao Wand’rin’ Star:

“Optei por uma abordagem pouco usual ao contar a minha história, num estilo mais próximo do romance; e também requeria que fosse alternando, a nível cronológico, entre a minha vida com Clint e a minha relação com o meu “marido” (que foi e é como um irmão e a única família que tenho). Por um lado, houve Clint, o herói quintessencial (tal como é visto por que está de fora ou pelos fãs), por outro, houve Gordon, um artista e homossexual (encarado pela sociedade em geral como o oposto de herói). Na vida real, é claro, o herói verdadeiro e honesto foi Gordon. A construção requerida para entrelaçar estas duas grandes partes da minha vida foi a tarefa mais intimidante com que me deparei.”

Locke é bem-sucedida neste aspeto. Sentimos mais empatia por Anderson, à medida que a sua história se desenvolve, e menos por Eastwood. Alguém disse que a vida de todas as pessoas podia dar um livro. Passo a passo, Locke tira todas as máscaras, a “estrela de cinema”, a “atriz”, a “celebridade”. Escreve diálogos com precisão, e estes soam como pessoas a falar e não apenas personagens (isto é de Hemingway e da sua noção de como deve ser a literatura). Uma passagem que me comoveu nem sequer está relacionada diretamente com Locke; trata-se do modo como descreve a morte da mãe de Gordon Anderson, a reação dele e o que deve ter sentido.

Uma das características de Anderson era a capacidade de apreender “para além do superficial”, de acordo com a avó de Locke. “E, às vezes, querida”, disse ela a Sondra, “isso pode ser uma maldição”. Mais tarde, Anderson conheceu Colin Wilson, que ficou surpreendido com as suas capacidades.

Os comentários de Anderson vão diretos ao assunto, as suas atitudes são merecedoras de elogio. Por exemplo, uma vez, tentou ajudar uma criança que sofria de cancro. Eastwood não conseguiu entender a atitude, já que apenas media as pessoas de acordo com o que poderia receber em troca, como se nunca tivesse entendido o conceito de altruísmo.

“OXALÁ APENAS O TIVESSE LIDO… E NUNCA O TIVESSE VIVIDO”

Eastwood pode ter aquele ar de duro que as pessoas adoram, mas nunca fez um papel de vilão em 50 anos. Será que o interior condiz com o exterior?

De certo modo, todo o conceito do Wand’rin’ Star provém da minha atração por rebeldes, “dissidentes” ou individualistas, pessoas que não jogam pelas regras, embora pareça que toda a gente adore ouvir maravilhas sobre as suas estrelas favoritas. São (ou foram), supostamente, tão descontraídas e compassivas na vida real, uma maravilha da natureza, quando, na verdade, a sua imagem cuidadosamente elaborada é um produto pronto a ser consumido; ninguém sabe ao certo quem são, e a maioria não quer saber ou perdoa-lhes, ou faz “contorções mentais” (citando Patrick McGilligan) para justificar este “amor”. Trata-se de um fenómeno nada saudável com explicação psicológica.

Andy Warhol compreendeu-o: As pessoas nem sequer veem Marilyn Monroe enquanto mulher. Veem a imagem e chegam a interpretar mal a importância da criação de Warhol. Não conseguem esquecer aquele quadro chamativo de alguém que se tornou em nada mais nada menos que uma lata de feijões nas memórias de muitos.

Sondra Locke está consciente disto, daí o título do seu livro, The Good, the Bad, and the Very Ugly: A Hollywood Journey [Alusão óbvia a O Bom, o Mau e o Vilão]. “Muito” é uma pequena palavra aqui, mas com grande ressonância.

No prelúdio, conta-nos que, desde a infância, sempre adorou e colecionou contos de fadas. Fala sobre um certo Príncipe Encantado, “que veio a revelar-se nada Encantado”. E conclui com uma frase arrepiante: “Em certas alturas, oxalá apenas o tivesse lido… e nunca o tivesse vivido.”

Depois, descreve o tipo de espetáculo que quase todos quereriam ver ou sobre o qual pretendem saber mais: As suas impressões sobre o processo Locke contra Eastwood, onde se viu no meio de uma batalha que não queria travar, cercada de jornalistas. Há vislumbres de recordações e notícias. O dia era 9 de setembro de 1996. A multidão perguntava-lhe, “espetando microfones” no seu rosto, “fez isto…?”, “fez aquilo”, “é verdade…?”, “diga-nos…”, “sabe que Clint acabou de dizer…”

Eu fizera a viagem e estava agora à beira de um precipício. E a verdade é que… a vista era assustadora.

SOA VERDADEIRO

Sondra Locke leva-nos de volta à sua infância, geralmente uma parte enfadonha das biografias – todos queremos chegar à fase do estrelato. Mas faz isto de modo delicado; memórias de ler livros, de Tolkien, da mercearia, das reluzentes filas de produtos bem alinhados nas prateleiras, e do Princess Theater – o cinema local, onde começou a sonhar ser atriz, olhando para aquela “janela mágica”, o ecrã. Uma rapariga numa cidade pequena. Coisas simples como olhar para os pirilampos ou ouvir o som dos grilos. E uma família que se opunha a que fosse atriz ou fizesse algo de criativo. Se ela trabalhasse numa fábrica, ficariam agradados.

Sondra sentia-se infeliz e revoltou-se. O seu colega de liceu, Gordon, tentou chamar-lhe a atenção, erguendo a mão durante as aulas. Mais tarde, ela descobriu uma fotografia de si mesma, com “Sondra Smith” riscado no verso, e “Locke” no seu lugar. Descobriu que o apelido do seu pai era “Smith” e não “Locke”, que era seu padrasto. Ele “estivera no serviço militar”, destacado para um local próximo. Conheceu a sua mãe, “as coisas não resultaram”, e partiu antes que Sondra nascesse.

A jovem Sondra procurava uma figura paternal, embora não se apercebesse disso, a princípio. Gordon era tão criativo, percetivo e espantoso que imediatamente se sentiu atraída por ele, mas não de um modo romântico. Ficou cativada pela sua imaginação, e as primeiras e únicas lições de arte dramática foram de Gordon. Aos 19 anos, as coisas finalmente “estoiraram” entre Sondra e a mãe: Esta disse-lhe, “se não fizeres tal e qual como te digo, rapariga, podes fazer as malas e pôr-te a andar. Esta casa é minha, não tua.” Locke escreve: “Foram palavras que já tinham sido ditas de muitas formas diferentes, mas nunca proferidas. E foram palavras que despoletaram em mim a raiva, a coragem e a iniciativa de partir.”

Nunca mais viveria naquela casa e, durante quase 30 anos, apenas teria “meia dúzia de conversas e breves visitas” com a mãe. “Não fazia sentido passarmos as nossas vidas a fingirmos que existiam relacionamentos que realmente não existiam. E embora integre a minha natureza sentir-me responsável e culpada, mesmo quando não sou, notavelmente, nunca senti isso sobre a minha decisão de abandonar a casa dos meus pais.” Muitos anos depois, Locke encarou este problema, quando a mãe estava a morrer e lamentou a situação por ambas. Torna-se mais do que um livro, é uma experiência.

Locke não se integrou na escola. Foi cheerleader na escola secundária (do primeiro ao oitavo ano), mas no liceu apenas estabeleceu uma relação próxima com Gordon, tornando-se melhor aluna e oradora de fim de curso, bem como “Duchess of Studiousness” [distinção pelos estudos] devido às suas notas altas, não a popularidade.

Algum tempo depois, mudou-se para Nashville, sentiu um verdadeiro entusiasmo no palco, e até a sua grande oportunidade em O Coração é um Caçador Solitário não destoa da história que nos narra. Faz lembrar uma aprendiz de Dickens – a linguagem é clara, os lugares, cores e sons dão-nos imagens nítidas, e o mesmo se aplica aos diálogos. Quando os sentimentos que descreve são complexos, também não vira costas ao desafio.

Escreve sobre o momento em que Gordon a pediu em casamento: “Eu era muito jovem, mas começara a sentir que, para mim, o sexo era o elemento menos importante num relacionamento, e que a única coisa que o tempo me provara era que o meu amor por Gordon vinha de um sítio profundo de semelhante intimidade que transcendia tudo o resto.”

Locke é realizadora de mérito próprio, pelo que também começa a socorrer-se deste instinto. Nem sempre sai “vencedora” nas discussões ou comprova os seus argumentos, e o livro soa mais autêntico, página após página. Começamos a pensar, “não, esta pessoa deve ter tido a ajuda de um escritor fantasma ou algo assim”. Como n’O Grande Gatsby, deparamo-nos com várias partes de uma estrutura que, de algum modo, se encaixam quase inexplicavelmente; essa é a definição de obra-prima para muitos e, visto que é uma autobiografia, não é assim tão estranho. Como a vida.

A atriz põe os factos em perspetiva – pouco a pouco, esquecemos quem é Sondra, Clint ou Gordon. Os atos fazem-nos emergir, compondo um retrato global. Achei Sondra Locke uma pessoa bastante compreensiva; quando lhe disse que ficara impressionado com o que lera, a atriz antecipou-se e respondeu ao que lhe pretendia perguntar. Eu não estava (nem estou) interessado em falar sobre Eastwood – tantos o fazem, que o façam, prefiro heróis da vida real. E, felizmente, já não tenho “heróis do cinema”. Sondra Locke disse:

“Houve quem me perguntasse se escrever foi uma catarse, mas respondo que foi uma grande experiência criativa. Quis dar vida aos momentos emocionais, aos personagens, aos SENTIMENTOS. Foi, para mim, uma grande desilusão o facto de o livro ter sido tão abafado por Clint e a WB. Gostava que mais pessoas tivessem oportunidade de o ler. Julgo que foi fácil para eles, ‘suprimirem-me’ pois tanto ele como a WB eram (e são) tamanhos poderes. Além disso, nessa altura, a versão de uma mulher em qualquer rompimento era encarada com desdém – “ela quer apenas lucrar à custa disso” ou “ela só quer o dinheiro dele” eram atitudes típicas sobre qualquer mulher. Hoje, já não é tanto assim – as histórias de algumas mulheres são aceites e acredita-se nelas. E, por outro lado, Clint não tinha tanto interesse como agora. Isto é uma espada de dois gumes, porque agora ele é mais ‘adorado’. Portanto, de qualquer das formas, é difícil alguém pôr em causa a sua ‘existência’ e ser levado a sério. Seria lógico pensar que um padrão já se tornou óbvio nele, mas ninguém se importa. Só querem a imagem dele e não querem ser incomodados com a realidade. Foi um milagre que uma grande editora tivesse aceite o livro… mais um milagre.”

Clint Eastwood despediu muitas pessoas da sua vida. Se estiverem atentos aos seus filmes ou ao nome da Malpaso no ecrã, o nome do produtor Fritz Manes também não vos será estranho. O nome surge nos filmes de Eastwood, este conhecia-o há 40 anos e simplesmente despediu-o. Vou reformular. Arranjou alguém para o despedir. Eastwood não faz “todos os trabalhos sujos que aparecem” como o seu personagem ‘Dirty Harry’. Alguém os faz por ele.

Ainda aprecio os filmes, embora ache bastante bizarro que um “herói do Oeste”, que exterminou as carreiras de muita gente, e não com uma Magnum, seja seriamente alérgico a pêlo de animal e não possa ter sequer um gato ou um cão e muito menos um cavalo. Locke recorda-se dele no set de Bronco Billy, sentindo-se extremamente deprimido por causa disto, ainda que Eastwood saiba realmente montar a cavalo na vida real e, sem dúvida, pareça imponente em cima de um. Não tão imponente como John Wayne, que parece maior do que o próprio cavalo… mas, nesse caso, trata-se do “Duke”.

Sondra Locke foi uma das poucas pessoas que o enfrentou quando as coisas não correram do modo que Clint pretendia. Ela queria a sua vida e carreira fora do “mundo de Clint” ou da “bolha de Clint”, como descreve a sua vida com o homem que disse, “todos nos podemos safar com tudo”. Como disse Dostoiévski, “se Deus não existe, tudo é permitido”. Por isso, ele tentou despedir Locke da sua vida. É para mim muito difícil sentir empatia por alguém que nem sequer tem a coragem de acabar um relacionamento, cara a cara. Ele “contratou” alguém cujo “trabalho” era meter-se na vida alheia para o fazer. Houve um confronto repugnante numa cozinha, que Locke descreve com grande detalhe.

Sondra Locke explicou ao Wand’rin’ Star justamente o que não lhe perguntei:

“Sem dúvida, mais do que todos os outros que ele ‘despediu’ da sua vida, eu recebi o pior que ele podia dar. Acredito que foi porque ousei desafiar o tratamento que ele me deu, quando mais ninguém o fazia. Tive a audácia (no ponto de vista dele) de me recusar a fazer o que ele queria, ou seja, ir-me embora sem trabalho, sem segurança, sem lar. SÓ ENTÃO, ele não diria ‘nada de mal sobre mim’. E eu não podia fazer isso.”

PRONTA A DISPARAR

Depois do seu sucesso em O Coração é um Caçador Solitário, um dos primeiros argumentos que o seu agente lhe enviou foi a adaptação de A Velha Raposa com John Wayne, mas tanto a atriz como Gordon acharam que o seu papel seguinte devia ser totalmente diferente. “Aprendi que, em Hollywood, por muito que se tente, não há maneira de evitar sermos contratados para papéis idênticos [typecasting] e, se o evitamos, só se torna problemático; então eles não sabem para que papéis nos contratar”, escreve Locke em The Good, the Bad, and the Very Ugly.

Por falar neste termo, Locke assistiu a O Bom, o Mau e o Vilão nesta época, visto que uma amiga de Gordon queria ver o filme, por achar ‘Rowdy Yates’ de Rawhide “muito giro”. Locke, que detestava westerns, não gostou e comentou: “Acho que ele não sabe representar de todo; é mais uma não-representação, passa o tempo todo a sussurrar.” Pelos vistos, pensava algo de semelhante ao próprio Sergio Leone, que certa vez comparou Eastwood a um bloco de mármore de modo nada lisonjeador.

A atriz não gostou do negócio do cinema. “Os agentes e as pessoas ligadas ao negócio seriam sempre o paradoxo da minha vida. Tornava-se cada vez mais óbvio que eu, de facto, possuía uma grande aversão a pensar ou falar sobre negócios. Na verdade, tudo que se relacionasse com dinheiro punha-me nervosa e deprimida; eu adorava tudo o que fosse artístico e criativo, mas o negócio era o meu inimigo natural. Não o compreendia, não tinha qualquer afinidade com ele e não queria aprender. E essa aversão eventualmente regressaria para me perseguir.”

Em 1968, não havia um “mercado juvenil” para atrizes. Como Locke afirma, as protagonistas femininas da época eram Elizabeth Taylor, Joanne Woodward, Audrey Hepburn, Faye Dunaway, Anne Bancroft e Vanessa Redgrave. “E a maioria dos filmes eram quase por completo liderados por homens, ainda mais do que agora.” Foi a diversas audições, mesmo sabendo de antemão que o papel já estava mais ou menos atribuído a outra atriz. Aconteceu com Alan J. Pakula, que mais tarde lhe disse que já se comprometera com Liza Minnelli seis meses antes, embora achasse a audição de Locke a melhor que vira.

Nas “festas de Hollywood, aquela ostentação presumida e repleta de mau gosto”, começou a sentir-se uma espécie de outsider.

INÍCIO DOS ANOS 70

Na fase pós-Caçador, Locke começou a viver no edifício Andalusia em Los Angeles, pelo qual se apaixonou. Este é também um aspeto importante do livro; o modo como Locke descreve – e o óbvio bom gosto que tem para – casas, decoração e artwork, que lembra o talento de Raymond Chandler quando descreve lugares.

A atriz protagonizou Run Shadow Run com Robert Forster, filme mal sucedido mas uma experiência “muito enriquecedora”. Foi intitulado Cover Me Babe, numa “tentativa desesperada de soar ao estilo dos tempos”. Seguidamente, Locke obteve um papel secundário no que se tornaria um filme de culto, Willard de Daniel Mann, que a quis conhecer. Mann era o realizador de A Rosa Tatuada, com Anna Magnani e Burt Lancaster.

Locke afirma que o mais emocionante foi trabalhar com Elsa Lanchester e Ernest Borgnine, este último fê-la sentir que eram velhos amigos. “Aquele sorriso dele, com grandes dentes, era como um dia cheio de sol, e acho mesmo que nunca o vi sem ele”, recorda Locke, embora Borgnine seja o vilão do filme.
A atriz teve grandes experiências e fazia o que sempre quisera, mas apercebeu-se desde cedo do que era Hollywood realmente:

“Tinha muito mais importância quem se conhece, ser convidado para certos sítios, ser visto, dar graxa, do que outra coisa qualquer. Quando me convidavam para qualquer lado, nunca ficava a ponderar de que modo o convite me poderia ‘beneficiar’; em vez disso, considerava se era uma experiência que queria ter ou não. Pouco depois, já não tinha qualquer interesse em dar entrevistas intermináveis a falar sobre mim mesma (…) Toda esta atitude não era só ingénua, era mortífera para uma carreira.”

Sentia-se cada vez mais frustrada e impaciente com os agentes publicitários e o “negócio”, e fez uma coisa que a tinham proibido de fazer – começou a trabalhar em televisão, sempre que os papéis lhe agradavam, surgindo em The F.B.I., Cannon, Kung Fu, e os seus favoritos, Night Gallery “e no American Playhouse da PBS, numa peça chamada The Gondola – experiência que adorei sem reservas”. Também trabalhou com um ator que muito admirava, Norman Lloyd.

Há dois pontos essenciais que se notam nestes papéis; Locke opunha-se ao typecasting e demonstra um alcance dramático que muitas atrizes apenas desejariam. Locke pode ser a amiga angélica de ‘Willard’; consegue ser snobe em The Night Gallery ou perturbada em Kung Fu. Até surgiu como atriz convidada num episódio de Planet of the Apes. Obviamente não estava a “jogar o jogo”.

Seguiu-se um filme que seria um marco, tanto profissional como pessoal: A Reflection of Fear, realizado pelo promissor cineasta William A. Fraker, nomeado para vários Óscares enquanto diretor de fotografia e que realizara Monte Walsh com Lee Marvin e Jeanne Moreau, um dos últimos grandes e subestimados westerns. Sondra Locke desempenha o papel da misteriosa e desequilibrada ‘Marguerite’, uma rapariga de 16 anos.

Mais uma vez, ela e Gordon inventaram um plano para interessar Fraker, já que ambos pensavam que o papel seria quase perfeito para ela. Gordon Anderson até foi a ‘voz’ de ‘Aaron’, o alter-ego de ‘Marguerite’. Infelizmente, o filme foi chacinado pela Columbia, já que lidava com temas considerados demasiado fortes para grandes audiências.

Locke achou esta atitude ridícula, até porque, nesta época, “o público andava encantado com a jovem de O Exorcista, a vomitar e a masturbar-se com crucifixos”. Apesar de tudo, tornou-se amiga de longa data do realizador e da sua futura esposa Denise, que a apoiou imenso quando Locke sofreu graves problemas de saúde.

Protagonizou The Second Coming of Suzanne com Richard Dreyfuss, obra inspirada pela canção de Leonard Cohen, onde foi erguida numa cruz de 7,5 metros enquanto um helicóptero redemoinhava em volta dela com a câmara. “Estava totalmente aterrorizada. Pensei que os atores são uns doidos.”
Sondra Locke confessa especial afeto por Suzanne, mas não pelo trabalho que se seguiu, que eventualmente seria rebatizado de Death Game, um filme independente com Seymour Cassel (que, por essa altura, já fora nomeado para um Óscar por Rostos de Cassavetes) e Colleen Camp. “O realizador não fazia ideia do que precisava de ser, do que fazia ou devia fazer. Não sabia nada.” Cassel ameaçava bater com a porta todos os dias, e Locke acabou por dirigir a atuação de Camp. Nesta sórdida mistela, a voz de Cassel, foi até dobrada pelo operador de câmara. É um desperdício de talento, no qual a atriz mostra as garras.

Locke ainda “recuperava” disto quando conheceu Jessica Walter, uma das suas atrizes favoritas, protagonista da estreia na realização de Clint Eastwood, Destinos nas Trevas. “Ao longo do serão, ela falou em tom comedido sobre Clint, e fiquei com a nítida impressão de que não o encarava como um ator ou até um ser humano muito generoso.” Walter comentou, porém, que Locke seria perfeita para o filme seguinte de Eastwood, Ontem ao Fim do Dia (Breezy).

Locke telefonou à argumentista Jo Heims, que se mostrou entusiasmada com a perspetiva de a atriz conseguir o papel. Seguiu-se um encontro com Eastwood. Este passou o tempo todo a jogar golfe no escritório enquanto Locke falava, acabando por contratar Kay Lenz. “O produto final foi uma história mediana e previsível”, escreve Locke com certo humor, “sobre um homem de 50 e muitos que persegue uma miúda adolescente com grandes M e R [mamas e rabo].”

Cerca de dois anos depois, em 1975, os “ventos de Santa Ana sopravam” e “o céu tinha um azul perfeito”. O seu agente telefonou: Eastwood estava interessado em vê-la. “Parece que se lembra de ti do vosso encontro sobre Breezy.”

A atriz compareceu no escritório dele, o “Taco Bell”, como todos lhe chamavam, “porque parecia mesmo um”. Era um bungalow de um andar, de estuque. “Com os braços cruzados diante do corpo, começou a caminhar descontraidamente na minha direção com aquela famosa postura de ‘S’, a sua passada larga apoiada nos joelhos. Vestia o que devia ser o seu traje diário – calças de ganga, T-shirt branca e sapatilhas. Mesmo assim, não o achei imponente. (…) Tinha um ar leve e despreocupado; tanto que fiquei dominada por uma estranha sensação, como se a campainha da escola tivesse acabado de tocar e eu pudesse atirar os livros ao ar e correr para qualquer festejo inesperado.”

Sentiram-se confortáveis um com o outro, e Eastwood pareceu descontraído. Locke foi contratada para o papel de ‘Laura Lee’ num dos melhores filmes de Clint: O Rebelde do Kansas (The Outlaw Josey Wales).

COWBOYS E PALHAÇOS

Todos adoram os cowboys e os palhaços
São os heróis de toda a gente por pouco tempo
Mas depois das despedidas
E de o foco se apagar
Não resta ninguém que se importe de ficar
E amar os cowboys e os palhaços.

Ronnie Milsap, Tema de Bronco Billy, o Aventureiro.

“Entrei no set de O Rebelde do Kansas completamente vestida ao estilo do velho Oeste. O local de filmagens, Lake Powell, no Arizona, era surreal e de cortar a respiração. Estávamos no meio do deserto com nada exceto dunas altas até onde a vista alcançava. Phil Kaufman [que originalmente era o realizador e foi depois despedido] trabalhava com Bruce Surtees, o operador de câmara, preparando uma cena, por isso, fiquei à espera. Então reparei em Clint. Já não parecia o tipo descontraído com quem eu falara no escritório de Burbank. Ele era ‘Josey Wales’. O seu corpo longo e esguio erguia-se mais alto do que os outros. O rosto bem-parecido e cinzelado parecia diferente atrás daquela barba, agora crescida, e, com aquele chapéu achatado e de aba larga, parecia uma espécie de herói mítico. Mas ele era mais do que bem-parecido; era empolgante.”

A princípio, Locke viu a imagem de Eastwood que quase todos parecem ver. Apaixonaram-se no set, “à primeira vista”, embora o ator ainda fosse casado. A atriz descreve como isto aconteceu no seu livro, e só pessoas que nunca se apaixonaram não identificam a torrente de adrenalina que ambos sentiram. Tornaram-se inseparáveis, a partir de então: “Eu parecia trazer ao de cima o rapazinho dentro dele. E, embora ele me amasse pela minha natureza infantil, trazia ao de cima a mulher em mim.”

Segundo Clint: The Life and Legend de Patrick McGilligan, “os inimigos de Locke alegam que ninguém, antes ou depois, teve tanto poder como Locke; que a sua intimidade com Clint lhe conferia uma capacidade única para influenciar as suas decisões – poder que ela não se importava de exercer. Locke insiste que pouca influência teve. Pelo contrário, afirma que era um peão no jogo da Malpaso, especialmente útil a Clint quando este precisava de se esquivar à responsabilidade de políticas controversas, como a onda de contratações e despedimentos que em breve agitaria a companhia”.

Locke recorda também que “falavam muito de argumentos e filmes”. “Na verdade, quando me lembro, era do que mais falávamos – do trabalho. Ele tinha sempre interesse em ouvir as minhas opiniões sobre tudo.”

Na época, e ainda citando o livro de McGilligan, “embora Locke fosse apenas a última de uma longa lista que se apaixonara por Clint, pouco sabia do seu historial com mulheres”. Eastwood disse-lhe que o seu casamento era infeliz e que só estava preso a ele “por causa dos filhos”, Alison e Kyle.

A imprensa só soube que viviam juntos mais de um ano depois, por alturas da estreia de Barreira de Fogo, em 1977. Locke não apreciou particularmente o filme, mas obteve ótimas críticas (que ensombraram as de Clint) e transformou o que poderia facilmente ser um papel banal (a prostituta de coração de ouro) numa personagem espirituosa e com classe. Foi também ela a sugerir que Frank Frazetta pintasse o cartaz.

Sondra Locke tornou-se sua coestrela em vários filmes, ajudando-o na escolha do elenco e montagem. Persuadiu-o a fazer o êxito de bilheteira O Indomável Rebelde (1978) e Bronco Billy, o Aventureiro (1980), este último continua a ser o filme favorito entre os que fizeram juntos: “Em certos aspetos, eu pensava em Clint como um rapazinho inocente e bastante doce, com uma natureza introvertida”, diz Locke na biografia de McGilligan. “Achava que parte dele era muito como o personagem de Bronco Billy, e que ele se via a si mesmo do mesmo modo. Pelo menos, era o que preferia projetar, especialmente fora do ecrã. Mas o que eu julgava ser timidez revelou-se uma incapacidade de estabelecer ligação com os outros.”

Bronco Billy foi um fracasso comercial mas um ponto de viragem na carreira de Eastwood – os críticos gostaram, e o filme tornou-o mais “respeitável”. É certo que, tal como McGilligan afirma, não há derramar de sangue e mostra um lado diferente de Eastwood. Locke afirma que foi muito divertido representar a snobe ‘Antoinette Lily’, a única vez que não sentiu um “foco limitado” na sua personagem. A verdade é que desempenhava com frequência um lugar de “ajudante”, não de protagonista feminina. O filme ainda é muito melhor do que a maioria dos esforços posteriores e recentes de Clint.

Em 1977, Sondra Locke protagonizou The Shadow of Chikara, mistura de terror e western, mas a sua associação a Clint começou a remetê-la para segundo plano. Além disso, a atriz sentiu que precisava de um realizador mais focalizado e pensou em procurar um projeto mais de acordo com a sua própria “sensibilidade”. No segundo dos “filmes do orangotango”, O Regresso do Rebelde (1980), Locke volta a cantar, e bastante bem. Isto foi quase ordenado por Clint. A atriz gosta de música mas não o queria fazer de todo.

O casal aparecia nas “ocasiões superficiais” de Hollywood, onde ninguém realmente os conhecia. Quando o Variety Club homenageou Clint, “quase ninguém, na vasta plateia, o conhecia pessoalmente. Mas todos fingiam ser grandes amigos”.

Ele convenceu-a a fazer um aborto e uma laqueação de trompas. É difícil abordar tais matérias delicadas num artigo deste tipo. Ela pensou que ficaria com ele para sempre. Tinha 30 e poucos anos. Locke começou a suspeitar que não conhecia o homem por quem se apaixonara. Eastwood tinha reações estranhas, que a atriz descreve frequentemente como comportamentos bizarros. Estão detalhados no seu livro.

No início da década de 80, Clint teve dois fracassos seguidos, Firefox e A Última Canção. Nesta altura, Locke encontrou um projecto que queria fazer sozinha. Com toda a razão, achava que o público os achava “unidos pela anca”. Eastwood pôs-lhe as mãos, modificou-o e transformou-o em Impacto Súbito, o filme mais bem-sucedido da franchise ‘Dirty Harry’. Não se importou com os sentimentos de Locke. Ela compreendeu, ainda que o gesto lhe tivesse desagradado. Sabia que Clint precisava de um êxito. Mas, segundo Locke, não é coincidência que tenha sido o seu último filme juntos.

A atriz começou a não gostar nada do aparente ressentimento de Clint quando lhe faziam outras propostas. Blake Edwards contactou-a certa vez para um filme. Edwards apenas queria chegar a Eastwood através de Locke. Ela foi posta de lado, Burt Reynolds foi trazido, e toda esta trapalhada tornou-se em Cidade Ardente (1984). Ainda bem que Locke não participou, já que é medonho.

Agora, Locke já procurava desesperadamente um projeto como realizadora, mas Eastwood boicotava todos os esforços. Quando Sondra encontrou o guião de Ratboy – Perdido na Multidão, Clint ofereceu os serviços da sua equipa. Seria um filme da Malpaso, pelo que a companheira se opôs – significaria obviamente, para quem não soubesse, que se tratava de um “filme de Clint”, que ele seria o realizador fantasma, o que não era o caso. Ratboy assemelha-se, de facto, a um produto boicotado por Eastwood, muitos dos seus colaboradores surgem na ficha técnica. Mas também demonstra uma sensibilidade para além das personagens secundárias ocas de Million Dollar Baby – Sonhos Vencidos. Estreado em 1986, foi abafado pela Warner e nem sequer está disponível em DVD hoje.

Algum tempo depois, Clint Eastwood até conseguiu ser eleito presidente da câmara de Carmel, pois queria ajudar os concidadãos… não, queria construir uma extensão do seu restaurante na baixa, de altura superior ao permitido pela câmara municipal, e o projeto foi-lhe recusado. Portanto, arranjou forma de ser eleito e aprovou-o. Tinha mesmo a ambição de ser presidente dos EUA. Depois de um jantar na Casa Branca com Ronald Reagan, disse a Locke, “isto pode ser nosso, um dia”.

Locke escreve que viver com Clint era “fácil” – estava sempre tudo tratado; um carro à espera, tudo combinado quando viajavam, o jato privativo da WB ao seu dispor. No entanto, sentia-se cada vez mais infeliz. Ele começou a desaparecer por longos períodos sem lhe dizer onde estava. A atriz começou a ver “bandeiras vermelhas” por todo o lado, como afirma, mas admite: “Tristemente, ainda o amava.” Sondra Locke estava no beco sem saída de uma relação abusiva.

Mais tarde, quando se defrontaram em tribunal, Eastwood considerou-se um “cineasta feminista”. Nunca o entendi. Mesmo quando tinha 16 anos, confundia-me. Gostava dos filmes, mas pensava, “será que uma mulher gostaria disto?” Sondra Locke reflete no seu livro:

“A mulher em Destinos nas Trevas era uma assassina psicótica; em Ritual de Guerra todas as fêmeas cortam a perna a Clint e assassinam-no com cogumelos venenosos; em Os Abutres Têm Fome, a mulher era uma pessoa de linguagem porca a fazer-se passar por freira; em Barreira de Fogo, desempenhei uma prostituta que fora violada de modo impensável; e em Um Agente na Corda Bamba quase todas as mulheres eram pêgas sádicas ou masoquistas. É um belo currículo para um cineasta feminista.”

DISPARANDO BALAS SIMULADAS

Locke não recuou. Interessada pela realização, seguiu em diante. Impulso para Matar, protagonizado por Theresa Russell, George Dzundza e Jeff Fahey foi o seu filme seguinte. Eastwood não gostou do elenco, nem sequer conhecia os atores, mas fez uma coisa estranha: Contratou Dzundza e Fahey para o seu filme seguinte, Caçador Branco, Coração Negro (1990). Foi um golpe baixo (entre tantos que lhes perco a conta).

Locke passou uma experiência muito difícil ao realizar Impulso para Matar. Nesta época, o casal estava em conflito mas não separado, e Clint, que se comportava de modo estranho, mudou as fechaduras, juntou algumas roupas de Locke, pô-las em caixotes e enviou-as para casa de Gordon Anderson. Sondra foi despejada. Nesse exato dia (10 de abril de 1989), ele sabia que Locke realizava uma cena complexa do seu próprio filme, com 60 pessoas a aguardar as suas instruções. Quando Gordon Anderson lhe telefonou a comunicar isto, ela desmaiou.

É uma espécie de milagre que Impulso para Matar seja um filme tão bom, muito melhor que o trabalho de Eastwood neste período. Tudo isto tinha de ser impedido. E Clint, que é “dono” da WB, impediu-o, ainda que Impulso para Matar tivesse obtido excelentes críticas.

Locke encontrava-se sob tamanha pressão psicológica que passava as pausas da filmagem a chorar na casa de banho até a sua assistente a chamar ao set. Como podia realizar o que quer que fosse? Queria a vida e a carreira de volta. Começou a sofrer de ataques de pânico enquanto tentava esconder o tormento. Nas suas palavras, “não deixes que saibam que sangras quando estás num tanque de tubarões” (referindo-se a Hollywood). Conseguiu seguir em frente. Gordon Anderson estava sempre lá para a apoiar, mas o círculo de amigos da Cidade dos Anjos caiu do céu e saiu de cena, mas se soube que estava em conflito com Eastwood, cujo lema era, “um homem pode safar-se com tudo, se quiser”.

Então, Sondra Locke soube que sofria de cancro da mama e teve de decidir se o médico devia remover só o seio afetado ou ambos, já que era um tipo de cancro que quase sempre ocorre nos dois. Decidiu-se pelos dois.

“A DIGINIDADE NUNCA FOI FOTOGRAFADA”

… como diz a canção de Bob Dylan. Está documentada e muito bem fotografada em prosa em The Good, the Bad, and the Very Ugly.

Sondra Locke submeteu-se a cirurgias e quimioterapia. No hospital, esperavam “uma bruxa que estava a processar aquele simpático herói, o Clint Eastwood”, pelo que ficaram surpreendidos. Houve dois processos judiciais. Primeiro contra Eastwood, que queria que ela ficasse com… absolutamente nada. Ele sugerira, por intermédio do produtor de O Padrinho, Al Ruddy, que Sondra podia ter um contrato de três anos com a Warner e desenvolver os seus próprios projetos. Chegaram a acordo fora do tribunal. Então, Locke descobriu que era Clint quem lhe estava a pagar, usando a Warner como fachada. Submeteu mais de 30 projetos, todos recusados. Um deles foi Junior, com Arnold Schwarzenegger. Este era amigo pessoal de Eastwood e Locke, e mostrou-se muito entusiástico. Quando soube do rompimento, nem se importou em dizer a Locke que o decidira fazer com o seu amigo, o realizador Ivan Reitman.

A mulher de Schwarzenegger, Maria Shriver, era amiga de Sondra Locke. Esta cruzou-se com Shriver numa ocasião social e Sondra falou-lhe na cara sobre a desconsideração de Schwarzenegger, quando Shriver começou a dizer que Locke pertencia à “lista da família”:

“Maria, por favor, tira-me da ‘lista da família’ porque, aparentemente, pouco significa. Depois disto tudo, podemos, quanto mais não seja, ser honestas. Já não somos amigas e não podemos fingir que somos. Estou magoada e não posso fingir que não estou.” Locke comenta que “em tempos, fora uma das pessoas politicamente corretas para Shriver perseguir”. O interessante é que Locke tenta compreender as motivações destas pessoas e geralmente acerta em cheio no alvo.

Sondra Locke fez o impensável: Arranjou uma advogada, Peggy Garrity, e processou Clint e a Warner por fraude. “Emocionalmente, já não queria reatar nada com Clint”, pretendia processar por “motivos negociais”. Garrity alertou-a: “Elaborar um caso de fraude é como compor um mosaico. Nenhuma peça individual significa muito por si só; mas, juntando-as todas, surge uma imagem. (…) A natureza intrínseca de uma fraude reside em algo de oculto”.

Avisaram-na de que era uma batalha perdida. Quase todos em Hollywood lhe viraram as costas, Locke mal conseguiu encontrar alguém que testemunhasse a seu favor; disseram-lhe que a Warner era demasiado poderosa. Até a “amiga íntima” Lili Zanuck não se importou que Eastwood tivesse ouvido as conversas entre ambas quando o ator pôs os telefones de Locke sob escuta. Durante os últimos quatro anos do relacionamento, Eastwood vivera uma vida dupla com outra mulher e tivera dois filhos com ela.

Garrity e Locke lutaram inflexivelmente durante 1994 contra a Warner e a sua firma de advogados. Eastwood tentou negar que alguma vez tivessem tido um compromisso! Ela ficou tão furiosa que teve vontade de lhe “arrancar os transplantes de cabelo”, a certa altura. “Que desculpa para homem ele era, completamente malévola, manipuladora e mentirosa. E que derradeira ironia. Clint Eastwood, o homem que simbolizava para tantos o que um homem devia ser, revelara ser desprovido de todas as qualidades reconhecidas num verdadeiro homem – lealdade, honestidade, coragem e força moral – e, contudo, Gordon, um homem quase infantil, um homossexual, possuíra-as todas.”

Clint finalmente confrontou Locke no tribunal quando Garrity disse, “chamo Sondra Locke como minha próxima testemunha”.

“Levantei-me e caminhei até à frente do tribunal, jurei dizer a verdade e sentei-me. Olhando para a sala, para todos, o meu olhar finalmente focou-se em Clint. Ele era incapaz de me fitar e olhava fixamente para a mesa. A sala parecia serena e imóvel como se alguém tivesse carregado no botão de pausa na cassete vídeo da minha vida. Os últimos sete anos dela pareciam, de algum modo, destinados a chegar a este momento.”

Sondra sentiu-se só, mas não estava só – havia pessoas do seu lado. Um dia, sentindo-se deprimida, encontrou uma mensagem no para-brisas do seu carro, assinada por um completo estranho: “Estamos a torcer por ti, Sondra. Muitos de nós estão do teu lado.” Estas pequenas coisas ajudaram-na a suportar o julgamento.

Quando Eastwood foi chamado ao banco das testemunhas, “o seu rosto parecia rígido e permanentemente marcado pela raiva”, descreve Locke, que recordou o comentário de Gordon Anderson, “o Clint não anda com grande aspeto. É como se o que lhe vai por dentro tivesse extravasado para fora”. Por fim, foi o instante em que os olhares de ambos se encontraram. “Incrivelmente, foi a primeira vez que acontecera neste tribunal – talvez até em anos. O seu olhar era de intimidação; o meu era de desafio. Foi um olhar fixo que pareceu durar para sempre e teve a intensidade do último confronto. Eu estava determinada em não ser a primeira a desviá-lo. E, por fim, foi Clint que o fez.”

O livro termina como começou, só que aprofunda mais o processo judicial, como se Locke quisesse fechar um ciclo… ou talvez não. O processo começa e termina a história. Sondra Locke combateu duas das mais poderosas influências mundiais na indústria do entretenimento. A fação de Eastwood pediu-lhe que aceitasse um acordo fora do tribunal, e Locke concordou. O seu processo contra Clint e a WB até se tornou em jurisprudência. Passo a citar:

“… o Tribunal de Recurso do Estado da Califórnia, Segunda Comarca de Apelação, julgara por unanimidade que o meu processo contra a Warner Bros. contém, de facto, provas adequadas e suficientes para fundamentar um julgamento por fraude e quebra de contrato, e que o Juiz Thomas Murphy do tribunal de Burbank, que, no início de 1995, arrogantemente rejeitou o meu caso, agiu de modo impróprio. (…) Isto significa que o meu processo contra a Warner Bros. tornou-se lei e estabelecerá um precedente no futuro no modo como os grandes estúdios de cinema podem tratar outros artistas neste tipo de contratos.” E agora cito a decisão dos juízes: “Tal conduta [por parte da Warner Bros.] não está fora do alcance da lei.”

Antes disto, quando estavam em tribunal, Eastwood fez um comentário cuidadosamente pensado de antemão à imprensa, fazendo-se de vítima: “Não há boa ação que não seja punida.” Só que se atrapalhou com as palavras. Como Sondra Locke comenta, não há segundos takes na vida real, só nos filmes. Além disso, ele entrava no tribunal pela porta das traseiras, com dois seguranças, ao passo que Locke entrava pela porta da frente, sem segurança. Quando a imprensa reparou, Eastwood começou a entrar também pela porta da frente… ainda com os seguranças.

Tenho saudades de ‘Dirty Harry’ nos degraus da câmara municipal de São Francisco, lutando contra juízes, advogados e a defender os direitos das pessoas com a Magnum 44, “a arma mais poderosa do mundo”. Mas já não tenho 15 anos e acredito que a honestidade é a arma “mais ponderosa do mundo”, como a história da pena e da espada, talvez.

Já que se lê como um romance, chegámos ao fim. Ela permaneceu um espírito livre. De certo modo (é assim que interpreto), Eastwood está enclausurado no mito que criou, na “dinastia Fonda” que não conseguiu criar. Temos a estranha sensação que o Homem sem Nome sabe realmente projetar a sua imagem melhor do que qualquer outro no negócio do cinema. Mas a ironia de tudo é que ele nem sequer sabe quem é. E a parte ridícula é que o público lhe “perdoa”. E o público deve ficar imperdoável por isso.

Em tribunal, Gordon Anderson provocou semelhante impacto com o seu depoimento sobre Clint que deixou os advogados de Eastwood nada à-vontade. Não houve erro judiciário, como os advogados de Clint insistiam em pedir. Clint fez com que os seus advogados “trepassem pelas paredes” por ter saído derrotado. Locke aceitou um acordo fora do tribunal, mas os jurados acharam que foi um erro, já tinham decidido que Locke tinha razão e queriam expressá-lo, como fizeram mais tarde na TV.

Gordon Anderson fez (como de costume) um comentário perspicaz. Tinha uma alcunha privada para Clint, “Susi Pi”, abreviatura de “sociopata”.

O mais importante de tudo, o que aconteceu à carreira de Sondra Locke depois de Clint?

Achei o livro devastador, e foi-me difícil escrever sobre ele. Quando disse a Sondra Locke o que achava, a atriz respondeu: “A minha alma não podia ter sobrevivido àquele tipo de abuso. Foi uma batalha duramente travada, mas é uma da qual me orgulho.”

Isto tornou as coisas mais fáceis.

David Furtado

The Good, the Bad, and the Very Ugly: A Hollywood Journey foi publicado pela William Morrow & Co em novembro de 1997. Encontra-se disponível através da Amazon.

Um agradecimento especial a Sondra Locke

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s